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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Livro: Femme Magnifique

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(Rosalind Franklin por Mike Carey e Eugenia Koumaki)

 

"Rosalind is alarmingly clever. She spends all her time doing arithmetic for pleasure."

 

 

Continuando na demanda por livros que combinem arte e empoderamento feminino, tropecei (e com grande entusiasmo) neste: Femme Magnifique: 50 Magnificent Women Who Changed The World - o título já dá uma ideia do que vamos encontrar no interior. A ideia foi de Shelly Bond, uma experiente editora de comics, e surgiu como resposta a um evento particularmente difícil:

 

 

"The idea came about immediately after the election (...) Like many US citizens, I was saddened by the missed opportunity for a woman in the White House. But I was truly horrified by the negativity generated online. I felt like someone needed to make a call-to-arms within the comic book community so we could all move forward, channel the anger into positivity."

 

(citações tiradas daqui e daqui)

 

Em parceria com Kristy e Brian Miller do estúdio de designe Hi-Fi Colour, Shelly concebeu a ideia de uma antologia de comics, de capa dura e a cores com mais de cem páginas que celebrasse cinquenta mulheres incríveis que mudaram (e continuam a mudar) a História com a sua ousadia e perseverança.

 

 

"It was crafted to document our history of powerful, inspirational women and to remind the masses that women have already changed the world, and will continue to do so. We’re unflappable, and we deserve to be saluted and celebrated."

 

 

Os textos ficaram a cargo de um grupo variado de pessoas que escrevem comics - autoras e autores escolheram as mulheres que desejavam homenagear e gente com jeito para o desenho providenciou a parte gráfica para cada secção. Para cada biografada há uma página de introdução com uma pequena ilustração e uma citação e depois seguem-se três páginas de texto e imagem em formato BD. O projecto foi um sucesso no kickstarter com mais de mil contribuidores e o livro foi lançado em 2017.

 

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(Ursula K. Le Guin por Robin Furth e Devaki Neogi)

 

A estrutura é sempre a mesma, mas naturalmente o estilo dos desenhos e dos textos varia muito. Cada dupla de autor (a) e artista (em alguns casos a mesma pessoa escreveu e desenhou) fundiu o seu traço e história pessoais com a vida da biografada. Esta diversidade torna o livro muito apelativo e cria expectativa para o que se vai ver nas páginas seguintes. Uma celebração não só destas cinquenta mulheres mas também da BD como importante produto da cultura pop e veículo para falar de problemas sociais. E do talento das mulheres que trabalham todos os dias neste (ainda) clube dos rapazes. Alguns textos têm mais detalhes biográficos, outros têm menos. Alguns são bem pessoais e tocantes. Autoras e autores contam como conheceram aquela personagem, como foram inspirados (as) por ela ou como ela as (os) ajudou a ultrapassar situações difíceis na vida.

 

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(Brenda Fassie por Lauren Belikes e Nanna Venter)

 

Acho que esta abordagem diferencia o livro e é importante para as raparigas não só conhecerem estas mulheres mas verem realmente na prática como elas pode ser um exemplo.

 

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(Artemisia Gentileschi por Marguerite Bennet e Jen Bartel) 

 

"I moved in a world of saints and angels, naked nymphs and ornamental wifes (...) The eyes of men had made these. The eyes of men consumed them. We were so rarely in our own story."

 

Há pessoal que acha que a representatividade não tem importância...Só que as miúdas não são burras. Sabem muito bem que quem estão a ver no ecrã a salvar a cidade é um homem, não uma mulher. Não é alguém como elas. Se elas nunca virem uma mulher a salvar nada só a fazer de vaso decorativo o que vão pensar? Super-heroínas não prestam. Tristemente, meninas pequenas já são capazes de dizer várias coisas que uma mulher não pode fazer. Mas com os rapazes não é assim.

 

Ficamos comovidos quando um garoto diz que quer ser como o jogador de futebol y. E ainda lhe providenciamos mais exemplos, um exagero e que não inclui mulheres. Deixem os rapazes inspirarem-se em personagens femininas!  Não é mal nenhum, como aliás este livro mostra. O que tem mal é isto: o Rotten Tomatoes mudou a sua política porque homens brancos irados por a Capitã Marvel "não ser um filme para eles" estavam a dar-lhe pontuações baixas de propósito ainda antes de ter estreado. E porque resistimos a fornecer às miúdas exemplos com que se podem identificar? Aqui está uma notícia interessante que encontrei:  "The skeptical doctor played by Gillian Anderson on The X-Files helped inspire women to go into STEM careers, according to a new report". Outro exemplo: Mae Jemison tinha como inspiração a tenente Uhuru do Star Trek. Fico a pensar quão longe ela terá ido...

 

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(Valentina Tereshkova, Sally Ride, Kathryn Sullivan, Anna Lee Fisher, Mae Jemison,

Eileen Collins e peggy Whitson por Cecil Castellucci e Philip Bond)

 

 

Em termos de diversidade, não é tão extenso como as Raparigas Rebeldes (contando que este tinha o dobro das personagens) e é um bocado mais americano. É por isso que é muito positivo haver à disposição vários livros diferentes que celebrem conquistas femininas: complementam-se e ao mesmo tempo preenchem diferentes necessidades. As Rebeldes é mais voltado para meninas enquanto este é mais para pré e adolescentes. Tem mais diversidade corporal e LGBT e tem actrizes, youtubers, várias escritoras...No fim ficamos com uma certeza: estas mulheres são verdadeiramente magnifique.


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(Mary Anning por Corinna Bechko e Shawn McManus)

Histórias para Raparigas Rebeldes

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A esta altura já toda a gente ouviu falar ou já viu à venda o livro Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes que foi lançado em 2016 depois de uma campanha triunfante de crowdfunding no Kickstarter que o tornou o livro que arrecadou maior valor na história do financiamento colectivo - um milhão de dólares e 20,000 apoiantes. Vendeu mais de um milhão de cópias e foi traduzido para 47 línguas. O segundo volume - "became the fastest-funded publishing project". Surgiu da frustração das autoras Elena Favilli e Francesca Cavallo com a falta de modelos para as raparigas na ficção e nos filmes e com a prevalência de estereótipos sexistas que elas sentiram na pele em Silicon Valley.

 

"If it’s a challenge to be a woman in the tech industry, it’s an even bigger challenge to be a woman who speaks up sexism. Every time I do, I find mobs of colleagues ready to tell me that raising money has nothing to do with gender: it is equally hard for women and men. When I point out the staggering numbers that speak of inequality, I’m often accused of “playing the blame game” and hating men."

 

(Artigo de Elena Favilli, 2015)

 

 Elas decidiram escrever sobre mulheres reais

 

“it matters to show kids that these women are real, even though they probably won’t encounter them in the school curriculum … We’ve always wanted to celebrate work as the magic power that can transform the world.”

 

 (Francesca  Cavallo)

 

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O resultado é então um conjunto de cem mini biografias de personagens femininas acompanhadas de ilustrações. Comecemos por aí: as ilustrações foram todas feitas por mulheres. Sessenta ao todo, de várias partes do mundo (incluindo uma portuguesa: Helena Morais Soares). Acho que as diferenças no estilo dos desenhos dá um colorido especial ao livro. Todas de uma maneira ou outra são apelativas e cativantes. Difícil não desejar tê-las em posters na parede.

 

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Além de curtos os textos têm uma linguagem simples com o uso da fórmula dos contos de fadas. Isto é expectável tendo em conta o público alvo e a ideia de serem histórias que podem ser lidas ao deitar às miúdas - fornecendo uma alternativa empoderada ao tradicional fadário da princesa presa numa torre à espera de salvamento. Aqui não há disso, pelo contrário - "Era uma vez uma garota que queria ser agente secreta", "Havia uma garota que colocou o homem na lua"...Pequenos detalhes também tornam os textos apelativos - como os bolos para tubarões da Julia Child ou a universidade flutuante da Marie Curie. Só um houve um textinho ou outro que achei que ficou um furo abaixo dos restantes.

 

A diversidade de histórias é importante e penso que esta selecção de biografadas correspondeu a isso. Inclui mulheres vivas, algumas ainda bem jovens, de vários áreas de actividade. Não estão organizadas por nenhuma característica, apenas listadas por ordem alfabética. Uma boa opção. Elas tiveram (e têm) não apenas de ultrapassar os obstáculos colocados pela sociedade patriarcal mas também problemas como guerra, descriminação racial, pobreza, deficiências físicas e abuso. Algumas deram a vida a lutar contra monstros. 

 

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"We cannot allow our children to grow up in this corrupt and tyrannical regime, we have to fight against it, and I am willing to give up everything, including my life if necessary."

 

(As Irmãs Mirabal)

 

Em alguns comentários que encontrei pessoas objectavam à inclusão de certas personagens como piratas (não tenho nada contra isso, pois que nunca ouvi ninguém dizer que os rapazes não deviam ver filmes ou ler livros com piratas por eles serem um mau exemplo) ou políticas. Especialmente quem vai ler este livro na companhia de uma mini pessoa pode ter uma atitude pró-ativa a este respeito e também aproveitar para extrapolar a conversa para assuntos importantes. Seja como for, a mensagem é clara: "Dream bigger, Aim higher, fight harder (...)". Não interessa se isso envolve entrar por florestas adentro, ir pelo mar fora ou subir aos céus. Não há nenhum lugar onde uma mulher não possa ir.

 

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"Only if we understand can we care. Only if we care will we help. Only if we help shall they be saved"

 

(Jane Goodall)

 

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"You can't change conditions - just the way you deal with them"

 

(Jessica Watson)

 

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Não há nada que uma mulher não possa fazer. Na lista para leituras futuras estão: Portuguesas com M Grande (apareceu num post anterior) e Femme Magnifique: 50 Magnificent Women Who Changed The World que encontrei entretanto e que também é ilustrado.

Esses livros que amamos...

Jane Eyre é daqueles títulos que me vem logo á mente quando me perguntam qual o meu livro favorito (não entendo porque insiste o pessoal em fazer esta pergunta...Estão á espera de uma única resposta ou posso responder os vinte títulos que me ocorrem logo?), mas é frequente vê-lo classificado como uma obra datada e pouco relevante hoje em dia. Creio que muita gente pensa isto dos clássicos em geral o que é pena porque muitos continuam tão actuais como na altura em que foram escritos: alguma vez o diálogo de Hamlet com a caveira deixará de ser relevante? Não creio, na medida em que continuamos a ser material orgânico que um dia perece. Precisamente um dos motivos porque gosto deste livro da mais velha das Brontë é a sua actualidade e nem de propósito encontrei há pouco um artigo que vai neste sentido - 11 Lessons That 'Jane Eyre' Can Teach Every 21st Century Woman About How To Live Well.

 

Como disse num post anterior este ano li algumas coisas fora do que era habitual e não vou mentir: fiquei um tanto consternada por encontrar personagens femininas tão fracas - planas, sem vontade ou interesse. Como é óbvio não tenho como ler todos livros que são editados, mas foi esta a impressão com que fiquei - especialmente depois de ler alguns livros juvenis. Estes autores não têm noção do que escrevem? Mas acontece o mesmo em outros tipos de livros e até no cinema. Muitas destas personagens não chegam aos pés da Jane - decidida e forte.

“I can live alone, if self-respect, and circumstances require me so to do. I need not sell my soul to buy bliss. I have an inward treasure born with me, which can keep me alive if all extraneous delights should be withheld, or offered only at a price I cannot afford to give.”

Parece-me que muito do que se escreve é a mesma estória repetida vezes e vezes sem conta e no fundo deve ser isso o que o leitor quer - as pessoas não querem que o Nicholas Sparks comece a escrever coisas diferentes. No fundo, todos nós gostamos da repetição e do senso de segurança que isso transmite. Pior quando a mesma estória de sempre se apresenta sob um falso verniz de modernidade - Algures no passado encontrei uma notícia que dizia que alguns clássicos de época iriam ser editados com cenas de sexo pelo meio...Mas a verdade é que incluir cenas de sexo a cada três páginas ou colocar os personagens a actualizar o Instagram e o Face não faz de um livro uma cena modernaça. Jane Eyre é um bom exemplo, pois apesar de ter sido escrito em 1847 contem lições para todas as épocas e géneros - fazer valer a nossa voz quando é preciso; não se deixar abater pelas dificuldades; lutar pelo que se acredita; não abdicar das nossas convicções mesmo sob pressão dos outros - mesmo que os outros sejam pessoas que gostam de nós - em sumo sermos nós próprios. Quando vou á Fnac e quase fico soterrada em títulos como - Submissa, Rendo-me ou Pede-me o que Quiseres, lembrou-me desta personagem que não abdicou das suas convicções por um "falso felizes para sempre".

Do you think, because I am poor, obscure, plain, and little, I am soulless and heartless? You think wrong! — I have as much soul as you — and full as much heart! And if God had gifted me with some beauty and much wealth, I should have made it as hard for you to leave me, as it is now for me to leave you. I am not talking to you now through the medium of custom, conventionalities, nor even of mortal flesh: it is my spirit that addresses your spirit; just as if both had passed through the grave, and we stood at God's feet, equal — as we are!”

Também não é um típico conto da Cinderela, como já vi descrito por ai, porque nada lhe cai simplesmente no colo - ela tem de lutar e sofrer. Pobre Mr. Rochester, quão longe está de ser um príncipe...Nem a própria Jane - pequena e nada bonita. Numa altura em que se discute com fervor sobre padrões estéticos, um livro com mais de cem anos mostra de onde vem a verdadeira beleza. Há passagens extraordinárias como uma em que ela diz que as mulheres não devem ser limitadas a ficar na cozinha a fazer pudins. Em 1849 a autora criou outra personagem de carácter notável chamada Shirley, do livro com o mesmo nome - uma rapariga órfã que gere sozinha a sua fortuna e propriedade e que não recebe ordens de ninguém. Tanto uma personagem como outro casam com quem querem e quando querem.

 

E outras personagens poderiam ser citadas...Mas não era suposto termos evoluído um pouco desde essa altura? Ás vezes ao ler um romance histórico ou outro em que o autor apresenta personagens femininas fracas ou não inclui simplesmente determinado tipo de personagem não consigo deixar de pensar se isso se deve ao facto de a estória se passar no século XV...Ou se é a mentalidade do próprio autor que ainda está presa aí. Talvez o estilo gótico dos cenários possa estar um pouco datado, mas certamente não mensagem - se não sabem o que ler aqui fica a sugestão.

 

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