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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Livro: Portuguesas com M Grande

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[Maria Helena Vieira da Silva: artística plástica, apátrida, criadora de mundos]

 

Lúcia Vicente, historiadora e actriz, deparou-se com uma realidade deprimente em 2015 quando estava grávida da sua filha Emmeline: a grande maioria dos livros infantis disponíveis ainda giravam em torno do clássico patriarcal da princesa que aguarda serenamente ser salva pelo príncipe. Não era esse o tipo de histórias que Lúcia queria que acompanhassem a sua filha na hora de dormir, mas sim histórias que lhe mostrassem que ela podia ser o que quisesse:

 

"O mais importante era que ela adormecesse com a certeza de que podia sonhar com o quisesse e que não seria o facto de ter nascido mulher que a impediria de alcançar, lutar, almejar o que quer que fosse. Queria que ela crescesse com a certeza de que todas as pessoas devem ser livres"

 

Vai daí, Lúcia começou a fazer uma lista com nomes de portuguesas que considerava inspiradoras. A esses nomes juntaram-se muitos mais e no fim ela seleccionou quarenta e dois, número que não é aleatório: assinala os quarenta e dois anos passados desde que em Portugal as mulheres obtiveram o direito de votar em igualdade de circunstância com os homens [2 de Abril de 1976]. O livro com desenhos da ilustradora e designer Cátia Vidinhas saiu em Outubro do ano passado e vem ajudar a colmatar não só a falta de histórias alternativas às tipicamente patriarcais, mas também uma falta em livros deste género sobre personalidades femininas: não terem nenhuma portuguesa. 

 

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[Luísa Todi - actriz, cantora lírica internacional, mezzo soprano extraordinaire]

 

Mesmo nós que vivemos aqui podemos ser levados a crer que dificilmente muitas mulheres poderiam sobressair...Num sítio tão pequeno e tão profundamente patriarcal. Mas o certo é que elas existem, e não poucas. E quando percebemos isso começamos a pensar: se elas existem então porque não são conhecidas nem celebradas? Porque não são mencionadas nos livros de História? É muito curioso ver o tipo de personagens que a História portuguesa celebra...Ou em alguns casos endeusa. A existência de um esquema misógino que apaga\mantém na sombra os feitos femininos torna-se mais do que clara. 

 

"As meninas não precisam de histórias onde sejam resgatadas por príncipes, precisam de histórias em que possam inspirar-se. E os meninos precisam que se lhes tire dos ombros o peso de resgatar as princesas e precisam, acima de tudo, de compreender que as mulheres podem e conseguem mudar a História, lado a lado com eles"

 

Ora, passando pela capa (que é por si só uma belezura) e entrando temos: a página direita que se abre com o nome da biografada, a data de nascimento e morte (se for o caso - foram incluídas mulheres que ainda estão vivas), uma breve descrição das actividades desempenhadas (algumas mais poéticas, como se pode ver no caso de Vieira da Silva) e depois o texto. As ilustrações ocupam toda a página esquerda. Simples mas eficaz. As personagens não estão organizadas sob nenhuma ordem específica.

 

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[Matilde Bensaúde - fitopatologista, investigadora, directora da inspecção dos Serviços Fitopatológicos]

 

Naturalmente numa só página não dá para colocar toda uma vida especialmente de mulheres que as tiveram tão cheias e em alguns casos também longas em anos. Mas dentro do que tenho lido neste tipo de livros, achei algumas destas biografias até bastante completas.

 

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[Marquesa de Alorna - poetisa, liberal, criadora da organização secreta Sociedade da Rosa]

 

Há alguns nomes que são mais conhecidos. Gostei de ler sobre outras facetas da vida destas mulheres, por exemplo sobre Beatriz Costa de quem temos a ideia que era apenas uma actriz de franja. Como é habitual fui pesquisar mais a seguir. Já outras são realmente ilustres desconhecidas...Há textos que são mais poéticos ou mais focados em algo em particular como o texto sobre Paula Rego que aborda o tema da depressão. Acabei a ler uma interessante entrevista no Público com ela e o seu filho mais novo, que em 2017 lançou um documentário sobre a mãe - Paula Rego, Secrets & Stories

 

Já na biografia de Sarah Afonso torci um pouco o nariz à escolha de focar o momento em que ela abandona a pintura para se dedicar à maternidade, não porque não ache essa uma opção válida mas porque provavelmente ela teria continuado a pintar se as circunstâncias fossem outras...Sabemos quem é que acaba sempre sacrificado. Independentemente da abordagem todos os textos são claros, com um tom informal, por vezes com recriação de episódios e do que as personagens poderiam estar a sentir. Também são bons pontos de partida para iniciar conversas com as crianças sobre assuntos importantes.

 

As ilustrações são outra belezura: as cores, o traço...Há qualquer coisa de mágico que se desprende destes desenhos. Complementam bem a parte escrita. Por exemplo, quando lemos que a Marquesa de Alorna esteve tantos anos presa num convento, tempo que ela aproveitou para escrever e ler, aquela ilustração torna-se ainda mais especial.

 

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[Maria Teresa Horta - poetisa, escritora, feminista]

 

Encontramos aqui mulheres em variadas áreas incluindo aviação, activismo, jornalismo, moda, dança, uma polícia...E de diferentes proveniências: umas eram de famílias liberais e\ou com posses, outras nem não tiveram acesso a uma educação formal...Não aprecio particularmente o detalhe de alguém ser a primeira cavaleira tauromáquica, se bem que era giro ver as reacções a uma mulher negra vestida de cavaleiro entrando pela arena a dentro...Apenas um dos muitos episódios da agitada vida da Preta Fernanda, uma figura da Lisboa boémia do século XIX e inícios de XX.

 

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[Virgínia Quaresma - jornalista de reportagem, feminista, símbolo máximo de minorias]

 

Fiquei feliz de encontrar Leonor da Fonseca Pimentel (jornalista, republicana, a portuguesa de Nápoles) pois a primeira e única vez até agora que vi o seu nome foi num romance da Susan Sontag. Enfim...Em termos de diversidade racial tem quatro entradas e de diversidade sexual tem duas. No final há uma secção que inclui a explicação de termos como escravatura, feminismo, ditadura, etc. Uma pequena enciclopédia cheia de women power que se lê e se folheia com agrado.

Livro: Circe

Já está acabado e vou então expor em mais detalhe o que achei dele. Atenção que esta é daquelas opiniões impopulares - que posso fazer? Para mim, o primeiro problema deste livro está relacionado com a própria construção da história. Depois de serem estabelecidas as relações familiares de Circe e de uma trapalhada resultar no seu exílio na ilha de Eana, ainda no começo do livro, o que se segue é um saltitar de episódio em episódio mítico: Circe faz a sua vidinha de bruxa, a colher flores e a fazer poções. Situação A acontece. Situação A é resolvida. Passamos para a B. E assim sucessivamente.

 

Não há direcção, clímax...Acho que dá para eliminar capítulos sem que isso faça uma grande diferença. As personagens são pouco desenvolvidas. É tudo estereotipado, sem espessura...Algumas só aparecem por umas poucas de páginas e depois desaparecem para não mais voltar. As interacções entre elas são igualmente superficiais. Eana é tipo uma estação de serviço...O segundo problema é que não me parece que este livro acrescente nada de novo ao que já foi recontado milhares de vezes. Precisamos de novas perspectivas que nos obriguem a desviar os olhos da narrativa dominante...

 

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(Circe, Frederick Stuart Church, 1910.  Oil on canvas, Smithsonian American Art Museum)

 

Muitas vezes estes livros são incluídos em listas feministas, porque o feminismo é por excelência o corte com a narrativa tradicional. Mas em Circe a autora simplesmente recorta alguns mitos e encaixa-os na narrativa...Para isso basta-me abrir a Wikipédia. Há breves tentativas de questionamento e umas tiradas feministas que deixam ver que este livro poderia ter sido diferente. Mas no fim nem a Guerra de Troia, nem o Minotauro, nem Penélope...Ninguém terá sido resgatado do papel em que costuma vir embrulhado. E apesar da história ser contada por uma personagem feminina a visão tem bastante de patriarcal. A autora parece ter pouco apreço pelas suas intervenientes femininas...

 

Há poucas personagens que prestem no geral, mas as mulheres são especialmente ruins. Qualidades que são valorizadas como coragem, persistência e gosto pelo desconhecido...Estão todas do lado dos homens. Já elas são umas víboras, fúteis, mesquinhas, vingativas...As descrições estão cheias destes adjectivos. E embora se mencione brevemente que as ninfas sofrem abusos, elas são pintadas da pior maneira possível. Este livro está cheio de girl hate.

 

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(Circe Offering the Cup to Odysseus, John William Waterhouse. 1891)

 

Circe detesta as primas, as tias, a mãe, a irmã (que é muito má), as ninfas que vivem com ela...As suas interacções positivas são com homens e quando perante outra mulher a interacção é sempre tensa, como duas gatas prontas a atirarem-se uma à outra. Por exemplo, Circe preocupa-se com o estado em que os marinheiros chegam à ilha, mas quando Alke lhe aparece ali de repente ela fica logo toda eriçada. Só no fim é que a autora permite que Circe aprecie a companhia de outra mulher e mesmo assim é quase um nada, que gira em volta de homens e que começa com um confronto...Até elas chegarem à conclusão que a culpa afinal é da cabra da Atena. Que é isto? Um drama da secundária?

 

Há slut-shaming e vários clichés (raparigas bonitas não podem ser inteligentes, não sou como as outras!, abuso sexual como mera ferramenta narrativa...). E claro que tem de existir romance, mesmo quase sem química entre as personagens. Se o mito diz que Circe precisa de um falo, então ela aqui o terá - para ser feliz e cumprir a sua missão patriarcal de fêmea (Medeia, outra cabra, vai morder a língua, depois de ter dito que a nossa protagonista era uma spinster que tresanda a solidão!) e para que possa ter alguém que lhe faça reparações e pequenas obras. Não é que Circe não as possa fazer, só que está muito ocupada com feitiços (o que é giro) e com...Lavar e cozinhar (o que não é tão giro).

 

Gostava de ter conseguido me importar mais com a nossa protagonista. E teria gostado que ela fosse um pouco mais badass como parece naquele quadro, em vez de constantemente insegura e carente. O modo como se vê a si própria é por vezes perturbador ("Desde então, eu me perguntei se ele usava em mim aqueles mesmos charmes que tinham funcionado nos marinheiros. Pois eu era como uma vaca bem alimentada, plácida e sem questionamentos"). Está hora de eu navegar para outras águas.

Livro: Femme Magnifique

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(Rosalind Franklin por Mike Carey e Eugenia Koumaki)

 

"Rosalind is alarmingly clever. She spends all her time doing arithmetic for pleasure."

 

 

Continuando na demanda por livros que combinem arte e empoderamento feminino, tropecei (e com grande entusiasmo) neste: Femme Magnifique: 50 Magnificent Women Who Changed The World - o título já dá uma ideia do que vamos encontrar no interior. A ideia foi de Shelly Bond, uma experiente editora de comics, e surgiu como resposta a um evento particularmente difícil:

 

 

"The idea came about immediately after the election (...) Like many US citizens, I was saddened by the missed opportunity for a woman in the White House. But I was truly horrified by the negativity generated online. I felt like someone needed to make a call-to-arms within the comic book community so we could all move forward, channel the anger into positivity."

 

(citações tiradas daqui e daqui)

 

Em parceria com Kristy e Brian Miller do estúdio de designe Hi-Fi Colour, Shelly concebeu a ideia de uma antologia de comics, de capa dura e a cores com mais de cem páginas que celebrasse cinquenta mulheres incríveis que mudaram (e continuam a mudar) a História com a sua ousadia e perseverança.

 

 

"It was crafted to document our history of powerful, inspirational women and to remind the masses that women have already changed the world, and will continue to do so. We’re unflappable, and we deserve to be saluted and celebrated."

 

 

Os textos ficaram a cargo de um grupo variado de pessoas que escrevem comics - autoras e autores escolheram as mulheres que desejavam homenagear e gente com jeito para o desenho providenciou a parte gráfica para cada secção. Para cada biografada há uma página de introdução com uma pequena ilustração e uma citação e depois seguem-se três páginas de texto e imagem em formato BD. O projecto foi um sucesso no kickstarter com mais de mil contribuidores e o livro foi lançado em 2017.

 

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(Ursula K. Le Guin por Robin Furth e Devaki Neogi)

 

A estrutura é sempre a mesma, mas naturalmente o estilo dos desenhos e dos textos varia muito. Cada dupla de autor (a) e artista (em alguns casos a mesma pessoa escreveu e desenhou) fundiu o seu traço e história pessoais com a vida da biografada. Esta diversidade torna o livro muito apelativo e cria expectativa para o que se vai ver nas páginas seguintes. Uma celebração não só destas cinquenta mulheres mas também da BD como importante produto da cultura pop e veículo para falar de problemas sociais. E do talento das mulheres que trabalham todos os dias neste (ainda) clube dos rapazes. Alguns textos têm mais detalhes biográficos, outros têm menos. Alguns são bem pessoais e tocantes. Autoras e autores contam como conheceram aquela personagem, como foram inspirados (as) por ela ou como ela as (os) ajudou a ultrapassar situações difíceis na vida.

 

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(Brenda Fassie por Lauren Belikes e Nanna Venter)

 

Acho que esta abordagem diferencia o livro e é importante para as raparigas não só conhecerem estas mulheres mas verem realmente na prática como elas pode ser um exemplo.

 

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(Artemisia Gentileschi por Marguerite Bennet e Jen Bartel) 

 

"I moved in a world of saints and angels, naked nymphs and ornamental wifes (...) The eyes of men had made these. The eyes of men consumed them. We were so rarely in our own story."

 

Há pessoal que acha que a representatividade não tem importância...Só que as miúdas não são burras. Sabem muito bem que quem estão a ver no ecrã a salvar a cidade é um homem, não uma mulher. Não é alguém como elas. Se elas nunca virem uma mulher a salvar nada só a fazer de vaso decorativo o que vão pensar? Super-heroínas não prestam. Tristemente, meninas pequenas já são capazes de dizer várias coisas que uma mulher não pode fazer. Mas com os rapazes não é assim.

 

Ficamos comovidos quando um garoto diz que quer ser como o jogador de futebol y. E ainda lhe providenciamos mais exemplos, um exagero e que não inclui mulheres. Deixem os rapazes inspirarem-se em personagens femininas!  Não é mal nenhum, como aliás este livro mostra. O que tem mal é isto: o Rotten Tomatoes mudou a sua política porque homens brancos irados por a Capitã Marvel "não ser um filme para eles" estavam a dar-lhe pontuações baixas de propósito ainda antes de ter estreado. E porque resistimos a fornecer às miúdas exemplos com que se podem identificar? Aqui está uma notícia interessante que encontrei:  "The skeptical doctor played by Gillian Anderson on The X-Files helped inspire women to go into STEM careers, according to a new report". Outro exemplo: Mae Jemison tinha como inspiração a tenente Uhuru do Star Trek. Fico a pensar quão longe ela terá ido...

 

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(Valentina Tereshkova, Sally Ride, Kathryn Sullivan, Anna Lee Fisher, Mae Jemison,

Eileen Collins e peggy Whitson por Cecil Castellucci e Philip Bond)

 

 

Em termos de diversidade, não é tão extenso como as Raparigas Rebeldes (contando que este tinha o dobro das personagens) e é um bocado mais americano. É por isso que é muito positivo haver à disposição vários livros diferentes que celebrem conquistas femininas: complementam-se e ao mesmo tempo preenchem diferentes necessidades. As Rebeldes é mais voltado para meninas enquanto este é mais para pré e adolescentes. Tem mais diversidade corporal e LGBT e tem actrizes, youtubers, várias escritoras...No fim ficamos com uma certeza: estas mulheres são verdadeiramente magnifique.


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(Mary Anning por Corinna Bechko e Shawn McManus)

Histórias para Raparigas Rebeldes

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A esta altura já toda a gente ouviu falar ou já viu à venda o livro Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes que foi lançado em 2016 depois de uma campanha triunfante de crowdfunding no Kickstarter que o tornou o livro que arrecadou maior valor na história do financiamento colectivo - um milhão de dólares e 20,000 apoiantes. Vendeu mais de um milhão de cópias e foi traduzido para 47 línguas. O segundo volume - "became the fastest-funded publishing project". Surgiu da frustração das autoras Elena Favilli e Francesca Cavallo com a falta de modelos para as raparigas na ficção e nos filmes e com a prevalência de estereótipos sexistas que elas sentiram na pele em Silicon Valley.

 

"If it’s a challenge to be a woman in the tech industry, it’s an even bigger challenge to be a woman who speaks up sexism. Every time I do, I find mobs of colleagues ready to tell me that raising money has nothing to do with gender: it is equally hard for women and men. When I point out the staggering numbers that speak of inequality, I’m often accused of “playing the blame game” and hating men."

 

(Artigo de Elena Favilli, 2015)

 

 Elas decidiram escrever sobre mulheres reais

 

“it matters to show kids that these women are real, even though they probably won’t encounter them in the school curriculum … We’ve always wanted to celebrate work as the magic power that can transform the world.”

 

 (Francesca  Cavallo)

 

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O resultado é então um conjunto de cem mini biografias de personagens femininas acompanhadas de ilustrações. Comecemos por aí: as ilustrações foram todas feitas por mulheres. Sessenta ao todo, de várias partes do mundo (incluindo uma portuguesa: Helena Morais Soares). Acho que as diferenças no estilo dos desenhos dá um colorido especial ao livro. Todas de uma maneira ou outra são apelativas e cativantes. Difícil não desejar tê-las em posters na parede.

 

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Além de curtos os textos têm uma linguagem simples com o uso da fórmula dos contos de fadas. Isto é expectável tendo em conta o público alvo e a ideia de serem histórias que podem ser lidas ao deitar às miúdas - fornecendo uma alternativa empoderada ao tradicional fadário da princesa presa numa torre à espera de salvamento. Aqui não há disso, pelo contrário - "Era uma vez uma garota que queria ser agente secreta", "Havia uma garota que colocou o homem na lua"...Pequenos detalhes também tornam os textos apelativos - como os bolos para tubarões da Julia Child ou a universidade flutuante da Marie Curie. Só um houve um textinho ou outro que achei que ficou um furo abaixo dos restantes.

 

A diversidade de histórias é importante e penso que esta selecção de biografadas correspondeu a isso. Inclui mulheres vivas, algumas ainda bem jovens, de vários áreas de actividade. Não estão organizadas por nenhuma característica, apenas listadas por ordem alfabética. Uma boa opção. Elas tiveram (e têm) não apenas de ultrapassar os obstáculos colocados pela sociedade patriarcal mas também problemas como guerra, descriminação racial, pobreza, deficiências físicas e abuso. Algumas deram a vida a lutar contra monstros. 

 

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"We cannot allow our children to grow up in this corrupt and tyrannical regime, we have to fight against it, and I am willing to give up everything, including my life if necessary."

 

(As Irmãs Mirabal)

 

Em alguns comentários que encontrei pessoas objectavam à inclusão de certas personagens como piratas (não tenho nada contra isso, pois que nunca ouvi ninguém dizer que os rapazes não deviam ver filmes ou ler livros com piratas por eles serem um mau exemplo) ou políticas. Especialmente quem vai ler este livro na companhia de uma mini pessoa pode ter uma atitude pró-ativa a este respeito e também aproveitar para extrapolar a conversa para assuntos importantes. Seja como for, a mensagem é clara: "Dream bigger, Aim higher, fight harder (...)". Não interessa se isso envolve entrar por florestas adentro, ir pelo mar fora ou subir aos céus. Não há nenhum lugar onde uma mulher não possa ir.

 

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"Only if we understand can we care. Only if we care will we help. Only if we help shall they be saved"

 

(Jane Goodall)

 

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"You can't change conditions - just the way you deal with them"

 

(Jessica Watson)

 

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Não há nada que uma mulher não possa fazer. Na lista para leituras futuras estão: Portuguesas com M Grande (apareceu num post anterior) e Femme Magnifique: 50 Magnificent Women Who Changed The World que encontrei entretanto e que também é ilustrado.

Esses livros que amamos...

Jane Eyre é daqueles títulos que me vem logo á mente quando me perguntam qual o meu livro favorito (não entendo porque insiste o pessoal em fazer esta pergunta...Estão á espera de uma única resposta ou posso responder os vinte títulos que me ocorrem logo?), mas é frequente vê-lo classificado como uma obra datada e pouco relevante hoje em dia. Creio que muita gente pensa isto dos clássicos em geral o que é pena porque muitos continuam tão actuais como na altura em que foram escritos: alguma vez o diálogo de Hamlet com a caveira deixará de ser relevante? Não creio, na medida em que continuamos a ser material orgânico que um dia perece. Precisamente um dos motivos porque gosto deste livro da mais velha das Brontë é a sua actualidade e nem de propósito encontrei há pouco um artigo que vai neste sentido - 11 Lessons That 'Jane Eyre' Can Teach Every 21st Century Woman About How To Live Well.

 

Como disse num post anterior este ano li algumas coisas fora do que era habitual e não vou mentir: fiquei um tanto consternada por encontrar personagens femininas tão fracas - planas, sem vontade ou interesse. Como é óbvio não tenho como ler todos livros que são editados, mas foi esta a impressão com que fiquei - especialmente depois de ler alguns livros juvenis. Estes autores não têm noção do que escrevem? Mas acontece o mesmo em outros tipos de livros e até no cinema. Muitas destas personagens não chegam aos pés da Jane - decidida e forte.

“I can live alone, if self-respect, and circumstances require me so to do. I need not sell my soul to buy bliss. I have an inward treasure born with me, which can keep me alive if all extraneous delights should be withheld, or offered only at a price I cannot afford to give.”

Parece-me que muito do que se escreve é a mesma estória repetida vezes e vezes sem conta e no fundo deve ser isso o que o leitor quer - as pessoas não querem que o Nicholas Sparks comece a escrever coisas diferentes. No fundo, todos nós gostamos da repetição e do senso de segurança que isso transmite. Pior quando a mesma estória de sempre se apresenta sob um falso verniz de modernidade - Algures no passado encontrei uma notícia que dizia que alguns clássicos de época iriam ser editados com cenas de sexo pelo meio...Mas a verdade é que incluir cenas de sexo a cada três páginas ou colocar os personagens a actualizar o Instagram e o Face não faz de um livro uma cena modernaça. Jane Eyre é um bom exemplo, pois apesar de ter sido escrito em 1847 contem lições para todas as épocas e géneros - fazer valer a nossa voz quando é preciso; não se deixar abater pelas dificuldades; lutar pelo que se acredita; não abdicar das nossas convicções mesmo sob pressão dos outros - mesmo que os outros sejam pessoas que gostam de nós - em sumo sermos nós próprios. Quando vou á Fnac e quase fico soterrada em títulos como - Submissa, Rendo-me ou Pede-me o que Quiseres, lembrou-me desta personagem que não abdicou das suas convicções por um "falso felizes para sempre".

Do you think, because I am poor, obscure, plain, and little, I am soulless and heartless? You think wrong! — I have as much soul as you — and full as much heart! And if God had gifted me with some beauty and much wealth, I should have made it as hard for you to leave me, as it is now for me to leave you. I am not talking to you now through the medium of custom, conventionalities, nor even of mortal flesh: it is my spirit that addresses your spirit; just as if both had passed through the grave, and we stood at God's feet, equal — as we are!”

Também não é um típico conto da Cinderela, como já vi descrito por ai, porque nada lhe cai simplesmente no colo - ela tem de lutar e sofrer. Pobre Mr. Rochester, quão longe está de ser um príncipe...Nem a própria Jane - pequena e nada bonita. Numa altura em que se discute com fervor sobre padrões estéticos, um livro com mais de cem anos mostra de onde vem a verdadeira beleza. Há passagens extraordinárias como uma em que ela diz que as mulheres não devem ser limitadas a ficar na cozinha a fazer pudins. Em 1849 a autora criou outra personagem de carácter notável chamada Shirley, do livro com o mesmo nome - uma rapariga órfã que gere sozinha a sua fortuna e propriedade e que não recebe ordens de ninguém. Tanto uma personagem como outro casam com quem querem e quando querem.

 

E outras personagens poderiam ser citadas...Mas não era suposto termos evoluído um pouco desde essa altura? Ás vezes ao ler um romance histórico ou outro em que o autor apresenta personagens femininas fracas ou não inclui simplesmente determinado tipo de personagem não consigo deixar de pensar se isso se deve ao facto de a estória se passar no século XV...Ou se é a mentalidade do próprio autor que ainda está presa aí. Talvez o estilo gótico dos cenários possa estar um pouco datado, mas certamente não mensagem - se não sabem o que ler aqui fica a sugestão.

 

Sobre Ana Karenina

 

Actualizando os posts anteriores, finalmente acabei a Ana Karenina. E Gostei muito...Pensando bem como é possível ler isto e não gostar? É tão, mas tão bom... A escrita é maravilhosa, nada secante pelo contrário lê-se com bastante facilidade e se vocês não forem picuinhas como a minha pessoa que andou a adiar os capítulos finais uma data de tempo lê-se também bastante rápido. Nas opiniões que encontrei por aí na net muita gente dizia que as partes que se passam no campo e tal eram um tédio e a história nunca mais andava, mas não achei. Foram os capítulos que mais gostei, não obstante aquilo soar um pouco romantizado, camponeses felizes e não sei quê...E as personagens são maravilhosas também, no sentido da sua construção e complexidade.

 

Não é tipo a Madame Bovary ou o Primo Basílio do Eça, onde quase toda a gente é horrível sem apelo nem agravo, embora tenham outras características em comum...Tolstoi é muito mais benevolente para com as suas personagens o que de certa forma torna as coisas mais interessantes. Não dá para estar aqui a falar de todas, mas Ana é soberba...Parece que muitos leitores não a suportam, mas a minha impressão foi a contrária. Ela é a única personagem corajosa de todo livro e estranhamente é a mais digna. A parte do coração (não parece mas tenho um, se bem que ás vezes esqueço-me dele no frigorifico) que eu reservo para as personagens dos meus livros morria um bocadinho á medida que os capítulos iam avançando e Ana ia ficando cada vez mais isolada. Ninguém ali se preocupa realmente com ela ou sequer a tenta compreender...Também adorei a forma como as personagens contrastam umas com as outras. 

 

E de resto a história tem de tudo: é ácida, altamente divertida, tem momentos de dramatismo e tensão e alguma ternura (aquele pedido de casamento com giz...Gente, que lindo! Toda a parte que envolve o noivado de Levine e Kitty é linda demais. Todos os seres humanos deviam ter direito a sentirem-se assim apaixonados pelo menos uma vez na vida) e claro também é uma história actual. Era actual quando foi escrita, continua hoje e assim será. Um verdadeiro clássico...Isto porque fala de questões que não estão restritas a uma época. É como Hamlet divagando sobre a morte com a caveira - as questões de sempre. E também porque a humanidade simplesmente não muda, já falei disto aqui, evoluímos no plano tecnológico e assim mas continuamos os mesmos no essencial. É por isso que é tão fácil uma pessoa de hoje identificar-se com uma personagem real (ou imaginada) que viveu há vários séculos. No caso deste livro em particular as personagens são perfeitamente reconhecíveis. A maneira como agem não é diferente da maneira como agimos nós, até as conversas são idênticas. As relações entre homens e mulheres não me parecem ter sofrido grande alteração, esta é aliás das coisas mais engraçadas na narrativa. Um diz z outro percebe x...O autor sabia esquadrinhar bem a essência do ser humano. Lamentavelmente, também não me parece que os homens tenham ficado mais espertos desde há dois séculos para cá...

 

A nível da própria época também é interessante (aquele pessoal caçava ursos..E eu a achar que era radical caçar perdizes!), mas há, de facto, muita coisa que pode ser transportada para os dias de hoje. Ana vivia uma sociedade sufocante que impedia a liberdade sexual e mental das mulheres e que era implacável para com as que se desviavam. O papel delas era unicamente a maternidade. Mas Ana tem a coragem de assumir o seu pecado e de virar costas a toda aquela gente mesquinha...E claro paga caro por isso, ao contrário do amante que não sofre qualquer punição e que na verdade nem tem nada a perder ao contrário dela. Por acaso há dias encontrei num blog que sigo um texto em que a autora relatava uma conversa em que alguém dizia que era horrível uma mulher trair o marido mas o contrário não era nada de mais (homens, certo?), não encontro esse post em lado nenhum, mas entretanto peguei neste livro e encontrei isto a páginas tantas: "a razão principal desta desigualdade estava [...] na diferença estabelecida pela lei e pela opinião publica entre a infidelidade da mulher e a do marido". Touché.

 

É um livro que fala de uma variedade de coisas sobre as quais se poderia escrever uma tese: casamento, ciúme, Deus...Eu pessoalmente acho que é sobretudo uma história sobre procurar a felicidade. Um caminho estão a ver? Ana procura a satisfação no amor ("Ana é acima de tudo uma mulher de coração"), mas para o autor as paixões são traiçoeiras e por isso o caminho dela revela-se espinhoso. Pelo contrário, Levine procura uma orientação através da prática do bem e do contacto com a natureza longe do ambiente vicioso da cidade. E dá-se bem, como prova o final que é das partes mais bonitas de toda a obra. É outra questão universal: procurar respostas para o sentido de estarmos neste mundo...Há quem passe a vida a procurar, quem acabe por conseguir e quem se perca pelo meio. No fundo é o que todas as personagens do livro estão á procura seja através do amor, da filosofia, da sociedade...E é o que nós procuramos também agora no presente.

 

Senti-me realmente conectada á historia. Estão a ver aquela sensação de sofrer com as personagens e de ficar contente quando elas se dão bem? A sério, foi intenso. E há tanta coisa que ainda poderia dizer...Poderia continuar a escrever eternamente. Mas ok, estão são as minhas breves impressões. Recomendo, como é obvio. Em relação a esta edição da Civilização tem alguns erros de tradução, se poderem comprar a outra que anda por ai melhor mas se não também não vão ficar a saber menos da história por isso.

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