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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Estado: complicado

Acho que é um privilégio um leitor ter na sua vida autores em que pode confiar - é um pouco como ter uma relação com alguém: saber do que o outro gosta de falar e como, sentirmos-nos confortáveis, com base na experiência sabermos que não seremos desapontados. Aceitando que um título talvez não tenha o mesmo impacto que outro lido antes e continuando a derivar momentos de felicidade. É verdade que ninguém está livre de desapontamentos, separações e corações partidos que terão de ser sarados comendo gelado directamente da caixa em frente à estante. Há uns dias tentei ler o God Help the Child da Toni - o Beloved é um portento, mas este não é. Nem o acabei sequer. Como já contado aqui, tive o mesmo problema com a Pearl. O exílio é um pequeno portento, A Flor Oculta foi um sofrimento. Com o John de quem até agora só consegui tragar a não-ficção (só de me lembrar do East of Eden...). Relações complicadas. Com o Murakami aconteceu um declínio gradual: já não achei o 1Q84 grande coisa e não melhorou com a Peregrinação do Rapaz Sem Cor... I'm telling you We are never ever, ever getting back together. E incorporar preocupações feministas nas minhas leituras também me obrigou a repensar o futuro de certas relações, a nossa visão da vida está em conflito So let me thank you for your time And try not to waste any more of mine. Pode ser difícil às vezes passar dos primeiros encontros....Ainda não perdi a esperança, Margaret. Tenho aqui à mão o Alias Grace, talvez possamos traçar o periclitante caminho em direcção a uma relação séria. É por isto que não tenho namorado, a minha vida literária é demasiado intensa. 

Simplicidade nos Livros

Os leitores costumam ter um fraco por livros gordinhos, com várias personagens e reviravoltas do enredo. Mas devíamos apreciar os que não têm nenhuma destas características. Livros pequenos: é espantosa a quantidade de livros incríveis que não passam das duzentas ou cem páginas. Os contos: um género mal amado. Ao contrário da crença geral penso que escrever contos é mais difícil do que escrever histórias longas. Exige mais precisão, contenção e maturidade. Muitos leitores dizem que não gostam de ler contos porque ficam sempre com a sensação de que faltou mais. De incompleto. Mas um conto quando é realmente bom basta-se a si mesmo. Kate Chopin tem um conto chamado The Story of an Hour que nem chega a três páginas. Curto, mas passa a mensagem sem precisar sequer de mais uma linha. O The Yellow Wallpaper da Perkins Gilman. Ou o Nariz do Gogol. A Katherine Mansfield e a Alice Munro. Oh! e a Sophia. Da mesma forma que há livros pequenos incríveis, também há até mesmo obras primas cujos fios narrativos partem de detalhes corriqueiros, que não mudam de cenário ou que têm muito poucas personagens. A Paixão Segundo H.G da Clarice é um exemplo. Tão denso e maravilhoso, só tem duas entidades - uma mulher e uma barata e começa banalmente com a mulher sentada à mesa do café. Alguns autores conseguem escrever histórias até a partir de uma personagem sentada numa cadeira no meio de uma sala vazia e é um privilégio lê-los (e mesmo quando nos obrigam a olhar para recantos escuros cá dentro)

Livros, vendas, más ideias

Uma das coisas que não gostei muito no Stiff - The Curious Lives of Human Cadavers da Mary Roach foi o quão óbvio se tornou que ela só escolheu o tema por ser chocante e vendível. Vocês podem dizer que não há nada de errado com isso, mas eu gosto quando alguém tem outros motivos além desse para partilhar algo: uma personagem que vocês gostam e querem escrever sobre ela; uma história em que tropeçaram e que acham que merece muito ser contada, até pode ser da vossa família, um evento histórico que acham que é pouco falado ou que precisa de outra perspectiva, os anos que trabalharam num lado qualquer...Não estou com isto a dizer que os autores devem viver na penúria é claro...Mas há certas coisas.

 

Como por exemplo tornar o livro mais vendável por inserir as personagens em certos períodos ou lugares: vou enfiar a minha personagem no Gueto de Varsóvia porque é triste e dramático e como é um romance não tenho de fazer nenhuma pesquisa adicional. Há quem doure a pílula. Nos filmes de guerra isto acontece muito: em caso de dúvida encharca-se a coisa em patriotismo e bravura. É uma das razões porque gostei do Dunkirk: toda a gente tem um ar zombinado. Ou por inserir amor entre duas personagens. E vocês dizem: livros como o Atonement também têm romance e é dramático e o pessoal chora (eu pelo menos, embora não nessa parte óbvia)...Certo, mas o livro fala de outras coisas. O problema é quando o autor (seja qual for o tipo de livro) faz o peso da narrativa cair todo sobre o aspecto romântico sem desenvolver mais nada e sem criar um contexto minimamente sólido. Há quem atribua aos protagonistas poderes transcendentes, estilo Billy Pilgrim (já encontrei dois este ano) e quem acredite realmente no poder da paixão e os coloque a apaixonarem-se na própria frente, geralmente por enfermeiras - parem com isso ou levam com uma chaleira. E se fazem questão que a vossa personagem feminina esteja no gueto e tenha um par romântico não a emparelhem com...agh. A vida não é como na Branca de Neve (não sou a única a reparar neste estranho fenómeno)

 

Muitas vezes para tornar algo vendável basta copiar qualquer coisa que tenha tido sucesso - todos já vimos isto: alguém tem sucesso com um livro onde as personagens fazem amor cobertas de gelatina enquanto levitam, no dia a seguir os escaparates das livrarias já estão a ser invadidos por histórias semelhantes em que só muda o sabor da gelatina, se tanto. Pessoas espertas não se sentam e começam a escrever, primeiro veem o que está trending. Não admira que estes escaparates sejam a coisa mais amorfa e desinteressante. E não, como já partilhado aqui, não sou fã do conceito de que todos os livros são bons - há coisas que pela sua falta de criatividade e pior: pela mensagem que transmitem, mais vale ficar aqui a navegar na maionese...

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