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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Poesia na era das redes

Uma coisa que me intriga é que sendo Portugal chamado de país de poetas, o valor que na prática se dá à poesia é bem pouco - as pessoas leem-na na escola, com grande dor (embora não se possa culpar o próprio género por isso, claro) e depois deixa completamente de fazer parte das vidas literárias, de quem as tem. Há quem tenha opiniões extremadas e vi isso aquando do anúncio do último Nobel da literatura: com tantos bons romancistas para quê desperdiçar o prémio com poesia?

Não que eu esteja num pedestal. Gostava de poesia quando estava na escola, mas era raro lê-la fora daí. Entretanto, as coisas começaram a dar um pouco a volta. O ano passado li alguns livros de poesia, incluindo de autoras africanas como Conceição Lima, Odete Costa Semedo e Ana Paula Tavares. Escusado será dizer que não era poesia que figurasse nos meus manuais escolares, nem muitos dos temas abordados. É toda uma outra discussão. Actualmente, tenho algumas poetas em espera: além de Louise Glück, Gabriela Mistral, Wislawa Szymborska...Curiosamente também nobelizadas.

Não acho que ninguém tenha de ter mestrado em literatura ou que seja preciso entender todo e qualquer símbolo\imagem do poema para o apreciar...E certamente não há nada de mal em voltar atrás e reler uma e outra vez se for preciso. Hoje em dia parece haver uma vaga de colecções de poesia escritas por pessoas jovens (sabiam que Amanda Gorman só tem vinte e três anos? Sério) e que muitas vezes usam as redes sociais como principal plataforma. Acabei recentemente um livro chamado Peluda de Melissa Lozada-Oliva: fala do que é ser uma mulher latina e filha de imigrantes na América de hoje, e uma mulher com pelo a mais, como o título indica. 

 

 

São poemas onde vários temas se interpenetram, não são tão lineares como costumam ser as poesias de Instagram. Os chamados instapoets causam certa controvérsia, muitas pessoas dizem que este novo tipo de poesia é demasiado simples, de consumo fácil e que ameaça a verdadeira, de qualidade. Rupi Kaur é um nome bem conhecido e depois também li Amanda Lovelace, The Princess Saves Herself in This One - ainda não li os outros a seguir a este, estão na lista. Tenho uma posição mais solta em relação a este assunto, talvez porque não tenho redes e não estou sempre a levar com isto, não sei. A verdade é que acho que há aspectos muito positivos a tirar.

A começar precisamente pelos temas que muitos destes poemas abordam - trauma e abuso, questões corporais e outras envolvidas na experiência de ser mulher, pessoa não branca, queer. Coisas que não encontramos na dita poesia tradicional. É um modo de vozes que sempre foram marginalizadas se fazerem ouvir, reclamando o direito de usarem e manipularem as palavras. E não é surpreendente que este processo se dê primeiro nas redes sociais e só depois pela via normal. Entre as pessoas que seguem\consomem esta poesia de certeza que estão muitas que também fazem parte de grupos marginalizados ou que tiveram experiências semelhantes. 

E podem ser usados não só para introduzir uma discussão sobre coisas tão importantes, mas também podem servir de introdução ao próprio acto de ler poesia. Li um texto onde alguém falava dos problemas deste tipo de poesia e dava como exemplo um poema (de uma autora que nunca li) que era uma reinterpretação acho que da Bela Adormecida - basicamente: não devia ser considerado normal um tipo beijar uma rapariga sem consentimento. O problema apontado é que o poema não tinha subtileza. De facto, não era propriamente um trabalho digno de Angela Carter. Mas é a cena é: eu não me importava que me tivessem mostrado este poema quando era adolescente e não via nada de mal na história, excepto que o ser lamechas.

Também gostava que tivesse existido toda esta variedade de livros sobre mulheres importantes na História e por isso não me queixo quando vejo mais um ser editado. E não é como se a vossa colecção de sonetos de Shakespeare vá espontaneamente pegar fogo se vocês experimentarem outros tipos de poesia - discutir o que é verdadeira poesia é provavelmente tão improdutivo como discutir o que é um clássico e o que não é, nunca vi ninguém chegar a uma conclusão certa sobre isso...Mas o mundo roda e introduzir diversidade na nossa vida é fundamental, na minha opinião.

Amor à chapada

Como já contei aqui, não sou sovina na hora de classificar os meus livros. Não tenho problemas em atribuir cinco e quatro estrelas...Embora às vezes depois de fazer a lista completa com tudo o que foi lido e atribuir as respectivas estrelas, sinta que num caso ou outro posso ter sido injusta. O sistema de estrelas é um pouco redutor, por isso gosto sempre de escrever opiniões mais longas e detalhadas. Esta conversa vem para justificar que eu não gosto de bater no ceguinho, mas tenho de o dizer, no tal livro da Sarah Waters há a seguinte cena: as duas protagonistas encontram-se depois de umas chatices e estão frias uma com a outra, a seguir dizem que se amam e começam a envolver-se mas ficam frias de novo e uma acaba a dar uma chapada na cara de outra e sai porta fora. Será que sou eu que tenho dificuldade em perceber todo o espectro de emoções humanas ou isto é um absurdo? É para isto que se cria uma história com duas mulheres?

 

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livros grandes e grandes desastres

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Para alguém que diz que gosta de livros grandes, tenho vários na estante à espera de serem lidos...Na verdade, quando era miúda o tamanho era um factor importante: como não dava para ter livros novos sempre que queria, quando chegava o momento mágico da compra a minha tendência era escolher um maior que me durasse mais tempo, por oposição a escolher um mais fino que o mais certo era ser despachado num dia. Entre os grandes em espera há clássicos, não-ficção - alguns temas duros, então decidi começar por este que prometia drama e mistério.

Infelizmente é tão fraquinho...Uma coisa que não entendo, e que tenho encontrado em vários livros, é a existência de personagens que são simultaneamente péssimas pessoas (em certos casos roçam a psicopatia) e mais aborrecidas que uma parede em branco. Que combinação é esta...Esta é uma das razões porque não gostei de livros como Normal People ou Convenience Store Woman - porque hei-de continuar a ler mais cem, duzentas páginas sobre estas pessoas? Enfim, a seguir vou ler um conjunto de contos da Silvina Ocampo - acabei por não resistir e já li o primeiro. Nem chega a três páginas mas realmente mostra que, no que diz respeito aos livros, o tamanho não quer dizer nada. 

Algumas coisas que nunca li

Todos os leitores e leitoras têm na sua vida aqueles clássicos que ainda não leram, mas acham que já o deviam ter feito. Eu tenho algumas falhas a nível do que se pode também chamar de cultura popular: nunca li o Harry Potter e irrita-me deveras aquelas listas onde marcamos os livros que já lemos - e onde os títulos da série aparecem em separado...Não sei quase nada sobre o assunto. Nem Guerra dos Tronos (que novidade), nem Tolkien e só li o primeiro livro de As Crónicas de Nárnia, é uma memória mesmo muito vaga (mas ainda tenho o marcador), nem Dan Brown (li algumas coisas parecidas - o arrependimento foi grande), devo ter sido a única a pessoa a começar O Código Da Vinci e a não acabar, a verdade é que nunca me interessei por essas temáticas, será que ainda estão na moda...Só agora estou a ler alguns clássicos infantis (talvez por isso, já se sabe, torço o nariz quando dizem que a Alice não é mais do que um livro infantil...). Às vezes entrava em blogs literários e como não conhecia nenhum dos títulos lidos, deixava de seguir...O que não acho que tenha mal. Alguns tinham publicidade em barda, mas quem nunca seguiu um blog para tentar ganhar algo nos passatempos.

Goodbye My Love Goodbye

No dia de hoje em que personagens insuspeitas como poetisas e moscas certeiras adentram o palco da actualidade, há também lugar para alguma desilusão por parte dos leitores que claro que têm sempre os seus preferidos - o que eu questiono é o seguinte: quantas pessoas têm consciência que os livros do Murakami, apesar de sem dúvida mostrarem talento, também são muitas vezes sexistas e mostram uma clara dificuldade em construir personagens femininas, para lá da mera projecção masculina dos protagonistas. Raramente vejo este aspecto ser abordado e eu li para aí uma dezena de livros por isso sei do que estou a falar...Não admira que agora arranje qualquer pretexto para me escapar de reler alguns livros que tenho na estante, pois tenho medo. Um coração feminista é um coração que está sempre a sofrer desilusões. 

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