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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Livros, vendas, más ideias

Uma das coisas que não gostei muito no Stiff - The Curious Lives of Human Cadavers da Mary Roach foi o quão óbvio se tornou que ela só escolheu o tema por ser chocante e vendível. Vocês podem dizer que não há nada de errado com isso, mas eu gosto quando alguém tem outros motivos além desse para partilhar algo: uma personagem que vocês gostam e querem escrever sobre ela; uma história em que tropeçaram e que acham que merece muito ser contada, até pode ser da vossa família, um evento histórico que acham que é pouco falado ou que precisa de outra perspectiva, os anos que trabalharam num lado qualquer...Não estou com isto a dizer que os autores devem viver na penúria é claro...Mas há certas coisas.

 

Como por exemplo tornar o livro mais vendável por inserir as personagens em certos períodos ou lugares: vou enfiar a minha personagem no Gueto de Varsóvia porque é triste e dramático e como é um romance não tenho de fazer nenhuma pesquisa adicional. Há quem doure a pílula. Nos filmes de guerra isto acontece muito: em caso de dúvida encharca-se a coisa em patriotismo e bravura. É uma das razões porque gostei do Dunkirk: toda a gente tem um ar zombinado. Ou por inserir amor entre duas personagens. E vocês dizem: livros como o Atonement também têm romance e é dramático e o pessoal chora (eu pelo menos, embora não nessa parte óbvia)...Certo, mas o livro fala de outras coisas. O problema é quando o autor (seja qual for o tipo de livro) faz o peso da narrativa cair todo sobre o aspecto romântico sem desenvolver mais nada e sem criar um contexto minimamente sólido. Há quem atribua aos protagonistas poderes transcendentes, estilo Billy Pilgrim (já encontrei dois este ano) e quem acredite realmente no poder da paixão e os coloque a apaixonarem-se na própria frente, geralmente por enfermeiras - parem com isso ou levam com uma chaleira. E se fazem questão que a vossa personagem feminina esteja no gueto e tenha um par romântico não a emparelhem com...agh. A vida não é como na Branca de Neve (não sou a única a reparar neste estranho fenómeno)

 

Muitas vezes para tornar algo vendável basta copiar qualquer coisa que tenha tido sucesso - todos já vimos isto: alguém tem sucesso com um livro onde as personagens fazem amor cobertas de gelatina enquanto levitam, no dia a seguir os escaparates das livrarias já estão a ser invadidos por histórias semelhantes em que só muda o sabor da gelatina, se tanto. Pessoas espertas não se sentam e começam a escrever, primeiro veem o que está trending. Não admira que estes escaparates sejam a coisa mais amorfa e desinteressante. E não, como já partilhado aqui, não sou fã do conceito de que todos os livros são bons - há coisas que pela sua falta de criatividade e pior: pela mensagem que transmitem, mais vale ficar aqui a navegar na maionese...

Um porco-espinho literário

Não entendo o pessoal que lê dramalhões lamechas, em especial os "femininos, com capas rosas e flores ai que isto deve ser tão romântico, vou ter um orgasmo aqui mesmo no meio da Fnac". Agradeço a atenção das editoras em pensarem naquilo que gosto, mas estereótipos e sexismo não estão entre as coisas que me excitam. Um de vez em quando tá, mas se lerem muitos seguidos não vai parecer tudo igual? Nos escaparates parece tudo igual. Livros para não pensar, não é mais fácil abrir a net e ficar a navegar na maionese...Claro que vocês lêem o que bem entendem. Em alguns aspectos sempre fui espinhosa. Outro dia estava a pensar que estou a ficar a velha, que realmente o mundo por si já é duro e que nenhum tipo quer uma mulher de gostos hostis, então talvez devesse ler algo para melhorar o humor diria tipo contos de fadas mas depois lembrei-me que originalmente estes incluem gente a ser atirada para caldeirões cheios de cobras e a ser torturada com sapatos de ferro, entre outros. Fui à net procurar (coisas felizes, não sapatos de ferro...), mas acabei por fracassar: alguns minutos depois encontrei um livro com cartas e diários escritos por jovens na segunda guerra e pensei logo: preciso disto na minha vida. Com pena não consegui encontrar em lado nenhum [We Were Young and at War: The First-Hand Story of Young Lives Lived and Lost in World War II, Svetlana Palmer & Sarah Wallis]. Se vocês são como essas pessoas que possuem um radar interno que as afasta de todas as coisas deprimentes, tenho inveja. Definitivamente eu não tenho isso.

A estante sem mimimis

Como qualquer book lover sinto um especial encanto quando vejo aquelas belas edições, de capa dura, com ilustrações, vendidas em caixas com a colecção toda...Acho que metade do tempo de vida de um book lover é passado a babar-se para estas edições na internet. Mas admiro as pessoas que de facto as compram regularmente - devem ser ricas ou não devem ser portuguesas, na medida em que não consigo tirar do pensamento aquela ideia de que os livros são mais baratos em todo o lado até no Butão, só aqui é que não. A minha pobre estante é desprovida desses luxos. Se eu tiver digamos cinco ou seis títulos de um autor é muito provável que sejam todos diferentes em edição e tamanho - porque vou comprando conforme aparece. E que estejam espalhados pelas prateleiras: tentei juntá-los por temas mas não deu muito certo. Dá demasiado trabalho por isso ficam onde houver espaço livre e siga.

 

Não tenho esses mimimis de andar a rejeitar livros por serem velhos. A falta de capa, páginas soltas ou castanhas não impedem leitura (na verdade eu acho que os livros velhos cheiram melhor que os novos e alguns vêm com marcas passadas, é como nós). E mais aqueles que tenho que vieram do lixo. Acontecer terem um erro ou outro de tradução: todos gostamos de boas e cuidadas traduções é claro, mas andar-se a comprar certos livros (como clássicos) ao preço que estão é duro. Temos de nos contentar com edições mais low-cost. Às vezes sou calculista: ao ver fotos das compras do pessoal na Feira do Livro penso - a sério mana podias ter comprado isso a metade do preço bastando perguntar nas bancas de usados se o tinham. Mas não digo nada é evidente. Não é assim que se fazem amigos na net! Gestos que faço muito na FL: virar para ver a etiqueta, calcular um possível desconto (mentira: tenho sempre de perguntar a quem está comigo. Não faço cálculos) e rosnar para dentro quando não gosto da resposta. Estarem em brasileiro: é português. Marcha (o meu vocabulário é agora o feliz possuidor da palavra cafungar. Nunca tinha ouvido e passei a amar).  E em inglês também desde que não tenham o tamanho do Gravity's Rainbow ou sejam o próprio (ah mas um dia...)

 

Posso dizer que amo os meus livros: os de capa dura, os de mole, velhos, novos...Acho todos lindos e a minha estante acaba por ser uma miscelânea linda por extensão. Também não percebo esse mimimi que ainda persiste sobre comprar livros em supermercados. O pessoal que acha uma falta de gosto deve ser o mesmo que nunca leva guloseimas de casa quando vai ao cinema. Dito isto se alguém me quiser oferecer algo da minha wishlist agradeço. Quando me perguntam que livro quero de aprenda penso logo naqueles que são mais caros porque se é para oferecer que seja em termos, certo? Não confundir com oferecer livros dentro de termos. Isso é só estranho.

Amor no ar, mas não aqui

Esta parece-me uma boa altura do ano para falar aqui de novo do flagelo que são as pessoas que insistem em dizer que certos livros são bonitas histórias de amor. Há uns anos alguém num blog dizia que o Monte dos Vendavais era um livro muito romântico - só que não no sentido convencional...Era sobre o lado negro do amor. Achei isto incrível. Nem falando do crítico literário que disse que a Lolita era a melhor história de amor do século XX. Não sei quem foi a primeira pessoa a pegar em qualquer destes livros e a colocá-los nessa categoria, mas essa pessoa cometeu um erro. Eles são muita coisa, mas não histórias de amor. De modo nenhum. Para começo de conversa isso de o lado negro do amor não existe: se a vossa relação passa para o lado negro isso já não é amor e vocês devem sair dela o mais depressa possível. Ninguém que esteja no seu juízo perfeito vai desejar ter um Heathcliff ou uma Catherine na sua vida. Também tenho algumas dúvidas sobre rotular livros como o Grande Gatsby de lindas histórias românticas. Gostei dos três, mas com toda a franqueza. Até o próprio Nabokov vos daria um calduço se vos ouvisse dizer que a sua obra é uma história de amor. Infelizmente e como bem sabemos hoje encontram-se vários "livros", alguns cujo nome não deve ser pronunciado, que romantizam o abuso...Até YA fazem isso. É tão nojento. Não promovam isso gente. Abuso sexual e verbal, stalking e violência doméstica não são amor. Essas fantasias na vida real acabam com um dos elementos sete palmos abaixo do chão. E quanto a isto ser tudo uma questão de interpretação como algumas pessoas afirmam, vamos pedir opinião ao nosso amigo patinho: 

 

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A leitora contabilista

Como é sabido nesta altura do ano o pessoal confronta-se com os implacáveis números referentes às leituras que foram feitas. Normalmente há estes dois grupos: os que estão orgulhosos porque tinham planeado ler 10 livros e acabaram a ler 50 e os que não estão orgulhosos porque tinham planeado ler 50 e acabaram a ler 10...Os leitores conseguem complicar muito as suas vidas, como também se pode ver pela multiplicação de planos e desafios para 2018. Alguns são giros, mas outros são insanos: livros cujo o título seja uma aliteração, technothrillers, de culinária, sem palavrões, com um plot twist, com unicórnios azuis na capa...A vida é imprevisível: vocês não têm como saber se em Março a vossa percepção dos unicórnios não terá mudado completamente ou se em Outubro vocês não serão os únicos sobreviventes da invasão e encontram uma única estante só com edições da Anna Karenina quando o que tinham planeado ler era o D. Quixote. A única utilidade real destas contabilidades é podermos introduzi-las casualmente em conversas com quem não gosta de ler. Vamos sempre passar por grandes leitores, não importa qual seja o número que digamos, e por gente sem vida e isso é giro. 

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