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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

A leitora sofre

No que toca a atribuir estrelas às minhas leituras não me considero sovina - dou a várias cinco estrelas, é por isso que acabo com listas de favoritos de um tamanho absurdo. Mesmo em livros que não se revelam tão bons geralmente encontra-se qualquer coisa para "puxar para cima", penso que só dei uma estrela o ano passado...Já acabei os dois livros mencionados no post anterior e é possível que isto seja uma vingança da Circe: duas leituras uma estrela. Leitora (às vezes) sofre.

Projecto literário para a velhice

Terminei Good And Mad da Rebecca Traister - óptimo livro. Depois fiquei na dúvida se começava o A Small Corner of Hell ou o Patience and Sarah. Como era de esperar escolhi o primeiro. Ontem cheguei a meio e previsivelmente também comecei a pensar o quão mais fácil era ir a uma livraria e pegar o primeiro livro com capa rosa e floral (também designados de "ficção feminina". Um termo inquietante, tal como o termo "ficção doméstica") ou um daqueles pseudo-intelectuais sobre o amor que parecem estar na moda...Pelo menos é o que vejo pelos blogs. Nunca tive nenhuma fase de livros românticos, achava uma perda de tempo - eram leituras esporádicas.

 

Quer dizer, li o primeiro Diário de Bridget Jones. Por alguma razão a cena que me lembro melhor é quando ela está a cozinhar e mete o pé na panela do molho. Não é por eu ser infantil, senti-me identificada. Uma vez emprestaram-me uns romances históricos passados na Cornualha e que tinham famílias brasonadas e mansões vetustas cheias de mal entendidos e drama e um fim satisfatório, só não me lembro se tinha sexo...Acho que não. Não era de longe das piores coisas que já encontrei, mas dava para perceber o apelo destes livros. Não temos nada a temer: as histórias tendem a ser sempre iguais e tudo acaba bem, o amor prevalece, etc. Mesmo as coisas reais e terríveis são facilmente digeridas se cobertas com uma camada de mel. Presentemente não tenho dinheiro nem tempo para investir nas coisas coloridas que pululam nos escaparates. Lê-las vai ser um projecto para a velhice...

O que falta nas prateleiras das livrarias?

- Porque será que há gente, em locais públicos, que insiste em iniciar conversações mesmo vendo que a outra pessoa está sossegada com um livro? E depois parece mal ignorar a pessoa, especialmente se for velhinha...

 

- Outro grande mistério é este: porque será que algumas autoras que encontro têm na informação biográfica "autora feminista" e outras "autora feminista radical"? Sempre que vejo isso lembro-me deste comentário, a um dos livros que li recentemente:

 

 

a1.png

 

 

A verdade é que para irritar o patriarcado é preciso bem pouco...Repita esta frase comigo leitora: sou um ser humano, não um capacho de entrada. Pronto, agora pode considerar-se radical. 

 

- Uma coisa que aprendi no Goodreads é que em algumas escolas neste mundo existem disciplinas de estudos sociais e de género e até cursos disso. Será que existe alguma coisa parecida aqui?

 

- É uma tristeza que os livros de teoria feminista sejam sempre excluídos da listas de títulos de filosofia e política "obrigatórios". Com sorte parecem lá um ou dois...

 

E esses serão os únicos que vão encontram disponíveis nas livrarias. Portugueses então, béu béu. Não era amoroso as livrarias terem uma secção de feminismo? 

 

- Um dos problemas desta constante exclusão, e que é transversal à produção literária e artística das mulheres, é que impede a ideia de continuidade (tão cara aos homens). Ok, aqui está esta obra de 1949  e depois? É possível que nada de teoria feminista tenha sido escrito nas décadas seguintes?

 

- E depois claro: fica a parecer uma coisa estática que caiu agora do céu. E que não produz resultados práticos, um falhanço. Há sempre alguém a dizer isto do activismo...Não vejo nada a mudar, para que é que me vou esforçar? Que pensamento tóxico...

Escrevendo na madrugada

Dado o nível de intimidade que temos neste blog, posso perfeitamente contar o que estava a fazer ontem de madrugada em vez de dormir: estava a acabar os apontamentos do Uma Vindicação dos Direitos da Mulher enquanto papava um sanduíche com queijo e fiambre e ouvia o Maluco beleza. Ainda foram umas quinze páginas de apontamentos - não sou nenhum génio ou versada em literatura é claro, anoto o que me parece importante e para ordenar os pensamentos. Há livros (sejam de ficção ou não) em que tem de ser assim. Nem tudo na vida é um page-turner que tem de ser acabado em duas noites para se saltar logo para outro. Estou a fazer mesmo para o Orlando [da Virginia Woolf], não tinha planeado mas assim que terminei as primeiras páginas pensei: rápido, preciso de papel e caneta. Não deve demorar muito. Ok, vou parar de falar do que li ou do que estou a ler.

Prendas e Ansiedade

Aproveito a ideia deste post para falar sobre oferecer livros: quem é que não ama? Mas surpresas e embrulhos não são coisas de que faça questão. Pode ser giro quando a pessoa acha que aquele livro é a nossa cara ou apanha uma dica, mas corre-se o risco de o livro acabar abandonado na estante ou ter de se gastar uma viagem para o ir trocar - se bem que também pode servir de desculpa: não é que goste disso, foi prenda (é o que eu digo do Crepúsculo, embora só o primeiro é que tenha sido). Podem verbalizar à minha frente que pretendem oferecer-me uma obra que prontamente disponibilizo a lista ou ligarem-me de dentro da livraria a perguntar o quero. E sim, já pedi para embrulhar livros para oferecer a mim própria. Coisas feitas de surpresa desafiam as minhas competências sociais, que é coisa com que não nasci muito dotada, e dão-me ansiedade - é algo que tenho em excesso. Consigo perceber a ideia de oferecer uma viagem surpresa, por exemplo, mas não quero. Passei um mês a falar e a planear a minha ida à FL e aquilo fica-me a um quase nada de distância. A maior prova de amor é largarem-me na livraria com a frase escolhe o que quiseres. Ambas as partes ficam a ganhar (vou escolher o mais caro) E depois podemos ir comer cheesecake! Sou fácil de contentar. 

Estado: complicado

Acho que é um privilégio um leitor ter na sua vida autores em que pode confiar - é um pouco como ter uma relação com alguém: saber do que o outro gosta de falar e como, sentirmos-nos confortáveis, com base na experiência sabermos que não seremos desapontados. Aceitando que um título talvez não tenha o mesmo impacto que outro lido antes e continuando a derivar momentos de felicidade. É verdade que ninguém está livre de desapontamentos, separações e corações partidos que terão de ser sarados comendo gelado directamente da caixa em frente à estante. Há uns dias tentei ler o God Help the Child da Toni - o Beloved é um portento, mas este não é. Nem o acabei sequer. Como já contado aqui, tive o mesmo problema com a Pearl. O exílio é um pequeno portento, A Flor Oculta foi um sofrimento. Com o John de quem até agora só consegui tragar a não-ficção (só de me lembrar do East of Eden...). Relações complicadas. Com o Murakami aconteceu um declínio gradual: já não achei o 1Q84 grande coisa e não melhorou com a Peregrinação do Rapaz Sem Cor... I'm telling you We are never ever, ever getting back together. E incorporar preocupações feministas nas minhas leituras também me obrigou a repensar o futuro de certas relações, a nossa visão da vida está em conflito So let me thank you for your time And try not to waste any more of mine. Pode ser difícil às vezes passar dos primeiros encontros....Ainda não perdi a esperança, Margaret. Tenho aqui à mão o Alias Grace, talvez possamos traçar o periclitante caminho em direcção a uma relação séria. É por isto que não tenho namorado, a minha vida literária é demasiado intensa. 

Simplicidade nos Livros

Os leitores costumam ter um fraco por livros gordinhos, com várias personagens e reviravoltas do enredo. Mas devíamos apreciar os que não têm nenhuma destas características. Livros pequenos: é espantosa a quantidade de livros incríveis que não passam das duzentas ou cem páginas. Os contos: um género mal amado. Ao contrário da crença geral penso que escrever contos é mais difícil do que escrever histórias longas. Exige mais precisão, contenção e maturidade. Muitos leitores dizem que não gostam de ler contos porque ficam sempre com a sensação de que faltou mais. De incompleto. Mas um conto quando é realmente bom basta-se a si mesmo. Kate Chopin tem um conto chamado The Story of an Hour que nem chega a três páginas. Curto, mas passa a mensagem sem precisar sequer de mais uma linha. O The Yellow Wallpaper da Perkins Gilman. Ou o Nariz do Gogol. A Katherine Mansfield e a Alice Munro. Oh! e a Sophia. Da mesma forma que há livros pequenos incríveis, também há até mesmo obras primas cujos fios narrativos partem de detalhes corriqueiros, que não mudam de cenário ou que têm muito poucas personagens. A Paixão Segundo H.G da Clarice é um exemplo. Tão denso e maravilhoso, só tem duas entidades - uma mulher e uma barata e começa banalmente com a mulher sentada à mesa do café. Alguns autores conseguem escrever histórias até a partir de uma personagem sentada numa cadeira no meio de uma sala vazia e é um privilégio lê-los (e mesmo quando nos obrigam a olhar para recantos escuros cá dentro)

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