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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Can you hear me, Major Tom?

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Há algo que consegue ser quase tão nauseante como estes bilionários gastarem porradas de dinheiro, dinheiro este de nenhum modo ganho pelo seu privilégio, fuga a obrigações fiscais (como assim?) e exploração de trabalhadores (nunca!), para satisfazerem as suas fantasias - foi a isto que chegou a humanidade, a um megalómano duelo de pichas...Talvez alguém esteja a tentar compensar alguma coisa. Tantas piadas que se podiam fazer, felizmente sou uma senhora. O que consegue ser igualmente nauseante é ver pessoas a aplaudir isto como se fosse um grande avanço para a humanidade.

 

"Tesla founder and serial entrepreneur, Elon Musk is one of these new rocket men. “Those who attack space,” he tweeted recently, “maybe don’t realise that space represents hope for so many people”. That may be true of course in a world where huge inequalities of wealth and privilege strip hope from the lives of billions of people. But (...) it obscures the extraordinary demands of escaping from Mother Earth, in terms of energy materials, people and time.

(Tirado daqui)

 

Uma pessoa não consegue evitar afundar-se de embaraço ao ler certos tweets. Se já não  estivéssemos habituados, claro. Não esperamos nada menos. Mas vamos lá ver: que muitas pessoas ao certo? Os muitos milhões que morrem de fome, que não têm acesso a cuidados de saúde básicos, uma casa, educação, que enfrentam precariedade no emprego ou o perderem durante a pandemia ou os que perderam tudo em desastres naturais extremos? Enquanto isso a riqueza destes tipos só aumentou.

 

Total American billionaire wealth stands at $4.6 trillion as of the stock market close on April 28, by our count. That’s up 35% from $3.4 trillion when markets opened on January 1, 2020, just as Covid-19 was beginning to take the world by storm.

(Tirado daqui)

 

O único beneficiado aqui é o ego (Benefit to humanity: 0%. Benefit to ego: 1,000,000,000%, como encontrei alguém a dizer com certeira sabedoria). Nada aqui está relacionado com a ciência ou com o planeta, mas dá-lhes jeito injectar nas nossas cabeças estas ideias espaciais que pouquíssimos poderão usufruir para desviar atenção dos problemas reais aqui na terra, nos quais eles têm uma grande quota de responsabilidade. Uma diversão. E vejam só o que estava a acontecer ao mesmo tempo que o mais recente capítulo da medição de pichas: cheias na Alemanha e Bélgica, calor insuportável no Canadá e na América, incêndios violentíssimos...

Pois sim, mal posso esperar por turistar no espaço! Mas primeiro tenho de começar um negócio numa garagem para a seguir obrigar os meus funcionários a mijarem para uma garrafa (e impedi-los de formarem qualquer organização, intimidando-os e levando-os à morte. Enquanto aceno lá de cima, mais rica do que nunca).

 

"Billionaires are not leaving the planet, they’re insulating themselves from the general public with bulletproof vehicles, battery-powered gated communities, and possibly even exclusive transport tunnels. They have the resources to maintain multiple homes and to have private jets on standby if they need to flee a natural disaster or public outrage.

We desperately need the public to see through the spectacle of the billionaire space race and recognize that they’re not laying the groundwork for a fantastic future, or even advancing scientific knowledge about the universe. They’re trying to extend our ailing capitalist system, while diverting resources and attention from the most pressing challenge the overwhelming majority of the planet faces."

(Tirado daqui)

 

Se a necessidade de satisfazer o ego é assim tanta, mandem construir bibliotecas e hospitais e espetem lá o vosso nome, mas prestem atenção ao que estão a fazer não vão prometer ventiladores e acabarem a enviar as máquinas erradas. De facto, é difícil imaginar maior espectáculo de capitalismo selvagem. E vamos ficar aqui sentados a aplaudir tanto mais quando sabemos perfeitamente que foi este egoísmo (e arrogância) que levou ao caos no planeta? Acham que eles vos vão estender a mão quando a água vos chegar ao pescoço? Depois de anos a acumular uma riqueza obscena e a atirar à nossa cara que se estão nas tintas (enquanto a fortuna de alguém aumentava durante a pandemia, as queixas dos trabalhadores mais que triplicaram) até eu consigo ver que a resposta não é um sim. Parem de ser cheerleaders de pessoas de merda.

 

Coisas em cima do teu pescoço

E outras violências

Agora que já ficámos a conhecer o desfecho do caso de George Floyd (aparentemente número de anos semelhante para o assassino de Bruno Candé) - dá muito em que pensar e algo que me ocorre é que a justiça que tanto se apregoa que é para todos, é uma espécie de unicórnio para não brancos, minorias e em muitos casos também mulheres: é improvável que alguma vez a vejamos e quando isso acontece esfregamos os olhos em descrença. É por isso que quem disse que estávamos a ser ridículas(os) por celebrarmos a prisão de uma certa figura de Hollywood uma vez que esta já se apresentava fisicamente debilitada, falhou completamente em entender o ponto.

Entretanto algumas forças policiais não receberam a nota e mataram uma pessoa cigana da mesma forma, que fetiche será este com pescoços, já sabemos que Sarah Everard foi também violada e um Militar da GNR foi multado por exibir o pénis a uma mulher que passava na rua em Sintra. Esta quase dá para rir e fazer uma piada marota (mas antes de a fazerem vale a pena lembrar que o polícia que violou e matou Sarah tinha sido reportado dias antes por exposição indecente). Pelo menos na América começa a existir maior consciencialização para o facto de que estamos a lidar com algo mais profundo e sistémico e não com apenas umas poucas maçãs podres.

Mas estará a acontecer o mesmo aqui? Dá-me a sensação que há pouco interesse em falar de violência policial sistémica especialmente com motivações racistas, pois quando acontecem os casos são abafados com conversas paralelas, desculpas e posições defensivas (o mesmo aconteceu quando se tentou falar dos monumentos como promotores de ideais coloniais e o fosso entre o número de notícias sobre demolições de bairros ilegais e o número de debates sobre a desigualdade habitacional é sem surpresa enorme). O cenário parece um tanto inquietante, de acordo com uma breve pesquisa pelos termos violência policial em Portugal.

Uma notícia do ano passado dá conta que há seis queixas por semana contra polícias, já uma outra de 2018 fala da infiltração da extrema-direita na PSP. O livro de Joana Gorjão Henriques Racismo no País dos Brancos Costumes também fala sobre isto:

 

"Os profissionais pior classificados na Escola da Polícia acabam em esquadras como as da Amadora e de Sintra, zonas para onde ninguém quer ir - precisamente porque ««há pretos»», conta um agente, que pediu para se manter anónimo. ««Na escola ouve-se que aquelas zonas são mais perigosas. E uma pessoa com medo é perigosa, reage.»» As descrições que faz são bastante gráficas (...) Parece dar razão às suspeitas de infiltração da extrema-direita nas forças policiais: há ««razias aos bairros»» programadas ««só porque sim»». ««Aquilo é visto como o território do inimigo.»»"

 

Ser contra o racismo e a xenofobia pode valer sanções, como tivemos a oportunidade de ver recentemente.

 

"Há elementos das várias forças de segurança que exteriorizam as suas ideias racistas e xenófobas, usam tatuagens e simbologias "neonazis", pertencem a grupos assumidamente racistas, isto é do conhecimento de todos e infelizmente as organizações nada fazem para expurgar estes "tumores do seio das forças de segurança."

(Tirado daqui)

 

Uma outra notícia do ano passado diz o seguinte:

 

"O Comité Anti-Tortura (CPT) do Conselho da Europa recomendou (...) às autoridades portuguesas a adoção de medidas firmes para prevenir maus-tratos policiais e garantir que os alegados casos sejam investigados de forma eficaz (...) Os alegados maus-tratos em causa consistiram sobretudo em agressões com chapadas, socos e pontapés no corpo e na cabeça, bem como espancamentos com cassetetes e ocorreram no momento de detenção, bem como durante o período de permanência na esquadra da polícia (...) os afrodescendentes, tanto portugueses como estrangeiros, parecem correr maior risco de maus tratos em meio policial"

 

Uma coisa que tenho vindo a notar é a frequência com que casos de violência doméstica envolvem polícias\militares. Isto também é perturbador. A violência doméstica em si já é chocante, mas se uma mulher sofre violência e\ou abuso sexual, se dirige a uma esquadra e encontra um agente que faz exactamente a mesma coisa e depois vai a tribunal e o juiz que também faz a mesma coisa...Onde fica a justiça? Não existe, porque o sistema é corrupto e está viciado.

Não estou a dar uma de Sid Vicious, péssima referência neste contexto na verdade, mas a dizer que precisamos de pensar seriamente no tipo de pessoas que estão a ingressar nas nossas instituições - no que permite que elas continuem lá apesar do seu comportamento - e se estamos confortáveis com a ideia de estas instituições oprimirem os mais vulneráveis. 

Pensamentos giros sobre privilégio

O nosso privilégio manifesta-se todos os dias. Recentemente, em quinto lugar na lista de artigos mais lidos do dia de um jornal estava um artigo sobre sumos detox de melancia. Mas o que tornou isto interessante é que logo acima no quarto lugar estava uma receita de tarte de leite condensado e natas. Pensei que era uma boa representação da humanidade. Struggle is real. E é. Mas por outro lado, não será uma preocupação para a maior parte da população mundial...Por exemplo, também há pouco tempo estava a ver um vídeo e comecei a pensar que isto da auto-ajuda requer sempre um certo de nível de privilégio, às vezes muito. Não sou o melhor público para este tipo de livros.

Nunca li nenhum tirando uma coisa chamada Profecia Celestina que apareceu cá em casa num saco e que era suposto mudar a minha vida, mas que entretanto já despachei. Não me lembro do conteúdo. Do que me lembro é que há anos li um livro, uma sátira que girava em torno de um título tipo auto-ajuda que realmente resultava - e ficou-me na memória uma cena em que o protagonista atira um monte de revistas [daquelas para senhoras] e chocolates para a frente de uma personagem feminina, desesperado para que ela volte a ser um humano normal. Em particular os livros que nos tentam enfiar a chamada positividade tóxica pela garganta abaixo, fazem-me lembrar uma série que costumava ouvir e que nas primeiras temporadas tinha uma cidade em que toda a gente soava alegre e positiva mas depois tinham sangue e tripas a escorrer pelas paredes.

Não deve ser esta a imagem que quem escreveu os livros deseja que eu tenha. Sou uma degenerada. Vendo bem, não é toda a gente que pode colocar todos os seus bens num monte e ver quais os que lhe trazem alegria, fazer um retiro na Índia ou acordar meia hora mais cedo para fazer exercício e escrever num diário. Hoje em dia há agendas\diários para registar tudo: leituras, crescimento pessoal, mudanças, até para registar os nossos sonhos. Ideia interessante, embora me pareça perfeitamente exequível num caderno qualquer - o capitalismo aproveita-se de tudo. Não estou a pisar nas vossas leituras e nos vossos hobbies, apenas reflectindo aleatoriamente. Não sou exemplo, paniquei um pouco porque achei que ia ficar sem água por um dia.

Enquanto isso, nos bancos da escola

Então, outro dia dei por mim na net a ver fichas com perguntas de História para crianças no primeiro ano. Temos coisas como: "o que é que os descobrimentos trouxeram de bom para Portugal" - esta uma pessoa ainda dá de barato - "que meio de transporte usaram os navegadores para descobrirem novas terras", formulação clássica. Os nossos programas são uma verdadeira relíquia parada no tempo, se calhar é por isso que os putos têm alergias...De serem obrigados a conviver com este mofo. Mas depois encontrei uma ficha que parecia inocente, perguntava que países se tornaram independentes após o 25 de Abril. Só que logo a seguir vinha: "qual foi o grande marco que Portugal deixou nestes países?" Quê? Presumo que a resposta não seja nenhuma das coisas que me ocorreram logo à mente, já que são um tanto fortes...De certo modo, este tipo de perguntas e a completa omissão de qualquer coisa que não soe grandiosa fazem sentido. Quem quer que os jovens aprendam a História real? A seguir ainda eram capazes de acreditar que não brancos e mulheres sempre existiram e que até fizeram coisas importantes...Isso seria o fim. 

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As opiniões sobre livros e filmes podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados e fascistas não são bem-vindos. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

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