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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Humidade e outras irritações

- Não posso ser a única a ter ódio a este tempo húmido. Ter as roupas sempre coladas ao corpo, não conseguir dormir decentemente...Tenho morrido lentamente por estes dias ainda por cima em alguns deu em chover sem que com isso viesse qualquer alívio do abafado. Percebe-se que não nasci para climas tropicais pois só associo chuva ao frio e ao Outono. Que já devia cá estar. 

- Tão mau como a humidade: ajuntamentos de pessoas que me fizeram fugir da Feira do Livro. Já não sei lidar com isso, não que soubesse antes mas...Não comprei nada. De um ponto de vista estritamente lógico talvez tenha sido melhor assim já que ando a ler bem devagar. Ainda bem que decidi que este seria o ano da não pressão literária, os números vão ser uma tristeza. Por outro lado as últimas três leituras tiveram cinco estrelas ou quase. Qualidade ganha à quantidade.

- Ouvi alguém dizer que as instituições mentais do século XIX foram uma extensão da caça às bruxas dos séculos anteriores. Só estava à procura de reviews da Met Gala no Youtube para ver os vestidos, mas acabei com esta ideia na cabeça. Não é mentira. As ideias são as mesmas só mudam de forma. 

- Algo tão mau como humidade e os ajuntamentos: jogos cuja a premissa é investigar um mistério, geralmente em sítios como mansões ou hospitais abandonados que se revelam cheios de monstros que é preciso eliminar - e a personagem feminina está vestida com algo ridículo (e revelador) como um micro vestido. A agonia é real. É verdade que Hollywood faz a mesma coisa, por exemplo, colocando mulheres a fugir de dinossauros com saltos altos...

- É incrível  ver como as personagens femininas continuam a ser julgadas com tanta severidade em comparação com as masculinas. As pessoas mais depressa simpatizam com um psicopata do que com uma mulher que é infeliz no seu casamento. Um caso paradigmático, de que já falei aqui antes, foi o de alguém que indicava Dolores [Lolita] como a personagem que mais detestava. Tenho novidades sobre isto: encontrei alguém a afirmar que não existe abuso nesta história...Também descobri que passado tanto tempo ainda há homens que acusam o The Color Purple de misandria - um grande disparate. Mas é preocupante que esta seja a primeira coisa em que eles pensem perante a história de uma rapariga negra pobre que é tratada como um lixo, abusada sexualmente pelo pai e depois pelo marido (e que encontra amor nos braços de outra mulher).

Os mundos diferentes de João e Maria

E outros temas

- Outro dia encontrei uma lista com os piores encontros românticos que pessoas tiveram e notei algo. Os homens - vamos dizer o João, tem histórias do género: esta tipa passou o filme todo ao telemóvel, não prestou a atenção a nada. Que rude. Ou: ela pediu os pratos mais caros do menu e depois disse que já tinha namorado e bazou. Realmente não são boas atitudes...Mas depois chegamos aos relatos das mulheres - vamos dizer a Maria, e são coisas do calibre de: estávamos a meio de uma conversa e ele do nada disse que queria que eu fosse a sua escrava sexual e que queria partilhar-me com os amigos. Ou: ele tentou meter a mão debaixo do meu vestido e depois riu-se e fez piadas sobre colocar certas coisas na minha bebida...Pelo menos não me tentou mesmo violar como o anterior. É insano.

- Há uns tempos um conhecido supermercado lançou um jogo de tabuleiro com cartas para ensinar as crianças sobre o ambiente e a ecologia. O interior da caixa tem plástico. 

- E enquanto o João conseguiu que o cinema lhe devolvesse o dinheiro do bilhete, é improvável que a Maria vá à polícia...Às vezes penso como é que explicaríamos a um ser vindo de outra galáxia o facto de considerarmos a violação um crime ao mesmo tempo que mostramos muito mais apoio aos violadores do que às vitimas. Para elas não está reservada nenhuma empatia ou compreensão.

- Na verdade não precisamos de música para fazer explodir a cabeça dos extraterrestres. Basta tentar explicar-lhes a lógica de se mandar raparigas para casa por terem os ombros a descoberto ou a saia demasiado curta e de se dizer que a roupa reveladora é responsável por violações, mas ao mesmo tempo jogadoras de voleibol terem de jogar de biquíni para atrair público masculino e patrocinadores. Ou as ginastas terem de vestir fatos que as obrigam a uma depilação integral da parte baixa. Ou podem tentar explicar porque é que um dia pessoas quiseram internar uma tenista negra enquanto o mesmo desporto está cheio de homens cujo o comportamento é deplorável e no entanto isso não causa qualquer clamor social. Pobre extraterrestre, a cabeça não vai aguentar.

- Ia perguntar-vos se têm visto os Jogos Olímpicos, mas na verdade o que eu gostaria de perguntar é: vale a pena hoje em dia este evento continuar a existir nos mesmos moldes? Aqui fica um artigo que encontrei sobre o assunto [no New York Times]

- Porque é que quando pesquiso por casas assombradas em Portugal só aparecem quintas e palácios, imóveis só passiveis de serem adquiridos por ricaços? Nunca aparece um T2 em Odivelas. Ou os espíritos são elitistas ou misericordiosos o suficiente para poupar os pobres a mais um problema, se bem que fantasmas não é nada em comparação com um tecto cheio de humidade que pode cair a qualquer momento.

Can you hear me, Major Tom?

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Há algo que consegue ser quase tão nauseante como estes bilionários gastarem porradas de dinheiro, dinheiro este de nenhum modo ganho pelo seu privilégio, fuga a obrigações fiscais (como assim?) e exploração de trabalhadores (nunca!), para satisfazerem as suas fantasias - foi a isto que chegou a humanidade, a um megalómano duelo de pichas...Talvez alguém esteja a tentar compensar alguma coisa. Tantas piadas que se podiam fazer, felizmente sou uma senhora. O que consegue ser igualmente nauseante é ver pessoas a aplaudir isto como se fosse um grande avanço para a humanidade.

 

"Tesla founder and serial entrepreneur, Elon Musk is one of these new rocket men. “Those who attack space,” he tweeted recently, “maybe don’t realise that space represents hope for so many people”. That may be true of course in a world where huge inequalities of wealth and privilege strip hope from the lives of billions of people. But (...) it obscures the extraordinary demands of escaping from Mother Earth, in terms of energy materials, people and time.

(Tirado daqui)

 

Uma pessoa não consegue evitar afundar-se de embaraço ao ler certos tweets. Se já não  estivéssemos habituados, claro. Não esperamos nada menos. Mas vamos lá ver: que muitas pessoas ao certo? Os muitos milhões que morrem de fome, que não têm acesso a cuidados de saúde básicos, uma casa, educação, que enfrentam precariedade no emprego ou o perderem durante a pandemia ou os que perderam tudo em desastres naturais extremos? Enquanto isso a riqueza destes tipos só aumentou.

 

Total American billionaire wealth stands at $4.6 trillion as of the stock market close on April 28, by our count. That’s up 35% from $3.4 trillion when markets opened on January 1, 2020, just as Covid-19 was beginning to take the world by storm.

(Tirado daqui)

 

O único beneficiado aqui é o ego (Benefit to humanity: 0%. Benefit to ego: 1,000,000,000%, como encontrei alguém a dizer com certeira sabedoria). Nada aqui está relacionado com a ciência ou com o planeta, mas dá-lhes jeito injectar nas nossas cabeças estas ideias espaciais que pouquíssimos poderão usufruir para desviar atenção dos problemas reais aqui na terra, nos quais eles têm uma grande quota de responsabilidade. Uma diversão. E vejam só o que estava a acontecer ao mesmo tempo que o mais recente capítulo da medição de pichas: cheias na Alemanha e Bélgica, calor insuportável no Canadá e na América, incêndios violentíssimos...

Pois sim, mal posso esperar por turistar no espaço! Mas primeiro tenho de começar um negócio numa garagem para a seguir obrigar os meus funcionários a mijarem para uma garrafa (e impedi-los de formarem qualquer organização, intimidando-os e levando-os à morte. Enquanto aceno lá de cima, mais rica do que nunca).

 

"Billionaires are not leaving the planet, they’re insulating themselves from the general public with bulletproof vehicles, battery-powered gated communities, and possibly even exclusive transport tunnels. They have the resources to maintain multiple homes and to have private jets on standby if they need to flee a natural disaster or public outrage.

We desperately need the public to see through the spectacle of the billionaire space race and recognize that they’re not laying the groundwork for a fantastic future, or even advancing scientific knowledge about the universe. They’re trying to extend our ailing capitalist system, while diverting resources and attention from the most pressing challenge the overwhelming majority of the planet faces."

(Tirado daqui)

 

Se a necessidade de satisfazer o ego é assim tanta, mandem construir bibliotecas e hospitais e espetem lá o vosso nome, mas prestem atenção ao que estão a fazer não vão prometer ventiladores e acabarem a enviar as máquinas erradas. De facto, é difícil imaginar maior espectáculo de capitalismo selvagem. E vamos ficar aqui sentados a aplaudir tanto mais quando sabemos perfeitamente que foi este egoísmo (e arrogância) que levou ao caos no planeta? Acham que eles vos vão estender a mão quando a água vos chegar ao pescoço? Depois de anos a acumular uma riqueza obscena e a atirar à nossa cara que se estão nas tintas (enquanto a fortuna de alguém aumentava durante a pandemia, as queixas dos trabalhadores mais que triplicaram) até eu consigo ver que a resposta não é um sim. Parem de ser cheerleaders de pessoas de merda.

 

Coisas em cima do teu pescoço

E outras violências

Agora que já ficámos a conhecer o desfecho do caso de George Floyd (aparentemente número de anos semelhante para o assassino de Bruno Candé) - dá muito em que pensar e algo que me ocorre é que a justiça que tanto se apregoa que é para todos, é uma espécie de unicórnio para não brancos, minorias e em muitos casos também mulheres: é improvável que alguma vez a vejamos e quando isso acontece esfregamos os olhos em descrença. É por isso que quem disse que estávamos a ser ridículas(os) por celebrarmos a prisão de uma certa figura de Hollywood uma vez que esta já se apresentava fisicamente debilitada, falhou completamente em entender o ponto.

Entretanto algumas forças policiais não receberam a nota e mataram uma pessoa cigana da mesma forma, que fetiche será este com pescoços, já sabemos que Sarah Everard foi também violada e um Militar da GNR foi multado por exibir o pénis a uma mulher que passava na rua em Sintra. Esta quase dá para rir e fazer uma piada marota (mas antes de a fazerem vale a pena lembrar que o polícia que violou e matou Sarah tinha sido reportado dias antes por exposição indecente). Pelo menos na América começa a existir maior consciencialização para o facto de que estamos a lidar com algo mais profundo e sistémico e não com apenas umas poucas maçãs podres.

Mas estará a acontecer o mesmo aqui? Dá-me a sensação que há pouco interesse em falar de violência policial sistémica especialmente com motivações racistas, pois quando acontecem os casos são abafados com conversas paralelas, desculpas e posições defensivas (o mesmo aconteceu quando se tentou falar dos monumentos como promotores de ideais coloniais e o fosso entre o número de notícias sobre demolições de bairros ilegais e o número de debates sobre a desigualdade habitacional é sem surpresa enorme). O cenário parece um tanto inquietante, de acordo com uma breve pesquisa pelos termos violência policial em Portugal.

Uma notícia do ano passado dá conta que há seis queixas por semana contra polícias, já uma outra de 2018 fala da infiltração da extrema-direita na PSP. O livro de Joana Gorjão Henriques Racismo no País dos Brancos Costumes também fala sobre isto:

 

"Os profissionais pior classificados na Escola da Polícia acabam em esquadras como as da Amadora e de Sintra, zonas para onde ninguém quer ir - precisamente porque ««há pretos»», conta um agente, que pediu para se manter anónimo. ««Na escola ouve-se que aquelas zonas são mais perigosas. E uma pessoa com medo é perigosa, reage.»» As descrições que faz são bastante gráficas (...) Parece dar razão às suspeitas de infiltração da extrema-direita nas forças policiais: há ««razias aos bairros»» programadas ««só porque sim»». ««Aquilo é visto como o território do inimigo.»»"

 

Ser contra o racismo e a xenofobia pode valer sanções, como tivemos a oportunidade de ver recentemente.

 

"Há elementos das várias forças de segurança que exteriorizam as suas ideias racistas e xenófobas, usam tatuagens e simbologias "neonazis", pertencem a grupos assumidamente racistas, isto é do conhecimento de todos e infelizmente as organizações nada fazem para expurgar estes "tumores do seio das forças de segurança."

(Tirado daqui)

 

Uma outra notícia do ano passado diz o seguinte:

 

"O Comité Anti-Tortura (CPT) do Conselho da Europa recomendou (...) às autoridades portuguesas a adoção de medidas firmes para prevenir maus-tratos policiais e garantir que os alegados casos sejam investigados de forma eficaz (...) Os alegados maus-tratos em causa consistiram sobretudo em agressões com chapadas, socos e pontapés no corpo e na cabeça, bem como espancamentos com cassetetes e ocorreram no momento de detenção, bem como durante o período de permanência na esquadra da polícia (...) os afrodescendentes, tanto portugueses como estrangeiros, parecem correr maior risco de maus tratos em meio policial"

 

Uma coisa que tenho vindo a notar é a frequência com que casos de violência doméstica envolvem polícias\militares. Isto também é perturbador. A violência doméstica em si já é chocante, mas se uma mulher sofre violência e\ou abuso sexual, se dirige a uma esquadra e encontra um agente que faz exactamente a mesma coisa e depois vai a tribunal e o juiz que também faz a mesma coisa...Onde fica a justiça? Não existe, porque o sistema é corrupto e está viciado.

Não estou a dar uma de Sid Vicious, péssima referência neste contexto na verdade, mas a dizer que precisamos de pensar seriamente no tipo de pessoas que estão a ingressar nas nossas instituições - no que permite que elas continuem lá apesar do seu comportamento - e se estamos confortáveis com a ideia de estas instituições oprimirem os mais vulneráveis. 

Quem Escreve Aqui

Feminista * plus size * comenta uma variedade de assuntos e acha que tem graça * interesse particular em livros, História, doces e recentemente em filmes * talento: saber muitas músicas da Taylor Swift de cor * Blogger há uma década * às vezes usa vernáculo * toda a gente é bem-vinda, menos se vierem aqui promover ódio, esses comentários serão eliminados * obrigada pela visita

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