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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Frases inspiradoras: uma reflexão

Aquelas frases inspiradoras que o pessoal gosta de postar dão que pensar...São muito populares: ama o teu corpo como ele é, não ligues à opinião dos outros, sê único e original. Acho que isto são tudo coisas boas, mas às vezes tenho dúvidas se toda a gente que partilha frases relacionadas acredita realmente nelas e na sua aplicação prática ou se encaram só como coisas que soam bem...É elevado o número de pessoas que dizem que devemos amar o nosso corpo e a seguir postam dicas para se ficar com um corpo de Verão ou como ver se temos o corpo “apropriado” para uma roupa...Algo a dizer para não termos vergonha de nós mesmos e logo a seguir fazem slut-shaming. Nem se apercebem da contradição. Como pessoas que postam frases sobre a paz e a união e a seguir dizem que aquela gente devia voltar para o seu país e serem ajudadas lá [estas pessoas assustam-me deveras]. 

 

Vocês devem aceitar o vosso corpo desde que sejam magras, se não forem ou tiverem “defeitos” apressem-se a mudar. Podem mandar a opinião dos outros à fava, desde que se preocupem tanto que nunca pisem essa importante linha que separa a boa rapariga da que não é. Um rapariga que decida que quer ser engenheira aeronáutica, que prefira falar de indie rock dos anos 80 em vez de falar do homem dos seus sonhos, que viaje sozinha por aí, que tenha uma juba rebelde por escovar - entra na categoria de ameaça. A existência de mulheres confiantes coloca em perigo as bases em que a sociedade assenta. É chocante o quão cedo o espírito de uma rapariga é esmagado e sufocado. Se o mundo realmente promovesse a nossa auto-estima, por exemplo, não ficaríamos tristes ou com ódio porque cinco amigas nossas já casaram e três estão prenhes - ficamos porque interiorizámos a ideia de que esse é o melhor caminho para uma mulher e que todos os outros são meras substituições.

 

A ideia de sermos únicos e abraçarmos a estranheza interior também só é válida se isso se traduzir em algo cool, vendável - outro dia tirei gelado do congelador e depois em vez de o enfiar de volta lá, enfiei-o no frigorífico e só percebi passado mais de uma hora quando aquilo já estava uma sopa. Foi engraçado (a caixa estava quase vazia), mas alguém que não tem forças para se levantar da cama, que se esconde numa casa de banho em pânico durante uma festa ou que acaba a espetar as unhas no braço e faz aparecer um filetezinho de sangue - tem bem menos hipóteses de aparecer numa sitcom.

 

Não nos esqueçamos: ainda vivemos num mundo rígido, estratificado, obcecado pela perfeição e implacável. Que pega em ideias importantes, decora-as com flores e fundos bonitos e depois pune quem tenta segui-las. Será que realmente queremos mulheres com auto-estima, gordas de biquíni à vontade na praia? Postar frases é fácil...Mudar realmente de mentalidade é que é difícil. Foi não há muito tempo que percebi o quanto [tive que arranjar um bastão mental para bater na ideia que me vem à cabeça quando vejo uma mulher ser eleita para um cargo: espero que ela não seja corrupta ou inepta senão nunca mais vão eleger nenhuma! Ideia sexista: os homens fazem isso desde sempre e nunca deixaram de ser eleitos para nada] É de facto um trabalho em progresso. Eliminarmos toda a hipocrisia para chegar ao que realmente significa amarmos a nossa frágil e única carne.

Eurovisão 2018 - apontamento breve

Eis a razão porque gosto da música da Netta: porque é uma combinação capaz de implodir a galáxia, canção infecciosa + feminismo + intérprete gorda confiante. Estas últimas estão bem posicionadas na lista de coisas que a sociedade odeia deveras, porque minam as suas bases. Como feminista estou consciente de que o mundo quer continuar a ver-nos como objectos e como mulher acima do peso em particular também estou consciente de que há muitas coisas que não é suposto fazer, como sentir-me uma criatura bonita e estar num palco mundial a fazer a minha cena. Tristemente muitos dos comentários que vi mostram isso mesmo. No fim da noite (ou no fim do dia, dependendo de onde estão) esta é a mensagem que podemos tirar do que vimos: não importa que vocês sejam mulheres, negros, gordos (ou que decidam colocar dois bailarinos masculinos a actuar na vossa música fofa, fazendo a vossa parte na implosão da galáxia. E de contractos), vocês são importantes e podem ter uma chance naquele palco (e noutros). "Não precisamos de nos encaixar nos padrões normais de como devemos ser, pensar, falar ou criar". E quando as pessoas enchem o coração de coisas ruins e aproveitam qualquer detalhe para agirem como bullies, elas só estão a perder - porque não vêem a beleza desta mensagem e a beleza das coisas diferentes. 

Doenças mentais: olha-se, mas não se vê

Há coisas que me dão vontade de atirar livros para a sarjeta. Por exemplo: romantização de abusos sexuais e violência, assunto já abordado recentemente aqui, e uso de estereótipos para falar de doenças mentais. Concentremo-nos nesta última e no caso de um livro YA que tentei ler algures o mês passado. Uma história entre um miúdo que aparentava ter algo dentro do espectro autista e uma miúda esquizofrénica...Um combo explosivo: ele é um idiota sabe tudo que não dá a mínima para os sentimentos de ninguém e ela parece sempre à beira de ter um ataque e pegar numa faca. Às tantas descobrimos que a mãe de um deles está num hospício. 

 

Já é mau quando alguém fala de algo sem conhecimento, mas passar isso para um livro para ser lido por muita gente (incluindo jovens) é ainda pior. Se vocês estão a escrever uma obra e por alguma razão decidem que a vossa personagem será um botânico - se os factos estiverem incorrectos podemos dizer que vocês falharam na parte da pesquisa. Mas inserir um problema mental na narrativa com base em ideias feitas (como a de que todas as pessoas no espectro autista são misantropas geniais) pode prejudicar pessoas reais que já lidam com muitas dificuldades e não precisam que alguém ajude a perpetuar estereótipos e a aumentar ainda mais o estigma. É literalmente pegar nas características mais sensacionalistas de uma doença mental e usá-las para suportar uma narrativa. Mais útil seria abrirem uma empresa de limpar janelas...

 

"One of the things that baffles me (and there are quite a few) is how there can be so much lingering stigma with regards to mental illness, specifically bipolar disorder. In my opinion, living with manic depression takes a tremendous amount of balls. Not unlike a tour of duty in Afghanistan (though the bombs and bullets, in this case, come from the inside)"

 

Depois há a diabolização: seguindo canais no Youtube por uns poucos de anos dei com tantos jogos de terror passados em asilos ou cujos protagonistas eram depressivos\ esquizofrénicos\sofriam de stress pós-traumático\tudo isto junto e onde isso era o motivo do crime, que se recebesse um euro por cada já estaria rica. Claro que vocês podem dizer que ninguém vai jogar\ver um jogo destes e pensar "puxa, não sabia que nos hospitais psiquiátricos as pessoas batiam com as cabeças contra as paredes e se entusiasmavam a olhar para pilhas de cadáveres". Mas é a imediata associação entre a doença mental e o mal que é o problema. Li isto algures e está certo: instituições psiquiátricas não deviam ser cenário para o terror. Faz-me lembrar aquelas cenas nas telenovelas quando as protagonistas são fechadas à  força em "clínicas" onde lhes injectam coisas. Uma estupidez. Depois de largar o tal YA fui ler Furiously Happy: A Funny Book About Horrible Things da Jenny Lawson

 

Um conjunto de textos onde ela fala dos seus distúrbios mentais e como foi aprendendo a viver com eles. Gostei. O ano passado li Depois a Louca Sou Eu da Tati Bernardi e o Wishful Drinking da Carrie Fisher e também gostei de ambos. Abordam outros dois problemas: não se levar a doença mental a sério. Coisas como - "estás triste porque é aquela altura do mês", "porque é Inverno", "porque entornaste o pacote do leite"..."Sai de casa e anima-te". "Pára de ser mimado(a)". No fundo como se a culpa fosse vossa. Além disso as doenças mentais não geram empatia. Se vocês partirem uma perna as pessoas olham e entendem; se tiverem um cancro a tendência é elogiarem a vossa força. O que é certo, pois lutaram contra algo terrível...Mas ninguém vos vai parabenizar por lutarem todos os dias contra uma depressão crónica:

 

"Quando alguém que sofre de câncer luta, se recupera e entra em remissão, elogiamos sua bravura (...) Quando alguém que sofre de depressão luta, se recupera e entra em remissão, raramente tomamos conhecimento, pois muitos sofrem em segredo (...) Espero um dia viver num mundo em que a luta particular pela estabilidade mental seja vista com orgulho (...) em vez de vergonha"

 

O Furiously Happy é um livro capaz de arrancar gargalhadas. Não temos como segurar o riso quando ela fala de coisas como os guaxinins empalhados ou das discussões que tem com o marido. Mas há ali também muitos dias negros e muita luta para voltar à superfície. Quando alguém decide falar disto abertamente está a ajudar a derrubar tabus e a levar outras pessoas a fazer o mesmo. A contarem as suas experiências. Também é muito importante a experiência no feminino: no Depois a Louca Sou Eu, Tati tem um texto em que fala do efeito que os antidepressivos tiveram na sua libido. Se podia eu encontrar um artigo de um especialista sobre o assunto? Podia. Mas prefiro que seja uma mulher que já passou por isso a contar. Por acaso o último livro que li também era um conjunto de textos que a autora,  Ana Cássia Rebelo, foi publicando no seu blog com o mesmo nome: Ana de Amsterdam. Entre outras coisas fala de depressão. É cru, honesto e está belamente escrito. 

 

"Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita"

 

De facto, estes tabus são tanto mais estranhos se pensarmos que o famoso manual de transtornos mentais deve ter para aí umas 900 páginas. É demasiada gente fodida da cabeça para se ignorar...

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