Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

As estátuas precisam de continuar a cair

25.jpg

 

Vejo muitas vezes gente orgulhosa pelo português ser falado em vários países, mas vejo muito menos gente a discutir como a língua portuguesa foi imposta, tornando-se um instrumento de submissão e controlo e assim ajudando a perpetuar o colonialismo. Falar de colonialismo é também falar de coisas que parecem benignas e normais, desconstruindo o que está por trás. Não pude deixar de me lembrar da questão das estátuas. Fazia tanta falta debater seriamente como elas podem ser instrumentos de opressão e de manipulação da História.

 

É curioso que tantas pessoas tenham saltado logo a dizer que tais estátuas não têm mal nenhum e que vandalismo bárbaro atirá-las ao rio. Ou que não têm assim tanta importância. Ora, se não têm e isto é tudo um exagero porque é que quando se fala em homenagear alguém há sempre quem sugira uma estátua ou um busto...Ou dar esse nome a uma rua ou a um aeroporto? Não é porque achamos que essa pessoa contribuiu para o país com os seus talentos e arte, então merece ser homenageada e merece que as gerações vindouras conheçam o seu nome? Um exemplo? A verdade é que quando se ergue uma estátua de alguém, uma escolha foi feita e essa escolha vai projectar uma ideia da História. 

 

A1 (2).jpg

(Protesters throw statue of Edward Colston into Bristol harbour)

 

Não é de admirar a tendência dos ditadores de se espalharem, a si e aos seus símbolos, por todo o lado. Não será por mera opção estética que a Coreia do Norte está cheia de estátuas dos líderes...Não é apenas uma questão de culto do líder mas também de construir uma versão histórica que sirva os seus propósitos, não importa quão distorcida essa versão seja.

 

Há efectivamente um impacto e é estranho ignorá-lo  porque não nos agrada que o racismo esteja em debate...Lembro-me de ter consultado, já não sei em que ano, as propostas mais votadas no orçamento participativo da CML e duas eram monumentos de homenagem. E acabo de descobrir agora que em 2017 foi aprovado que a Praça do Parlamento em Londres iria ter a primeira estátua de uma mulher, da sufragista millicent fawcett - agora imaginem-se a passear num jardim entre várias estátuas de pessoas célebres e não há nenhuma mulher...Que imagem passa?

 

Talvez nem nos apercebamos da ausência e isso por si só já diz muito. Também é estranho que a primeira pergunta de muita gente seja: mas porque é que estão arrancar a pobre estátua? E não: porque é que aquilo está lá em primeiro lugar? É uma táctica clássica: é muito mais fácil apontar que coisas como quotas ou autocarros só para mulheres são medidas ridículas do que analisar o que leva a que tenham de ser aplicadas...Na verdade, tudo serve para desviar a conversa. Para as feministas isto é o quotidiano:  quase terem de pedir desculpa por falar de igualdade porque alguém em 2012 viu um vídeo de um minuto de uma rapariga a dizer que os homens deviam morrer.

 

"(...) we need to ask ourselves, are the white men we choose to commemorate the people we truly want to celebrate? Are their deeds the stuff of heroism? Do these statues inform? Do they educate? Do they help us be the nation we imagine ourselves to be? Do they move us closer to justice?"

(Tirado daqui)

 

E sim, pobres estátuas porque me pareceu que havia gente a mostrar mais pena pelas ditas estarem a ser atiradas à água do que pelos seres humanos que foram escravizados ou pelos que continuam a morrer nas águas do Mediterrâneo e a serem metidos em campos de concentração. A língua e as estátuas são coisas que funcionam como agregadores da identidade nacional e mexer com isso provoca um frisson...Mas ignorar a fotografia completa da História do vosso país em favor de uma imagem cortada ou decorada com estrelinhas não vai conduzir ao progresso, bem pelo contrário. E para erguer de novo aquele retrato já temos voluntários que chegue. A cara pode mudar mas é claro que o cheiro é sempre o mesmo.

 

 

Faz-me lembrar quando partilhei aqui a notícia de que a estátua do beijo representando a famosa foto tirada nas celebrações do fim da Segunda Guerra, tinha sido vandalizada. Houve quem tivesse ficado irritado porque se não é uma estátua tão bonita e romântica, pelo menos nada de mal ela tem. Isto mostra como os grupos dominantes conseguem manipular a História - e melhor para eles que continuemos aqui a achar tudo normal. Uma normalidade assassina. Pode-se argumentar que a foto não vai desaparecer. É verdade. Provavelmente nem o Portugal dos Pequenitos ou o Padrão dos Descobrimentos. Mas podemos fazer o que esses monumentos não fazem: procurar pelo resto da fotografia (fora da História oficial) e falar sobre isso.

 

cfedf7e29fb0cda5e7983f04262989e7.jpg

(Harriet Tubman projected onto the Robert E. Lee monument in Richmond, Virginia)

 

Claro que falar de genocídios, roubos e violações em massa não é lá muito engraçado, mas esta foi a verdade para milhões de seres humanos cujas histórias não podem ser ignoradas em favor de uma ilusão colectiva de grandeza mística que tresanda a mofo. Há quem se escude no argumento de que estas estátuas têm um valor educativo e histórico que não pode ser apagado - bastante irónico, devo dizer. Depois de séculos a apagar da História a experiência de quem não é um homem branco, querer um símbolo racista fora do espaço público é apelidado de censura. E podemos ver o nível de valor educativo pela imagem que ilustra o artigo australiano que citei - a estátua de James Cook que continua a ter a legenda: "Discovered this territory 1770". Claro que as estátuas são parte de um sistema e isto lembra-me outro argumento: que tudo isto é passado, temos é que avançar.

 

Uma ideia perigosa pois cega para o facto de o racismo e as desigualdades que existem hoje terem raízes no passado. Se menciono aqui o facto de as mulheres durante tanto tempo terem sido excluídas das universidades não é por simples arrelia, é porque isso teve impacto no fosso que existe hoje entre géneros. Como compreender este fosso sem olhar para trás? Não dá. E daí emergem as ideias que este fosso não é real, que é criado por diferenças biológicas...E assim é com o racismo. É preciso debater o passado colonial e os mitos criados à sua volta para se entender o racismo hoje. Este argumento culpa as vítimas: elas é que estão a causar confusão, em vez de estarem quietas...E mostra algo que também está base de tudo isto: a completa falta de empatia para com o outro.

 

Festival da Canção 2019

Fui ouvir as músicas do Festival da Canção. Gostaria agora de saber para onde envio a minha morada para receber o prémio por ter conseguido ouvir aquilo tudo sem cometer actos extremos. Na verdade, acho que não vou ter direito ao prémio porque de algumas só consegui ouvir um minuto. Tirando a Surma, que pelo menos é uma proposta diferente, tudo o resto é genérico e esquecível. Também não percebo porque se aplaude que todas as músicas sejam em português quando aquelas letras são tão pobres...E sim, ouvi a tal cantiga sobre partir tecnologia. Não entendo o entusiasmo. Este cenário não me deixa com muita vontade de ver o programa. Não costumo ver TV por isso se vou ficar sentada a ver algo, esse algo tem de valer a pena. O ano passado vi o Festival todo e no fim sentia-me alienada.  

A minha estante não precisa de ajuda

Como para variar estou sempre fora de tudo, não sabia que o minimalismo ainda não tinha passado de moda...A ideia de uma casa hiper funcional, quase sem móveis e com paredes brancas não me atrai, do mesmo modo que certas imagens de interiores de casas em revistas ou imagens de certas salas de leitura não me atraem...São modernas mas não têm calor, boas para exibir mas desconfortáveis para quem queira realmente ler.

 

3.jpg

(que raio é isto?)

 

Definitivamente não preciso de um closet para a minha roupa e ainda menos para os sapatos. Nisto sou minimalista, mesmo antes de a coisa estar na moda! Devia ter escrito um livro...Claro que há pessoas que atribuem uma importância diferente a esses itens e de vez em enquanto precisam de se livrar de alguns. Mas sempre pensei que isso era algum comum...Mandar coisas fora, substituí-las por outras com o tempo e desde que não se caia em extremos tudo bem. Só que agora parece que existem gurus para nos ensinar a deitar fora e a arrumar coisas. Nada como pegar em algo corriqueiro e dar-lhe um nome e uma roupagem chique. É como os livros de auto-ajuda que agora toda a gente chama pelo nome mais catita de livros de desenvolvimento pessoal...

 

Nunca fazemos nada bem. Precisamos que nos ensinem o que vestir, como sermos melhores na cama, como devemos educar os cães, os filhos...Fónix. Se vocês querem vender roupa no OLX, doar os tupperwares para a caridade ou atirar os vasos chineses pela janela, é ok. Agora vamos lá manter essas ideias longe das nossas estante e dos nosso livros. Eu não quero uma estante minimalista e hiper organizada. Ontem encontrei um artigo com o título: What we gain from keeping books – and why it doesn’t need to be ‘joy’.

 

 

4.jpg

 

 

"Our book collections record the narrative of expansion, diversion, regression, terror and yet-to-be-discovered possibilities of our reading life." Exactamente! Uma estante com livros é um registo da vida do seu possuidor. Não tem de ser limpa, organizada e ter um propósito. A mera ideia de avaliar um livro pela premissa - “Will these books be beneficial to your life moving forward?” - não faz sentido. Suponho que devo deitar fora o meu livro sobre cientistas já que não faz parte dos meus objectivos tornar-me uma. 

 

E de caminho deito também fora o Arquipélago de Gulag que não é alegre ("But I can’t imagine what a blank collection of physical books I’d be left with if they had to spark joy. (Goodbye Jelinek, Bernhard and Kafka, hello books with photos of hippo feet.)" Acho que metade da minha estante iria ao ar...Ou o Lolita porque não pretendo aplicar os valores do narrador para me tornar uma pessoa melhor.

 

Mesmo aquele livro meloso que vocês amaram em miúdas, aquele com a lombada já toda marcada ou aquele que se revelou uma desilusão são importantes. Porque nada é perfeito e nem sempre ordenado conforme queremos. Faz parte. Arranjemos um cantinho confortável com livros, muitos, à nossa volta. E fiquemos em paz com o facto de não dobrarmos roupa com perfeição. É o que tenho para dizer.

Frases inspiradoras: uma reflexão

Aquelas frases inspiradoras que o pessoal gosta de postar dão que pensar...São muito populares: ama o teu corpo como ele é, não ligues à opinião dos outros, sê único e original. Acho que isto são tudo coisas boas, mas às vezes tenho dúvidas se toda a gente que partilha frases relacionadas acredita realmente nelas e na sua aplicação prática ou se encaram só como coisas que soam bem...É elevado o número de pessoas que dizem que devemos amar o nosso corpo e a seguir postam dicas para se ficar com um corpo de Verão ou como ver se temos o corpo “apropriado” para uma roupa...Algo a dizer para não termos vergonha de nós mesmos e logo a seguir fazem slut-shaming. Nem se apercebem da contradição. Como pessoas que postam frases sobre a paz e a união e a seguir dizem que aquela gente devia voltar para o seu país e serem ajudadas lá [estas pessoas assustam-me deveras]. 

 

Vocês devem aceitar o vosso corpo desde que sejam magras, se não forem ou tiverem “defeitos” apressem-se a mudar. Podem mandar a opinião dos outros à fava, desde que se preocupem tanto que nunca pisem essa importante linha que separa a boa rapariga da que não é. Um rapariga que decida que quer ser engenheira aeronáutica, que prefira falar de indie rock dos anos 80 em vez de falar do homem dos seus sonhos, que viaje sozinha por aí, que tenha uma juba rebelde por escovar - entra na categoria de ameaça. A existência de mulheres confiantes coloca em perigo as bases em que a sociedade assenta. É chocante o quão cedo o espírito de uma rapariga é esmagado e sufocado. Se o mundo realmente promovesse a nossa auto-estima, por exemplo, não ficaríamos tristes ou com ódio porque cinco amigas nossas já casaram e três estão prenhes - ficamos porque interiorizámos a ideia de que esse é o melhor caminho para uma mulher e que todos os outros são meras substituições.

 

A ideia de sermos únicos e abraçarmos a estranheza interior também só é válida se isso se traduzir em algo cool, vendável - outro dia tirei gelado do congelador e depois em vez de o enfiar de volta lá, enfiei-o no frigorífico e só percebi passado mais de uma hora quando aquilo já estava uma sopa. Foi engraçado (a caixa estava quase vazia), mas alguém que não tem forças para se levantar da cama, que se esconde numa casa de banho em pânico durante uma festa ou que acaba a espetar as unhas no braço e faz aparecer um filetezinho de sangue - tem bem menos hipóteses de aparecer numa sitcom.

 

Não nos esqueçamos: ainda vivemos num mundo rígido, estratificado, obcecado pela perfeição e implacável. Que pega em ideias importantes, decora-as com flores e fundos bonitos e depois pune quem tenta segui-las. Será que realmente queremos mulheres com auto-estima, gordas de biquíni à vontade na praia? Postar frases é fácil...Mudar realmente de mentalidade é que é difícil. Foi não há muito tempo que percebi o quanto [tive que arranjar um bastão mental para bater na ideia que me vem à cabeça quando vejo uma mulher ser eleita para um cargo: espero que ela não seja corrupta ou inepta senão nunca mais vão eleger nenhuma! Ideia sexista: os homens fazem isso desde sempre e nunca deixaram de ser eleitos para nada] É de facto um trabalho em progresso. Eliminarmos toda a hipocrisia para chegar ao que realmente significa amarmos a nossa frágil e única carne.

Quem Escreve Aqui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

Calendário

Setembro 2020

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930

Sumo que já se bebeu

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

A Ler...

Algo especial a dizer?