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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Eurovisão 2018 - apontamento breve

Eis a razão porque gosto da música da Netta: porque é uma combinação capaz de implodir a galáxia, canção infecciosa + feminismo + intérprete gorda confiante. Estas últimas estão bem posicionadas na lista de coisas que a sociedade odeia deveras, porque minam as suas bases. Como feminista estou consciente de que o mundo quer continuar a ver-nos como objectos e como mulher acima do peso em particular também estou consciente de que há muitas coisas que não é suposto fazer, como sentir-me uma criatura bonita e estar num palco mundial a fazer a minha cena. Tristemente muitos dos comentários que vi mostram isso mesmo. No fim da noite (ou no fim do dia, dependendo de onde estão) esta é a mensagem que podemos tirar do que vimos: não importa que vocês sejam mulheres, negros, gordos (ou que decidam colocar dois bailarinos masculinos a actuar na vossa música fofa, fazendo a vossa parte na implosão da galáxia. E de contractos), vocês são importantes e podem ter uma chance naquele palco (e noutros). "Não precisamos de nos encaixar nos padrões normais de como devemos ser, pensar, falar ou criar". E quando as pessoas enchem o coração de coisas ruins e aproveitam qualquer detalhe para agirem como bullies, elas só estão a perder - porque não vêem a beleza desta mensagem e a beleza das coisas diferentes. 

Doenças mentais: olha-se, mas não se vê

Há coisas que me dão vontade de atirar livros para a sarjeta. Por exemplo: romantização de abusos sexuais e violência, assunto já abordado recentemente aqui, e uso de estereótipos para falar de doenças mentais. Concentremo-nos nesta última e no caso de um livro YA que tentei ler algures o mês passado. Uma história entre um miúdo que aparentava ter algo dentro do espectro autista e uma miúda esquizofrénica...Um combo explosivo: ele é um idiota sabe tudo que não dá a mínima para os sentimentos de ninguém e ela parece sempre à beira de ter um ataque e pegar numa faca. Às tantas descobrimos que a mãe de um deles está num hospício. 

 

Já é mau quando alguém fala de algo sem conhecimento, mas passar isso para um livro para ser lido por muita gente (incluindo jovens) é ainda pior. Se vocês estão a escrever uma obra e por alguma razão decidem que a vossa personagem será um botânico - se os factos estiverem incorrectos podemos dizer que vocês falharam na parte da pesquisa. Mas inserir um problema mental na narrativa com base em ideias feitas (como a de que todas as pessoas no espectro autista são misantropas geniais) pode prejudicar pessoas reais que já lidam com muitas dificuldades e não precisam que alguém ajude a perpetuar estereótipos e a aumentar ainda mais o estigma. É literalmente pegar nas características mais sensacionalistas de uma doença mental e usá-las para suportar uma narrativa. Mais útil seria abrirem uma empresa de limpar janelas...

 

"One of the things that baffles me (and there are quite a few) is how there can be so much lingering stigma with regards to mental illness, specifically bipolar disorder. In my opinion, living with manic depression takes a tremendous amount of balls. Not unlike a tour of duty in Afghanistan (though the bombs and bullets, in this case, come from the inside)"

 

Depois há a diabolização: seguindo canais no Youtube por uns poucos de anos dei com tantos jogos de terror passados em asilos ou cujos protagonistas eram depressivos\ esquizofrénicos\sofriam de stress pós-traumático\tudo isto junto e onde isso era o motivo do crime, que se recebesse um euro por cada já estaria rica. Claro que vocês podem dizer que ninguém vai jogar\ver um jogo destes e pensar "puxa, não sabia que nos hospitais psiquiátricos as pessoas batiam com as cabeças contra as paredes e se entusiasmavam a olhar para pilhas de cadáveres". Mas é a imediata associação entre a doença mental e o mal que é o problema. Li isto algures e está certo: instituições psiquiátricas não deviam ser cenário para o terror. Faz-me lembrar aquelas cenas nas telenovelas quando as protagonistas são fechadas à  força em "clínicas" onde lhes injectam coisas. Uma estupidez. Depois de largar o tal YA fui ler Furiously Happy: A Funny Book About Horrible Things da Jenny Lawson

 

Um conjunto de textos onde ela fala dos seus distúrbios mentais e como foi aprendendo a viver com eles. Gostei. O ano passado li Depois a Louca Sou Eu da Tati Bernardi e o Wishful Drinking da Carrie Fisher e também gostei de ambos. Abordam outros dois problemas: não se levar a doença mental a sério. Coisas como - "estás triste porque é aquela altura do mês", "porque é Inverno", "porque entornaste o pacote do leite"..."Sai de casa e anima-te". "Pára de ser mimado(a)". No fundo como se a culpa fosse vossa. Além disso as doenças mentais não geram empatia. Se vocês partirem uma perna as pessoas olham e entendem; se tiverem um cancro a tendência é elogiarem a vossa força. O que é certo, pois lutaram contra algo terrível...Mas ninguém vos vai parabenizar por lutarem todos os dias contra uma depressão crónica:

 

"Quando alguém que sofre de câncer luta, se recupera e entra em remissão, elogiamos sua bravura (...) Quando alguém que sofre de depressão luta, se recupera e entra em remissão, raramente tomamos conhecimento, pois muitos sofrem em segredo (...) Espero um dia viver num mundo em que a luta particular pela estabilidade mental seja vista com orgulho (...) em vez de vergonha"

 

O Furiously Happy é um livro capaz de arrancar gargalhadas. Não temos como segurar o riso quando ela fala de coisas como os guaxinins empalhados ou das discussões que tem com o marido. Mas há ali também muitos dias negros e muita luta para voltar à superfície. Quando alguém decide falar disto abertamente está a ajudar a derrubar tabus e a levar outras pessoas a fazer o mesmo. A contarem as suas experiências. Também é muito importante a experiência no feminino: no Depois a Louca Sou Eu, Tati tem um texto em que fala do efeito que os antidepressivos tiveram na sua libido. Se podia eu encontrar um artigo de um especialista sobre o assunto? Podia. Mas prefiro que seja uma mulher que já passou por isso a contar. Por acaso o último livro que li também era um conjunto de textos que a autora,  Ana Cássia Rebelo, foi publicando no seu blog com o mesmo nome: Ana de Amsterdam. Entre outras coisas fala de depressão. É cru, honesto e está belamente escrito. 

 

"Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita"

 

De facto, estes tabus são tanto mais estranhos se pensarmos que o famoso manual de transtornos mentais deve ter para aí umas 900 páginas. É demasiada gente fodida da cabeça para se ignorar...

Festival da Canção: também quero opinar!

Não estava nos planos falar sobre isto por 3 razões, a saber: toda a gente está a fazer o mesmo; tenho uma tendência para ser do contra (surprise!) e não tenho televisão no quarto portanto só apanho as coisas aos bocados. Mas ontem dei por mim com tempo livre e fui ouvir as músicas, sim as 14 que se é para opinar que seja em termos! Cá vai:

 

1. "Canção do Fim", Diogo Piçarra - não desgostei, mas também não me desfiz em água de emoção e saí serpenteando pelo quarto qual regato...btw, é realmente igual à outra 

2. "Só Por Ela", Peu Madureira - se a minha janela não tivesse grades eu ter-me-ia atirado só para não continuar a ouvir isto

3. "Patati Patata", Minnie e Rhayra - idem...

4. "(Sem título)", Janeiro - não achei piada

5. "Pra Te Dar Abrigo", Anabela - grande voz, mas a música é um bocado pimpona demais para o meu gosto

6. "Bandeira Azul", Maria Inês Paris - não desgostei

7. "O Voo das Cegonhas”, Lili - não papo muito aquela vozinha, mas a letra é a mais bem escrita de todas: uma lenda nasceu e o povo a cantou Sobre a mulher sem peso Que a dor esvaziou Como subiu aos céus Onde o voo das cegonhas se cruza com a voz de Deus - cum catano

8. "Amor Veloz", David Pessoa - meh

9. “Sunset”, Peter Serrado - surpreendentemente agradável. Gostei

10. "Zero a Zero", Joana Espadinha  - não gostei
11."Sem Medo", Rui David-se eu fosse o Palma fazia o mesmo, mandava um clone mais novo em vez de ir para lá maçar-me

 

E então as favoritas por ordem:

 

 

 

 

O verdadeiro problema

Eu sei: muita gente não gosta nada desta modernice de coisas só para mulheres. Nem de quotas em filmes ou em empresas. E fatigam-se muito a escrever sobre o assunto. Ironicamente parece que se fatigam menos a escrever sobre: a) o constante assédio a mulheres em lugares públicos e afins b) discriminação racial c) desigualdade no acesso aos cargos. É que são estes problemas que estão na origem dos anteriores. Se eles não existissem, ninguém ia precisar de falar em festivais de música só para mulheres ou em quotas do que quer que seja. É a lógica da batata não? Não preciso de garantir representatividade por meios legais porque sei que ela naturalmente existe. Só que não [temos de admitir que "as pessoas devem ser escolhidas pelo seu talento ou capacidade" é uma coisa engraçada quando se analisa do ponto de vista histórico]. É por isso que os debates em torno do tema são realmente fatigantes: porque se atiram argumentos ignorando o elefante no meio da sala. É como debater o preço dos livros: podem passar o dia a falar disso, mas não é o preço que faz com que as pessoas não leiam... É um problema muito mais complexo.

 

Do mesmo modo pode-se concordar ou discordar, mas a realidade é que as quotas não são o elefante no meio da sala - o verdadeiro problema é o enorme fosso de desigualdade entre uns grupos e outros criado por séculos e séculos de repressão. Qualquer discussão que ignore isto não vai a lado nenhum porque aqui está a base de tudo. Claro que tem muito mais graça discutir a última polémica, o que não sei quem disse...E algumas pessoas insistem em negar a existência deste fosso, pois claro. Mesmo estando ele bem à vista de todos. As prioridades de algumas pessoas em termos de discussão e a própria altura que escolhem, já diz muito sobre o que elas realmente pensam sobre igualdade.

A igualdade não é uma tarte

Em A Vida Secreta das Abelhas Lily que é a personagem principal engraça romanticamente com outra personagem e ele também engraça com ela. Mas como eles são de cores diferentes a coisa torna-se complicada. Ela pensa: puxa, na escola disseram-nos que os negros eram todos feios e burros mas este não é nem uma coisa nem outra e agora o que faço? Enquanto ele pensa: se chegar perto desta rapariga vou acabar morto. Fez-me lembrar daquela situação em que está um grupo de cavalheiros na rua - se eu fosse também um senhor preocupava-me com a possibilidade de me assaltarem. Como não sou tenho de esperar não ser assaltada\não ouvir coisas nojentas\não ser perseguida\não ser violada. Isto acontece desde que temos quê? Uns 11 ou 12 anos? Quanto menos privilegiados somos maior cuidado temos que ter se queremos continuar vivos. Claro que por crescermos e vivermos numa sociedade injusta podemos ser levados a pensar que isto é normal ou que é a maneira correcta de pensar e que temos de defender os nossos privilégios: não quero estas pessoas perto de mim", "não quero ver filmes com elas", "não quero que tenham os mesmos direitos que eu" - e tenho o direito de dizer e fazer tudo o que me apetecer para combater estas ameaças. Algumas pessoas vêem esta questão dos direitos como uma tarte: se estas pessoas pegarem uma fatia eu vou ficar com menos. 

  

Sairmos da nossa própria bolha de privilégio, qualquer que ela seja, não é fácil. Há uns tempos falei aqui da iniciativa de uma livraria americana: durante uma semana todos os livros de homens estiveram virados ao contrário de modo que não se visse a lombada. Nos comentários da notícia havia gente zangada. Pessoal que preferiu sentir-se ameaçado em vez de pensar como é sentir que nunca ou quase nunca se é representado ou como deve ser frustrante sentir que nada daquilo do que se diz é levado a sério. "Não percebo porque é que esta gente faz motins contra a polícia" ou "esta gente não devia estar contente por viver num campo de refugiados? Não caiem bombas ali, ah!" - comentários clássicos. Recentemente encontrei este: "não percebo porque há-de ser mais difícil para as mulheres do que para nós viver sem instalações sanitárias!", alguém que ficou indignado ao ver um vídeo sobre mulheres que vivem em zonas remotas da Índia. Comentários destes mostram quão longe se consegue estar de compreender a realidade de um semelhante.

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