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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Afinal não é culta

Esta leitora que vos escreve gostaria de dizer que da famosa lista de 1001 livros para ler antes de morrer - compilada num livro que deve ser o pai de todas as obras que uma pessoa deve ter na mesa de cabeceira a ganhar pó e que na verdade juntando todas as versões são 1300 livros - só leu 118. Entre os que deixei a meio, os que não pretendo ler, os que não conheço (muitos) e os que estão em lista de espera - já os tenho na minha posse mas ainda não cheguei lá. É incrível que eu tenha, por exemplo, os dois títulos da Austen que me faltam a vegetar na estante desde o período triássico. Se já os tivesse lido dava 120 que sempre é número mais redondo. Há nesta lista 1 livro do Pessoa, 1 do Eça, 1 do Lobo Antunes, 4 do Saramago e os Lusíadas. Já li o Dom Quixote, mas ainda não li os Lusíadas. Não me julguem. Tirando uns 5-6 anos em que não li nada (ainda não sabia), não lembro de passar um mês ou mais sem ler - o que ainda torna este número mais deprimente. Mas também se pode retirar alguma felicidade de pensar em todas as obras maravilhosas que estão à nossa espera, independentemente do tempo que demoremos a chegar a elas. Felicidade na expectativa!

Sempre algo para dizer

Diz-se que um bom livro nunca acaba aquilo que tem para dizer. Ou seja, um bom livro pode ser lido várias vezes que o leitor irá sempre encontrar coisas novas. Aplica-se muito aos clássicos e pode parecer um chavão, mas mais uma vez comprovo a sua veracidade. Como planeado comecei a ler o Memorial do Convento e nem tinha passado dos primeiros capítulos e já uma quantidade de aspectos me saltavam agora à vista. Claro que pode acontecer eu ser simplesmente lerda. Ainda não é desta que passo a achar este livro ruim (é sequer possível isso?) ou que o meu coração fica indiferente e frio perante o momento em que as nossas personagens se encontram. As releituras estão sempre ligadas ao crescimento de cada leitor. Numa altura certos detalhes podem parecer de pouca importância e passado um ano ou muitos aquilo que parecia irrelevante toca de uma maneira especial, ou o inverso. Crescemos e os nossos livros crescem connosco, digamos assim.

 

Enquanto lia não conseguia deixar de pensar no quão Blimunda se afasta do papel de submissão e de mera reprodução exigido às mulheres e o modo como isso faz um contraste tão forte com as cenas que abrem o livro. É difícil encontrar uma melhor descrição do que este país era (ou é?). Também como planeado comecei a ler Jane Eyre. Com este a situação é um pouco diferente pois a única vez que o li foi há muito tempo. Tem sido uma experiência. Não é possível não gostar de uma obra onde a personagem responde que para não ir parar ao inferno tem de ter boa saúde e não morrer (senso de humor não é uma coisa com que Charlotte pareça ter sido abençoada, mas algumas resposta da Jane são hilárias) ou que coloca os seus protagonistas a encontrarem-se numa situação inesperada com ele no chão e ela de pé a oferecer ajuda. Mesmo que defeitos existam. Já estou a planear qual dos meus bebés favoritos vou à estante buscar a seguir.

Os leitores são estranhos

Uma lista breve de coisas que esta leitora que vos escreve pode eventualmente já ter feito e que se pensarem bem não são esquisitas:

 

1. Declinar convites por motivos de grande gravidade. Mas é só para ficar a acabar um bom livro 

 

2. Sair para comprar roupa. Voltar com livros (ou com um caderno ou com uma caneta com um patinho na ponta que não se precisa mas é tão fofa) e sem a roupa

 

3. Enfiar o nariz nas páginas (em público)

 

4. Hugs (às vezes em público)

 

5. Ir a uma certa feira e separar com antecedência uma quantia para no fim lanchar. Não lanchar porque se gastou tudo em livros 

 

6. Escolher malas consoante são ou não práticas para carregar livros

 

7. Escolher uma mala resistente apenas para colocar lá o livro que se vai levar de ferias para assim não se amassar na viagem (mas depois deixá-lo cair na relva...)

 

8. Chorar

 

9. Voltar à mesma cena tempos depois e chorar de novo

 

10. Ler em sítios improváveis 

 

11. Dizer que não se tem nada para ler tendo toda a parte superior da estante ocupada com livros não lidos e uma pasta cheia no computador (alguma vez alguém na História terá dito esta frase não tendo realmente nada para ler...)

 

12. fazer uma dancinha quando o pacote com os livros adquiridos chega pelo correio

Esses objectos especiais

Cada vez que tenho de limpar a minha estante ocorrem-me certos pensamentos: o primeiro é quando vejo que alguns dos meus livros estão a ficar velhinhos. É como as pessoas: começam a ficar enrugados e com manchas e não há muito que eu posso fazer. No sentido mais prático, mostra o quanto as editoras se preocupam ou não com os livros que colocam à venda: tenho alguns cujo papel é um autêntico sugador de pó enquanto em outros ele se mantém branco. Penso na tristeza que é no futuro ninguém ter estantes com livros - e até sinto um arrepio. Por mais que goste de livros digitais e ache prático, não quero uma estante ou listagem digital. É certo que uma estante ocupa espaço, os livros envelhecem, ficam com um cheiro esquisito, pessoas podem entrar agora em vossa casa e pegar-lhes fogo...Mas isso também não é diferente do que acontece com os seres humanos. Sejamos salvos da total frieza antisséptica. Penso que devia empilhar os livros no chão e não no cimo da estante evitando uma potencial morte e no quanto uma estante pode ser um álbum da vida do seu possuidor - pega-se neste ou naquele livro e pensa-se: "que quente foi aquele verão", "sinto falta desta pessoa" ou "que discussão ridícula que tivemos naquele dia". Nada disso relacionado com a história em si. Algumas memórias podem ser embaraçosas, mas a menos que as contem a alguém elas continuarão guardadas na privacidade das páginas do livro. Podem pegar nele e lê-lo de novo, acrescentado novas camadas de memória ou podem deixá-lo quietinho durante anos que quando voltarem a abrir elas estarão lá. Não sei o que faz com que os livros tenham esta capacidade de cristalizar um momento, como uma foto com conversas, música e sensações incluídas. Mas é algo muito bonito.

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