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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

A musa demitiu-se e comprou um limão

Há dias li uma short-story que começa com a protagonista a descrever o seu amante sentado à janela. Um bom conto que me fez reflectir sobre os papéis patriarcais do observado e do observador. Foi algo que só percebi claramente quando comecei a ler mais autoras. Só nessa altura comecei a pensar nas muitas vezes em que encontrei mulheres descritas - de todas as formas, em todas as posições, em diversos graus de gula...Mas tão raramente encontrava o contrário.

 

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(The Triumph of Bacchus. 1643-59)

[Michaelina Wautier nascida em 1604 em Mons, actual Bélgica, é considerada a primeira artista a ter retratado a nudez masculina. Esta monumental cena pagã (270 x 354 cm) irradia sensualidade com o corpulento Deus fitando o cacho de uvas de boca aberta. Do lado direito está a própria  pintora encarando-nos de frente. Inicialmente a autoria das obras foi atribuída ao seu irmão com quem partilhava um estúdio. Só em 2018 Michaelina teve direito a uma retrospectiva]

 

À mulher o papel que está reservado é o da musa: sublimada e endeusada, mas também sem história. Não pensa ou fala, é passiva - não produz nada. O homem atrás da tela, pelo contrário, é o agente que analisa, que transforma o que vê, que deixa a sua marca. É activo. O resultado desta dinâmica está patente no cânone literário, nos corredores dos museus...

 

Em A Room of One's Own, Virginia está na biblioteca perplexa diante da quantidade de literatura que os homens já produziram sobre as mulheres - "O sexo e sua natureza bem poderiam atrair médicos e biólogos; mas era surpreendente e de difícil explicação o fato de que o sexo — quer dizer, a mulher — atrai também ensaístas agradáveis, romancistas desonestos, rapazes com diploma de licenciatura em letras, homens sem diploma algum, homens sem qualificação aparente, salvo o fato de não serem mulheres". Alguém pode até chegar a pensar que somos altamente valorizadas...

 

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(Sylvia Sleigh, Imperial Nude. 1977)

 

Mas a verdade é outra..."I moved in a world of saints and angels, naked nymphs and ornamental wifes (...) The eyes of men had made these. The eyes of men consumed them. We were so rarely in our own story." Christina Rossetti tem um poema chamado In an Artist's Studio, talvez inspirado no seu irmão - o pintor Dante Gabriel Rossetti. No seu estúdio ele tinha muitos quadros de Elizabeth Siddal, musa dos pintores pré-rafaelitas e que mais tarde se tornou sua esposa. John Everett Millais retratou-a como Ofélia, flutuando sobre as águas...O poema diz assim:

 

"One face looks out from all his canvases,
One selfsame figure sits or walks or leans:
We found her hidden just behind those screens,
That mirror gave back all her loveliness.
A queen in opal or in ruby dress,
A nameless girl in freshest summer-greens,
A saint, an angel — every canvas means
The same one meaning, neither more or less.
He feeds upon her face by day and night,
And she with true kind eyes looks back on him,
Fair as the moon and joyful as the light:
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dream"

 

Cortar com esta dinâmica implica coragem ("I didn't have time to be anyone's muse. I was too busy rebelling against my family and learning to be an artist" disse Leonora Carrington). Não apenas subverte a ideia de quem deve ver e quem deve ser visto, mas também subverte a ideia patriarcal de quem deve ser forte e quem deve ser fraco. A musa, vestida ou despida, está exposta - está sujeita ao olhar do pintor. Alguém absorto ou deitado entre lençóis está vulnerável - o que não teria problema, mas como vivem presos numa masculinidade altamente tóxica muitos homens preferem o falecimento a serem vistos como vulneráveis...Ou em qualquer papel que eles associem a uma mulher.

 

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(Eunice Golden, Landscape # 160. 1972)

 

Subverte a dinâmica de poder e controlo. Quem tem a pena ou os pincéis (ou a câmara) na mão tem o poder de transformar o mundo. De deixar expressos os seus pensamentos e visão em algo que continuará a ser consumido e a influenciar outros muitas décadas e séculos depois, que fará parte da paisagem cultural. Como os homens brancos tem tanto poder eles podem impedir que outros façam parte dessa paisagem e participem nessa transformação. Podem destruir, ignorar ou desmerecer as obras que não lhes interessam. É um ciclo opressivo em que o olho masculino cria visões para agradar a outros olhos igualmente masculinos. 

 

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(Meghan Howland, Title Unknown. 2001)

 

A mulher como musa é assim não só útil como mais importante: não representa ameaça. A grande maioria das vezes nem sequer tem nome, enquanto o do artista fica para a posteridade. Quando o olho da mulher tem uma carga erótica isso desafia a convenção de quem tem a liberdade de sentir desejo (e de quem tem a liberdade de expressar publicamente esse desejo) e quem não - outra coisa que é muito fácil de ver na literatura, na pintura...


Reflexo

Quando fica o reflexo
na janela

Nada mais que o espelho
desfocado
E eu te vejo estendido nos lençóis

e toco o teu corpo
nu
deitado
Quando a luz

se suspende ao pé dos ombros
Para logo se entornar e desviado

encontro o teu pulso e sem sentido
fico a pensar num rumor passado

À mistura com o cheiro
mais antigo

Do teu esperma doce
No meu joelho alado

(Maria Teresa Horta, As Palavras do Corpo)

 

Discute-se muito hoje em dia até que ponto os acontecimentos do Nineteen Eighty-Four estão a tornar-se reais: ter de escrever às escondidas de uma figura autoritária omnipresente...Mas se pensarmos bem, mulheres e pessoas não-brancas experienciam tudo isso na vida quotidiana. Todas temos um par de olhos sempre em cima de nós: a avaliar o nosso comportamento, a controlar o que dizemos, a arte que fazemos, a escrutinar o nosso corpo de alto a baixo...Desagradá-los tem consequências. Olhos que moldam o modo como vemos não só o mundo, mas também o modo como nos vemos a nós próprias e umas às outras. Devíamos espremer-lhes limão para cima. 

Eu não vejo género e outras miopias

Fui à tal tenda com livros mas desta vez fiquei um pouco desiludida, não trouxe nada - a única coisa que me chamou a atenção foi um grosso título sobre mulheres artistas do século XX, custava quinze euros. Baixo para o preço normal deste tipo de livros de arte, mas ainda assim...Isto fez-me lembrar um post em que alguém afirmava que até ao século XVIII ou XIX, já não tenho a certeza, não era conhecida nenhuma produção literária e artística no feminino.

 

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Elisabetta Sirani (1638-1665) Timoclea Killing Her Rapist, 1659

 

"Timoclea Killing Her Rapist depicts a popular tale described in Plutarch’s biography of Alexander the Great. During Alexander’s invasion of Thebes, a captain in his army rapes the titular Timoclea. Following the assault, the captain asks where her money is hidden. Timoclea leads him to her garden well; as he peers into it, she pushes him in, dropping heavy rocks down the well until he dies.

(...) most depictions of this story show the aftermath of the violent event: Timoclea standing before Alexander to accept his judgment, usually flanked by her children. Sirani daringly chose to show Timoclea’s justice, rather than Alexander’s mercy"

(tirado daqui)

 

Penso que já tinha falado disto aqui, mas ainda fico arrepiada ao pensar na quantidade de gente que concorda total ou parcialmente com tal afirmação....Há quem diga que igualdade a sério é tratar os feitos femininos como os masculinos, não os destacando: já não é preciso fazer isso, hoje devemos é falar de pessoas. Porque os pensamentos também são como as cerejas isto traz-me à mente uma coisa que li no Delusions of Gender da Cordelia Fine:

 

"Indeed, in its early days, computer programming was a job done principally by women and was regarded as an activity to which feminine talents were particularly well suited. (...) Women made many significant contributions to computer science development and, as one expert puts it, ‘[t]oday’s achievements in software are built on the shoulders of the first pioneering women programmers.

 

Cheryan suggests that ‘[i]t was not until the 1980s that individual heroes in computer science, such as Bill Gates and Steve Jobs came to the scene, and the term “geek” became associated with being technically minded. Movies such as Revenge of the Nerds and Real Genius, released during these years, crystallized the image of the “computer geek” in the cultural consciousness."

 

O pesquisador mencionado levou a cabo uma experiência: estudantes foram convidados a preencher um questionário sobre o seu interesse na área da computação numa sala decorada com coisas geeks como posters e revistas de comics, capas de jogos, equipamento electrónico...Os rapazes mostraram consideravelmente mais interesse na área do que as raparigas - isto parece confirmar a teoria de que homens e mulheres tem biologicamente interesses diferentes. 

 

Só que não. Quando o factor geek foi removido da sala as raparigas mostram tanto interesse como os rapazes - "Simply by altering the décor, Cheryan and colleagues were also able to increase women’s interest in, for example, joining a hypothetical Web-design company" (...) the power of environments to signal to people whether or not they should enter a domain". O sentimento de não pertencer pode activamente afastar as mulheres destas áreas. Entre outros factores explicados na parte I do livro. 

 

A7.jpgDeath of Cleopatra, 1876

Magnífica peça neoclássica em mármore pela escultora afro-americana Edmonia Lewis (1844–1907). Levou quatro anos a fazer e pesa uma tonelada e meia, infelizmente andou desaparecida por mais de um século sendo bastante danificada até ser entregue em 1994 ao Smithsonian onde se procedeu a um restauro.

 

É assim que o patriarcado funciona: oculta os feitos femininos e ainda nos tenta fazer crer que não há problema nenhum - as mulheres não vão para esses cursos\áreas porque não querem, não está na sua natureza fazer ciência, construir coisas [bem, não existiria a Ponte de Brooklyn se não fosse uma mulher...]. Ambiente hostil, sexismo explícito e condescendência, excesso de trabalho, dificuldade em progredir na carreira...O óbvio é ignorado e inventam-se fantásticas teorias biológicas e neurológicas que são as mesmas velhas ideias misóginas mas com uma roupagem mais atraente.

 

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(daqui)

 

É mais fácil dizer que não existe produção artística feminina do que ir à procura, mais fácil afirmar que as mulheres não dão grandes compositoras do que pensar na razão de não ser do conhecimento geral que Mozart tinha uma prodigiosa irmã, para citar apenas um entre tantos exemplos. Recentemente descobri que Edward Jenner não foi o primeiro pensar nos benefícios das vacinas:

 

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(Tirado daqui)

[O contributo das mulheres foi fundamental para a  descoberta\tratamento de várias doenças: HIV, malária, tosse convulsa, meningite, pneumonia, poliomielite...Um caso notável é o de Alice Ball (1892-1916) uma química afro-americana que desenvolveu uma solução injectável para tratamento da lepra, amplamente usada nas duas décadas seguintes. O seu nome quase se perdeu na História - depois da sua morte prematura outro cientista prosseguiu a pesquisa mas sem dar nenhum crédito a Alice]

 

Não ver o género ou a raça é o mesmo que dizer: não quero saber dos obstáculos que estas pessoas têm de enfrentar porque é mais confortável pensar que vivemos em perfeita igualdade (e assim não tenho de lidar com os benefícios que recebo por viver num sistema injusto). Se já atingimos a igualdade desejada como explicar a falta de diversidade em várias áreas? Se vivemos numa meritocracia como explicar que homens brancos ainda ocupem a maioria dos cargos de topo?

 

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[Cecilia Payne-Gaposchkin foi a primeira pessoa a provar que as estrelas são compostas de hidrogénio e hélio, em 1925. A ideia foi contestada e ridicularizada pois acreditava-se que as estrelas tinham uma composição química similar à da Terra. Cecilia teve dificuldade em progredir na carreira: o então presidente de Harvard disse que enquanto estivesse vivo ela nunca seria nomeada para uma posição oficial como professora catedrática. Só em 1950 isso veio a acontecer. Foi a primeira mulher a dirigir um departamento naquela instituição, o de astronomia. O seu salário foi sempre inferior ao dos homens]

(Tirado daqui)

 

Raça e género não deviam importar, mas importam. Esta é a realidade. Quando uma pessoa insiste em não ver - ela não está a ser liberal e moderna, ela simplesmente não está a prestar atenção. E isso é um perigo para os esforços de igualdade e diversidade. Quando não se presta atenção é fácil qualificar as exigências de justiça de outros como mero exagero e é fácil acreditar que não há nada para resolver...

 

Escritoras & Máquinas de Escrever

(Inspirado neste post)

 

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(Lorraine Hansberry no seu apartamento em Manhattan.

Abril de 1959. Foto de David Attie para a Vogue)

 

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(Helen Keller durante os seus anos no Radcliffe College, em Cambridge,

onde concluiu com honra um Bacharelado de Artes em 1904)

 

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(Carson McCullers na sua casa em Nyack, Nova York. 1950.

Foto de Ronny Jaques para a Harper's Bazaar)

 

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(Françoise Sagan, no seu apartamento em Paris.

Abril de 1955. Foto de Thomas D. McAvoy)

 

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(Maria Antónia Palla na redacção de O Século. 1970. 

Foto de Eduardo Gageiro)

 

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(Sylvia Plath, Yorkshire. Setembro de 1956.

Foto de Elinor Friedman Klein)

 

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(Susan Sontag, França. 3 de Novembro de 1972.

Foto de Jean-Regis Rouston)

 

2017 no feminino

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Foi um ano bem complicado, eu sei. Mas agora é tempo de apreciar algumas das coisas incríveis que as mulheres fizeram a nível colectivo e individual. Janeiro veio mostrar que a união faz a força: no dia 21 milhões de pessoas participaram na Marcha das Mulheres contra o novo presidente e a favor da igualdade de género, da justiça social e da tolerância. Mais de 600 marchas em todos os continentes. Uma ideia que partiu de um grupo de mulheres comuns e que se tornou um dos maiores protestos da história americana, o maior jamais feito num único dia. Aqui neste cantinho organizaram-se protestos em MaioNovembro contra a violência doméstica e a rape culture. A revista Time escolheu como pessoa do ano os Silence Breakers: um colectivo de pessoas, mulheres e homens, de diferentes cores e estatutos socioeconómicos  que denunciaram casos de assédio e abuso. O dicionário Merriam-Webster elegeu feminismo como palavra do ano: os casos de assédio e séries e filmes como The Handmaid’s Tale e Wonder Woman contribuíram para que a pesquisa pela palavra aumentasse 70% face a 2016.

 

Em Julho na Tunísia fez-se história ao serem aprovadas medidas para proteger as mulheres contra a violência doméstica e o abuso sexual. Acontecimentos que colocaram a desigualdade de género no centro da discussão e que passaram uma mensagem forte: não temos de ficar caladas não importa quem seja o opressor. A nossa selecção feminina de futebol deu o seu melhor e mostrou que se deve investir no desporto não só nos homens. No resto do mundo as mulheres enfrentam os preconceitos para praticarem o que gostam, seja boxe em Cabo-Verde ou esgrima no Afeganistão. 

 

Elas correm 800 metros grávidas com um top da Wonder Woman e a barriga à mostra e correm 7 horas de saia e sandálias. A Alemanha tem agora uma mulher a arbitrar jogos de futebol da liga principal. Na Austrália a senadora Larissa Waters tornou-se a primeira mulher a amamentar na sala do parlamento. Até ao ano passado isso era proibido e as mães tinham que sair da sala. Arranjam maneiras criativas de alimentar quem precisa e salvam meninas de redes de tráfico. Vão ao espaço, não importa a idade. Ganham prémios com filmes sobre outras mulheres que também desafiaram a sociedade. A militar Noémie Freire é a primeira mulher admitida no curso de submarinista da Marinha portuguesa. 

 

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Yusra Mardini vivia em Damasco e costumava representar o seu país em campeonatos de natação, mas com a guerra as coisas mudaram: tinha de treinar em piscinas com telhados esburacados por bombas e uma acabou por atingir a sua casa. Ela e a irmã tiveram que fugir para a Turquia onde apanharam um bote em direcção à Europa. A frágil embarcação só devia levar 7 pessoas, mas levava quase 20. Quando o motor parou e o bote começou a fundar Yusra, a irmã e mais 2 pessoa, as únicas que sabiam nadar, saltaram para as águas geladas do Egeu e durante mais de 3 horas puxaram o bote em segurança até terra. Yusra foi da Grécia até à Alemanha onde continuou a treinar. Em 2016 foi incluída na equipa de refugiados que competiu nos Jogos Olímpicos e este ano tornou-se a mais jovem embaixadora da boa vontade da história do ACNUR. “The most important thing in my life is swimming. Then speaking and doing things to help refugees”

 

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O facto de ter Síndrome de Down nunca impediu Collette Divitto de levar uma vida activa: formou-se na universidade, fez voluntariado, jogou golfe e na adolescência ganhou gosto por pastelaria. Mas quando tentou encontrar trabalho tudo o que ouviu foram nãos: "many people who interviewed me for jobs said I was really nice but not a good fit for them". Então com o apoio da família ela decidiu abrir o seu próprio negócio - a Collettey's Cookies, com uma receita criada por si. No início recebia pedidos para 100 bolachas por semana, mas depois que um canal de televisão divulgou a sua história os pedidos chegaram a 25.000 por todo o país, incluindo um da organização dos Óscares. Agora o seu objectivo é conseguir instalações que lhe permitam expandir o negócio e contratar pessoas com deficiência

 

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Na primeira classe Kheris Rogers era uma das únicas 4 crianças negras da turma e começou a sofrer bullying. Mesmo depois de se mudar para uma escola mais diversa o tom escuro da sua pele continuou a ser alvo de gozo e não era fácil para ela fazer amigos. Quando a sua irmã mais velha viu o quão triste Kheris estava, começou a postar fotos dela no Twitter com a hashtag FlexinInHerComplexion. O post tornou-se viral e inspirou Kheris a criar a sua própria linha de roupa infanto-juvenil usando a frase Flexin in my Complexion [algo como Força na minha Cor]  como nome de marca. Ela apresentou a sua colecção na semana da moda em Nova York e com apenas 11 anos tornou-se a estilista mais nova que já participou no evento. Tem mais de 55 mil seguidores no Instagram e pretende continuar a inspirar outras pessoas a amarem a sua pele

 

Manuela de Azevedo

 

Uma notícia que tinha de ser assinalada: faleceu ontem aos 105 anos Manuela de Azevedo, a primeira jornalista mulher a ter carteira profissional em Portugal e que era também a mais antiga repórter do mundo! Nascida a 31 de Agosto de 1911, em Lisboa, trabalhou em jornais como o Século, o República e o Diário de Notícias. Em 1930 quando entrou para o República quiserem criar uma secção especial só para ela - a Tribuna da Mulher. Recusou logo: "era só o que faltava, nem tribunas de homens nem de mulheres, ali havia jornalistas". Em 1946 disfarçou-se de criada para conseguir chegar ao rei Humberto II de Itália que estava exilado em Sintra. Uma das muitas personalidades que entrevistou. Durante uma conferência da NATO perguntou "se eles conheciam a democracia orgânica com que Salazar pretendia fugir à definição da palavra democracia" - uma peça de teatro sua e um artigo sobre a eutanásia foram censurados pelo regime. Também escreveu romances, ensaios e poesia e fundou uma casa dedicada a Camões em Constância. Em 2010 foi lançada esta biografia - gostei muito e recomendo a quem quiser conhecer a história tão rica desta mulher."O jornalismo não é só aquele que diz que morreram tantas pessoas num desastre. O jornalismo é o defensor da objectividade, de focos, de problemas sociais."

 

2016 no feminino

Fazer resumos de 2016 pode ser deprimente, mas não no que às mulheres diz respeito. Para começar a lista 17 Badass Women You Probably Didn’t Hear About In 2016 - inclui as centenas de mulheres que protestaram na Islândia contra a diferença de salários entre homens e mulheres, as raparigas que desafiam a proibição de andar de bicicleta em Gaza e as Las Hijas de Violencia que cada vez que são assediadas na rua disparam confetis na direcção do agressor. Em Fevereiro Leonor Teles tornou-se a mais jovem realizadora de sempre a ganhar um Urso de Ouro com a sua Balada de um Batráquio. E a nível de cinema não foi só isso. Em Março uma mulher foi pela primeira vez escolhida como assessora militar da Presidência da República: a tenente-coronel Diná Azevedo tem um currículo de respeito que inclui ter sido a primeira mulher a comandar uma esquadra da Força Aérea. Em Maio 300 mulheres juntaram-se em Jerusalém para protestar contra o violência e o assédio sexual.

 

Em Outubro a nossa selecção feminina de futebol apurou-se pela primeira vez para um Campeonato Europeu. Mais cedo neste mês Nadia Murad e Lamiya Aji Bashar receberam o Prémio Sakharov de Liberdade de Pensamento do Parlamento Europeu. E uma menção tem de ser feita às Senhoras da Força do Sol um grupo de 123 mulheres Yazidi que conseguiram fugir ao Daesh e que agora formam uma brigada de combate exclusivamente feminina. Elas estão nas linhas da frente dos combates no Iraque e participaram activamente na reconquista das montanhas Sinjar o ano passado. Noutro palco de conflito mulheres usam a música para denunciar a violência sexual. chegamos a todas as áreas: empresas, tecnologia, mudar o futuro das crianças, fazer os outros rir, lidar com regras sem sentido...

 

 

Muskaan Ahirwar vive num bairro pobre da Índia, onde muitas crianças não têm acesso à escola. Foi a pensar nelas que esta menina de 9 anos decidiu organizar uma biblioteca no exterior da sua casa. Todos os dias depois de chegar da escola à tarde ela abre a biblioteca perante dezenas de crianças que aguardam ansiosas - todos são incentivados a levar livros ou a sentarem-se para ouvirem Muskaan ler as histórias. Todo o trabalho é feito por ela com ajuda da irmã mais velha, com tal sucesso que a biblioteca já foi reconhecida como oficial com direito a placa e tudo e já há planos para adquirir mais livros pois os 119 disponíveis já foram quase todos lidos.

 

 

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Depois de notar vários sem abrigo no seu caminho para a escola Khloe Thompson de 9 anos pensou que tinha de fazer algo: ela criou um projecto chamado Khloe Kares em que com a ajuda da mãe e da avó organiza packs de produtos de higiene que depois distribui pelas mulheres sem abrigo da sua comunidade. Os sacos não são de plástico, mas de pano e ela própria costura. O seu próximo passo é conseguir dinheiro para transformar o Khloe Kares uma organização de caridade e também para comprar brinquedos para dar às crianças que vivem em casas de acolhimento. 

 

 

 

Quando Theresa Kachindamoto deixou o seu trabalho de secretária para ir ocupar o lugar de chefe em Dedza no centro do Malawi deparou-se com uma realidade chocante. O Malawi tem uma das taxas de casamento infantil mais altas do mundo (mais de metade das raparigas estão casadas antes de fazerem 18 anos), além de existirem práticas tradicionais de violência sexual. Ela reuniu os seus 50 sub-chefes e obrigou-os a assinar um documento para acabarem com o casamento infantil naquela área. Também os obrigou a anular qualquer união dessas e a mandar as crianças para a escola. Os que não cumpriram o acordado foram logo suspensos. Theresa também tenta falar com a população sobre o valor da educação e tenta arranjar quem possa pagar as despesas escolares das crianças mais pobres, quando não é ela mesmo a fazê-lo. Nos últimos três anos, e mesmo recebendo ameaças de morte, ela conseguiu anular quase 850 casamentos infantis. Todas as crianças envolvidas voltaram à escola. 

 

 

 

Maia Dua é uma estudante de 16 anos, de West Sacramento na Califórnia, que construiu um robot destinado a ajudar pessoas invisuais. Sensores usam a ecolocalização para detectar os obstáculos no caminho e um sinal sonoro é enviado para o utilizador. Feito com materiais baratos, o Seeing Eye-Bot foi projectado para ter um custo à volta dos 500 euros (muito menos que o custo de um cão guia) e uma duração de 7 anos. Este projecto foi submetido a um concurso da Marvel (destinado a raparigas com projectos na área da matemática, ciência e engenharia) e ficou em primeiro lugar entre cerca de mil candidaturas. E ela só soube do concurso quatro dias antes de acabar o prazo. Além de ser apaixonada por engenharia Maia também é praticante de wrestling. 

 

Mulheres na Fotografia

De facto, é difícil bater o poder de uma boa foto. O poder que têm de comover, de alertar para uma realidade. Estar lá na hora certa e captar um único momento para sempre. Ao mesmo tempo são a visão da própria pessoa que as tira. Nada como ir à procura de mulheres na História da fotografia. Aqui ficam 5 fotógrafas com histórias de vida incríveis:

 

 (Evelyn, a little native maid sitting in kitchen with basket on her lap.1909)

 

Jessie Tarbox Beals foi uma das primeiras fotojornalistas americanas e a primeira fotógrafa nocturna. Tudo começou em 1888 quando como paga por vender subscrições de uma revista ela recebeu uma pequena câmara. Ficou entusiasmada e em pouco tempo já tinha comprado uma câmara melhor e tinha transformado um armário num quarto escuro e o alpendre da casa num estúdio. Em 1900 deixou a sua ocupação de professora e conseguiu emprego em dois jornais. Dona de uma notável força física - vale lembrar que todo o equipamento fotográfico pesava mais de 20 quilos e que nesta altura se usavam espartilhos de baleia - ela era também hábil a criar oportunidades. O seu primeiro exclusivo foi sobre um julgamento em que os fotógrafos tinham sido proibidos de entrar: ela tirou uma foto à socapa ao subir para cima de uma estante para chegar a uma pequena janela no cimo da porta. Em 1904 numa exposição universal em St. Louis interrompeu a visita do Presidente Roosevelt e tirou-lhe várias fotos. Quando lhe disseram que não podia subir num balão de ar quente para fotografar de cima, ela saltou lá para dentro no momento em que o balão ia a subir deixando toda a gente atónita. Apesar da forte concorrência num campo masculino Jessie conseguiu continuar a fotografar até quase aos 70 anos tendo colaborado ao todo em mais de uma dezena de publicações.

 

 (Mrs. Herbert Duckworth. 1872)

 

Quando em 1863 Julia Margaret Cameron então com 48 anos recebeu de presente das filhas uma câmara a atracção foi imediata:"From the first moment I handled my lens with a tender ardour (…) and it has become to me as a living thing, with voice and memory". Tornou-se um dos mais importantes fotógrafos do século XIX com um valor impressionante de 1.200 fotos produzidas. O processo não era fácil: aplicava-se uma camada de colódio líquido numa chapa de vidro, passava-se a chapa por uma solução de nitrato de prata (para a tornar sensível à luz) e colocava-se na câmara ainda húmida. A seguir a chapa tinha de ser passada em sulfato de ferro e tiossulfato de sódio, lavada em água e posta a secar. Os trabalhos de Julia saíam muitas vezes desfocados o que era motivo de troça, mas ela gostou do efeito e adoptou-o. Ela rejeitou o meticuloso detalhe em favor da suavidade, evocar sentimentos em vez de mostrar factos - os seus retratos têm aura especial que os torna difíceis de esquecer. Mulher inteligente e letrada conviveu e retratou várias pessoas importantes como Lewis Carroll e Darwin. Além dos retratos Julia também gostava de encenar e fotografar cenas bíblicas e literárias. Em 1875 mudou-se para Ceilão onde continuou a fotografar até à sua morte 4 anos depois. 

 

 (Women Sewing Flags. 1940) 

 

Um dia quando Margaret Bourke-White era criança o pai levou-a à fabrica onde trabalhava. Ela ficou fascinada quando viu a parte da fundição - “To me at that age, the foundry represented the beginning and end of all beauty”. Também gostava de outras coisas: mapas, insectos, tartarugas...Queria ser cientista, mas em 1927 precisava de um emprego e decidiu começar a tirar fotografias à sua faculdade e a vendê-las. Foi um sucesso. Em 1936 foi a primeira fotógrafa contratada pela Life. Fotografava desde barragens a arranha-céus, tornando-se uma pioneira da fotografia arquitectónica e industrial. Também viu os efeitos que a industrialização tinha nas pessoas. Ela captou o rosto desses trabalhadores, usando a fotografia como instrumento para examinar as questões sociais do ponto de vista humano. Foi a primeira pessoa do ocidente a conseguir entrar na Rússia para documentar a industrialização soviética em 1930. Durante a guerra esteve no norte de África, voou numa missão de combate e cruzou o Reno com as tropas aliadas em 1945. Esteve em Buchenwald e Bergen-Belsen e fotografou o que viu lá - estas fotos em particular são difíceis de descrever em palavras. Depois da guerra esteve na índia onde entrevistou Gandhi: é autora da conhecida foto onde Gandhi aparece sentado ao pé da roda de fiar. Escreveu vários livros e uma autobiografia. "The camera is a remarkable instrument. Saturate yourself with your subject and the camera will all but take you by the hand”

 

 

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As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

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