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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Gostas de ler sobre o quê?

Não posso mentir: ontem à noite em vez de estar a dormir estava a pensar que preciso de arranjar um bom livro escrito por uma autora sobre as bruxas de Salém. Não tenho realmente uma wishlist, tive há muitos anos mas desisti quando ficou enorme e neste momento seria impraticável, em papel ou digital. Que poder é esse, de algumas pessoas conseguirem apresentar uma única página com os títulos que desejam...Não devem ser leitores assíduos. Eu quero sempre muita coisa. Às vezes não me apetece ler um livro específico, mas sim ler sobre um assunto. Seria uma óptima lista para apresentar a alguém, como o incauto funcionário de uma livraria: "por acaso não tem livros feministas que falem sobre menstruação?", "Sobre vaginas, do ponto de vista histórico e cultural, ou sobre o corpo feminino em geral?", "Sobre bruxas como figura anti-patriarcal?"

 

Pode parecer surpreendente, mas há livros sobre isto tudo. É preciso pensar fora dos cânones, do pensamento vigente e daquilo que ele diz que é ou não importante. Quem perderia tempo a escrever sobre a história das mulheres não casadas na América? E no entanto foi num livro sobre isso que tropecei não há muito tempo. Sobre o corpo feminino tenho por exemplo - Woman: an intimate geography. Ganhou o National Book Award, tem mais de 400 páginas. Sobre vaginas [o termo é uma simplificação, naturalmente refiro-me ao pacote completo]: The Vagina: a Literary Cultural History.

 

Períodos e Salém: não tenho, mas quero - Periods Gone Public, Jennifer Weiss-Wolf (também há livros sobre a história cultural da menstruação) e The Witches: Salem, 1692, Stacy Schiff (a mesma autora de Cleópatra e de um outro que também quero: Vera (Mrs. Vladimir Nabokov)). Ainda não encontrei uma boa biografia da Joana d'Arc (mas achei a da Marie Curie, escrita por uma das filhas). Há temas sobre os quais estou careca de ler ou de ouvir falar, mas quando os leio de uma prespectiva diferente: escrita por uma mulher, feminista, não branca..Isso revela coisas em que nunca tinha pensado. Eu sei: sou muita chata com isto, mas como podem ver é um empreendimento literário para a vida.

Autoras ainda por descobrir

Passei para um ficheiro os livros de autoras que tenho por ler. Decidi fazer isso porque queria começar a ler um novo livro e não conseguia decidir qual. No final fiquei contente de ver como o cenário se alterou desde há quase três anos para cá - tantas autoras que de outro modo teria levado sei lá mais quanto tempo a conhecer e tantas novas ainda por ler. Foi passar de: como assim um ano de escritoras? Para: como assim ler isto tudo num ano? Também mostra que realmente não tenho auto-controlo nenhum. Leio (quase) de tudo, mas claro que há coisas que me interessam mais: feminismo [por exemplo, tenho aqui um livro sobre feminismo e vegetarianismo - e parece muito interessante]; livros com personagens femininas, experiências do nosso ponto de vista e amizades no feminino. Percebe-se porque deixei de ligar às listas de livros para ler antes de morrer...Se eu fosse uma blogger como deve ser colocava os títulos em papéis dentro de um frasquinho, depois tirava uma foto...Mas isso dá muito trabalho. E falando em aumentar a TBR, parece que aquela tenda com livros que esteve perto de onde vivo o ano passado vai voltar em breve. Só ir dar uma vista de olhos não irá fazer mal...

Rapariga deitada com um livro, remoendo invejas

Há alturas na vida de uma leitora ou leitor: começam um livro e muitas (ou poucas) páginas mais tarde quando o fecham percebem que nada voltará a ser como era antes, pelo menos literariamente falando. Uma intensa experiência literária, quando aquilo que pensavam ficou virado de cabeça para baixo. São momentos formadores, de crescimento. A história fica gravada cá dentro para não ser mais esquecida, às vezes são pequenos detalhes que ficam...E outras vezes a história é esquecida mas não o momento da leitura em si mesmo, o ambiente e as sensações físicas e mentais. Não acontece todos os dias, mas é daquelas coisas que fazem valer a pena continuarmos a ler.

 

Quem sabe que livro encontraremos amanhã? E não é uma questão de idade, há demasiados livros por descobrir para se perder a capacidade de deslumbramento quando se deixa de ser jovem. Neste ponto pessoas já terão saído deste blog pensando que estou a escrever drogada. Mas não. Já tive os meus livros que chegaram e não deixaram as coisas como antes, momentos de "merda, nunca vou escrever assim!", de achar que nunca mais leria nada tão bom, de voltar atrás só para ler aquelas passagens de novo e de novo (talvez com vontade de chorar...). Há alguns títulos em que basta pegar para sentir uma sensação de felicidade.

 

Mas aqui está um detalhe: não que eu não lesse mulheres ou que os livros delas não tivessem a sua importância, mas a grande maioria das minhas experiências literárias formadoras estão ligadas aos meus autores preferidos. Esta é a nossa sina não é? Caminharmos pelo mundo dos livros sem nunca nos encontrarmos, sem nunca fazermos realmente parte dele. Reinos que não conquistámos e que nunca governaremos.

 

 

"I read more than ever, and wished my soul that I had been born a boy. Horatio Alger was the greatest writer in the world. His heroes were always good, always won, and were always boys. I could have developed the first two virtues, but becoming a boy was sure to be difficult, if not impossible."

 

(I Know Why The Caged Bird Sing, Maya Angelou)

 

 

Quando estava a começar a ler mais autoras tive uma destas experiências que guinam o pensamento para direcções inesperadas. Como contado antes aqui, comecei a coisa toda por escolher um pequeno grupo de livros de autoras, só naquela de ver no que dava. Não foi nada má selecção...Então, chegou a vez de pegar no livro da Pearl S. Buck em que ela conta a história da sua mãe. Ao fim dos primeiros capítulos dei por mim a comparar com um título de um autor que tinha tentado ler pouco antes - achei muito diferente.

 

"De quantas recordações me deixou, escolho uma, aquela que melhor a identifica: de pé, no jardim americano, que ela própria plantara (...) A flor da maturidade concedeu-lhe ao rosto uma expressão correcta e forte e ao corpo uma atitude bela e livre, realçada pelo sol esplendoroso e quente de Verão. Não é alta nem exageradamente baixa, mas tem um porte altivo e erecto. Na mão, segura o ancinho com que estivera a tratar do jardim"

 

(The Exile, Pearl S. Buck)

 

Ora, ali estava todo um novo mundo que precisava explorar. E pensei: porque é que a sociedade insiste nas mesmas versões da História, sempre com homens como protagonistas? Onde estava o nosso ponto de vista? Mas que coisa incrível: as mulheres podiam de facto serem seres humanos completos com direito a protagonizar um livro! Não apenas meras fantasias masculinas. Terem coisas para dizer!

 

Estas guinadas de pensamento causam choques. Aquilo que se descobre é um pouco diferente daquilo que sempre se aprendeu...E sim, uma boa parte desses escritores que têm na estante disseram coisas grotescas a vosso respeito. Nem todos concordariam se vocês lhes dissessem que também gostariam de escrever livros. De quem é a culpa de eu ter que levar com alguém a dizer que tenho inveja de não ter um pénis? É engraçado porque no livro que estou a ler agora é contada a experiência de uma mulher que foi ao psiquiatra e quando disse que estava a planear fazer o secundário - "(...) the shrink told me that I was denying my femininity . . . and that I was envying the male penis, what I needed to do was get laid and pregnant and I’d be fine". Realmente, não tenho que pensar se este argumento ainda é usado ou não...Aquele caso aconteceu em 59, eu recebi o mimo o ano passado:

 

"Freud explica: https://en.wikipedia.org/wiki/Penis_envy
Ah não, Freud é um homem, não pode ser. Se ao menos tivesse uma vagina..."

 

(comentador arreliado)

 

Há quem diga que o feminismo estraga tudo: piadas, o romantismo, as fotografias de beijos...Mas acho difícil partir o que sempre esteve partido. Recentemente, quando li Teresa e Isabel tive um momento formativo parecido com aquele mencionado acima - Violette Leduc descreve com tanta minúcia o encontro entre as protagonistas, não há uma parte do corpo uma da outra que elas não toquem desde os cabelos à ponta dos pés. Tão diferente de outras descrições de encontros sexuais que já li...Pensei: vemos tudo do ponto de vista masculino. Como assim uma relação entre duas personagens [fêmeas] que não foi escrita por um homem, para homens e que não precisa de nenhum? O ano passado a Blake Lively entrou num filme onde aparece de camisa apertada até ao pescoço e laço: "they were like it´s not gonna be sexy if she´s [a personagem] buttoned all the way up to her neck and bowties. And we were like just trust us. it´s gonna be super hot. It´s gonna be so sexy". Claro que ia:

 

 

Imagem relacionada

 

 

Aquilo que encaixa na ideia sexista de feminilidade é considerado bonito, enquanto tudo o que ameaça o patriarcado é considerado feio e inapropriado. Não admira que tantas pessoas achem pouco sexy mulheres de fato....Essas pessoas estão tão erradas:

 

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(Cate Blanchett e Kristen Bell)

 

 

Quando estava a transcrever o início do livro da Pearl apercebi-me deste contraste: quando pensamos numa personagem de pé, firme, com confiança...Pensamos numa mulher? Os homens é que aparecem de pé em estátuas, a olhar para o rio...Nós somos retratadas de maneira bem diferente, nunca com poder: deitadas (ou reclinadas languidamente), de joelhos (a rezar ou..) de gatas no chão ou debruçadas sobre um lava-loiça. Como é imperativo que cada rapariga que começa a sua viagem pelos livros sinta que tem todo o direito a estar de pé, cabeça levantada. A olhar de frente para o mundo.

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