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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler Autoras: aberta a época

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A fim de me manter a par do espírito dos tempos, declaro aberta aqui a época dos casamentos (espero que isto não seja considerado spoiler) Por ordem cronologia: quatro releituras e duas leituras, sendo que o primeiro já está. Outras coisas serão lidas pelo meio é claro, mas com sorte isto não vai durar até Dezembro. No fim discutiremos a questão mais importante e profunda de todas: qual protagonista masculino é o melhor. Tenho uma ideia de quem não ficará no topo da lista, mas se verá.

Ler Autoras: Mentiras

Sei que muita gente não é fã de biografias e auto-biografias, mas tenho cada vez mais percebido a importância de incluí-las nas minhas leituras. Depois do Lab Girl da Hope Jahren e do Let's Pretend That Never Happened da Jenny Lawson, já mencionados aqui, li Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons From the Crematory (Caitlin Doughty); Heartbreak: The Political Memoir of a Feminist Militant (Andrea Dworkin) e Hunger (Roxane Gay). É um privilégio poder ler a história de tantas mulheres contadas na primeira pessoa ou pela escrita de outras autoras. Também tenho tropeçado em alguns livros que me têm deixado perplexa, não porque sejam maus - mas porque não consigo perceber porque não estão nas listas de livros que toda a gente deve ler.

 

E pensar que até há não muito tempo eu aceitava passivamente a ideia de que se havia poucas autoras nestas listas era porque não havia assim tantas que prestassem...Mais chocante ainda quando são autoras que foram pioneiras ou mesmo as primeiras a fazer algo neste caso no campo da literatura. Esta sociedade odeia-nos tanto que é capaz de atribuir trabalhos\descobertas nossas a homens - não admite que uma mulher possa ter talento. Este ano já tive o caso do Life and Death of Harriett Frean da May Sinclair: poeta, filósofa, tradutora e crítica nascida em Inglaterra em 1863. Desempenhou um papel fundamental no movimento modernista e foi ela quem primeiro pegou na técnica do fluxo de consciência e a aplicou à literatura. May também era sufragista. Infelizente ela permanece na sombra enquanto os homens (James Joyce, Ezra Pound, DH Lawrence, blá, blá...) ocupam as listas.

 

Está longe de ser o único caso - a minha última leitura: A Raisin in the Sun da Lorraine Hansberry, uma peça teatral publicada em 1959 e cuja história gira em torno de um família negra vivendo debaixo da segregação racial em Chicago. Devia estar em todas as listas de livros que se devem ler. Lorraine foi o mais jovem dramaturgo, a quinta mulher e o primeiro negro a receber o New York's Drama Critic's Circle Award e a primeira mulher negra a ter uma peça na Broadway. Estas listas de "obrigatórios" não só são misóginas como fazem publicidade à lixívia. Aquilo que algumas pessoas costumam dizer: falar em conquistas no feminino não é igualdade, devemos falar de todas as conquistas! É o mesmo pensamento que está subjacente ao: devia existir dia do homem! Devia chamar-se igualitarismo e não feminismo, deviam dizer que todas as vidas são importantes! Quão nonsense é este argumento.

 

Algum homem foi alguma vez impedido de entrar numa faculdade e tendo por força conseguido ser admitido, acabou expulso porque respondeu numa aula a uma pergunta que mais ninguém sabia e os colegas foram a correr fazer uma petição dizendo que a sua presença prejudicava o progresso deles? Ou teve um tubo enfiado na garganta apenas por querer participar na normal vida pública? E quem era enforcado em pacatas ruas americanas enquanto famílias riam e aplaudiam? Quem foi massacrado e expulso da sua terra? A frequência com que vejo este "argumento" mostra o quanto algumas pessoas estão deslocadas da realidade. Realmente só quando se começa a pesquisar sobre aquilo que as mulheres fizeram ao longo da história, a ouvir as suas músicas, a ver os seus filmes, a ler os seus livros...Se percebe o quão profundas são as mentiras fabricadas por este mundo misógino.

Ler Autoras: Goodreads e balas

É verdade que não sou grande fã do Goodreads - do tipo de ir lá abrir uma conta, mas tenho cada vez mais apreço pelas pessoas que vão lá opinar: pelas que dizem coisas insanas que posso usar em posts aqui e às que pelo contrário vão lá e dizem que acharam o livro tal racista e\ou sexista. Por exemplo, a semana passada coloquei mais 3 títulos na lista de livros que não pretendo ler. Às vezes há 3 ou 4 opiniões em sequência a apontar isso o que me dá uma pequena esperança na humanidade. Ou é apenas a prova que aquele livro em particular é realmente mau. Outras vezes é sorte: num dos casos encontrei alguém que dizia ter se irritado com o que autor dizia sobre as mulheres - tive que ir avançando até chegar à terceira página de opiniões. Até não estava à procura disso especificamente: a sinopse parecia interessante e continuei - e acabei por me livrar de mais uma bala. Vocês podem dizer que eu devia ter vergonha e que não se pode rejeitar livros assim. Pode-se e não, não tenho. O tempo é escasso e há coisas mais interessantes à espera de serem lidas nomeadamente muitas autoras - não é eufemismo. Não quer dizer que vá fazer uma fogueira e queimar metade da minha estante enquanto danço sem soutien (esta última parte seria libertadora), mas sim continuar a mudar os hábitos de leitura. Vocês também podem argumentar que eu devia ler para tirar as teimas, mas o problema é o mesmo: tempo que podia ter sido aproveitado em algo melhor.

Ler Autoras: não-ficção feminista

Desde que comecei a sério com este projecto o ano passado noto que ler autoras se está tornar cada vez mais uma coisa natural: não tanto um desafio a que nos propusemos, mas algo que fazemos quase inconscientemente ao escolher as leituras. É uma questão de hábito e chega a ser estranho pensar num tempo em que tudo ou quase tudo o que lia era masculino...O truque é escolher autores que pareçam realmente valer a pena ou que tratem de temas de interesse - daí ter decidido ler o Call Me by Your Name [devia ter ido ver o filme...] ou o The Underground Railroad - em vez de ler os primeiros que estiverem à mão. E claro fugir do que soar sexista ou com forte probabilidade de descambar para esses afins. Às vezes não é preciso avançar muito na narrativa, às vezes tudo o que é preciso é ir ao Goodreads. Nisto é boa ajuda. Ainda ando à "caça" de autoras por aí - amo encontrar novos nomes e títulos e neste momento elas vão na frente em ternos numéricos..Pretendo que se mantenha assim, mesmo que venha a ser por uma margem mais curta. Além de livros de autoras tenho pensando fazer algumas leituras de não-ficção sobre feminismo. Não tenho grandes bases por isso fui juntando títulos numa pasta e acabei com vários que parecem interessantes - são coisas que gostaria de ter em papel e em português, mas isso são possibilidades remotas. Aqui ficam alguns dos que estão na lista:

 

- A Mulher Eunuco, Germaine Greer, 1970  ["focaliza e expõe as diversas formas em que as mulheres são ainda corpo e alma submissas ao homem - e deformadas sob as condições de empregadas, esposas, mães, amantes"]

 

Mulheres, Raça e Classe - Angela Davis, 1981 [analisa as estruturas racistas e sexistas que ordenam a sociedade, considerando como essas questões se interligam]

 

- Naomi Wolf - O Mito da Beleza, 1990 ["mostra como a indústria da beleza e o culto à bela fêmea manipulam imagens que minam a resistência psicológica e material femininas"]

 

Mulheres que Correm Com os Lobos, Clarice Pinkola Estes, 1992 [mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem]

 

- The Purity Myth, Jessica Valenti, 2009  [How America's Obsession with Virginity is Hurting Young Women]

 

- Heroines, Kate Zambreno, 2012 ["What can women writers do to engage the men who are resistant to reading books by female writers? How can we convince them to give female writers a chance?" - Refuse to fuck them?"]

 

Girls & Sex, Peggy Orenstein, 2016 ["Peggy Orenstein investigates the effects of hookups, pornography, alcohol, celebrities and social media on the intimate lives of young women"]

 

 - Listas com títulos de interesse:

 

https://www.bustle.com/p/13-books-to-read-if-you-feel-alone-in-your-feminism-53005

 

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