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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Leituras de Janeiro

Terminei Silent Spring, famoso livro de não-ficção de 1962 em que Rachel Carson acorda os americanos para os perigos dos pesticidas e que ajudou a lançar as bases para os movimentos de conservação e ambientalistas. Um trabalho minucioso, mas compreensivo para o público e que pela sua coragem e actualidade merece estar na lista de livros essenciais. Depois passei para The Lottery And Others Stories da Shirley Jackson.

 

Normalmente o pessoal lê o Lotaria em separado por ser tão conhecido. Mas acho que se tem a ganhar lendo-o inserido na colectânea. São 26 contos interligados (sendo Lotaria o último) que falam de alienação, conformidade e violência. Mas não temam porque também fala de simpáticos vizinhos. 

 

Pelo meio houve um pequeno livro da Patti Smith (gostei) e uma novela gráfica juvenil (fofa, mas meh). Agora estou a acabar Good Night Stories For Rebel Girls. Irei falar dele com mais detalhe. Leituras seguintes: Hope in the Dark da Rebecca Solnit e talvez A Mulher da Meg Wolitzer. É basicamente o que ando a fazer, em vez de actualizar este blog como era suposto. 

Queixas e livros Ilustrados

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Há sempre alguém a queixar-se do feminismo...De como é irritante, ainda por cima virou moda. Isto faz-me lembrar quando comecei a ler sobre o assunto. Não foi há muito tempo, ainda assim não me ocorria ir a uma livraria perguntar: tem aquele livro ilustrado sobre mulheres da História de Portugal? Não me lembro de ser o tipo de coisa que encontrava frequentemente nos balcões principais. Parece que agora temos mais opções - e especialmente mais livros apelativos direccionados para as raparigas. 

 

Não me ocorria ir a uma bilheteira de um cinema: queria um bilhete para aquele filme com uma super-heroína que teve uma super pontuação no site de críticas. Também porque honestamente tudo o que me lembro em miúda a este respeito é de dois filmes, ambos uma merda. Agora acho que estamos encaminhados para um dia podermos ir a uma bilheteira e escolher entre este ou aquele filme com uma super-heroína, poder escolher como os homens. Deve ser incrível. Há coisas chatas como bater com o dedo numa quina e há modas preocupantes como gente a conduzir de olhos vendados...Algo que, por exemplo, trás para a luz do dia os feitos das mulheres não se encaixa nestes grupos.

 

Há quem se queixe "desta nova teoria de que as mulheres fizeram tudo", que o feminismo é "nocivo para a identidade das mulheres" e que de uma forma geral é culpado de tudo inclusive do aumento do fascismo. E não esquecer o: o que deu nestas gajas para agora andarem todas a dizer que foram violadas?  Há quem não suporte que outras pessoas sejam respeitadas e foi assim nasceu a ideia do politicamente correcto (“Political correctness” is a concept invented by the privileged to transform basic respect into something political and therefore controversial"). Voltando aos livros: sou uma fácil. Coisas que falem sobre mulheres (ilustradas ou não) têm a minha atenção. 

Mas afinal leste autores?

Vocês devem estar em pulgas para saber a resposta. Sim, alguns. Foram leituras proveitosas? Nem por isso. Não tenho o costume de tomar nota da data em que comecei e terminei um livro, mas através do computador fiquei a saber que o último autor que li foi em Abril. Porque é que decidi ler autores nos primeiros meses do ano é algo que me ultrapassa, ainda assim melhor que 2017 que comecou com três seguidos. Foi quando achei que a minha ideia de ler mais escritoras iria pelo cano.

 

Demoro um pouco, mas lá me consigo focar. Gostei bastante do A Doll's House e do The Underground Railroad, o resto...Meh. O Never Let Me Go achei aborrecido e desinteressante (porque levei a leitura até ao fim, com franqueza...) e não achei o Call me by Your Name extraordinário. Para este ano a lista de escritores não é realmente muito extensa. Há dois livros do James Baldwin que tenho interesse em ler e um livro de não-ficção sobre aviadoras escrito por um autor.

 

O meu objectivo agora é ter todos os anos alguém a questionar a minha ideia de ler mais autoras. Este ano tivemos: mas os livros são bons por serem escritos por homens/mulheres ou por terem realmente qualidade? Não me parece que eu possa ser criticada por escolher ler mulheres quando, por exemplo, essas listas (100 livros para ler antes de morrer, 200 melhores novelas do século XX, melhores livros de sempre pelo jornal y...) são constituídas por um número muito superior de homens. Quem critica que se leiam autoras deve saber explicar porque é que isto acontece, usando argumentos racionais.

 

Talvez aquela pergunta devesse ser feita nas caixas de comentários dessas listas. Há pessoal que gosta de dizer que não vê raça nem género. Eu como nunca vi ninguém a fazer suposições sobre o género de um condutor que está a tentar estacionar, nem a defender as divisões entre artigos de menina e de menino, nem a dizer que há cursos mais apropriados para raparigas, acho que deve ser verdade que o género é irrelevante neste mundo. Só que não.  

 

Oficialmente deixei de dar a mínima para aquilo que devia ler, para essas listas e se vou conseguir ler tudo o que lá está. Ontem fui ao Goodreads saber qual era o assunto do livro The Silence of the Girls da Pat Barker e está lá alguém a perguntar se é apropriado para raparigas adolescentes. Não faço ideia, mas uma das respostas é: Every teenage girl should read this instead of the Iliad. Como ficar convencida a dar uma oportunidade a um título só com uma frase...Isto fez-me lembrar de um que tenho por ler: A Girl's Guide to Joining the Resistance: A Feminist Handbook on Fighting for Good. 

 

Apoio coisas que incentivem as raparigas a rebelarem-se contra os cânones estabelecidos. Alguém (não eu porque não tenho competências para tal e porque ainda estaria a receber os louros do meu livro de crónicas As Mulheres Também Fodem) devia criar uma espécie de guia fácil e ilustrado com sugestões de títulos para jovens mulheres, de modo a que elas mais facilmente tivessem acesso a livros que não dizem implícita ou explicitamente que as mulheres são lixo. É tão importante termos quem dedique atenção às vozes marginais da História seja escrevendo livros, realizando filmes...

 

E também pessoas que direccionem essa informação para as jovens. Crescer-se rodeado de exemplos, consciente dos seu próprio valor como ser humano e sentir-se representado são coisas que o mundo proporciona em grande quantidade aos rapazes, mas não às raparigas. Por razões óbvias...Outra coisa que me lembrei: preciso de ler Becoming da Michelle.

Vamos lá começar o ano

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- O que se lê agora: Silent Spring (Rachel Carson) e The Joy Luck Club (Amy Tan). Este último estou a ler pela segunda vez.

 

- As últimas compras. Há quem afirme que eu não posso ir a sítio nenhum onde haja livros...Considero que não é verdade.

 

- O novo caderno para registo de leituras. Não é tão espectacular como o da Wonder-Woman, mas é prático com as argolas e também não havia mais escolha na loja.

 

- A fiel caneta

 

- Um bloco que estou a usar para fazer anotações durante a leitura. 

Próximos, mas tão afastados

Por estes dias tenho andado a ler short-stories. E uma chuva de felicidade literária tem caído sobre o meu coração. Num mundo ideal eu teria espaço para colocar contos na lista de melhores leituras do ano. Comecei por algumas histórias da Kate chopin: abordam temas como a situação da mulher na sociedade (A Respectable Woman; A Pair of Silk Stockings...O romance The awakening pelo qual é mais conhecida também aborda este tema. Encontra-se disponível também nesse site) e racismo (Désirée's Baby), com uma escrita maravilhosa.

 

Depois passei para a Shirley Jackson. Perita em escrever sobre o mal que rasteja nas sombras daquilo que parece mais insuspeito. Comunidades simpáticas, cidadãos exemplares...Gostei muito de The  Possibility of Evil e The Witch, que me fez pensar na normalização da violência e nos efeitos disso nas crianças. E para a Charlotte P. Gilman com The Giant Wistaria: um conto feminista em estilo gótico. Terminei com histórias de autoras que não conhecia. Em The Friday Everything Changed (Anne Hart) um grupo de miúdas decide questionar uma tradição sexista:

 

"In Miss Ralston's class the boys have always carried the water bucket. Until one day, the girls decide it's time to challenge the rule"

 

A Story for Children (Svava Jakobsdóttir, autora islandesa), mostra como a confinação ao papel de cuidadora do lar destrói as mulheres física e psicologicamente. Que murro no estômago. Weekend (Fay Weldon) tem uma temática semelhante, com uma personagem sufocada na sua luta para corresponder às expectativas de mãe e esposa. Desde que comecei a ler mais autoras tenho encontrado muita coisa sobre este assunto e inevitavelmente dou por mim a comparar com a perspectiva masculina que estava mais habituada a assimilar. 

 

Lá vou irritar pessoas como uma ontem que disse que eu era uma feminista exacerbada e que para pessoas normais os meus textos não valiam nada. Já sabemos para quem não vai o prémio simpatia 2018. Mas tenho de o dizer - quando fiz esta comparação foi como comparar pisar um pionés com pisar uma mina terrestre. A perspectiva masculina é aquela que nos habituámos a ver representada e a levar a sério. Hollywood ama glorificar a história do desgraçado "preso" a filhos birrentos e a uma mulher chata e sem atractivos. Ou o tipo de meia idade que larga filhos birrentos e mulher chata para "rejuvenescer" e "encontrar o verdadeiro sentido da vida" ao lado de uma gostosa mais nova.

 

Nunca temos filmes que chegue sobre isso...As senhoras também podem "encontrar o verdadeiro sentido da vida" mas o nome para isso costuma ser diferente. Quem confiar no que encontra na internet vai pensar que o casamento é a coisa mais terrível que pode acontecer a um tipo. 

 

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Mas que pobres vítimas! Já nem podem jogar videojogos! Não estão contentes por partilharem a vida com a pessoa que amam e que escolheram? Nem toda a gente tem a mesma sorte. O facto de tantos milhões de meninas e de mulheres serem realmente destruídas por uniões matrimoniais já não parece ser tão interessante de representar.

 

"Each year, 12 million girls are married before the age of 18. That is 23 girls every minute. Nearly 1 every 2 seconds. If current trends on child marriage continue, 150 million more girls will be married in childhood by 2030, with devastating consequences for the whole world"

 

(tirado daqui)

 

É difícil negar que há todo um conjunto de coisas pelas quais as mulheres passaram e passam que jamais foi experienciado por homens (ou que foi experienciado em número bem inferior). Em The Giant Wistaria uma moça tem um filho fora do casamento. A devastação que se segue, nem precisarei de descrever, nunca sequer beliscou homem algum. Seria difícil já que as regras foram criadas para que eles pudessem escapar sem punição. Não estou a falar de coisas biológicas óbvias. Este fosso entre experiências de vida é criado pela desigualdade.

 

É assustador pensar neste fosso que nos separa. A partir do momento em que há homens que ficam surpreendidos ao ouvir mulheres falarem de como limitam a sua liberdade por medo, fica evidente que este fosso é bem largo. Como superar isto? Uma coisa que gostei nestes contos, e que também gosto em outros títulos que leio, é como as autoras conseguem condensar a mensagem em tão poucas páginas - o sofrimento é real. E no entanto continuamos aqui a tentar prová-lo...É até difícil conseguir falar de masculinidade tóxica, que é algo que leva muitos homens ao suicídio. Um mundo mais igual e diverso beneficia todos.

 

Sinto que repito isto muitas vezes, apesar de ser lógico. Entretanto pensar nestas coisas cimenta mais a minha vontade de continuar a ler autoras. Espero que não achem uma maçada isto das short-stories porque tenho mais algumas em lista de espera e se achar pertinente irei falar aqui delas.

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