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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler Autoras: filtragem e Colisões

Num post anterior eu disse que cortava livros da lista quando a sinopse e coisas ditas em opiniões me pareciam suspeitas, isto desde que comecei a ler mais autoras - o tempo é curto e tenho de ter alguma forma de filtragem e de não ficar pressionada com o muito que há para ler e para adquirir (nas alturas em que há orçamento). Mas pode ser complicado especialmente para quem gosta de clássicos. Outro dia encontrei uma daquelas listas bem grandes com muitos títulos e começava logo com aqueles clássicos mesmo clássicos o chamado cânone ocidental - e eu tudo o que li até hoje foi o Rei Édipo, a República (peguei emprestado, não me lembro de quase nada) e o Inferno. O problema é que este meu projecto de leitura de ler senhoras parece entrar em rota de colisão com este cânone. Para mergulhar nisso teria de ler as mesmas historias contadas sempre pelas mesmas pessoas, pois bem sabemos quem é que tem a supremacia de definir o que se deve ler e de que perspectiva. Para ser culta tenho de ler mais sobre as batalhas épicas que homens travaram, as viagens que fizeram, os cabos que dobraram, a quantidade de mulheres que foderam? Preciso mais disso na minha vida? 

Ler Autoras: coisas boas

- É provável que este ano à semelhança do anterior consiga ler mais autoras que autores 

 

- Tenho livros novos [2] 

 

Depois de A Pianista da Alfried Janelik, acabei Woman at Point Zero (Nawal al-Sa'dawi) e Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win the Space Race (Margot Lee Shetterly) e continuo a ler Cleópatra da Stacy Schiff

 

- Livros fantásticos que têm fortes probabilidades de figurarem na lista final. Talvez consiga fazer pela primeira vez uma lista de melhores do ano exclusivamente feminina. Estou focada nesta ideia.

 

- O meu estado de espírito como leitora neste momento:

 

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Ler Autoras: aberta a época

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A fim de me manter a par do espírito dos tempos, declaro aberta aqui a época dos casamentos (espero que isto não seja considerado spoiler) Por ordem cronologia: quatro releituras e duas leituras, sendo que o primeiro já está. Outras coisas serão lidas pelo meio é claro, mas com sorte isto não vai durar até Dezembro. No fim discutiremos a questão mais importante e profunda de todas: qual protagonista masculino é o melhor. Tenho uma ideia de quem não ficará no topo da lista, mas se verá.

Ler Autoras: Mentiras

Sei que muita gente não é fã de biografias e auto-biografias, mas tenho cada vez mais percebido a importância de incluí-las nas minhas leituras. Depois do Lab Girl da Hope Jahren e do Let's Pretend That Never Happened da Jenny Lawson, já mencionados aqui, li Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons From the Crematory (Caitlin Doughty); Heartbreak: The Political Memoir of a Feminist Militant (Andrea Dworkin) e Hunger (Roxane Gay). É um privilégio poder ler a história de tantas mulheres contadas na primeira pessoa ou pela escrita de outras autoras. Também tenho tropeçado em alguns livros que me têm deixado perplexa, não porque sejam maus - mas porque não consigo perceber porque não estão nas listas de livros que toda a gente deve ler.

 

E pensar que até há não muito tempo eu aceitava passivamente a ideia de que se havia poucas autoras nestas listas era porque não havia assim tantas que prestassem...Mais chocante ainda quando são autoras que foram pioneiras ou mesmo as primeiras a fazer algo neste caso no campo da literatura. Esta sociedade odeia-nos tanto que é capaz de atribuir trabalhos\descobertas nossas a homens - não admite que uma mulher possa ter talento. Este ano já tive o caso do Life and Death of Harriett Frean da May Sinclair: poeta, filósofa, tradutora e crítica nascida em Inglaterra em 1863. Desempenhou um papel fundamental no movimento modernista e foi ela quem primeiro pegou na técnica do fluxo de consciência e a aplicou à literatura. May também era sufragista. Infelizente ela permanece na sombra enquanto os homens (James Joyce, Ezra Pound, DH Lawrence, blá, blá...) ocupam as listas.

 

Está longe de ser o único caso - a minha última leitura: A Raisin in the Sun da Lorraine Hansberry, uma peça teatral publicada em 1959 e cuja história gira em torno de um família negra vivendo debaixo da segregação racial em Chicago. Devia estar em todas as listas de livros que se devem ler. Lorraine foi o mais jovem dramaturgo, a quinta mulher e o primeiro negro a receber o New York's Drama Critic's Circle Award e a primeira mulher negra a ter uma peça na Broadway. Estas listas de "obrigatórios" não só são misóginas como fazem publicidade à lixívia. Aquilo que algumas pessoas costumam dizer: falar em conquistas no feminino não é igualdade, devemos falar de todas as conquistas! É o mesmo pensamento que está subjacente ao: devia existir dia do homem! Devia chamar-se igualitarismo e não feminismo, deviam dizer que todas as vidas são importantes! Quão nonsense é este argumento.

 

Algum homem foi alguma vez impedido de entrar numa faculdade e tendo por força conseguido ser admitido, acabou expulso porque respondeu numa aula a uma pergunta que mais ninguém sabia e os colegas foram a correr fazer uma petição dizendo que a sua presença prejudicava o progresso deles? Ou teve um tubo enfiado na garganta apenas por querer participar na normal vida pública? E quem era enforcado em pacatas ruas americanas enquanto famílias riam e aplaudiam? Quem foi massacrado e expulso da sua terra? A frequência com que vejo este "argumento" mostra o quanto algumas pessoas estão deslocadas da realidade. Realmente só quando se começa a pesquisar sobre aquilo que as mulheres fizeram ao longo da história, a ouvir as suas músicas, a ver os seus filmes, a ler os seus livros...Se percebe o quão profundas são as mentiras fabricadas por este mundo misógino.

Ler Autoras: Goodreads e balas

É verdade que não sou grande fã do Goodreads - do tipo de ir lá abrir uma conta, mas tenho cada vez mais apreço pelas pessoas que vão lá opinar: pelas que dizem coisas insanas que posso usar em posts aqui e às que pelo contrário vão lá e dizem que acharam o livro tal racista e\ou sexista. Por exemplo, a semana passada coloquei mais 3 títulos na lista de livros que não pretendo ler. Às vezes há 3 ou 4 opiniões em sequência a apontar isso o que me dá uma pequena esperança na humanidade. Ou é apenas a prova que aquele livro em particular é realmente mau. Outras vezes é sorte: num dos casos encontrei alguém que dizia ter se irritado com o que autor dizia sobre as mulheres - tive que ir avançando até chegar à terceira página de opiniões. Até não estava à procura disso especificamente: a sinopse parecia interessante e continuei - e acabei por me livrar de mais uma bala. Vocês podem dizer que eu devia ter vergonha e que não se pode rejeitar livros assim. Pode-se e não, não tenho. O tempo é escasso e há coisas mais interessantes à espera de serem lidas nomeadamente muitas autoras - não é eufemismo. Não quer dizer que vá fazer uma fogueira e queimar metade da minha estante enquanto danço sem soutien (esta última parte seria libertadora), mas sim continuar a mudar os hábitos de leitura. Vocês também podem argumentar que eu devia ler para tirar as teimas, mas o problema é o mesmo: tempo que podia ter sido aproveitado em algo melhor.

Ler Autoras: não-ficção feminista

Desde que comecei a sério com este projecto o ano passado noto que ler autoras se está tornar cada vez mais uma coisa natural: não tanto um desafio a que nos propusemos, mas algo que fazemos quase inconscientemente ao escolher as leituras. É uma questão de hábito e chega a ser estranho pensar num tempo em que tudo ou quase tudo o que lia era masculino...O truque é escolher autores que pareçam realmente valer a pena ou que tratem de temas de interesse - daí ter decidido ler o Call Me by Your Name [devia ter ido ver o filme...] ou o The Underground Railroad - em vez de ler os primeiros que estiverem à mão. E claro fugir do que soar sexista ou com forte probabilidade de descambar para esses afins. Às vezes não é preciso avançar muito na narrativa, às vezes tudo o que é preciso é ir ao Goodreads. Nisto é boa ajuda. Ainda ando à "caça" de autoras por aí - amo encontrar novos nomes e títulos e neste momento elas vão na frente em ternos numéricos..Pretendo que se mantenha assim, mesmo que venha a ser por uma margem mais curta. Além de livros de autoras tenho pensando fazer algumas leituras de não-ficção sobre feminismo. Não tenho grandes bases por isso fui juntando títulos numa pasta e acabei com vários que parecem interessantes - são coisas que gostaria de ter em papel e em português, mas isso são possibilidades remotas. Aqui ficam alguns dos que estão na lista:

 

- A Mulher Eunuco, Germaine Greer, 1970  ["focaliza e expõe as diversas formas em que as mulheres são ainda corpo e alma submissas ao homem - e deformadas sob as condições de empregadas, esposas, mães, amantes"]

 

Mulheres, Raça e Classe - Angela Davis, 1981 [analisa as estruturas racistas e sexistas que ordenam a sociedade, considerando como essas questões se interligam]

 

- Naomi Wolf - O Mito da Beleza, 1990 ["mostra como a indústria da beleza e o culto à bela fêmea manipulam imagens que minam a resistência psicológica e material femininas"]

 

Mulheres que Correm Com os Lobos, Clarice Pinkola Estes, 1992 [mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem]

 

- The Purity Myth, Jessica Valenti, 2009  [How America's Obsession with Virginity is Hurting Young Women]

 

- Heroines, Kate Zambreno, 2012 ["What can women writers do to engage the men who are resistant to reading books by female writers? How can we convince them to give female writers a chance?" - Refuse to fuck them?"]

 

Girls & Sex, Peggy Orenstein, 2016 ["Peggy Orenstein investigates the effects of hookups, pornography, alcohol, celebrities and social media on the intimate lives of young women"]

 

 - Listas com títulos de interesse:

 

https://www.bustle.com/p/13-books-to-read-if-you-feel-alone-in-your-feminism-53005

 

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