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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Então, como foi o ano literário?

Foi muito feliz, embora só tenha tomado plenamente consciência disso quando fiz a lista com todos os livros lidos - à mão numa folha como é costume, sublinhando a marcador os títulos a que dei 5 estrelas. Mais coisa menos coisa fiquei com 30 candidatos à lista final...Precisei de uns segundos para assimilar esta informação e depois devo ter dado um gritinho (para dentro pois era muito tarde na noite)

 

O ano passado foi óptimo e neste as coisas encaminharam-se ainda mais no sentido de me fazer ver a importância de ler autoras e de celebrar o talento e expressão feminina. Houve alturas em que além da questão literária e de escrita eu estava contente pela mera existência daquele livro. Por uma mulher decidir falar sobre a relação com o seu corpo ou sobre a sua experiência de índia numa sociedade branca e intolerante. Ou decidir ilustrar um livro sobre cientistas ou que o seu romance terá senhoras idosas como protagonistas.

 

Não é apenas crescermos como leitoras(es), mas também como humanas(os). Mas é preciso estarmos na disposição de ouvir estas vozes à margem. E o que li afinal? Bem, não achavam que eu ia ficar pelos quatro subtilmente mencionados acima...Aqui vão mais alguns dos favoritos: 

 

Melhores leituras de 2017

Então, os melhores livros do ano. Já falei um pouco do assunto no post sobre coisas que aprendi ao ler autoras e agora que tenho aqui a folha com todos os títulos posso dizer que estou bem contentinha com o modo como as coisas correram. Lá acabei por conseguir ler mais escritoras pela (penso eu) primeira vez - agora confirma-se! Foi um ano literário de aprendizagem e com várias surpresas. Fazer um top é que para não variar foi um bocado difícil. Para este post não ficar gigantesco escolhi apenas quinze livros. Ficou na mesma, mas ok. Aguentem-se firmes:

 

1. A Guerra Não Tem Rosto de Mulher; Svetlana Aleksievitch

 

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Quase um milhão de mulheres soviéticas participaram na Segunda Guerra: quer na retaguarda, quer na frente de combate elas faziam de tudo: eram enfermeiras, atiradoras, pilotos, conduziam tanques, desactivavam minas, cozinhavam, lavavam, combatiam corpo a corpo. Muitas eram também meninas com dezasseis ou dezassete anos, até menos. Mas quando a guerra acabou o seu papel foi ignorado e esquecido. Svetlana passou anos a recolher testemunhos e o resultado é um verdadeiro monumento à bravura feminina. Um relato íntimo e cru mesclado de morte e inocência.  Absolutamente esmagador

 

2. Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta 

 

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Em Maio de 1971 as três Marias (três aranhas astuciosas) decidiram começar a escrever um livro a seis mãos partindo do romance epistolar "Cartas Portuguesas" (as cartas de amor endereçadas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, enclausurada no convento de Beja) onde denunciavam fortemente a ditadura, a sociedade patriarcal e a opressão contra as mulheres. Um escândalo: o livro foi considerado imoral, houve julgamento e até mobilização internacional. E ainda continua actual. Um verdadeiro monumento feminista, histórico e literário

 

3. Men Explain Things to Me, Rebecca Solnit

Partindo de uma situação caricata, um homem que lhe tentou explicar um livro que ela própria tinha escrito, Rebecca fala de feminismo e das várias formas de violência contra as mulheres

 

4. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy

"Que tudo começou realmente na época em que as Leis do Amor foram feitas. As leis que estipulavam quem devia ser amado, e como. E quanto."

 

5. North and South, Elizabeth Gaskell

Conhecido clássico de 1855 ambientado na revolução industrial. Enredo, personagens, escrita - é tudo tão bom. Margaret e John 

 

6. Bad Behaviour, Mary Gaitskill

Um provocativo conjunto de contos sobre solidão, abuso emocional, sexo pago, sadismo e mulheres a tentarem vencer na grande maçã

 

7. Incidents in the Life of a Slave Girl, Harriet Jacobs

 

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Harriet Ann Jacobs (1813-1897) nasceu escrava na Carolina do Norte. Aos doze anos foi vendida a um tipo que a assediava sexualmente e a humilhava de forma persistente, recusando-se por todos os meios a libertá-la. Então Harriet elaborou um plano arriscado: ficar escondida até conseguir escapar para o norte. Ficou anos escondida numa divisão insalubre, sem poder ver os filhos, até finalmente conseguir fugir de barco para Filadélfia. Além de ser um relato incrível de luta pela liberdade é também um dos raros testemunhos da escravatura no feminino

 

8. Beloved, Toni Morrison

A história de uma mulher que tinha uma árvore nas costas, da sua filha e de um fantasma

 

9. O Despertar, Kate Chopin

O "despertar" de Edna Pontellier uma jovem mulher que decide romper com as conveniências sociais e com o papel tradicional reservado às mulheres e abraçar a independência e a realização sexual

 

10. A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

Eurídice Gusmão podia ter sido muitas coisas na vida. Mas não lhe permitiram ser mais que uma dona de casa - educada para ser propriedade masculina no recato do lar, sem hipóteses de se realizar. Como tantas mulheres neste mundo. Invisíveis

 

11. O Clube da Sorte e da Alegria, Amy Tan

Um livro lindíssimo onde a autora analisa a relação entre quatro mulheres vindas da China para São Francisco e as suas filhas já nascidas na América

 

12. Passing, Nella Larsen

Tudo na vida de Irene Redfield parecia estar seguro...Até aparecer Clare. Uma mulher enigmática com feitio de gata que consegue fazer-se passar por branca e que não se importa com o perigo. Uma novela cheia de areias movediças 

 

13. Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail, Cheryl Strayed

Uma mulher, uma mochila demasiado carregada, um longo caminho, nada a perder

 

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14. The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making, Catherynne M. Valente

O conteúdo é mesmo tão bom quanto o título: a maravilhosa história de como uma menina chamada Setembro viajou até à terra das fadas montada num leopardo e das muitas aventuras que viveu lá

 

15. Fábrica de Oficiais, Hans Hellmut Kirst

A história de um misterioso crime ocorrido numa escola para oficiais alemães em 1944, do tenente incumbido de descobrir a verdade e das consequências que isso teve. Excelente sátira, especialmente para quem tem interesse nestes temas

 

As melhores leituras de 2016

 

Assim se faz a contagem quando não se tem Goodreads nem esses mimimis. Lembrei-me de colocar aqui uma foto porque não preparei texto introdutório nenhum de jeito para este post - enfim, folhear os meus apontamentos foi giro. Havia algumas coisas que já não lembrava de ter lido. Como já devo ter contado aqui algures, a minha memória temporal é atrofiada. Conheço todos os livros que tenho na estante, mas não sei quando os li. Quando se instala uma zaragata cá em casa para saber em que ano estivemos no sítio x nunca posso ajudar. Já fazer a lista com os melhores não foi muito bom, derivado de ter acabado com 24 candidatos para 10 lugares. A sério. Pensando bem o contrário era pior. A ordem da lista é meio aleatória, algum tinha de ficar em primeiro e assim por diante. Aqui está: 

 

1. A Room of One's Own, Virginia Woolf

2. O Exílio, Pearl S. Buck

3. Maus: A Survivor's Tale, Art Spiegelman

4. On the Road, Jack Kerouac

5. O Castelo, kafka

6. Moby Dick, Herman Melville

7. Persuasão, Jane Austen

8. Os Versículos Satânicos, Salman Rushdie

9. A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares

10. A Oeste Nada de Novo, Erich Maria Remarque

11. O Amor de Uma Boa Mulher, Alice Munro

12. Fala, memória; Vladimir Nabokov

13. Cândido ou o Optimismo, Voltaire

14. Ragnarok: The End of the Gods, A.S. Byatt

15. Delta de Vênus, Anaïs Nin

 

E ainda menções honrosas a: 

 

Still Alice, Lisa Genova

(pela vida das borboletas)

Coraline, Neil Gaiman

(pela coragem, mesmo quando se é pequeno para a idade)

The Drowning Girl, Caitlín R. Kiernan

(pela transmissão de fantasmas)

 

E pronto foi isto, agora adeus

 

 

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