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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Justiça para mim!

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Aqui se vê a injustiça no mundo: eu digo que passei um ano a ler (quase) só autoras e que foi óptimo e tenho gente à perna a dizer que isso não é igualdade, que é misandria, que devemos escolher os livros pelo conteúdo e não pelo género - pára de estar sempre a puxar a conversa do género! Mas este tipo pode literalmente dizer - é, eu acho a maior parte das autoras insuportáveis mas esta até escapa" e está tudo bem. Deve ser porque eu não sou um autor famoso e premiado. Deve ser incrível poder dizer qualquer imbecilidade sem consequências..."Não digas que há livros escritos por homens para homens, isso é tão redutor e exagerado...Quê? Ah não, não aprecio escrita feminina." Se fosse escritora iria exigir que a minha editora pusesse na parte de trás do meu livro quatro homens a dizerem que a minha escrita é maravilhosa. Nada de autoras. Só homens. Para me sentir plenamente validada. Talvez deva começar a aplicar este "elogio" noutras facetas da vida. Por exemplo, se um dia casar e alguém me perguntar a razão da escolha vou responder: é que a maioria dos homens não presta para nada, este é dos poucos que consigo tolerar. Se o meu marido não ficar tão comovido com isto que me leve logo para cama e coloque a cabeça lá em baixo para uma boa sessão de beijinhos, não sei....

A Justiça é uma máquina trituradora

A propósito do Dia da Mulher voltei-me a lembrar deste fenómeno muito comum: feminismo amigável. Quando uma pessoa quer escrever sobre igualdade mas não quer ofender...Ou passar a imagem de uma mulher histérica ou raivosa - e por isso se atira tantas vezes a palavra feminismo para debaixo do tapete: substituindo por mais "diplomáticos" e "agradáveis" termos; escrevendo textos que dão tais voltas parece que a pessoa está perdida no labirinto de Creta; fazendo ressalvas a cada três linhas ou parágrafos introdutórios para que se saiba absolutamente, sem sombra de dúvida e com atestado de psiquiatra que se trata de uma fêmea equilibrada.

 

Este conceito de feminismo amigável não faz sentido. Mesmo que ninguém escreva a primeiríssima coisa que lhe venha à cabeça, se vamos escrever sobre feminismo que o façamos sem rodeios. Em primeiro lugar porque de outro modo é perda de tempo. Vai haver sempre alguém a sentir-se ofendido, não importa as voltas que dêem. Em segundo quando isso acontece o problema não é vosso. Em terceiro, esta sociedade não gosta quando se fala de igualdade por isso andarem a pedir desculpa por falarem sobre isso ou sentirem que têm de se justificar, quando é tão legítimo indignarem-se com tanta desigualdade - é o que esta sociedade quer. Não é preciso muito para uma mulher ser vista como histérica, raivosa ou exagerada basta ter mais sentimentos que uma jarra decorativa. E falar mais do que uma. Lembrem-se que esta é a mesma sociedade que diz que vocês nasceram para cozinhar, serem fodidas e parirem. O que nos leva ao quarto motivo: usar paninhos quentes para falar de uma sociedade que vos vê desta maneira?

 

Muitas vezes tenho vontade de imprimir passagens que leio sobre igualdade e distribuí-las por aí, pois fico perplexa com a dificuldade de algumas pessoas em perceber coisas tão básicas - como o facto de não sermos jarras decorativas. A algumas eu gostaria de atirar um sapato. A existência de predadores sexuais já é horrível por si só, mas vemos a profundidade do problema quando hordas de defensores começam a sair do pântano. Defender um violador é tão fácil e ainda passamos por corajosos contra a corrente, especialmente se falarmos na importância da "liberdade de expressão" e da "arte". Cada vez que alguém começa um texto com: "porque é que elas só decidiram falar agora" ou "porque é que elas não fizeram nada antes", isso é descredibilizar as vítimas e desviar a atenção do agressor - é ficar ao lado do agressor. Não importa quão modernos e boas pessoas vocês se possam achar: é este tipo de pensamento que permite que estes predadores continuem a ficar impunes.

 

"Hoje em dia já nem se pode tocar..."; "será que também vão proibir o sexo?"; "porque parecem as mulheres terem medo de sexo?!"...Fico a imaginar se estas pessoas estivessem frente a frente com uma mulher violada aos onze anos por dez tipos que acabaram ilibados, teriam coragem de dizer tais coisas. Claro que para alguns tudo isto é um complô do politicamente correto. Eu seria politicamente correta se dissesse, digamos que é triste que o Nobel da Literatura possa não ser entregue este ano por causa dos escândalos de abuso, um prémio tão nobre e importante...Mas não vou dizer isso. Que se dane. Quando é que estes prémios foram alguma vez justos connosco? Ou se parasse para analisar o que realizadores\actores dizem em defesa de outros. É expectável: não querem que as suas cabeças rolem também. E não querem ficar sem os seus brinquedos preferidos...Monstros defendem monstros.

 

Um conhecido autor escreveu: "Garotas comuns normalmente se preocupam muito mais em saber o que é bonito e como podem ser felizes do que com a questão de alguma coisa ser justa. “Justiça” é, sem dúvida, uma palavra de uso exclusivo masculino". Como garota comum que sou, não candidata a um Nobel, temo que este pensamento seja demasiado profundo para conseguir analisar. De facto, um conceito de justiça que desumaniza e humilha brutalmente um ser humano - que diz a uma mulher, uma menina, que é uma puta sedenta de dinheiro e que não só é culpada pelo que aconteceu como gostou de ser fodida à força, parece um conceito de justiça de "uso exclusivo masculino" que não nos deve interessar. Não feito para nos proteger - é por isso que precisamos de um novo.

Reflexões a partir de chocolate

Não sei se já contei aqui aquela vez em que encontrei uma mega barra de chocolate numa caixa - é possível que sim, mas acompanhem-me na mesma porque é muito interessante e relevante. Enquanto partia o primeiro quadradinho lembrei-me de um artigo numa revista feminina que relacionava o modo como comemos chocolate com o modo como somos com os homens na cama, se metemos um monte de uma vez à boca, se vamos comendo em bocadinhos, se vamos deixando derreter...Sou adepta do primeiro modo porque sou gulosa e não há nada melhor do que chocolate (e queijo), mas já não me lembro do que isso queria dizer. Acho que a minha mente bloqueou essa informação. É incrível como um acto individual, eu a comer uma coisa gostosa, passou a incluir homens em pano de fundo.

 

Não é de espantar. Cada vez que virem algo nestas revistas que parece mesmo ter sido escrito para vocês ou virem um filme que até tem personagens femininas principais, tentem ver se não há alguma coisa potencialmente patriarcal infiltrada lá. É bem possível, pois segundo as regras deste mundo uma mulher deve fazer tudo em função dos homens, do que lhes agrada ou não, e esta ideia pode surgir disfarçada em coisas que até podem parecer modernas ("se o seu parceiro não a ouve, reexamine a sua capacidade de síntese". Não soa a um conselho moderno?). É como se as mulheres estivessem sempre acompanhadas por um coro masculino tipo coro de tragédia grega.

 

O meu acto de comer ficou também de repente imbuído de um sentido sexual. Mais uma vez nada que surpreenda. Tudo o que fazemos é sexualizado e comer é desde sempre encarado como uma cena excitante e cheia de segundos sentidos - mesmo que vocês gritem para a plateia que a vossa intenção é apenas aproveitar as coisas simples da vida e não convencer ninguém a enfiar-vos um pénis na boca. Acredito que é possível fazer um filme sem planos constantes das actrizes a lamber comida, sem lhes focar o rabo quando andam e sem obrigá-las a fazer movimentos sensuais que não contribuem o quer que seja para a narrativa. Às vezes não têm a sensação que é tudo feito apenas para um certo público?

 

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 (The Amazing Spider-Man No.601 Cover: Mary Jane Watson, J. Scott Campbell)

 

Não sei quanto a vocês mas mim parece-me a posição mais normal do mundo...Voltando ao chocolate: enquanto partia um segundo quadradinho lembrei-me também daqueles artigos dessas revistas que ensinam a controlar o que comemos e com conselhos de dietas e pensei que não devia ter saltado isso à frente e ido logo para os questionários (fazia todos, embora aos 15 anos ficasse em dúvida sobre o que responder em alguns pontos...Devia ter desconfiado dos que diziam que eu seria capaz de enlouquecer um tipo em sete dias. Consigo, mas acho que não no sentido que era sugerido) Comecei a sentir culpa. A insegurança é uma arma de submissão muito eficaz. Quantas coisas ruins derivam daí...

 

Ódio por nós mesmas, inveja e ódio pelas outras, excessivo enfoque no que os outros pensam e consequente ideia de nunca sermos atraentes que chegue para os homens o que por sua vez nos vai deixar vulneráveis a relações abusivas. É irónico que nas mesmas revistas se encontrem artigos sobre como as mulheres podem ser felizes consigo mesmas e aceitarem o corpo que têm. Também não devia ter saltado esses textos, pois se os tivesse lido não teria sentido culpa por comer chocolate. E assim um acto individual e natural transformou-se num exercício de culpa, cheio de contradições e dúvidas sobre o futuro no amor. Fiquei tão deprimida que acabei por comer metade da barra.

Raízes e uma História não oficial

Uma coisa que tenho notado: a diferença de ler algo com uma perspectiva feminista. Por exemplo, os livros que lia sobre mulheres com vidas desgraçadas noutros países. Alguns não teria estômago para ler agora...Nessa altura eu era ainda pior do que agora, sempre à procura de espinhos. Ainda tenho esses livros na estante, ocupam mais de uma prateleira. Mas há uma diferença entre olhar para essas histórias apenas como deprimentes e olhar para elas como parte de um sistema global que nos trata como lixo. Não são histórias isoladas. As mulheres possuem um mundo interior rico e particular e estou tentada a acreditar cada vez mais nisso - à medida que vou lendo mais autoras. Nisto e na frase: não há nada mais misterioso do que aquilo que uma mulher pensa.

 

Que infelizmente ainda se aplica à maioria do globo. Faz-me lembrar uma cena de um livro que li há anos: um policial passado na Arábia Saudita com dois protagonistas a tentar descobrir quem cometeu um crime. Às tantas o nosso detective por acaso tem de ir a casa de um pessoal rico e quando dá por si está nos aposentos reservados às mulheres - ele é um bom homem, mas o desconforto é inevitável. Sabe-se lá o que elas pensam ou dizem ali ou se congeminarão coisas perigosas que podem alastrar às outras divisões da casa. Por alguma razão esta cena ficou-me na memória e voltou enquanto lia sobre as mulheres da província de Hunan e o sistema de escrita por elas inventado, passado de mães para filhas por muitas gerações. Ironicamente o olhar superior dos homens, não se detendo em coisas tão insignificantes, ajudou a que este sistema incrível florescesse - com os devidos cuidados claro.

 

Era possível reescrever a História do mundo do ponto de vista feminino - ponto de vista esse que na História oficial não passa de uma sombra ou de uma breve nota de rodapé. Até as nossas lutas por direitos básicos ocupam duas páginas se tanto, basta uma aula para as dar e sigamos caminho que há coisas mais importantes para estudar. A nossa História faz-se muito destes gestos repetidos e partilhados em segredo. É como um conjunto de raízes que se interliga e se expande, sempre longe dos olhos de quem passa pela floresta.

 

Por vezes um brotinho irá crescer para cima em direcção à luz e terá de competir com exemplares que parecem mais fortes...Mas muito ficará para sempre invisível - coisas que não podem sair da nossa cabeça, que nunca serão ditas fora de portas. Talvez sejam notadas daqui a muito tempo quando alguém for escavar e encontrar as provas fossilizadas da vossa existência feita em condições tão agrestes com tão pouca água e tão pouca luz. A nossa experiência é única - não apenas pelas nossas funções corporais. Não é de admirar que sejam coisas tão fortemente reprovadas. Por escaparem à experiência masculina escapam também ao seu controlo: eu vou menstruar e se me engravidarem a criança vai sair independentemente da opinião de qualquer homem sobre isso. A sanção psicológica e moral é uma forma de controlo. Os múltiplos obstáculos que as mulheres enfrentam também tornam a sua experiência singular. Em Lab Girl da Hope jahren é particularmente tocante a cena em que ela faz a sua primeira descoberta. É o momento em que se torna realmente cientista.

 

E Hope deixa as lágrimas cair pelo que aquele momento representa, mas também porque aquele é um momento muito solitário. Ela sabe que acabou de colocar uma pedra definitiva em cima das possibilidades de vir a ser uma mulher "normal". E que agora terá de construir um novo padrão de normalidade adequado a si. É um livro maravilhoso. Naturalmente um momento destes também terá a sua importância para um cientista, mas precisará de vir acompanhado de preocupações sobre casamento, fertilidade e aceitação social? Os homens foram sempre livres de ir: para o seu escritório no último andar do arranha-céus, para as Galápagos, para a guerra...Que o seu núcleo familiar estará lá à sua espera. As raízes sustentam o mundo e no entanto são tratadas sem apreciação. A vida de uns sempre teve mais obstáculos do que a vida de outros: não é por acaso que uma mulher parece saber quase por instinto que para atingir um alvo vai ter de se esforçar o dobro do que um homem teria.

 

Muitas pessoas pensam que o feminismo amalgama as mulheres todas dentro de um gigantesco saco. Não é verdade. Todas as folhas são diferentes. A ideia sim, é esta: encontrar o ponto onde as nossas experiências se conectam. Eu não conheço pessoalmente as actrizes que foram vítimas de assédio nem preciso: aquilo que elas passaram faz parte de um sistema global de violência contra as mulheres e pode acontecer com qualquer uma de nós. A ideia do colectivo é muito importante no feminismo: cada mulher que morre alvejada, cada menina que é obrigada a sair da escola, cada actriz abusada é um ataque à nossa história e à nossa voz e como tal deve mexer com todas nós. 

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