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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

O útero pouco comovido

A conversa de que neste país nascem poucos bebés anda-me a irritar. Primeiro porque periodicamente isso ocupa espaço nas notícias como se tivessem medo que nos esquecêssemos que não estamos a cumprir a nossa missão de ter 2,1 ou 2,5, seja lá qual for o número de filhos necessários para que não se extinga a raça lusa. Que fêmeas egoístas estamos a criar? E em segundo porque quando se fala do assunto não vejo serem abordadas medidas concretas para tornar menos difícil a vida das mulheres.

 

Nada sobre eliminar os obstáculos que dificultam conjugar a maternidade com o trabalho, nada sobre as mulheres trabalharem o dobro ou o triplo (trabalho extra que não é sequer valorizado), nada sobre melhorar os cuidados de saúde para que os preciosos números não nasçam na estrada porque não havia obstetras no hospital que ficava mais perto, nada para diminuir o fosso salarial entre homens e mulheres, nada concreto para diminuir a violência doméstica...

 

E depois esperam que o meu útero se comova. Quando eu era uma feminista no início dos dias, fiquei pasmada diante da clara explicação dada por outras feministas sobre o papel do corpo feminino nesta sociedade e neste sistema económico. Agora não tenho nenhuma dúvida que para este mundo nós somos coisas. Não temos valor humano, somos um recurso que é útil porque serve para expelir mais mão-de-obra para o sistema e mais carne para canhão para os sucessivos conflitos provocados pelos lunáticos que ocupam o poder.

 

Somos um recurso que eles desejam controlar ao máximo. Quanto mais controlado, mais comprimido dentro dos sistemas patriarcais (sendo o casamento, já sabemos, o preferido e muito provavelmente o mais eficaz), mais vigiado e escrutinado - e claro: quanto mais pesadas forem as sanções para as que se rebelarem - melhor para eles. Não é nenhuma coincidência que os momentos de forte luta feminista sejam acompanhados pelo despoletar de movimentos fascistas, conservadores e afins - tão importante é terem as patas em cima de nós que atacam com toda a força. Quando começamos a descascar a cebola vemos o quanto tudo na História se resume a isto: controlar o nosso corpo. Políticos e homens ornamentados com vistosos paramentos religiosos gostam de falar sobre a importância da vida, mas é mentira. Eles não querem saber de vida nenhuma.

Reflexões enquanto leio sobre mulheres

Comecei a ler Portuguesas com M Grande. Fico sempre entusiasmada com livros destes - e este tem correspondido plenamente às expectativas! Tenho o hábito depois de ler cada biografia ir pesquisar um pouco mais, o que torna estas leituras um perigo à noite. Vou a ler e a clicar por aí fora e quando dou conta já é tardíssimo. Quando estava a pesquisar sobre Josefa de Óbidos descobri que há quem não aprecie esta artista do século XVII e ache que as suas pinturas são pastosas, uma freira que pintava quadros, uma artista menor com as suas naturezas mortas: 

 

"Em 1949, o escritor Miguel Torga visitou a primeira exposição sobre Josefa de Óbidos realizada no Museu Nacional de Arte Antiga e não escondeu a sua decepção. “A senhora faz renda com os pincéis. Que falta de imaginação, que miséria de desenho, que geleia aquilo tudo!”, escreveu no seu Diário. “Enquanto um baboso se extasiava diante de um Menino Jesus rechonchudo, que parecia uma trouxa-de-ovos, raspei-me. Raça de portugueses que não dão um pintor que se aproveite!”

O desprezo de Torga não foi um caso isolado. Quase todos os críticos, exasperados com a aura de popularidade de que a pintora do século XVII gozava junto dos coleccionadores, que disputavam os quadros que surgiam nos leilões ou no mercado de antiguidades, concluíram tratar-se de uma artista menor, monótona, ingénua."

(tirado daqui)

 

O que achei muito curioso foi isto: as galerias dos museus estão cheias de pinturas religiosas feitas por homens, há para todos os gostos incluindo muita cena mística e extasiada - ou diria pastosa? Mas não costumo ouvir estes adjectivos serem usados para classificar as suas obras, em vez disso costumo ouvir o quanto elas são importantes na História. Estes pintores não recebem epítetos inferiorizantes e se pintaram naturezas mortas isso não os torna menos geniais - é visto como uma prova de versatilidade! De facto, este duplo padrão mostra que o mundo não suporta uma mulher que, neste caso, pegue nos pincéis. Ainda menos uma que consiga viver da sua arte e ter sucesso, críticos atiram-se de pontes perante a ideia, os seus corpos flautando que nem Ofélias rio abaixo.

 

Mais adiante vim a descobri que a primeira arquitecta portuguesa foi Maria José Estanco (1905-1999). Em 1942 ela terminou o curso tendo recebido o prémio de o melhor aluno de Arquitectura da Escola Superior de Belas ArtesUm futuro promissor parecia estar à sua espera. Só que a realidade é que ela não conseguia arranjar emprego, ninguém queria uma mulher nos ateliês. Jornais publicaram cartoons ridicularizando-a. Por fim ela acabou por enveredar pela decoração de interiores. Mais um caso em que uma mulher é forçada a virar costas ao que ambicionava fazer.

 

Fiquei com raiva. E mais uma vez veio-me à mente o que o mundo diz: que as mulheres não escolhem certas carreiras porque não querem ou porque não estão naturalmente inclinadas para elas - uma explicação tão fácil, afinal a culpa é nossa! Não obriga a pensar nem a mudar nada. Podemos alegremente ignorar estereótipos, descriminação, condescendência, assédio e ambiente hostil, as verdadeiras causas que fazem as mulheres não seguirem uma carreira numa determinada área ou optarem por certos nichos: médica não, enfermeira com sorte; Piloto? Nem pensar. Só hospedeira; porque não escreves livros infantis? Não estou a dizer que umas coisas são superiores as outras - é a sociedade que cria tais distinções, o que é considerado mais "apropriado" para homens e mulheres.

 

Carreiras patriarcalmente vistas como mais femininas ou como uma extensão das funções femininas funcionam como um escape. Dizer que as escolhas das mulheres foram\são totalmente livres ou que vivemos numa meritocracia é ignorar o ambiente ainda tão tóxico que nos impede de atingirmos o nosso potencial. Sobre isto li algo interessante recentemente: a respeito do Me Too muitas pessoas esfrangalharam os dedos dizendo que não podíamos simplesmente começar a acusar toda a gente, que estávamos a ficar fora de controlo [é esse o ponto, amigos], que era uma caça às bruxas [AH AH AH!] e queríamos era proibir o sexo e o romantismo - sucede que não é o sexo que nos horroriza, mas sim esta fortemente plantada arquitectura misógina que nos torna vulneráveis aos abusos de poder. Abusos que tem consequências directas e graves na nossa vida laboral .

 

Não se pára para pensar nos filmes incríveis, peças, teses científicas...Que estas mulheres podiam ter feito. Se não se tivessem despedido do emprego depois de agarradas e beijadas à força, se não tivessem voltado costas a uma certa área depois de esperem em vão por uma promoção ou depois de receberem mais uma proposta sexual, se não tivessem que gastar tanta energia a levar a tribunal um chefe que as abusou sexualmente. Nunca vamos saber. Mas o mundo não dá a mínima para este desperdício, está mais ocupado em fazer-nos ter pena de monstros e a tentar fazer-nos acreditar que a descriminação só existe nas nossas cabeças...

Clara Não e as alegrias de ser uma cabra

Outro dia estava de boa na internet, se é que isso é possível, quando me deparo com o seguinte: um tipo pediu a namorada em casamento durante a cerimónia de formatura dela - aquela cena que fazem lá na América. Achei lame, depois pensei mais um pouco e senti arranques de vómito, especialmente ao pensar na quantidade de pessoas que iam achar aquilo uma fofura. Um bonequinho a vomitar resume bem o que acho de muita coisa que encontro por aí. Claro que só fiquei a saber da situação porque outras feministas, outras cabras, desmancha prazeres, também apontaram o quão tóxico e coercivo é este tipo de comportamento. Vamos inverter isto, só por graça:

 

Então sempre vai acontecer?

Sim, pedi ontem o Zé em casamento.

Que giro, como foi? 

Oh, ele estava a meio da apresentação da tese e eu entrei por ali a dentro e com toda a gente a ver fiz o pedido! E claro que ele disse que sim!

Aposto que ninguém mais ligou àquelas equações chatas dele...

Pois não, foi épico!

 

Supondo que vocês não são criticadas por fazerem o pedido (mulher deve ser passiva, deve esperar que a peçam. Não escolher, mas ser escolhida...) e interromperem o momento de superação do vosso companheiro, é impossível ignorar o nível de desconforto da cena. A diferença entre um oh que fofinho! e um: que original não é? Estas raparigas de hoje...Se ninguém disser que vocês humilharam o coitado. Fazer estas inversões permite-nos ver que o cavalheirismo, por exemplo, é claramente machista e ver a misoginia por trás das histórias de princesas e das ideias românticas tão comuns...

 

"(...) já avisei os meus pais, que se me casar, são os dois que me levarão ao altar e o meu hipotético noivo terá de ser levado também, que o meu pai não vai passar nenhuma propriedade; e não há cá “pode beijar a noiva”, mas sim “podem-se beijar”, porque nós só nos beijamos se ambos quisermos, o homem não pode decidir sozinho se beija a mulher ou não"

 

(entrevista de Clara Não na Vogue)

 

Que homem quer trocar de lugar com a princesa? Que lhe segurem a porta ou puxem a cadeira? É humilhante. É humilhante ter uma mulher a explicar-lhes algo, a ajudá-los com uma tarefa qualquer ou a defendê-los no recreio. Se é normal, porque é que os homens não são cavalheiros uns com os outros? Porque é que não dizem uns aos outros para sorrirem mais? Somos educadas para aceitar com honra e deleite tudo o que os homens nos oferecem, mas muitos preferem bater a bota a ser associados a algo feminino - o feminino representa para eles tudo o que é fraco e inferior.

 

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(Instagram)

 

Também recentemente andava à procura de opiniões sobre um livro - e vi que alguém lhe deu uma estrela por causa da política da autora de não citar homens brancos. Deleite-me a imaginar a situação inversa: Bom dia. Hoje venho falar deste livro. Não gostei porque o autor não cita nenhuma filósofa ou teórica. Uma estrela. 

 

"Quando publiquei o Manifesto no Instagram, houve um homem que me atirou à cara teóricos e referências como se eu fosse burra (...): “Já estudou Situacionitas? Já estudou os Neo Primitivistas? Já estudou o quê afinal? Zines feministas? Já estudou etnografia? (…) Já estudou Hegel?” Quando li isto fiquei enfurecida, porque eu pesquiso sobre o que falo, li e leio tudo o que encontro sobre Feminismo, da Judith Butler à Simone Beauvoir, Betty Friedan e Roxane Gay, e além disso, e acima de tudo, sou mulher."

 

(da mesma intrevista)

 

No seu Teoria King Kong, Virginie Despentes faz um exercício de inversão:

 

"Dou de caras sem querer na Internet com uma carta assinada por Antonin Artaud [um escritor] (...) endereçada a uma mulher que ele declara não poder amar (...) no final, a coisa acaba assim: "preciso de uma mulher que seja unicamente minha, que eu possa encontrar em casa o tempo todo (...)

Desenvolvi uma paixão pela inversão, só para ver no que dá.

"Preciso de um homem que seja unicamente meu, que eu possa encontrar em casa o tempo todo." Isso soa diferente de imediato (...) A música é outra."

 

Se é. A inversão revela a nossa dualidade de critérios quando julgamos a acção de homens e mulheres, nos assuntos que escolhemos discutir - passamos alegremente à frente de casos brutais de violação ou de raparigas queimadas vivas por denunciarem assédio na escola. Levando em conta o que algumas pessoas dizem é preferível pegar fogo a seres humanos do que ser feminista. Planos para 2020?

O feminismo envolve um questionamento constante: como seria se isto fosse feito por uma mulher ou se tivesse uma personagem feminina? estamos a julgar a personagem feminina e masculina de um livro ou filme da mesma maneira? Porque é que nesta situação pensamos de imediato numa figura masculina? E se trocássemos o ele por ela?

 

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Consciente ou inconscientemente há um ego frágil por trás da ideia daquele pedido de casamento: a incapacidade de aceitar que uma mulher receba reconhecimento pelo seu intelecto e esforço, ter que intervir e ser o centro das atenções. E se a mulher quisesse dizer não como poderia - com uma multidão a ver? Ela não vai querer ser desmancha prazeres...

 

Tenho gosto em ferir o ego, se esse ego é machista

(tirado daqui)

 

Ser feminista é ser desmancha prazeres: é estar toda a gente a aplaudir um jogador e vocês apontarem o seu péssimo exemplo, é apontar que essas piadas não têm graça, que isso não é normal, não é fofo ou romântico, apontar que essa versão da História é uma mentira. É ferir egos machistas. Sim, pessoas vão ficar ofendidas e dizer que estamos a arruinar a comédia, o cinema, as relações, a produção de abacaxis...Mas quando nos rimos de algo só para não parecer mal e ninguém ficar maçado estamos a ser cúmplices da nossa própria opressão. Por isso: muito obrigada, mas não.

Sou mulher, logo sou assassinada

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Estava a fazer scroll por uma das páginas feministas que sigo e vi menção a três sites - Unconsenting Media: a search engine for sexual violence in broadcasting. Basta colocarem o nome de um filme ou série na pesquisa e o site diz-vos se esse conteúdo contém violência sexual, como se vê na imagem acima. Até vos informa em que episódios isso acontece. O Does The Dog Die: crowdsourced emotional spoilers for movies, tv, books and more. Tem imensas categorias incluindo jumpscares, morte de uma pessoa LGBT ou discurso de ódio. No Rotten Apples podem colocar o nome de um filme na pesquisa e ver se na sua direcção ou elenco esteve envolvido alguém acusado de mau comportamento sexual. Estas páginas ajudam uma pessoa a evitar cenas que possam provocar reacções de stress e deixaram-me a pensar na quantidade de violência que consumimos e que toleramos, real e ficcional.

 

O preenchimento de todos aqueles quesitos é uma das razões porque nunca me interessei por GOT. O meu objectivo na vida é ver menos violência e não mais, já basta tudo o que se vê nas notícias. E já fico angustiada o suficiente quando autoras escrevem sobre os abusos que sofreram - não preciso de ver tortura e abuso sexual glorificado, muito obrigada. A morte e o abuso de mulheres nos ecrãs é uma epidemia global com raízes profundas, ainda a televisão não tinha cor. A sua base é a misoginia. 

 

"Melissa Silverstein reiterates this sentiment in her essay “Hollywood’s Rape Culture is a Reflection of Our Culture,” writing, “rape is a device in TV and films with such regularity that we are almost immune to it… Movies are not just movies. They are touchstones, reflections of our culture of where we are, of who we all want to be.”

(tirado daqui)

 

" (...) critics of “Game of Thrones” fear that rape has become so pervasive in the drama that it is almost background noise: a routine and unshocking occurrence"

(tirado daqui)

 

[Não fazia ideia que alguém tinha questionado o autor sobre este detalhe - parece que sim: "Mr. Martin wrote that as an artist, he had an obligation to tell the truth about history and about human nature". A última vez que verifiquei isto era uma série de  fantasia...Ou andei enganada estes anos ou esta resposta não faz sentido.]

 

Às vezes estou a ver alguém a jogar uma coisa qualquer no Youtube e estou super interessada, mas depois penso: tipo, já não é para aí a sexta ou sétima vez que vemos esta moça a ser degolada? Em anos, já perdi a conta aos jogos que, além do sexismo (como fazer a personagem feminina ter que se molhar com uma camisa branca para se ver o soutien por baixo), começam ou acabam com o assassinato de uma mulher que depois é investigado por um detective ou pelo marido\namorado - que é assombrado pela memória\fantasma dela. Outra ideia de terror popular: fazer um crime ser cometido por uma pessoa com uma doença mental (esquizofrenia costuma ser a preferida, ou uma mistura de várias...). Ou atirar o jogador para um hospício. Quantas séries já vimos cujo enredo girava em torno de uma mulher morta?

 

She dies to provide a plot twist. She dies to develop the narrative (...) She dies because no one could think of what else to do with her (...) The woman dies so the man can be sad about it. She dies to give him a destiny. Dies so he can fall to the dark side. Dies so he can lament her death. As he stands there, brimming with grief (...) the woman lies there in silence. The woman dies for him. We watch it happen. We read about it happening."

 

(The Woman Dies, conto de Aoko Matsuda na revista Granta)

 

Quantos corpos femininos mutilados já vimos em glorioso HD? E que dizer dos livros? Ler sinopses de policiais ou thrillers é como entrar num loop de corpos femininos mortos - estão sempre a aparecer mais. Não contando com aqueles livros que já trazem a palavra mulher\rapariga e\ou partes de corpos de mulheres na capa...Que ninguém vá ao engano. E tão arrepiante quanto a frequência desta imagem, sou uma mulher, logo vou ser morta, é a brutalidade dos ataques. Não somos apenas violadas, mas esfaqueadas, decapitadas, desmembradas [desumanização total], degoladas, torturadas, disfiguradas...

 

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(capas de livros de crime vintage -  a segunda tirada daqui e a

outras daqui - podem ver mais clicando em ambos os links)

 

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(capas de thrillers recentes tiradas aleatoriamente da net)

 

Como leitores\espectadores não queremos um crime qualquer, simples. Queremos detalhe, requintes de sadismo. Um fluxo constante de dálias negras para nosso entretenimento. Uma coisa fundamental que temos de entender: todos os homens são ensinados a odiar as mulheres. Todos. Porque essa é a base do patriarcado. Mesmo que um homem não manifeste ódio através de ataques directos, pode fazê-lo através de conteúdos como estes - e disfarçar com o rótulo de arte ou liberdade criativa. Pode fazê-lo violando mulheres num jogo, transferindo assim o ódio para lugares mais cómodos. Pode fazê-lo de muitas maneiras, tristemente.

 

O corpo feminino é percepcionado como um mero objecto sexual, de consumo...Nos ecrãs existe para ser devorado pelos olhares masculinos (male gaze). Não é inocente a posição em que o corpo da mulher (vivo ou morto) é colocado, a posição das câmaras e para onde elas apontam. E muitas vezes nem o cenário onde o crime ocorre - pensemos na cena do chuveiro (que nos fornece bastante material de reflexão...). Começar uma série ou filme com o assassinato de uma mulher semi-nua na cama, depois de um momento de predatório voyeurismo, ou na rua a altas horas da noite - é um recurso de terror, mas também é um reflexo do mundo real. O corpo feminino é a imagem do pecado capital da vaidade e da luxúria. Vende, dá para preencher espaços narrativos - e agora uma cena aleatória de nudez! há um prazer patriarcal em expiá-lo, em dominá-lo...

 

Muitas mulheres absorvem esta ideia extremamente tóxica de si mesmas. Mas da nossa parte essa "luxúria" paga-se caro: as que usam livremente a sua sexualidade são punidas com extrema violência. Um exemplo: se vocês gostam de filmes de terror, especialmente slasher-movies, sabem de quem os psicopatas vão logo atrás. Das mulheres sexualmente activas. Das putas. Da loura, mamalhuda e pouco inteligente - mostra os peitos, dá uns ginchos, está fora de cena. As putas são as primeiras a morrer, muitas vezes durante o acto sexual ou logo depois dele. Não é coincidência, pelo contrário: reflecte a obsessão doentia da sociedade em controlar a nossa sexualidade e reprodução. E é uma mensagem de aviso para todas nós: isto é o que acontece se sairmos dos trilhos patriarcais. 

 

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(tirado daqui)

 

A grande maioria das pessoas reconhece que as histórias são poderosas. Que Influenciam as emoções, os pensamentos e moldam a nossa visão do mundo. Que há livros que influenciaram o pensamento humano. Há listas com eles - todo o cânone ocidental. Talvez sejam capazes de fazer listas de livros ou filmes que influenciaram a sua vida particular. Mas parece-me que há dificuldade em reconhecer essa influência quando os conteúdos são danosos para a imagem das mulheres - isso é descartado como mera má ficção, só um livro...Só que não é. Sites como os mencionados também nos ajudam a fazer escolhas de entretenimento mais éticas.

 

Vocês podem argumentar que um artista morto não vai beneficiar do dinheiro do bilhete que pagaram para entrar na exposição, ou algo do género. Mas não dá para argumentar isso em relação a quem está vivo - o que significa se vocês pagam bilhete para ir ao cinema ver filmes de certas pessoas ou se sentam na primeira fila dos seus shows? Estão a ser coniventes: continua a dizer umas piadas ou a produzir arte que nós esquecemos essa parte de atacar sexualmente outros seres humanos...Temos responsabilidade pelo que produzimos. E também pelas escolhas de consumo que fazemos.

A culpa é de Marte...Ou não

No fim de semana passado li um pequeno livro juvenil. Tinha coisas que me aqueceram o coração: mulheres com poderes mágicos, relações femininas fortes, um tema social importante, a diferença entre um homem a sério e aquele que não é - desconfio que nem colocada da maneira mais simples algumas pessoas perceberiam a diferença. E o que um homem a sério pode fazer para nos ajudar, especialmente quando certas situações acontecem. Gostava que a história fosse mais desenvolvida, mas fiquei contente ao imaginar adolescentes a lê-la...

 

Nunca cessa de me espantar a dificuldade que é encontrar um personagem masculino decente em livros juvenis. Sim, os YA são o exemplo sempre à mão - porque se lê lá cada coisa que não se acredita e porque são lidos por muitas jovens. Imaginem-nas a ler um livro em que o protagonista (não um tipo secundário qualquer, mas o que namora com a moça da história) fala sem parar três páginas seguidas ou está sempre a interrompe-la, é metido a besta, diz que precisa de fazer sexo naquele momento se não morre..A lista podia continuar. Juntem protagonistas apagadas que vivem numa espécie de bolha sem relações significativas com mães, irmãs ou até amigas. Que cocktail explosivo.

 

Gostaria de me lembrar de mais do que dois ou três exemplos de jovens protagonistas que namoram com tipos decentes. Um tipo marca pontos no meu coração quando diz que a rapariga fica bem de martelo ao ombro ou quando não se aproveita dela num momento frágil - é assim que um ser humano tem obrigação de se portar, sem ficar à espera de receber um prémio. Mas em face da realidade fica difícil elevar os padrões.

 

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A situação no cinema não é melhor. A menos que vocês se sentem para ver a Wonder Woman. Não tenho culpa que isto encaixe outra vez no tema. Porque o Steve é um tipo decente: não diz cretinices, não usa como desculpa o facto da Diana não saber como funcionam algumas coisas neste mundo para ser condescendente nem faz birra por ser ela a liderar um combate - não seria a atitude mais sensata quando a vossa parceira tem super poderes. Mas não é o que estamos habituadas a ver...

 

 

Encontram-se mais exemplos negativos porque o patriarcado influencia tudo e arruína tudo. E não pensem que escapam só porque vêem filmes ou lêem livros mais cultos. Só recentemente me apercebi de quantos autores constroem carreiras à volta do seu próprio pénis. Quando paramos para analisar o modo como descrevem as coisas ou as escolhas que fazem essa verdade torna-se evidente. O resultado de uma sociedade masculina tóxica que odeia as mulheres, e que priva os homens de um bom desenvolvimento emocional e empático.

 

A masculinidade tóxica atinge o pináculo no conceito do macho alfa. É triste que tantos autores e autoras façam da sua missão de vida encher os escaparates com livros protagonizados por esse tipo de espécimes. Como se fosse algo sexy. E é triste que tantas mulheres consumam este tipo de conteúdos, esperando encontrar relações assim na vida real...Com as previsíveis consequências. Quanto mais um tipo se tenta encaixar neste estereótipo menos humano se torna. E menos homem. É irónico...

 

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Não estou a dizer que se devem criar personagens perfeitas. Se pegarmos em alguns clássicos: certo, o caríssimo senhor Rochester tem muito que expiar e aprender e o senhor John Thornton [Norte e Sul] embora tenha menos para expiar porque é bem comportado, parece um bulldog teimoso. Mas se pensarmos nas reviravoltas que acontecem na trama e naquilo que vão provocar no fim, não podemos dizer que estes dois ficam na mesma tal como no primeiro capítulo. E nem jane nem Margaret servem para vaso decorativo. Aprender e mudar é humano. É diferente de achar que ser cretino deve ser a base formadora da personagem e que não deve mudar. Afinal é o que elas gostam. Elas, que não têm a hipótese de se tornarem mais interessantes que um vaso...E muitas vezes a cretinice vem disfarçada. Ele não é mau tipo, só é um rebelde, incompreendido...

 

Parem de arranjar desculpas esfarrapadas para comportamentos de merda. E que condenamos logo quando se trata de uma ela. Gosto de inventar personagens: é bom para adormecer, para fingir que estou interessada em conversas e agora percebo que é um bom exercício para ver que ideias sexistas estão cá dentro...De modos que decidi começar a eliminar traços de masculinidade tóxica dos meus homens: torná-los mais suaves, com mais emoções e interesses mais variados. Não quero saber se neste país se venera quem tem músculos, gajas e carros, agressividade e ego exacerbado - uma pausa para eu conter as náuseas. A sociedade patriarcal é que restringe a liberdade e a expressão individual não o feminismo, não a igualdade. O primeiro diz que uns vêm de Marte e outros de Vénus. O segundo diz que vocês podem vir do planeta que quiserem. Não é uma perspectiva muito melhor?

Não é uma celebração. É uma mentira

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(Tirado daqui)

 

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(tirado daqui)

 

A minha reação:

 

 

Melhor do que usar tinta seria terem usado um machado. Já não basta essa merda dessa foto estar em todo o lado. Até quando vamos permitir que homens brancos continuem a manipular a História? Até quando vamos engolir passivamente o produto dessa manipulação - uma versão da História enviesada e mentirosa? Permitir que as nossas raparigas aprendam isto? Que elas não valem nada, que até devem agradecer terem sido beijadas à força por um bestalhão qualquer? Vivemos num mundo em que pessoas se passeiam alegremente com bandeiras racistas e defendem conteúdos que promovem o abuso sexual, mas há quem olhe para imagem e diga: que maldade terem vandalizado o património, isto já foi longe demais!

 

E uma simples estátua de uma menina sentada representando todas as raparigas e mulheres que foram sexualmente escravizadas durante a guerra provoca uma crise diplomática. Quanto mais tempo vamos aceitar ficar de fora da História, ter o nosso sofrimento obliterado porque não é importante? Mas o grupo dominante nunca está satisfeito: tem que ter sempre mais livros, mais estátuas, mais filmes...Glorificando o seu poder.

 

Mary Beard no seu livro Mulheres & Poder dá um excelente exemplo: a estátua de Benvenuto Cellini, Perseu Segurando a Cabeça de Medusa. Que não apenas mostra o herói erguendo a cabeça cortada de Medusa enquanto pisa o seu corpo morto, mas também Aquiles a raptar violentamente uma princesa troiana. A cena do beijo ali de cima é descendente desta. Claro que não podemos dizer que tal obra é um símbolo claro de demonstração de poder patriarcal - é "arte". E aquele realizador é um "artista" e vamos todos perder se ele não continuar a fazer filmes. Chega de mentiras.

 

Bravo também para a pessoa que escreveu isto em resposta à notícia no Twitter. Diz tudo e assim não preciso eu de escrever um texto maior - e que iria incluir mais vernáculo.

 

"It represents misogynistic culture. The nurse didn't know the soldier, and the soldier didn't ask to kiss her. In that era, men treated women like pets, and that iconic photo is an example."

 

"The nurse didn't consent. I wonder how many decades we'll have to fight defensive old people, who try to brand misogyny, racism, and homophobia as traditional and cultural."

 

"The nurse may not have felt violated or offended. That doesn't make it okay. Do you have any idea how much sexual harassment women dealt with back then? What was normal to them? If one slave refused freedom, does that minimize the severity of slavery?"

Um mundo ao contrário...Ou não

É muito frequente as pessoas dizerem coisas como - "concordo contigo, mas não te esqueças que as mulheres também fazem y e z" ou "ao dizer isso estás a ser sexista para com os homens". Há quem use isto numa tentativa de invalidar argumentos feministas. Acho que vale a pena nos debruçarmos sobre esta questão. Será que existe sexismo ao contrário? Podemos dizer que certo livro ou filme é racista em relação a brancos? Na minha opinião a resposta é não. A violência de género e racial tem características específicas que não se aplicam se invertidas. 

 

1.Todos os dias em todo o lugar

 

A violência contra as mulheres não é algo esporádico nem específico de um certo período ou local. É algo que acontece todos os dias em enorme escala ao redor do globo - século após século...Está entranhada no tecido social. Por isso é considerada normal e não é sancionada. Há quem diga que nos devíamos era preocupar com as mulheres que são realmente abusadas em alguns países - nunca percebi esta ideia de ser cego perante os problemas de género que estão debaixo do nariz, como se houvesse um machismo mais suave. Não há. E também há quem sofra de amnésia esquecendo-se que aqui mesmo há relativamente poucos anos uma mulher era um nada perante a lei. As experiências de descriminação são semelhantes onde quer que se esteja.

 

Escolha a sua preferida!

 

O Código Civil (1966) estabelecia que "a falta de virgindade da mulher ao tempo do casamento" podia ser motivo para a sua anulação. Os contraceptivos não podiam ser tomados contra a vontade do marido, que podia alegar este facto para pedir o divórcio

 

Antes de 1969 as mulheres não podiam viajar para o estrangeiro sem a permissão escrita do marido ou do pai

 

Até 1975  o Código Penal consagrava os “crimes de honra”, permitindo que um marido ou pai matasse a mulher adúltera ou as filhas menores de 21 se “corrompidas” com castigo máximo de 6 meses de desterro da comarca. Quando se tratava de um marido a prostituir a mulher a pena era igualmente inócua: desterro, multa e perda de "direitos políticos por 12 anos"

 

Até 1976 os maridos tinham o direito de abrir a correspondência das mulheres

 

Os maridos podiam impedir que as esposas trabalhassem. Só depois do 25 de Abril as mulheres se puderam candidatar à magistratura judicial, ao ministério público, aos quadros de funcionários da justiça, a todos os cargos de carreira administrativa local e carreira diplomática. Só mulheres solteiras podiam ser enfermeiras, telefonistas ou hospedeiras. 

 

 

2. Todas somos um alvo 

 

Tal como o racismo e a homofobia, a violência contra as mulheres não visa este ou aquele indivíduo - é um esforço concertado para forçar à submissão e ao silêncio um género inteiro. Não é apenas quem vive ao nosso lado, são todos os que pertencem a esse grupo na cidade, no país...Não há escapatória

 

3. Com muito poder vêm muitas tragédias

 

Outro aspecto fundamental para entender porque a misoginia tal como o racismo e a homofobia não funcionam em reverso é este: são demonstrações de dominância de um grupo sobre outro. Ora, quem domina? Quem detém o poder. E quem detém o poder? Homens brancos.

 

Encontre o Wally!

 

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(Do filme Hidden Figures)

 

Vocês podem ter preconceitos. Podem odiar homens e decidir que têm de expressar isso. Mas qual vai ser o impacto? Pouco ou nenhum. Só que enquanto expressam essa opinião há um grupo de homens brancos numa sala a fazer uma lei para eliminar o planeamento familiar e a desejar que a violação se torne legal. Nunca em momento algum mulheres ou minorias tiveram uma tal concentração de poder e representatividade que lhes permitisse influenciar negativamente e de forma profunda a vida de outros, como homens brancos fazem desde sempre. É por isso que a diversidade é tão importante: para que o poder fique distribuído em vez de concentrado. E para que outros também tenham voz.

 

4. Um campo minado

 

Esta dominância é exercida tanto de formas directas como indirectas. Quanto mais obstáculos forem colocados no caminho de mulheres e minorias menos conseguirão chegar a cargos de decisão e assim o poder continuará nas mãos do mesmo grupo privilegiado. Ao olharem para um qualquer painel só composto por homens brancos não pensem que eles estão ali exclusivamente por mérito. Quanto mais as mulheres forem mantidas na pobreza e na iliteracia mais fáceis serão de controlar. Quem quer um escravo que saiba ler?

 

E quanto menos conscientes estiverem do seu valor melhor - vai ser isso que irão transmitir às filhas continuando o círculo vicioso de opressão. A misoginia usa a violência física e a lei, mas também actua a nível psicológico no dia-a-dia. Os resultados são devastadores pois afectam não apenas aquela geração de mulheres mas igualmente as seguintes como um campo minado que ainda mata muito depois de terminada a guerra. É uma violência que actua de modo profundo a longo prazo.

 

Uma menina, mesmo que nasça numa bem equipada maternidade de um país desenvolvido já está em desvantagem à partida - desvantagem esta que vai aumentando ao longo da vida. A sociedade tenta provar que estes obstáculos são imaginários, que vivemos na tal meritocracia e que portanto a falta de representatividade é culpa das mulheres, menos dotadas para certas áreas. Pensando bem que outra explicação poderia haver...

 

 

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(Notícia de 07/08/2018. Completa aqui

 

 

 

5. O que é liberdade? Viver sem medo

 

O medo é uma arma de opressão e subjugação por excelência. Podemos pensar que depois de uma mulher ser abusada num campo universitário é normal que as outras comecem a  tomar precauções. O que sucede é que as mulheres limitam a sua experiência do mundo desde meninas mesmo antes de terem contacto directo ou indirecto com uma situação de abuso. Elas sabem que devem andar em grupos, que devem mudar de rua, que não devem aceitar qualquer copo de bebida, etc,etc...

 

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(Young girl in a school for black civil rights activists in 1960

being trained to not react to smoke blown in her face)

 

Elas sabem que podem ser as próximas. Que os seus filhos podem ser os próximos a ser brutalizados no meio da rua. E levantar a voz é perigoso e tem consequências. Homens brancos não passam por este tipo de medo. Eles não limitam a sua experiência depois de tomarem conhecimento de um caso de abuso e ficam genuinamente espantados quando sabem das múltiplas precauções que nós tomamos. Porque cresceram num mundo que diz que o espaço todo lhes pertence, que não há porque aquela porta não estar aberta...A ideia de deixar de dizer alguma coisa por medo ou por achar que ninguem vai ouvir, ou não ter controlo sobre o próprio corpo nem sequer se coloca. Ao contrário do que tem sido dito recentemente: Eles nunca estiveram em perigo nem estão.  

 

6. Feminismo é a palavra

 

A violência contra as mulheres cria problemas que nos são específicos - é por isso que a palavra deve ser feminismo [interseccional] e não igualitarismo ou que quer que seja que tenham inventado agora. Precisamos de livros e filmes sobre personagens femininas porque são elas que são apagadas da História. Não precisamos de um dia do homem nem de livros com personagens masculinas (embora ambas as coisas existam), porque todos os dias são dias do homem e nunca as conquistas deles deixaram de ser celebradas. E que as vidas brancas importam já toda a gente sabe

 

Não tem sentido alguém ficar ofendido quando se fala em misoginia e em violência contra as mulheres. Nos últimos tempos o feminismo tem chamado a atenção para o problema da masculinidade tóxica. É importante que se perceba como o conceito tradicional do que é ser homem e do que é ser mulher nos torna infelizes e a responsabilidade que tem na agressividade masculina e nas taxas de suicídio, por exemplo. Escrevi sobre isto neste texto.

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