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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

A verdadeira maçã envenenada

Mais uma razão para não ter filhos: não sou boa a contar histórias. Não é apenas falta de habilidade, também é não saber escolher temas adequados. Sou um bocado sinistra, então ia dar por mim a falar de sereias que comem marinheiros ou cobras gigantes que dão a volta ao mundo, embora tenha a alegar em minha defesa que isto são exemplos da mitologia e não fui eu que escrevi essas coisas. Entre a história do Jörmungandr e filmes de princesas não sei. Não querendo magoar quem é fã, mas não os tenho em grande consideração [abro um parênteses para dizer que me surpreende a quantidade de filmes infantis que têm morte e outras coisas terríveis, vi o Rei Leão vezes sem conta, aquilo é tipo o Hamlet mas menos pretensioso] a culpa não é das princesas está claro, mas do facto de elas estarem presas numa teia machista que não ensina nada de bom.

 

Podem pegar numa caneta e num papel e começar uma lista de tudo o que está errado. E também podem dizer que essas princesas já são do tempo do outro senhor. Não é tão simples. Estudo revela que as princesas dos filmes animados falam menos do que as personagens masculinas: “as linguistas Carmen Fought e Karen Eisenhauer analisaram todos os diálogos das princesas e concluíram que as personagens masculinas têm três vezes mais falas do que as personagens femininas”

 

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E o problema não é só a quantidade (ou falta dela, é uma sorte não existirem mais heroínas mudas - se pudesse salvaria a Ariel daquela atrocidade de filme), mas também que tipo de coisas dizem, que tipo de objectivos lhes são atribuídos, que relação estabelecem com outras personagens femininas, em que mundo vivem e quem o habita, como são percepcionadas por outros. Gosto de imaginar que de entre os desejos para a pequena Snow estava além da brancura, também coragem e firmeza mas que alguém deixou isso de fora por engano ou que a nossa amada booklover recebia muitos elogios pelo que tinha dentro do cérebro. Pouco provável, já que de acordo com o estudo nos primeiros filmes as heroínas eram elogiadas pela aparência 55% vezes enquanto que pelas suas capacidades apenas 11%, percentagem que subiu para os 23% no grupo do meio e para 40% nos mais recentes, beneficiando de terem mais mulheres na sua produção (o Brave e o Frozen tiveram ambos mulheres na realização)

 

Parece-me que as relações entre personagens femininas continua a ser um dos problemas sérios, já que ou são horríveis ou não existem. "Nós estamos treinados para pensar que os homens são a norma", afirmou Karen Eisenhauer, "então quando se acrescenta um lojista esse lojista é um homem. Quando se acrescenta um guarda esse guarda é homem". E como bem apontado, embora as princesas se tenham tornado mais activas, papéis como de side kick são praticamente exclusivos de entidades masculinas. Assim se impede as meninas de verem relações saudáveis de cooperação entre mulheres, sufocadas por um mundo masculino.

 

“Aside from the heroine, the films offer few examples of women being powerful, respected, useful or comedic.There's one isolated princess trying to get someone to marry her, but there are no women doing any other things,” Fought says. “There are no women leading the townspeople to go against the Beast, no women bonding in the tavern together singing drinking songs, women giving each other directions, or women inventing things. Everybody who’s doing anything else, other than finding a husband in the movie, pretty much, is a male”

 

Ideias misóginas em produções ditas para raparigas são uma constante, de forma disfarçada ou óbvia. São coisas que estão enterradas no consciente colectivo: pessoas ainda têm espasmos com a ideia de uma princesa independente. No trailer do WreckIt Ralph 2 há uma cena que provocou agitação na internet: Vanellope entra num quarto onde estão todas as princesas juntas, elas querem saber se ela é uma princesa de verdade: será que ela tem mãos mágicas? Cabelo mágico? Animais que falam com ela? Já foi envenenada? Sequestrada? Escravizada? Nada disso, e então: 

 

 

 

She is a Princess! Os jogos “para meninas” nas App Stores da vida também são elucidativos: além dos jogos envolvendo roupa e maquilhagem, há coisas mais sinistras como jogos cujo objectivo é fazer com que uma personagem (branca e magra) saia da loja com o maior número de sacos ou cujo objectivo é limpar casas, passando por simuladores de gravidez e parto. É por isso que não entro em discussões sobre o que aconteceria se as mulheres tomassem o poder, tipo Themyscira gone wrong. Prefiro pensar nas meninas a quem está neste momento a ser sugerido o download de um jogo cor de rosa que envolve desentupir sanitas. Para nem ir mais longe...A insistência neste enquadramento binário, masculino, branco - priva as raparigas de todo um mundo de conexões e possibilidades

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O que aconteceria se eu fosse contratada para fazer remakes. Hella cute

(direitos dos desenhos)

A Anatomia da Boa Rapariga

O que temos aqui nesta imagem é o que a civilização humana extinta depois da super explosão chamava de uma boa rapariga. É do que vamos falar resumidamente nesta palestra hoje. Estes dois membros são os pés: a boa rapariga usava-os quando pressentia uma situação de perigo, para mudar de direcção. Cautelosa desde cedo, preferia coexistir em grupos em especial em determinadas zonas longe do seu território. O predador natural das fêmeas era uma variante particularmente agressiva do grupo dos machos que existia em grande número e a boa rapariga era instruída a nunca tentar um ataque directo, mas a camuflar-se. Se fosse atacada? Já não seria mais uma boa rapariga. 

 

Notem que nas pernas não se observa nenhum prolongamento filiforme. Estes fragmentos de texto, do que aparenta ter sido um colorido manuscrito, mostra os rituais a que a boa rapariga era submetida. Pela complexidade, sofrimento e valor da moeda de troca  podemos concluir que não possuir qualquer prolongamento filiforme era do ponto de vista social algo muito importante e não só nesta parte do corpo. E chamo a atenção para esta articulação que descobrimos ser um sítio de eleição para a variante particularmente agressiva do grupo dos machos colocarem a mão, mesmo fora do ritual associado à reprodução, e sempre sem qualquer pergunta prévia. A boa rapariga sendo instruída a reagir passivamente e a fazer sempre uma expressão que os humanos entendem como sorriso ficava vulnerável a esta demonstração de dominância predatória. Subindo um pouco, sim esta é uma zona que apesar de todos os nossos esforços ainda não conseguimos nomear. Descobrimos que pode ter tantos nomes que inicialmente pensámos ser uma entidade divina, parte de algum cânone religioso.

 

Assemelha-se a um deserto. Não possui nenhuma vegetação, é seca e embora fosse a zona principal para os machos exercerem dominância - de facto, este era um aspecto basilar das relações humanas. Era uma sociedade bastante estratificada - era raro ser explorada em profundidade e com interesse. Sim, um pouco como o solo de um planeta distante. Raramente chovia ali. Diz-se que sangrava, mas não há provas. Também considero fantasioso que esta zona servisse para dar prazer sexual à boa rapariga, muito menos a ideia de um órgão especial no seu interior. Não creio que as boas raparigas possuíssem tal, talvez fosse prática comum cortá-lo.

 

Reparem como a barriga da boa rapariga é lisa, nos mesmos coloridos manuscritos vemos que ela tinha de se submeter a mais rituais complicados, incluindo expelir a comida pelo boca. Era essencial ocupar o menos espaço possível. Sobre estas duas glândulas que veem mais acima há muitas teorias. Podiam servir para amamentação: observando outros animais é possível que as fêmeas humanas não tenham tido outra função que não reprodução e amamentação, outra prova são estes artefactos que tenho sobre a mesa. Pequenas oferendas à cria fêmea para a treinar a ser maternal e cuidar bem da toca. Estas oferendas eram apenas para as fêmeas. Boa pergunta, os humanos só reconheciam dois géneros e diziam que só se podia ser um deles. Mas como as imagens de fêmeas que temos apresentam discrepâncias entre si, talvez estas glândulas sejam um mito criado pelos machos. Não podemos ter 100% certeza de como era uma fêmea humana. Como devem saber existe uma corrente de pensamento que diz que elas nunca existiram fora da cabeça dos machos da sua espécie.

 

Com os dois membros superiores a boa rapariga realizava trabalhos desde manhã até à noite, pois era uma obrigação à qual estava ligada por uma pequena coleira no dedo semelhante às usadas para prender animais. Era o macho que oferecia a coleira se a boa rapariga merecesse. Trabalhar e carregar este símbolo eram as funções da parte final de cada extremidade superior da boa rapariga. Não chegou até nós se ela estudava outros assuntos, mas acredita-se que ainda existam na terra provas de que algumas conseguiam escrever. A capacidade de falar da boa rapariga era atrofiada, pela falta de uso. O silêncio podia ser uma forma de protecção. A visão e sobretudo a audição eram apuradas. Não sabemos o que poderão ser estas marcas roxas no revestimento externo.

 

E agora a parte mais misteriosa! Era deste conjunto de estruturas nervosas chamado cérebro que provinham os pensamentos dos seres humanos. Mas embora dos machos tenhamos informação, da boa rapariga que hoje estudámos não temos qualquer registo. Nenhum registo sobre o que ela pensava do mundo, nenhuma opinião, nenhum nome. Tão limpas, quietas, obedientes, cautelosas, as boas raparigas começaram a construir um mundo interior que não podiam partilhar com ninguém e que se tornou tão poderoso que explodiu o mundo exterior, reduzindo-o a nada mais do que cinzas. Nada sobreviveu. Exactamente há 222 anos lunares. Para terminar a palestra, este apontamento: investigações recentes confirmam que formas de vida estão de novo a crescer na terra. Os sítios onde as boas raparigas entraram em combustão são especialmente nutritivos. Todas as formas de vida nascidas nesses pontos específicos são fêmeas. 

Se as vaginas pudessem falar

You cannot love a vagina unless you love hair

 

Quando comecei a ler o Monólogos da Vagina fiquei logo cativada com esta frase que aparece no início. Há muito tempo que procurava alguém capaz de prenunciar tão taxativamente esta verdade. A ideia de ter de arrancar qualquer pelinho faz-me estremecer. Não desejo submeter mais nenhuma parte do meu corpo a esses métodos de tortura. Sou a favor de vaginas livres. Normalmente aplicamos o termo livre em sentido psicológico e social de nos libertarmos da repressão e da vergonha, mas não é só. Vaginas devem ter liberdade em todos sentidos. Livres de tortura disfarçada de limpeza, de coisas que apertem ou arranhem, de produtos químicos feitos para as porem a cheirar a pêssegos no Verão. É uma vagina, não um pomar na Tuscania. Querem pomares na Tuscania apanhem um avião. 

 

My vagina doesn’t need to be cleaned up. It smells good already. Not like rose petals. Don’t try to decorate. Don’t believe him when he tells you it smells like rose petals when it’s supposed to smell like pussy. That’s what they’re doing—trying to clean it up, make it smell like bathroom spray or a garden. All those douche sprays—floral, berry, rain. I don’t want my pussy to smell like rain

 

A lista de métodos de tortura para as mulheres é infindável, quando para os homens nem existe tal lista e é irónico que tantas mulheres se submetam a isto apenas porque o seu companheiro quer, porque é mais atraente para ele. Qualquer tipo que ache que pode arranjar o vosso corpo como se vocês fossem um lego não merece o vosso tempo, e também não merece nenhum que queira enfiar-se dentro de vocês mas fique enojado por ver um livro sobre vaginas na mesa-de-cabeceira ou por ter de ir comprar um pacote de pensos.

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All this shit they’re constantly trying to shove up us, clean us up—stuff us up, make it go away. Well, my vagina’s not going away.

 

O conceito de ser feminino ainda está associado a coisas como ser pura, limpa e agradável (é por isso que estes conceitos de feminilidade e masculinidade deviam já ter desaparecido) em padrões de tal maneira elevados que nenhuma mulher os consegue atingir pois implicam deixarmos de ser humanas. Talvez todas gostássemos de parecer personagens de filme todas sensuais enquanto repousamos na cama sob temperaturas de 45 graus, quando o mais certo é estarmos inertes e suadas que nem um leitão, com as pernas em posições esquisitas. Quem produz a maior parte dos conteúdos não acha isso atractivo. Preferem colocar-nos no duche cheias de espuma sugestiva e ignorar as pingas de sangue no chão da banheira. 

 

Ver homens enojados com isto é assustador: em que mundo vivem? Que espécie de relações irão construir? Já é mau que eles tomem por certo que vão encontrar uma mulher limpa que sirva os seus propósitos, mas todo o ambiente à volta lhes diz que isso é algo que devem exigir. Só que não, porque a verdade é esta: quem não ama a vagina e não está para a tratar como ela merece ser tratada, devia brincar sozinho. 

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