Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Razões para amarmos a nossa vagina

Quando um homem faz algo corajoso é costume dizer-se que tem uma certa parte do corpo de aço ou que os tem no sítio, esse tipo de expressões. Estão tão entranhadas que até as usamos quando nos referimos a mulheres. O nosso mundo é profundamente falocêntrico: o pénis é colocado num pedestal e toda a nossa vida deve girar em torno da sua satisfação - quer queiramos quer não. Todas nós já pagámos bilhete para ficar duas horas a assistir à cultura falocêntrica desfilar num ecrã de cinema. Está em todas as formas de entretenimento. Está nas leis e nos poderes de decisão. Há quem diga que é apenas coincidência quando num filme a câmara está constantemente apontada ao rabo da actriz. Não se enganem. Quando uma personagem feminina não é objectivada isso gera sempre protestos de alguns homens. Personagens femininas bem construídas e com relevância? Isso para eles mais que uma ofensa, é uma ameaça. Para esses homens não há nada que seja mais ofensivo que vocês não serem sexualmente desejáveis para eles. É o falocêntrismo no seu auge: “se eu não tiver vontade de te foder, a tua existência neste mundo não tem sentido“. 

 

“Quando estou caminhando pela rua, homens se debruçam para fora da janela de seus carros e gritam coisas vulgares sobre o meu corpo, sobre como eles o veem e sobre o quanto ficam aborrecidos por eu não agradar seus olhares, suas preferências e desejos. Tento não levar esses homens a sério, porque o que eles estão realmente dizendo é: “Eu não me sinto atraído por você. Não quero transar com você, e isso confunde o meu entendimento de minha masculinidade, das coisas a que tenho direito e do meu lugar nesse mundo”.

(Hunger, Roxane Gay)

 

A verdade caro hipotético leitor é que o seu pénis não é assim tão importante. E não faz de si mais corajoso que uma mulher. Quem nasce com uma pilinha não é automaticamente mais inteligente e destemido. Muita gente acha que esses estudos que dizem que pessoas com determinado formato de nariz ou com olhos verdes são assim ou assado são uma tontice, não é do senso comum que existam pessoas de olho verdes que são irascíveis e outras que não são? E concordam que os estudos que dizem que a inteligência se mede pelo formato da cabeça são coisas do passado, então porque acreditam que um órgão define tudo na vida de uma pessoa...Todos nascem com um órgão reprodutor tal como se nasce com um coração, pulmões, rins...Mas género é uma construção social e cultural. São estas normas de género que vão proporcionar aos meninos muito mais oportunidades de desenvolver certos interesses e características de personalidade, criando um fosso enorme entre eles e elas. As meninas são menos incentivadas, quando não totalmente proibidas, de explorar o mundo. 

 

O problema não é a nossa vagina. O problema é o modo como ela é percepcionada: como um defeito. No vocabulário popular não existem vaginas de aço, se vocês querem fazer algo épico tipo subir ao Evereste têm de superar esse defeito: têm de ser resolutas e determinadas, como um homem. Todas as características altamente valorizadas como a força, a perseverança, a honra são associadas ao pénis. E são muitas vezes usadas em contextos que se considera serem masculinos: futebol (garra, sede de ganhar, etc), descobertas (“graças à sua perseverança e resistência este valente grupo de exploradores conseguiu chegar ao Árctico”); duelos e guerras (no cinema o filão da camaradagem é explorado até à exaustão). Já a vagina é associada a tudo o que é negativo: fraqueza, falta de controlo e de coragem, falta de habilidade...Alguém está com medo? Está a ser pussy; está irritado? Está a agir como uma mulherzinha histérica; chuta mal? Está a jogar como uma menina...Personagens femininas como cientistas, jogadoras ou super-heroínas não são usadas como exemplo para os meninos. 

 

Como se pode ver por tudo isto se não amarmos o nosso pipi ninguém neste mundo vai fazê-lo por nós. Nunca ouvi falar de um pénis que sangrasse todos os meses ou que tivesse expelido um ser humano completo e funcional. Mais:

 

“The clitoris is pure in purpose. It is the only organ in the body designed purely for pleasure. The clitoris is simply a bundle of nerves: 8,000 nerve fibers, to be precise. That’s a higher concentration of nerve fibers than is found anywhere else in the body, including the fingertips, lips, and tongue, and it is twice . . .twice . . . twice the number in the penis”

 

(The Vagina Monologues,  Eve Ensler)

 

A sociedade misógina é brutal nos seus métodos para reprimir o prazer feminino: negação do direito ao conhecimento e à escolha; abuso psicológico e físico, mutilação...Enquanto o prazer masculino está sempre a intrometer-se no nosso caminho como um chihuahua irritante. Aceita-se que um homem satisfaça as suas “necessidades” a qualquer custo (com pressão social para os que não aderirem a esse modelo de comportamento). O prazer feminino é sempre considerado secundário e opcional...E é claro: é sempre nossa culpa. Tudo mentiras usadas para que acreditemos que a nossa vagina é um defeito e para esconder a incompetência...

Falando sobre quotas e poder

É frequente quando surgem notícias de governos com várias mulheres ou a notícia de uma mulher que foi nomeada para um qualquer cargo de prestígio, ou quando se fala de quotas aparecer logo alguém a dizer coisas como: "não importa quem é escolhido desde que seja competente", "isto é sexismo ao contrário ou também seria notícia se fosse um homem" ou "as quotas são cancerígenas". Vamos falar de cada um começando pelo primeiro: imaginem que entram numa sala onde deputados estão a discutir saúde reprodutiva e reparam que todos ali são homens, brancos e que uma boa metade já está na meia idade. Nenhuma deputada ou médica presente. Iriam sentir-se confortáveis? E se um deles dissesse que as mulheres podem engravidar pela boca? Não importa quão competentes são estes políticos (Isto é válido para os muitos conteúdos que mostram apenas pessoas brancas e esbeltas). No fim do dia não há ninguém naquela sala que possa compreender a vossa experiência. 

 

"Isto é sexismo ao contrário! Porque não destacar apenas pessoas sem falar em géneros?" "se há uma Wonder Womam devia haver um Wonder Man!" "Se há dia da mulher porque não há dia do homem?" Tudo isto não passa de misoginia disfarçada...Quando o filme estreou, este exemplo é tão bom, e uma cadeia de cinemas decidiu fazer uma sessão só para mulheres, alguns homens irados estavam prontos para fazer um motim. Comparem isto, um coisa que em nada prejudicaria a sua vida, com séculos de repressão e violência  contra nós...O que achariam de uma pessoa que vai ao hospital por um aranhão que fez com o bico de um lápis e que insiste em passar à frente de alguém que levou um tiro? O ano passado saiu um livro: The Power, Naomi Alderman. Fui ao Goodreads e está lá esta singela pergunta: what would happen if an author wrote a book about men having the power to electrocute to death, women? Respostas: it would be under history category; It would be just like the everyday news section. Touché. 

 

A misoginia, tal como o racismo, está ligada a dois conceitos: poder e dominância. Neste momento o poder continua concentrado nas mãos de homens brancos e muitos desses podem tornar a vida de quem é não igual a eles muito, muito difícil. Vocês até podem odiar homens mas não têm o mesmo poder nem o mesmo nível de representatividade que vos permita influenciar negativamente e de forma profunda a sua vida, quantas vezes nem a nível local ou mesmo pessoal. Por terem todo este poder, este grupo privilegiado exerce à vontade a sua dominância em todos os aspectos da vida e ser ou não afectada por ela não é uma escolha. Não obrigo nenhum senhor a ler os meus textos, eles podem escolher fechar a janela e seguir o seu caminho. Mas eu não posso escapar a uma lei que diz que é legal um homem abusar sexualmente de mim. 

 

A ideia de existirem quotas chateia muita gente que diz que as pessoas devem ser escolhidas por mérito e valor. Calculo quem diz isto dá por adquirido que quem está no topo foi escolhido por esse motivo antes de tudo. Nós devemos ser muito burras então. Porque ao olhar para esse topo vemos menos mulheres que homens. Se quem lá está foi escolhido com base num critério justo como se explica esta discrepância? Não é possível que homens brancos tenham também a supremacia da inteligência é? Se a percentagem de homens, especialmente em cargos de topo e de decisão, continua a ser bem superior então lamento mas não podemos falar em pessoas em vez de géneros. A partir do momento em que o sexo do bebé é conhecido, as meninas já estão em desvantagem: os progenitores começam logo a projectar nelas ideias misóginas e esta desvantagem vai aumentando com os anos à medida que mais responsabilidades se acumulam.

 

O tipo de brinquedos que lhes serão oferecidos, o comportamento que lhes será exigido...Os rapazes são talentosos as meninas esforçadas; eles são lideres naturais, mas a liderança numa mulher é indesejável de tal modo que até se inventam nicknames para certas mulheres na política ("a dama de gelo"), se vocês dão ordens são mandonas mas se não dão são sentimentais; vão ser punidas por não terem filhos e por cada hora que passarem longe deles em reuniões; vão ouvir que só chegaram ali porque abriram as pernas ou porque as mulheres têm sempre benesses - nunca por mérito próprio. E não podem falhar. Se falharem é porque a culpa é do vosso género e isso irá dificultar ainda mais o caminho para as mulheres que vierem a seguir embora isso jamais aconteça com os homens.

 

É uma corrida viciada. Este é o verdadeiro problema, este fosso enorme criado pela desigualdade constante ao longo dos tempos - não as quotas que apenas são uma tentativa de o resolver. Não seriam precisas se a sociedade fosse justa em primeiro lugar. Vocês perderiam tempo a apontar uma telha partida quando as fundações da casa estão podres? E não podemos esperar que quem está no topo comece espontaneamente a contratar caras diferentes...Talvez devêssemos ir lá acima perguntar porque é que é eles precisam de uma lei para os obrigar a isso. Talvez descubramos que as fundações estão ainda mais podres do que parecem.

Reflexão sobre o que não vale a pena

Uma feminista tem de saber escolher as suas batalhas, fora ou dentro da net. Por uma questão de preservar a sanidade...Certas discussões não valem o esforço. Com certos senhores com certeza não valem: eles odeiam-vos. Qualquer coisa que vocês digam será de imediato seguida de uma chuva de "argumentos" misóginos e descrições explícitas sobre o que eles gostariam de fazer à vossa vagina num beco. Não percam tempo e sobretudo nunca demonstrem que estão irritadas. Mas há outro tipo de homens: os que parecem racionais e bem educados. Com certeza estes vão entender - só que não. Vivem alienados na sua própria bolha de privilégio e acham que a sua experiência é norma por isso quando vocês chegam e dizem que não, que a liberdade que eles têm não é algo que as mulheres usufruam, eles reagem como se vocês tivessem acabado de chegar do planeta HD 188753.

 

Não pode ser mesmo assim...Não estarão a ser demasiado pessimistas? Isso não me diz respeito, diz? No Coisas Que os Homens me Explicam há uma passagem sobre uma aula numa universidade onde se perguntou às alunas o que faziam para evitar o risco de violação: "as raparigas descreveram o modo intrincado como se mantinham alerta e limitavam o seu acesso ao mundo, tomavam precauções (...) enquanto os rapazes da turma (...) as fitavam boquiabertos". Pois é, não importa que eles não gritem na rua que são misóginos com orgulho, a nossa experiência não é real para eles.

 

Quando isto acontece com mulheres - os homenzinhos mencionados acima sentem-se ameaçados pela igualdade porque isso significa perderem os seus privilégios. Mesmo que os neguem, estes privilégios reservados aos homens (especialmente brancos) existem. Mas nós? Defender uma sociedade que acha que nem devíamos ter nascido? É como estarem num quarto todo arranjadinho onde todos os dias alguém entra com croissants frescos - só que vocês estão acorrentadas e não podem nunca sair dali. Algumas mulheres podem não ver estas correntes: vivendo num sítio com relativa liberdade, nunca tendo sofrido abusos podem pensar que isso é a norma. O que acontece com as outras, isso não lhes diz respeito. Podem pensar que nasceram em igualdade (não nasceram) e que não precisam dessa conversa. E olham para casos de abuso como algo isolado e não como parte de um sistema. Quando não se consegue entender o conceito de colectivo, torna-se difícil entender o resto.

 

A sociedade misógina não só exerce diversas formas de violência sobre as mulheres, como ainda as ensina a reproduzir essas formas de violência.  Se uma rapariga é castrada mentalmente e é forçada a torturar-se para corresponder a um ideal de beleza e de comportamento, ver outras que se estão nas tintas para esse ideal será uma afronta. As que dizem: fui abusada e quero justiça. Uma afronta. A reprodução destas formas de violência pode ir da indiferença, ao "acho isto tudo um exagero" até à defesa de monstros. Pode ser uma questão de comodidade. Há uns tempo num site uma rapariga dizia que costumava ir ter com o namorado para este lhe explicar matérias da faculdade. O interessante é que ela percebia a matéria. Só fazia isso para ele ter o prazer de lhe explicar coisas, a ela. À minha mente, que ainda não se tinha achado feminista mas já era aspie e literal, aquilo pareceu muito estranho. Vocês podem dizer que é uma boa atitude, que ela deve ter uma relação e uma vida sexual feliz...Talvez. Alguns homens gostam muito das nossas correntes.

 

Pode ser uma questão de consequências. Já falei aqui de uma das minhas cenas preferida do Lab Girl da Hope Jahren, quando ela faz a sua primeira descoberta - o momento em que ela sente que se tornou realmente cientista. Ao mesmo tempo é um momento solitário, ela sabe que esta é a pedrada final nas suas hipóteses de ser uma "mulher normal". No seu percurso uma mulher tem de tomar decisões que aos homens não se colocam e as consequências de quebrar as correntes podem ir desde a ideia que nunca ninguém irá gostar de nós até mesmo à morte. Não importa se somos bloggers na Europa, cientistas na América ou adolescentes no médio oriente o mundo faz questão de lembrar que para nós tudo tem um preço. O triste é que estas pessoas realmente acham que estão a ser corajosas e a nadar contra a corrente quando dizem que tudo isto é uma perda de tempo exagerada e todos esses afins - não estão. De todo. 

Justiça para mim!

38.JPG

 

Aqui se vê a injustiça no mundo: eu digo que passei um ano a ler (quase) só autoras e que foi óptimo e tenho gente à perna a dizer que isso não é igualdade, que é misandria, que devemos escolher os livros pelo conteúdo e não pelo género - pára de estar sempre a puxar a conversa do género! Mas este tipo pode literalmente dizer - é, eu acho a maior parte das autoras insuportáveis mas esta até escapa" e está tudo bem. Deve ser porque eu não sou um autor famoso e premiado. Deve ser incrível poder dizer qualquer imbecilidade sem consequências..."Não digas que há livros escritos por homens para homens, isso é tão redutor e exagerado...Quê? Ah não, não aprecio escrita feminina." Se fosse escritora iria exigir que a minha editora pusesse na parte de trás do meu livro quatro homens a dizerem que a minha escrita é maravilhosa. Nada de autoras. Só homens. Para me sentir plenamente validada. Talvez deva começar a aplicar este "elogio" noutras facetas da vida. Por exemplo, se um dia casar e alguém me perguntar a razão da escolha vou responder: é que a maioria dos homens não presta para nada, este é dos poucos que consigo tolerar. Se o meu marido não ficar tão comovido com isto que me leve logo para cama e coloque a cabeça lá em baixo para uma boa sessão de beijinhos, não sei....

Quem Escreve Aqui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários agressivos ou insultuosos não serão aprovados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico

Calendário

Julho 2018

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031

Sumo que já se bebeu

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

Algo especial a dizer?