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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Um mundo ao contrário...Ou não

É muito frequente as pessoas dizerem coisas como - "concordo contigo, mas não te esqueças que as mulheres também fazem y e z" ou "ao dizer isso estás a ser sexista para com os homens". Há quem use isto numa tentativa de invalidar argumentos feministas. Acho que vale a pena nos debruçarmos sobre esta questão. Será que existe sexismo ao contrário? Podemos dizer que certo livro ou filme é racista em relação a brancos? Na minha opinião a resposta é não. A violência de género e racial tem características específicas que não se aplicam se invertidas. 

 

1.Todos os dias em todo o lugar

 

A violência contra as mulheres não é algo esporádico nem específico de um certo período ou local. É algo que acontece todos os dias em enorme escala ao redor do globo - século após século...Está entranhada no tecido social. Por isso é considerada normal e não é sancionada. Há quem diga que nos devíamos era preocupar com as mulheres que são realmente abusadas em alguns países - nunca percebi esta ideia de ser cego perante os problemas de género que estão debaixo do nariz, como se houvesse um machismo mais suave. Não há. E também há quem sofra de amnésia esquecendo-se que aqui mesmo há relativamente poucos anos uma mulher era um nada perante a lei. As experiências de descriminação são semelhantes onde quer que se esteja.

 

Escolha a sua preferida!

 

O Código Civil (1966) estabelecia que "a falta de virgindade da mulher ao tempo do casamento" podia ser motivo para a sua anulação. Os contraceptivos não podiam ser tomados contra a vontade do marido, que podia alegar este facto para pedir o divórcio

 

Antes de 1969 as mulheres não podiam viajar para o estrangeiro sem a permissão escrita do marido ou do pai

 

Até 1975  o Código Penal consagrava os “crimes de honra”, permitindo que um marido ou pai matasse a mulher adúltera ou as filhas menores de 21 se “corrompidas” com castigo máximo de 6 meses de desterro da comarca. Quando se tratava de um marido a prostituir a mulher a pena era igualmente inócua: desterro, multa e perda de "direitos políticos por 12 anos"

 

Até 1976 os maridos tinham o direito de abrir a correspondência das mulheres

 

Os maridos podiam impedir que as esposas trabalhassem. Só depois do 25 de Abril as mulheres se puderam candidatar à magistratura judicial, ao ministério público, aos quadros de funcionários da justiça, a todos os cargos de carreira administrativa local e carreira diplomática. Só mulheres solteiras podiam ser enfermeiras, telefonistas ou hospedeiras. 

 

 

2. Todas somos um alvo 

 

Tal como o racismo e a homofobia, a violência contra as mulheres não visa este ou aquele indivíduo - é um esforço concertado para forçar à submissão e ao silêncio um género inteiro. Não é apenas quem vive ao nosso lado, são todos os que pertencem a esse grupo na cidade, no país...Não há escapatória

 

3. Com muito poder vêm muitas tragédias

 

Outro aspecto fundamental para entender porque a misoginia tal como o racismo e a homofobia não funcionam em reverso é este: são demonstrações de dominância de um grupo sobre outro. Ora, quem domina? Quem detém o poder. E quem detém o poder? Homens brancos.

 

Encontre o Wally!

 

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(Do filme Hidden Figures)

 

Vocês podem ter preconceitos. Podem odiar homens e decidir que têm de expressar isso. Mas qual vai ser o impacto? Pouco ou nenhum. Só que enquanto expressam essa opinião há um grupo de homens brancos numa sala a fazer uma lei para eliminar o planeamento familiar e a desejar que a violação se torne legal. Nunca em momento algum mulheres ou minorias tiveram uma tal concentração de poder e representatividade que lhes permitisse influenciar negativamente e de forma profunda a vida de outros, como homens brancos fazem desde sempre. É por isso que a diversidade é tão importante: para que o poder fique distribuído em vez de concentrado. E para que outros também tenham voz.

 

4. Um campo minado

 

Esta dominância é exercida tanto de formas directas como indirectas. Quanto mais obstáculos forem colocados no caminho de mulheres e minorias menos conseguirão chegar a cargos de decisão e assim o poder continuará nas mãos do mesmo grupo privilegiado. Ao olharem para um qualquer painel só composto por homens brancos não pensem que eles estão ali exclusivamente por mérito. Quanto mais as mulheres forem mantidas na pobreza e na iliteracia mais fáceis serão de controlar. Quem quer um escravo que saiba ler?

 

E quanto menos conscientes estiverem do seu valor melhor - vai ser isso que irão transmitir às filhas continuando o círculo vicioso de opressão. A misoginia usa a violência física e a lei, mas também actua a nível psicológico no dia-a-dia. Os resultados são devastadores pois afectam não apenas aquela geração de mulheres mas igualmente as seguintes como um campo minado que ainda mata muito depois de terminada a guerra. É uma violência que actua de modo profundo a longo prazo.

 

Uma menina, mesmo que nasça numa bem equipada maternidade de um país desenvolvido já está em desvantagem à partida - desvantagem esta que vai aumentando ao longo da vida. A sociedade tenta provar que estes obstáculos são imaginários, que vivemos na tal meritocracia e que portanto a falta de representatividade é culpa das mulheres, menos dotadas para certas áreas. Pensando bem que outra explicação poderia haver...

 

 

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(Notícia de 07/08/2018. Completa aqui

 

 

 

5. O que é liberdade? Viver sem medo

 

O medo é uma arma de opressão e subjugação por excelência. Podemos pensar que depois de uma mulher ser abusada num campo universitário é normal que as outras comecem a  tomar precauções. O que sucede é que as mulheres limitam a sua experiência do mundo desde meninas mesmo antes de terem contacto directo ou indirecto com uma situação de abuso. Elas sabem que devem andar em grupos, que devem mudar de rua, que não devem aceitar qualquer copo de bebida, etc,etc...

 

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(Young girl in a school for black civil rights activists in 1960

being trained to not react to smoke blown in her face)

 

Elas sabem que podem ser as próximas. Que os seus filhos podem ser os próximos a ser brutalizados no meio da rua. E levantar a voz é perigoso e tem consequências. Homens brancos não passam por este tipo de medo. Eles não limitam a sua experiência depois de tomarem conhecimento de um caso de abuso e ficam genuinamente espantados quando sabem das múltiplas precauções que nós tomamos. Porque cresceram num mundo que diz que o espaço todo lhes pertence, que não há porque aquela porta não estar aberta...A ideia de deixar de dizer alguma coisa por medo ou por achar que ninguem vai ouvir, ou não ter controlo sobre o próprio corpo nem sequer se coloca. Ao contrário do que tem sido dito recentemente: Eles nunca estiveram em perigo nem estão.  

 

6. Feminismo é a palavra

 

A violência contra as mulheres cria problemas que nos são específicos - é por isso que a palavra deve ser feminismo [interseccional] e não igualitarismo ou que quer que seja que tenham inventado agora. Precisamos de livros e filmes sobre personagens femininas porque são elas que são apagadas da História. Não precisamos de um dia do homem nem de livros com personagens masculinas (embora ambas as coisas existam), porque todos os dias são dias do homem e nunca as conquistas deles deixaram de ser celebradas. E que as vidas brancas importam já toda a gente sabe

 

Não tem sentido alguém ficar ofendido quando se fala em misoginia e em violência contra as mulheres. Nos últimos tempos o feminismo tem chamado a atenção para o problema da masculinidade tóxica. É importante que se perceba como o conceito tradicional do que é ser homem e do que é ser mulher nos torna infelizes e a responsabilidade que tem na agressividade masculina e nas taxas de suicídio, por exemplo. Escrevi sobre isto neste texto.

Livros, sexo e bruxas: uma reflexão

É curioso analisar o modo como as pessoas ao longo do tempo se têm vindo a referir a coisas naturais da vida: gravidez, sexo, menstruação...De certeza que já se fizeram estudos e se há livros sobre o assunto gostaria de os ler. Já contei aqui que uma das minhas expressões favoritas, pescada em livros vitorianos, é: a Mary está num estado interessante. Para dizer que a Mary está grávida. Se eu vivesse na altura ia sentir-me ofendida. Parece implicar que eu não seria interessante no resto do tempo. Há uma passagem no A Tree Grows in Brooklyn em que a protagonista comenta as diferenças entre grávidas:

 

"I guess that's why the Jews have so many babies," Francie thought. "(...) And why they aren't ashamed the way they are fat. Each one thinks that she might be making the real little Jesus. That's why they walk so proud when they're that way. Now the Irish women always look so ashamed. They know that they can never make a Jesus (...) 

 

É possível compreender uma sociedade ou momento histórico através do corpo de uma mulher: o nosso cabelo, a nossa pele, até os nossos músculos registam o mundo...Como se fôssemos livros de História andantes. No Orlando, a dado capítulo entramos no século XIX: época vitoriana, muito repressiva. Isso transparece em todos os aspectos da vida - os géneros distanciam-se ainda mais, o discurso passa a estar cheio de evasões e dissimulações. 

 

"Mas é verdade, senhora — perguntou a boa mulher, toda encolhida (...) que a rainha — bendita seja — está usando o que se chama uma — a boa mulher hesitou e corou. — Uma crinolina — ajudou Orlando"

 

Ou seja: a rainha estava prenhe (a crinolina era usada para esconder o facto). O vestuário impede mais do que nunca os movimentos das mulheres: 

 

"Era o mais pesado e banal de todos os trajes que já usara. Nenhum lhe impedira tanto os movimentos. Não poderia mais passear pelos jardins com os seus cachorros (...) Seus músculos tinham perdido a flexibilidade. Ficou com medo de que houvesse ladrões atrás dos lambris, ou, pela primeira vez na vida, fantasmas nos corredores."

 

Infelizmente, o mundo em que vivemos ainda é muito desigual e racista e isso nota-se no que dizemos: provérbios, expressões populares, canções...Por estarem tão entranhadas no tecido social é  difícil para muita gente entender que não são coisas inofensivas, mas coisas que normalizam a violência contra outros. De certeza que há canções melhores para cantar às crianças do que o Sebastião que come sem colher ou o gato que leva com o pau...

 

A sociedade patriarcal é hábil na manipulação do discurso, do modo como ouvimos e como avaliamos o que ouvimos - é ingénuo pensar que o género não tem influência nessa avaliação. Quando pensamos num discurso sério e assertivo, talvez numa assembleia ou num palanque perante uma multidão, qual é o género que associamos de imediato? E se pensarmos numa voz irritante?

 

Muita gente reclama da voz da Cristina Ferreira, mas poucas reclamam dos comentadores de futebol à volta de uma mesa a gritar e a insultarem-se. Acho isso mais do que irritante, é tóxico. Hábil na manipulação das palavras. No Monólogos da Vagina há um monólogo que consiste em repetir a palavra cunt varias vezes. Exige coragem fazer isso num palco. Mas a verdadeira origem da palavra é esta: "the Indo-European word cunt was derived from the goddess Kali’s title of Kunda or Cunti, and shares the same root as kin and country." Era uma palavra imbuída de iluminação e poder feminino. Spinster, gíria para solteirona, designava uma fiandeira. Agora servem de pedras de arremesso.

 

A palavra e o conceito de bruxa é outro exemplo. Geralmente nenhuma menina quer ser uma bruxa, isso significa ser má e feia - é o querem que acreditemos. Mas não há conceito mais anti-patriarcal: bruxas são independentes, vão onde lhes apetece, não são agradáveis à vista, elaboram planos, são ambiciosas...Já as princesas são eternamente desejáveis, sem defeitos, sempre a precisar de ajuda porque a acção é sempre algo que lhes acontece e nunca algo que elas provocam. As bruxas têm poder. Que insulto é muitas vezes atirado às mulheres na política? Exactamente. Elas têm poder e por isso devem arder. Que longa experiência temos disso, metafórica e literalmente. Isto também serve para nos separar: deste lado estão as falhadas, as loucas com a casa cheia de gatos, as putas...Sê boa menina para não acabares assim. Mas esta linha é uma ilusão.

 

Sempre achei graça aos romances em que uma moça não está grávida num capítulo e no outro já está, sem nada no meio. Sentia-me um bocado defraudada. Por exemplo, em todos os seus romances a Jane [Austen] interrompe a história no altar deixando espaço para especularmos sobre variadas coisas, nomeadamente as consideradas impróprias. No último livro que li, a amiga da protagonista pergunta-lhe se dormiu com um certo sujeito. Presumo eu, já que a pergunta foi feita timidamente...

 

"Oh, não, Regina, nunca! Pois tu cuidas que se tivéssemos transigido com o nosso desejo (...) se numa só hora de fraqueza as nossas vidas se entrelaçassem na comunhão absoluta das nossas existências (....) tínhamos ambos a certeza (...) que no momento em que a fatalidade do amor nos fizesse beber pela mesma taça o filtro de Iseu, a nossa carne, o nosso sangue, a nossa vida, não poderia mais ser dominadas pela própria vontade!"

 

Isto é que é classe! Acho que devia ser considerado sexy gemer em português arcaico. Em outro livro a protagonista diz ao seu par: que lhe apetecia fazer aquela coisa em que tinham prazer juntos. Achei adorável, embora não me pareça que seja algo que a grande maioria das mulheres no mundo possa dizer. A nossa protagonista era uma moça feliz. Pessoalmente, não gosto muito da expressão fazer amor quando é usada como eufemismo - porque há coisas que uma senhora não faz nem diz. Se escrevesse um livro colocava-lhe o título: as mulheres também fodem.

Tiroteios, homens e flores pisadas

Quando ocorrem tiroteios fala-se logo na questão das armas e na questão da saúde mental, mas nunca se aborda um aspecto que a maioria destes massacres têm em comum: serem cometidos por homens [brancos]. Apesar das mulheres também serem afectadas por problemas psicológicos e terem acesso a armas. A violência provocada por homens, motivada por conceitos distorcidos de masculinidade, é o elefante no meio da sala...Mas temos de encarar o facto: que esta é também uma questão de género, profundamente enraizada na nossa ideia tradicional do que é ser homem:

 

“While mass shooters are often seen as “outliers or oddballs ... we should actually think of them as conformists,” says Tristan Bridges, a sociologist at The College at Brockport, State University of New York, citing research on masculinity by expert Michael Kimmel. “They’re over-conforming to masculinity, because they perceive themselves, in some way or another, as emasculated.... It’s a terrible statement about American masculinity, to say that when you’re emasculated, one way to respond is to open fire.”

(tirado daqui)

 

E que não emerge apenas quando acontecem massacres, mas nas mais variadas esferas da vida, quer estejamos em Lisboa ou em Nova York. Ser o mais valente, o mais forte, o mais racional, o que enfia a pila em mais conas, o que tem os outros abaixo de si, o que não aceita um não...É isto que o mundo diz que um homem a sério deve ser. Valores amplamente promovidos em todo o lado: anúncios, eventos desportivos (e no tipo de individualidades que se idolatra), no modo como tantos políticos falam e se apresentam, tantos filmes, aquilo com que os miúdos brincam...A onde é que esta masculinidade tóxica nos leva? A abuso e morte. 

 

“General periodic reminder: The term “toxic masculinity” does not mean “all men are toxic.” It refers to cultural norms that equate masculinity with control, aggression, and violence and that label emotion, compassion, and empathy “unmanly.” 

(tirado daqui)

 

Estas normas culturais privam os homens de apreciarem coisas na vida, pelo medo de que isso os faça parecer menos machos: livros (este livro tem uma rapariga como personagem principal, será que me vai interessar?), música (sou homem, será que devo ouvir isto?), vídeos (este vídeo de coelhinhos é tão fofo, agora preciso de socar a parede para a minha masculinidade voltar)...Parece piada mas não é. Estou sempre a encontrar comentários como estes e dá-me sempre vontade de dizer aos tipos para não esmurrarem as paredes, não me parece algo que valha a pena ter de volta...

 

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Priva-os de ter uma conexão real com alguém, porque tudo se torna uma ameaça. Não vão ouvir o que os subordinados têm a sugerir, porque afinal quem é que manda ali? Não vão ouvir a boa ideia de uma colega, porque uma mulher saber mais sobre algo do que eles é ofensivo (então pegam na ideia e dizem que foi sua. Um clássico), vão impedir a esposa de aceitar uma boa promoção porque quem é que manda em casa? Nem pensar em ter uma mulher que ganhe mais. Como é que uma pessoa pode aprender, partilhar e crescer se não ouve? Se tudo gira em torno de dominar e controlar?

 

As ideias que somos forçados a engolir sobre o que é um homem, o que é uma mulher - tudo mentira. E é irónico, porque o sistema dá a entender que quanto mais vocês se conformarem a estas mornas de masculinidade mais fortes se tornam - quando é o contrário. Mais frágeis os homens se tornam. Basta ver o ego de alguns. E é por demais evidente no modo como tentam argumentar ou ter uma conversa, que suplício...Ou como reagem a um não.  

 

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(ver notícia) 

 

Literalmente o oposto de alguém confiante e racional. É tão tóxico que até afecta a relação entre entre pais e filhos. Não é apenas o problema de deixar todo o trabalho para a parceira, mas há realmente tipos que acham gay um pai abraçar o seu filho bebé ou que acham indigno carregá-lo no canguru. Não podemos defender um ideia de masculinidade que priva homens de desenvolver empatia até para com a sua própria família. Imaginem como seria diferente o mundo se aqueles que olham para a sua esposa como uma verdadeira companheira, em vez de uma coisa que está ali para obedecer, não fossem a minoria...O quanto se perde por continuarmos a viver num sistema que incentiva os homens a olharem só para a própria pilinha em vez de olharem à sua volta.

 

A questão da empatia é muito preocupante:

 

“Men are often raised to be stoic, to suppress emotions rather than understand them, and when they struggle, often the only emotion that they see as sufficiently masculine to express is anger”

 

(tirado do primeiro artigo citado)

 

A empatia é algo que nos torna humanos: nascemos com uma gama tão variada de sentimentos e modos de os expressar! Quando se mina o desenvolvimento emocional e se priva gerações de rapazes de adquirirem competências afectivas fundamentais o resultado são monstros. Existe tanta coisa no mundo para amar: tantas pessoas e seres diferentes. Tanto a que podem demonstrar afecto e pelo qual podem fazer algum bem...Mas envergonhamos um rapazinho por apanhar uma flor e aplaudimos aquele que a pisa...

 

O que acontece quando se força alguém sistematicamente a suprimir emoções, quando se passa a ideia de que conversar é coisa inútil (de mulher), que procurar ajuda é humilhante e que violência é a melhor maneira de mostrar status e ganhar respeito? A resposta: tipos que preferem enfiar uma bala na cabeça a passar por “fracos”, milhões de raparigas e mulheres mortas ano após ano, o sangue de pessoas que apenas estavam ali...Basta! Estou farta de “homens a sério”. Quero seres humanos. 

 

“I want the same things for my son. I want him to know that he can be strong and brave but that he can also be sensitive and kind. I want my son to have a high emotional IQ where he is free to be caring, truthful, and honest. It’s everything a woman wants in a man, and yet we don’t teach it to our boys.

 

I hope to teach my son not to fall victim to what the internet says he should be or how he should love. I want to create better representations for him so he is allowed to reach his full potential as a man, and to teach him that the real magic he possesses in the world is the power to affirm his own existence.”

 

(Beyoncé. Tirado daqui)

Ideias importantes sobre consenso e sexo positivo

Não tinha planeado este post, mas ontem estava a pensar que além de haver tanta gente que parece simplesmente não ver a violência sistemática contra as mulheres, há um número arrepiante que não entende o significado da palavra não nem entende o conceito de consentimento. Reuni alguns pontos importantes sobre isso. Obrigada de antemão a quem quer que esteja desse lado a ler.

 

Ponto 1: o consentimento não tem excepções. O vosso não é sempre válido, sempre! Não interessa com quem estão e em que fase - se ainda estão no restaurante ou no quarto já sem roupa. Quando alguém diz para parar, é para parar. Fim da história. Até podíamos correr nuas pela rua e ainda assim não haveria desculpa para uma agressão sexual. Não interessa a vossa roupa, cor, profissão, o que fizeram antes, o número de parceiros sexuais que tiveram. Não há desculpa. NUNCA.

 

Ponto 2: é válido mudar de ideias. Não interessa se foram para o quarto com a ideia de fazer sexo, se chegaram lá e mudaram de ideias - é totalmente válido mesmo que já estejam na cama. É válido em qualquer momento. Não continuem com algo com a qual não estão confortáveis. Já sabias ao que ias, estavas a pedi-las. Não acreditem nesta merda.

 

Ponto 3: O corpo é vosso, vocês devem tomar as decisões que acharem melhor. Querem esperar, não estão preparadas - isso é totalmente válido. Arrepia pensar no número de raparigas que se sujeitam, porque ele quer e é tudo uma questão de “relaxar”. Não! Ignorar as dúvidas da outra pessoa descredibilizando-as dizendo que ela está a complicar tudo, usar meios para ela “relaxar” ou coagi-la do tipo se recusas mostras que não me amas...Amor envolve respeito e envolve saber ver quando um lugar e um momento não são apropriados e quando a pessoa não está confortável. Ignorar isso e continuar: mesmo que o não, não tenha sido dito explicitamente - é violação.

 

“Ele também me beija, e logo estamos nos agarrando como se fosse a única coisa que soubéssemos fazer. Não é o bastante. Minhas mãos descem pelo peito dele, e ele está com um volume em outras partes além dos braços. Eu começo a abrir o zíper da calça jeans dele. Ele segura minha mão.

— Opa. O que você está fazendo?

— O que você acha?

Os olhos dele observam os meus.

— Starr, eu quero, quero mesmo…

— Eu sei que quer. E é a oportunidade perfeita. — Beijo o pescoço dele e acerto cada uma daquelas sardas perfeitamente posicionadas. — Não tem ninguém aqui além de nós.

— Mas a gente não pode — diz ele, a voz tensa. — Não assim.

— Por quê? — Eu enfio a mão na calça dele com a intenção de tocar no volume.

— Porque você não está bem.

Eu paro.

Ele olha para mim e eu olho para ele. Minha visão fica embaçada. Chris passa os braços em mim e me puxa para perto dele (...) Ele me deixa chorar tanto quanto preciso”

 

(eu queria muito arranjar forma de encaixar esta cena num post)

 

Ponto 4: não têm de fazer sexo para mostrar que gostam de um tipo. Esta ideia está em todo o lado: amo-te agora abre as pernas. Bullshit! O Amor não é um dever. Isto leva ao Ponto 5: uma mulher não deve sexo a homem nenhum. Não interessa se é vosso namorado ou marido ou o que for. Vocês são seres humanos completos e têm o direito de estar com alguém que faz coisas para vos ver felizes não simplesmente porque quer enfiar a pila.

 

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Nunca percebi qual é a dos maridos que lavam um copo e esperam que a mulher se ajoelhe logo, ainda menos quem se finge amigo só para isso. Vão-se foder com a vossa friendzone. Ponto 6: maridos (parceiros) também podem ser violadores. O problema não apenas o simpático estudante nota 20 que faz voluntariado e que violou uma rapariga à saída de um bar, mas também os que o fazem a coberto de instituições socialmente aceites. Não importa que estejam casadas há 10 anos - é violação.

 

Ponto 7: uma mulher têm o direito de dizer ao seu parceiro para usar protecção. Arrepia pensar em raparigas assustadas até para dizer ao namorado para usar um preservativo. A nossa segurança vem em primeiro lugar! Podemos fazer as perguntas que quisermos e devemos poder dizer o que queremos e o que não queremos, o que gostamos e o que não. Não é feio nem é sinal de promiscuidade falarem de sexo com o vosso parceiro. Se ele ficar chateado, então é um idiota. Não percam o vosso tempo com tipos assim. Temos de ensinar as raparigas que elas têm valor e que não se devem anular a favor de ninguém. Isto pode prevenir uma vida inteira de sofrimento.

 

Ponto 8: o nosso prazer é importante. Temos o direito de ser felizes na cama com outra pessoa. Quem é que tem o único órgão do corpo humano cuja única função é o prazer? Exactamente! E não só. Não é admissível ainda termos em países que afirmam ser civilizados, mulheres que nunca tiveram um orgasmo ou qualquer tipo de intimidade real na vida ou que suportam dores e desconforto.

 

 

Ponto 9: assédio não é piada, é uma agressão que deve ser punida. há quem ainda não tenha percebido que temos o nosso espaço e o direito de decidir quem nos irá tocar e em que circunstâncias. Toques e elogios não solicitados tal como as violações são motivados por dominância: eu ponho a mão aqui porque quero e posso e não há nada que possas fazer. Mas quem quer ser macho alfa que vá para selva. Não temos de tolerar esta merda em lugar algum.

 

Ponto 10: temos o direito a ser ouvidas. Quando acontece sabemos o que tanta gente diz. Vão dizer que é melhor ficarem caladas. Vão esmiuçar a vossa vida, insultar-vos...dizer que a culpa foi vossa. Não acreditem e não se esqueçam que há milhões de mulheres em todo o mundo a passar pelo mesmo, algumas tão longe, como no Congo, outras tão perto que é só virar a esquina. Não estaremos sozinhas.

 

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 (The Clothesline Project)

Acha que violência contra as mulheres existe?

Há coisas que ainda me conseguem deixar perplexa: pessoas que reconhecem que existe homofobia e racismo, mas não reconhecem a violência de género. É como se em relação à violência contra as mulheres houvesse uma parede e quando se tenta explicar a informação não passa. Acham que isso é passado ou que só acontece em outros países, que não é preciso exagerar...Se uma pessoa é capaz de sair da sua bolha de privilégio económico, racial...Porque é tão difícil ver que a violência contra as mulheres não só existe como é sistémica? Também  me deixa perplexa a reacção desproporcionada de algumas pessoas, em especial de alguns homens, perante coisas simples: um filme com personagens principais femininas, um texto com dicas para as mulheres se protegerem à noite, um vídeo sobre mulheres cientistas -  espumam da boca. Dizerem-lhes para pedirem autorização antes de tocar ou para fecharem as pernas no comboio então é o fim...

 

É um absurdo quando comparado com os milhões de mulheres no mundo torturadas, mutiladas, traficadas, forçadas a casar, abusadas sexualmente...Ao longo de centenas de anos. É irónico que as feministas sejam rotuladas de histéricas e agressivas, quando temos homens a ultrapassar todos os limites de histerismo e agressividade por causa de um simples remake com um grupo de actrizes. O crime não compensa é uma expressão que não se pode aplicar à violência cometida contra nós. Não só compensa, dada a facilidade com que um agressor se escapa de qualquer punição, como é dos únicos crimes (senão mesmo o único), que é amplamente desculpado e elogiado. É tão fácil olhar para as meninas pequenas, tão queridas, e esquecer. Achar que elas só vão encontrar príncipes encantados e que é tudo uma questão de ter decência.

 

Talvez vocês tenham um menina a quem adormecem à noite, a quem contam histórias, que corre para os vossos braços - conseguem vê-la com a roupa rasgada e ensanguentada, esperma a esfriar entre as pernas, inconsciente no chão? A menina que agora veste pijamas com ursinhos, conseguem ouvi-la, os gritos, a mesma palavra repita sem nenhum efeito? Pobre rapariga inocente tropeçou num bom rapaz. Conseguem vê-la, a tentar arrancar da pele um cheiro que nunca vai sair? A mesma menina que desce no escorrega e a quem chamam de vossa princesa, com um homem em cima dela a dizer que ela é uma merda de uma puta.

 

Alguns autores de croniquetas dirão que isto é invenção para prejudicar os homens. Desde que surgiu o movimento #MeToo, sempre me questionei o que levou mulheres maduras a acederem a subir ao quarto de hotel com homens para discutirem assuntos profissionais. Mas isso faz algum sentido? (...) Ninguém tem o direito de obrigar outra pessoa a fazer sexo só porque essa pessoa aceitou ir ao quarto de hotel. Mas que esta história é muito estranha, lá isso é. (mais uma elucidativa pérola daqui)

 

Olhem para esta noticia: Europa quer que manuais escolares passem a contar a história dos Descobrimentos incluindo a discriminação e a violência. É preciso uma comissão para dizer isto? Não é por demais evidente que a História universal ensinada nas escolas e amplamente divulgada, de universal não tem nada? É uma mentira, manipulada para que brilhem os feitos de homens brancos, tudo o resto sendo apagado. Vai ser difícil encaixar a sugestão de falar da discriminação e da violência. Temos dias feriados, exposições, obras “épicas”, músicas que toda a gente sabe cantar...Tudo a louvar as descobertas, os navegadores. Empancámos colectivamente aí e continuamos a achar que temos de polir as pratas, forçar a brilhar uma glória há muito desvanecida. Mesmo que isso implique ignorar genocídios em massa feitos por pura ganância e disfarçados de princípios religiosos hipócritas.

 

Sempre que acontece uma mulher ganhar um Nobel há alguém que se lembra que a disparidade entre géneros é grande. Quer dizer, não é como se as listas não estivessem na wikipedia podendo qualquer pessoa confirmar com os seus próprios olhos como esta instituição (como Hollywood com os óscares, por exemplo) nada mais é do que um meio de homens brancos terem os seus egos massajados. Não é nenhuma premiação do talento ou trabalho - já que o talento ou trabalho de qualquer um que não seja um homem branco é ignorado. O que estamos realmente a defender quando defendemos estes prémios, esta indústria, esta História? Estamos a defender nada mais do que actos masturbatórios masculinos, porque tirando os enfeites - o glamour, a glória, o intelectualismo...É isso que são.

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