Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Coisas tóxicas que se dizem

Uma coisa muito irritante é quando pessoas tentam minar as conversas sobre feminismo, não por insultarem, mas por usarem certos "argumentos". Aqui estão alguns, apenas uma pequena amostra: nem todos os homens fazem isso - um clássico, se ganhasse um euro por cada vez que encontro esta merda estaria mais rica que o Tio Patinhas; mas eu sou um bom rapaz - outro clássico. Alguns senhores ainda não perceberam que se sentem necessidade de dizer isso é porque muito provavelmente não o são. Imaginem se alguém escrevesse um texto sobre o mal causado pelos ditos "bons rapazes". Mas as mulheres fazem o mesmo; então e dos homens ninguém fala? Eles também sofrem com isso - uma pessoa incauta diz que x mulheres sofrem violência, qualquer que seja o contexto, e um senhor vai logo aparecer com cinco estatísticas para tentar provar que os homens sofrem mais.

E todos os textos escritos sobre masculinidade tóxica e como afecta os homens vão ganhar o super-poder da invisibilidade. Certo, só que eu conheci uma mulher que se intitulava feminista mas que fazia\dizia este e este disparate; concordo, mas prefiro usar o termo igualitarismo em vez de feminismo - pois, também prefiro beber H2O em vez de água. Recentemente vi um tipo que referente a algo sobre piropos comentou para dizer que uma vez duas mulheres lhe mandaram piropos e ele gostou imenso. E um outro estava convencido que torcer um pé era muito mais doloroso do que qualquer dor causada pelo período. Infelizmente não é possível ter uma conversa sobre qualquer dor feminina sem que surja alguém a tentar minimizá-la...

E como esquecer outro clássico: todas as vidas importam. Só que isto não são argumentos. São formas de causar caos e bloquear a conversa, fazendo-a desviar-se do tema principal e importante. Temas como violência policial e rape culture são esquecidos porque nos envolvemos a discutir miudezas. É tão desgastante...E evidentemente, algumas pessoas não suportam que qualquer discussão não esteja centrada no seu género e cor e por isso têm de desviar a conversa para si...Tal e qual os filmes em que a personagem feminina é a principal mas são as masculinas que falam mais ou em que alguém branco vem em socorro das personagens negras. 

Mas esta perseguição aos homens brancos não acaba? Aqui está outra que acabei de me lembrar e que encontrei num comentário de Youtube enquanto estava a ouvir música. Vale a pena mencionar que uma das linhas desta música em particular era sobre as populações indígenas despojadas das suas terras...O que mais dizer? Mais um conjunto de coisas que se dizem e que são deveras irritantes:

 

A2 (5).png

 

Outro dia numa telenovela duas personagens estavam a ver um apartamento de luxo para venda, uma comenta que é um apartamento para ricos e a outra responde blasé - para ricos ou para pessoas que trabalharam uma vida inteira? Eu tipo: Desculpe, como disse? Na verdade não é preciso repetir pois este tipo de pensamento está por todo o lado e é vendido por muitos livros de auto-ajuda...

As pessoas são pobres porque querem; quer tornar-se CEO de uma empresa? Só tem de trabalhar muito! claro, como é que ninguém tinha pensando nisto antes...Estes milionários começaram numa garagem, porque não faz você o mesmo? Se não conseguem a culpa é vossa que não estão a fazer sacrifícios que chegue. Outra gira que acabei de encontrar - I do today what others aren’t willing to do, so I can do tomorrow what they can’t, este nível de privilégio é tal que mais um pouco e éramos todos catapultados para Júpiter. Parem com isto.

O consentimento é uma coisa atraente

Estava a pensar numa coisa que li: que o consentimento é uma coisa sexy. Concordo e tenho pena que durante os meus anos de formação (expressão estranha, não é como se não estivéssemos sempre em formação) este tema tivesse tão pouco espaço - pelo menos do que me lembro. Entretanto, quando comecei a ler sobre feminismo e dentro dele a ler sobre violência e abuso comecei a perceber que os sinais de alerta eram muitas vezes aquilo que a sociedade dizia que eu devia achar atraente.

E também cheguei à conclusão que o padrão de comportamento ditado para os rapazes se tornarem homens a sério, não só não os torna a sério como tem forte potencial para os transformar em monstros.  É curioso porque enquanto pequenas lemos sobre monstros debaixo da cama, mas depois somos ensinadas a amar os reais que podem aterrar em cima. Não é de espantar que algumas pessoas se chateiem com esta ideia de que agora é preciso pedir autorização para tudo, dizem que o amor e a arte da sedução estão em risco. É inquietante a continua existência deste conceito distorcido em que o amor não existe sem impormos a nossa vontade e forçando o outro. 

 

A2 (4).png

(Tirado daqui)

 

Mas isto é algo fácil de interiorizar, basta na pensar na quantidade de conteúdos que promovem a ideia de que as mulheres nunca dizem que não, é sempre um sim disfarçado e assim torcemos para que o herói consiga convencer a casmurra e obter o santo graal, altura em que deitamos uma lagrimita porque é tão fofo. Passamos incontáveis horas a assistir a mãos não solicitadas em sítios, a beijos roubados e a admirar personagens masculinas que exsudam confiança e não pedem licença para nada porque não são nenhuns...Bem, já deu para perceber. Que domínio, que dureza - não é tão sexy? Alguns no fim descobre-se que até têm coração, que pena que na vida real uma mulher vá parar debaixo da terra antes de conseguir descobrir o dito.

Culpa dela que não cumpriu a sua obrigação de tornar o companheiro uma pessoa melhor, claro. No extremo podemos pensar no tempo que passamos fascinados com a mente dos psicopatas, que os filmes têm uma tendência inquietante de fazer parecer atraentes...Na verdade, a grande maioria simplesmente odiava mulheres. Não é assim tão profundo, podem parar esse documentário que estavam a ver no Youtube (Be there done that) e aproveitem antes para encomendar o Desaparecer na Escuridão da Michelle McNamara. Talvez digam que uma mãozita atrevida não é o mesmo que uma violação - de certeza que não é tudo parte do exacto problema? 

 

A4 (3).jpg(Tirado daqui)

 

A razão porque decidi num post que também escrevi sobre este assunto incluir uma cena de O Ódio Que Semeias - em que o namorado da protagonista lhe diz que aquela não é a melhor altura para fazerem sexo apesar de ela querer, porque ela esta a passar um difícil período emocional - não é porque me faltasse texto, mas é tão raro encontrar este tipo de situação. É algo que me deixa perplexa, e na verdade não é que o gesto merecesse aplausos, chama-se apenas ser um ser humano decente. 

No entanto, aqui estamos nós (a seguir ao livro da Michelle podem encomendar este da Angie Thomas) e quantas pessoas diriam que o protagonista foi idiota em não aproveitar a oportunidade? O que mais lhe pode interessar do que isso? Quando é que vamos colectivamente aceitar que coisas como o respeito e a gentileza são sexy? Ter um coração funcional, sem subterfúgios, é sexy. 

 

"I found out love has to be soft to be strong
Soft to be strong, soft
I believe the world is beautiful
Only the weak ones are cruel"

 

Também me parece que as pessoas que dizem que agora tudo é errado, desconsideram isto: assédio sempre foi errado, mas a diferença é que antes não havia nenhumas consequências. E como agora há (e ainda assim tão poucas e tão leves) alguns senhores acham que estão a ser oprimidos. Não estão. Chama-se progresso. 

Problemas com roupa

QCkcOX9fqXgTjEB6l7A5_BreatheKindraNikole.jpg

(Foto de Kindra Nikole, tirada daqui)

 

Há dias enquanto navegava por aí encontrei alguém que perguntava se era a única a achar que as mulheres ficam sexy de armadura completa. Não, não é. Eu também acho. Assim como acho que as mulheres ficam bem de fato. Uma opinião polémica, já que vai contra o conceito de feminilidade e do que é apropriado para cada género, imposto pela sociedade patriarcal - e cujo objectivo é moldar-nos aos desejos masculinos. 

 

A5.jpg

(Marlene D. in Morocco, 1930)

 

Imaginem o perigo se começamos a sentir-nos como homens, ainda podemos pensar que temos o direito de participar no mundo...E analisando a moda feminina ao longo dos tempos não vemos apenas a intenção de nos transformar em objectos de consumo - esta é uma das razões porque casar está fora dos meus planos: não conseguirei agradar ao meu esposo ao estar em casa de vestido floral e cabelo arranjando com uma travessa contendo um peru inteiro, à espera que ele entre em casa. Mas também privar-nos de liberdade física e mental - com os pés amarrados não podíamos fugir para lado nenhum, presas em barbas de baleia provavelmente iríamos hesitar em fazer certas actividades.

 

How Could A Woman Possibly Fight In This? GIF - WonderWoman ...

 

Boa pergunta, Diana. Em Mulheres Viajantes, que li o ano passado, Sónia Serrano conta como a roupa era um problema para as primeiras viajantes - algumas adoptavam trajes masculinos, com a censura que isso implicava, mas outras não. O que significava ir para o meio da selva e atravessar pântanos vestidas como se estivessem a tomar chá em Londres. Queria ver os viajantes a fazer o mesmo. E liberdade psicológica: no subconsciente cimenta-se a ideia do sexo fraco, que precisa de ajuda. Virginia ilustrou isso muito bem, quando Orlando passa a usar as pesadas saias vitorianas:

 

"Era o mais pesado e banal de todos os trajes que já usara. Nenhum lhe impedira tanto os movimentos. Não poderia mais passear pelos jardins com os seus cachorros nem galgar apressadamente a alta colina e lançar-se sob o carvalho. Suas saias prendiam folhas úmidas e palha (...) Seus músculos tinham perdido a flexibilidade. Ficou com medo de que houvesse ladrões atrás dos lambris, ou, pela primeira vez na vida, fantasmas nos corredores. Todas essas coisas levavam-na passo a passo a submeter-se à nova descoberta (...) que a cada homem correspondia uma mulher (...)"

 

Em Clear Light of The Day de Anita Desai há uma passagem em que as duas irmãs, Bim e Tara, decidem às escondidas vestir as roupas do irmão e processa-se uma mudança que não é apenas física ("Great possibilities unexpectedly opened up now they had their legs covered so sensibly and practically and no longer needed to worry about what lay bare beneath ballooning frocks (...)"), mas elas começam a sentir um senso de confiança e possessão.

 

De independência ("Now they thrust their hands into their pockets and felt even more superior —what a sense of possession, of confidence it gave one to have pockets, to shove ones fists into them as if in simply owning pockets one owned riches, owned independence"). Não será coincidência quando várias autoras abordam um aspecto semelhante e não será de espantar que a roupa possa ser usada como arma social. Não há muito tempo podemos ver como este país ainda não lida bem com homens de saia. Problemas como violência doméstica ou desigualdade é como o outro, agora isso nem pensar.

 

Billy-Porter-1.jpg

(Billy Porter nos Óscares de 2019)

 

Mas voltando às armaduras do início - é um assunto igualmente polémico pois alguns senhores não podem conceber a ideia de uma roupa que não identifique de imediato a personagem como feminina ou a ideia de não poderem ver o máximo possível de pele dela. E como muitos desses senhores são artistas\realizadores continuamos a ter de ver certas abominações...Num mundo patriarcal o desejo masculino heterossexual vem acima de tudo inclusive do mais elementar bom senso pois até uma criança perceberia que lutar de biquíni não faz sentido.

 

E não é preciso ser nenhum fã de comics ou de fantasia para se reparar, nem falando da câmara apontada para sítios estratégicos do corpo delas, das poses estranhas, dos papéis resumidos a apêndices românticos (um papel que não tem nada de mal claro, deve ser por isso que o vemos ser ocupado por tantos homens). É de tal modo que às tantas podemos ser levadas a pensar que nós é que estamos trocadas e que estas são as escolhas de guarda-roupa mais realistas e lógicas...

 

A6 (1).jpg

 

(Patty Jenkins [Wonder-Women] Amazon warriors on the left.

Zack Snyder's [Justice League] on the right."

Tirado daqui)

 

Talvez as samurais ou Antónia Rodrigues, essa mítica figura portuguesa, lutassem realmente de calças justas ou como se estivessem a caminho da Caparica - Ora, deve ser coincidência que a personagem deste jogo seja uma colegial com uma micro saia e que quando se senta a câmara se foque directa nessa "fronteira" (pobre Carrie a ter de se expor para as hordas sedentas - "I emerge from my three-week-long ECT treatment to discover that I am not only this Princess Leia creature but also several-sized dolls, various T-shirts and posters, some cleansing items (...) It turns out I was even a kind of pin-upa fantasy that geeky teenage boys across the globe jerked off to me with some frequency")

 

Basicamente, é uma forma de nos dizerem que não nos podemos equiparar aos homens - claro que vocês podem ser badass mas não se esqueçam de que têm pipi e como tal a vossa principal função é serem agradáveis à vista. Ou seja, sermos fodíveis. Mas se decidimos andar na rua com uma micro saia corremos o risco de sermos insultadas e de não sermos colocadas na lista das que são material para casar. Muito confuso não?

Quem Escreve Aqui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e filmes podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados e fascistas não são bem-vindos. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

Calendário

Outubro 2021

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Sumo que já se bebeu

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

A Ler...

Algo especial a dizer?