Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

E afinal não era um escritor

É engraçado o número de escritoras que achamos que são homens - até que vamos ao Google ou até a autora falecer e aparecerem nas notícias fotos e dados biográficos. Se eu fosse escritora também iria assinar os meus livros com iniciais, só para ser troll...P. D. James? Nunca ouvi falar desse autor. Ayn Rand? Arundhati Roy? A .S. byatt? Há dias encontrei um comentário de alguém que dizia estar muito desapontado porque esperava que Elena Ferrante fosse um homem. Não explicava porquê...Não é para admirar. É isto que nos ensinam: que só eles é que vão à guerra, dirigem empresas, escrevem bons livros...Os seus nomes são dados a prémios, biografias são escritas, filmes são feitos a um ponto em que acabamos a ter dois filmes sobre cientistas masculinos num mesmo ano e numa mesma lista de premiação. As suas vidas dão épicos de jornalismo e espionagem! Já elas não têm nada a dizer sobre nada. As suas vidas não têm interesse - ideia passada por inúmeros historiadores e arqueólogos e que continuamos a aceitar como se fosse verdade. Pior ainda, achamos que elas devem estar caladas: não é um horror quando mulheres se juntam para falar de partos? Recentemente li um livro muito bom (Filhos do Inverno, Dea Trier Mørch) passado numa maternidade. Conta a história de um grupo de mulheres desde que entram lá até darem à luz. Apesar de ser um livro dos anos 70, tem reflexões bem actuais: fala da importância das mulheres partilharem a sua experiência sobre este momento tão marcante e de como elas têm todo o direito a isso. A mera ideia de alguém achar que a nossa história como género é menos importante ou menos digna devia provocar repúdio. 

Leituras e Perguntas

Ler um bom livro é um prazer, ainda mais quando abre novas janelas: para outros títulos, histórias ou personagens...Gosto muito de encontrar referências. Acabamos um livro e acabamos também com mais dois na wishlist. Aconteceu-me agora com o Fala, Memória do Nabokov: é um livro maravilhoso! Apetece-me começar a lê-lo de novo, só porque sim. E deu-me a conhecer algumas senhoras como Bertha von Suttner, escritora, pacifista e a primeira mulher a ganhar o prémio Nobel da paz em 1905, e Maria Sibylla Merian, naturalista e ilustradora alemã do século XVIII que se destacou no estudo das plantas e dos insectos. Embora fora do contexto do livro não posso deixar de mencionar outra figura que encontrei: Marguerite Higgins, correspondente durante a WW2, Guerra da Coreia e do Vietname e que foi a primeira mulher a receber o Prémio Pulitzer de Reportagem Internacional em 1951. 

 

Outro exemplo: há uns tempos li um livro que era a biografia ficcionada de Espiridiona Cenda, uma bailarina e cantora de finais do século XIX que media apenas vinte e seis polegadas de altura. À volta desta história, já de si épica, havia muitas outras incluindo a da jornalista que deu a volta ao mundo e da cortesã francesa por quem homens cometiam suicídio. Estava sempre a interromper a leitura para ir ao pc pesquisar. Aliás, foi por causa desta variedade de figuras que decidi abrir uma rubrica aqui no blog. Na altura pensei que teria material para alguns posts...Só para constatar passado pouco tempo que as conquistas femininas dariam para um blog inteiro.

 

Mas isto também faz pensar: porque é que os homens têm mais direito a ser reconhecidos e\ou a receber prémios mesmo quando fazem o mesmo ou até menos que uma mulher? Porque é que um género é considerado inútil para o progresso da sociedade mesmo quando faz descobertas que contribuem para esse progresso? Porque temos de fazer mais esforço para ser respeitadas? Qual é a justiça de fazer comparações quando fomos impedidas de aceder ao conhecimento por séculos? Amava que alguém fizesse um filme ou série sobre as mulheres portuguesas que se disfarçavam de homem para entrar nas faculdades! Porque é que se continua a ensinar uma História que nada tem de universal? Porque tenho de continuar a fazer estas perguntas neste século? 

Homens da Minha Vida

 

Sim, este é mais um post sobre livros...O título lamboso foi só para chegar a atenção. A verdade é que no post anterior admiti que sou uma queirosiana, soa snob mas é algo que não posso negar...Mas não é com se o meu coração de leitora não fosse largo o suficiente e por isso ei-los: os meus seis primeiros autores favoritos. Geralmente quando me perguntam por um autor de eleição respondo um destes, às vezes vou buscar os outros da lista para ir variando. Não tenho nenhuma estória interessante sobre como os encontrei, foi a modos que o habitual - rapariga disponível encontra por acaso livro bem parecido e também disponível. Menos no caso do Truman, cujo o primeiro apareceu cá em casa não sei como...Existia numa estante, sem nenhuma razão, uma edição de capa medonha. Também estou a pensar seriamente responder a quem me pergunta quando tenciono arranjar um senhor com quem assinar um contrato e procriar que já tenho e até mais que um, só para ficarem mesmo a achar que estou a falar de humanos e não de literatura e por isso que sou uma mulher sem honra.

Escrita e Mentalidade

Não consigo deixar de ficar espantada quando leio um livro de um autor de uma época longínqua tipo século XVIII ou XIX e constato que aquelas personagens femininas têm mais carácter que muitas que se vêem hoje. Nem sempre são badass no sentido do termo: podem ser tolinhas, doces, más (ou tudo isto ao mesmo tempo) mas não se esquecem logo assim que se vira a página. Acho que já falei disto aqui, mas a verdade é que ainda não encontrei explicação para este fenómeno de apagamento das personagens femininas ou da sua transformação em apêndices sem interesse numa altura em que se pode escrever sobre tudo - não é como se fossemos levados a tribunal por escrever um livro com cenas de adultério. E depois há aquela: sim elas são fracas, mas é um romance de época...É compreensível. Pode ser, mas depois de ver este argumento tantas vezes repetido pergunto-me se o problema é a época ou é a mentalidade do autor. Quem vir pode pensar que só muito recentemente as mulheres aprenderem a somar dois mais dois. Não é como se, por exemplo, o primeiro romance da História não tivesse escrito por uma mulher (Murasaki Shikibu, 1008) ou a primeira obra de ficção cientifica (Mary Shelley, 1818) ou a tecnologia que deu origem ao wi-fi (Hedy Lamarr, anos 40) ou que o primeiro programador da História também não tenha sido uma senhora (Ada Lovelace, 1815-1852). É esse efeito propositado ou apenas um mau trabalho de construção das personagens? Pois é...Um assunto não existe só porque não encontramos muita informação sobre ele. É paradoxal que agora que se fala tanto em igualdade pareça existir em alguns aspectos um retrocesso...Não apenas quando o assunto é igualdade: pessoas que não vacinam os filhos? Não me espantaria sair agora à rua e encontrar cartazes a dizer que tomar a pílula faz de mim uma assassina. Uma vez encontrei esta ideia na zona de comentários de um jornal. 

Autores Favoritos

Como todos os leitores eu tenho um top de autores favoritos. De vez em quando adiciono novos nomes á lista, recentemente adicionei Murakami...No entanto, não leio livros destes autores com tanta frequência como seria de esperar. Chego a passar  bastante tempo sem pegar em algum ou porque não me apetece ou porque não tenho disponível na estante, tanto que quase me esqueço porque razão os tenho na lista dos melhores. Quando começo a pensar isto é sinal que já passou mesmo muito tempo e está na hora de refrescar a memória nem que seja relendo...Há qualquer coisa de maravilhoso em voltar a um autor que gostamos. É como ir para fora por um longo tempo e depois regressar a casa. No início nem nos lembramos onde temos as coisas, será nesta gaveta afinal não é, e depois tropeçamos naquela arca que está junto á porta...Mas lentamente vamos sendo invadidos por uma sensação de familiaridade e confiança. Entramos novamente no ritmo da casa. As facas no armário de cima, aquela mossa na porta, aquelas folhas amareladas no fundo de uma gaveta com coisas escritas por esse alguém que já fomos...

 

No caso dos livros a sensação é semelhante: ao início pode ser difícil entrar na história, mas depois vamos reconhecendo a escrita, as personagens, o estilo até nos sentirmos novamente integrados. Talvez até encontremos metaforicamente coisas secretas no fundo da gaveta. Nós somos marcados pelos livros, mas também os marcamos...Há memórias que deixamos dentro dos livros que muitas vezes não têm qualquer relação com o conteúdo. É como se eles tivessem sempre duas histórias: uma oficial e outra privada escrita por nós. Quando se relê um livro, isto é particularmente notório. De facto, ao fim de umas páginas já me lembrei porque gosto tanto daquele autor..E é tão reconfortante! Sim, que isto de estar sempre a ler autores novos, a sofrer surpresas e desilusões torna-se um bocado cansativo ás tantas...É sempre bom voltar a algo que conhecemos.

 

Neste momento estou a passar por isso, foi aliás por essa razão que me lembrei deste assunto, com os contos do Eça. Já não lia nada dele deste o tempo do ictiossauros e já quase me tinha esquecido...A escrita maravilhosa, as descrições, a ironia, o positivismo e o machismo, que me aborrece deveras mas todos os jardins têm as suas serpentes. Alguns contos em particular eu já tinha lido, mas decidi começar no início e acabar no fim sem andar a saltar. Houve tantos pormenores que me escaparam das primeiras vezes! Nunca tinha percebido o quão bom é O Singularidades de Uma Rapariga Loura ou O Adão e Eva. Acho que vou ter que os ler mais umas poucas. Mas o Civilização vai ser sempre o meu preferido...Como não gostar das aventuras do supercivilizado Jacinto por terras do Douro?

Da Ingenuidade...

Quando vemos toda a gente a ler livros de um determinado autor e decidimos experimentar, porque enfim...para toda gente estar a ler aquilo e para haver tantas críticas entusiásticas é porque não deve ser assim tão mau. E começamos a ler cheios de entusiasmo, apenas para perceber cem páginas depois que cometemos um erro...

Quem Escreve Aqui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

Calendário

Maio 2020

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Sumo que já se bebeu

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

A Ler...

Algo especial a dizer?