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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

E afinal não era um escritor

É engraçado o número de escritoras que achamos que são homens - até que vamos ao Google ou até a autora falecer e aparecerem nas notícias fotos e dados biográficos. Se eu fosse escritora também iria assinar os meus livros com iniciais, só para ser troll...P. D. James? Nunca ouvi falar desse autor. Ayn Rand? Arundhati Roy? A .S. byatt? Há dias encontrei um comentário de alguém que dizia estar muito desapontado porque esperava que Elena Ferrante fosse um homem. Não explicava porquê...Não é para admirar. É isto que nos ensinam: que só eles é que vão à guerra, dirigem empresas, escrevem bons livros...Os seus nomes são dados a prémios, biografias são escritas, filmes são feitos a um ponto em que acabamos a ter dois filmes sobre cientistas masculinos num mesmo ano e numa mesma lista de premiação. As suas vidas dão épicos de jornalismo e espionagem! Já elas não têm nada a dizer sobre nada. As suas vidas não têm interesse - ideia passada por inúmeros historiadores e arqueólogos e que continuamos a aceitar como se fosse verdade. Pior ainda, achamos que elas devem estar caladas: não é um horror quando mulheres se juntam para falar de partos? Recentemente li um livro muito bom (Filhos do Inverno, Dea Trier Mørch) passado numa maternidade. Conta a história de um grupo de mulheres desde que entram lá até darem à luz. Apesar de ser um livro dos anos 70, tem reflexões bem actuais: fala da importância das mulheres partilharem a sua experiência sobre este momento tão marcante e de como elas têm todo o direito a isso. A mera ideia de alguém achar que a nossa história como género é menos importante ou menos digna devia provocar repúdio. 

Leituras e Perguntas

Ler um bom livro é um prazer, ainda mais quando abre novas janelas: para outros títulos, histórias ou personagens...Gosto muito de encontrar referências. Acabamos um livro e acabamos também com mais dois na wishlist. Aconteceu-me agora com o Fala, Memória do Nabokov: é um livro maravilhoso! Apetece-me começar a lê-lo de novo, só porque sim. E deu-me a conhecer algumas senhoras como Bertha von Suttner, escritora, pacifista e a primeira mulher a ganhar o prémio Nobel da paz em 1905, e Maria Sibylla Merian, naturalista e ilustradora alemã do século XVIII que se destacou no estudo das plantas e dos insectos. Embora fora do contexto do livro não posso deixar de mencionar outra figura que encontrei: Marguerite Higgins, correspondente durante a WW2, Guerra da Coreia e do Vietname e que foi a primeira mulher a receber o Prémio Pulitzer de Reportagem Internacional em 1951. 

 

Outro exemplo: há uns tempos li um livro que era a biografia ficcionada de Espiridiona Cenda, uma bailarina e cantora de finais do século XIX que media apenas vinte e seis polegadas de altura. À volta desta história, já de si épica, havia muitas outras incluindo a da jornalista que deu a volta ao mundo e da cortesã francesa por quem homens cometiam suicídio. Estava sempre a interromper a leitura para ir ao pc pesquisar. Aliás, foi por causa desta variedade de figuras que decidi abrir uma rubrica aqui no blog. Na altura pensei que teria material para alguns posts...Só para constatar passado pouco tempo que as conquistas femininas dariam para um blog inteiro.

 

Mas isto também faz pensar: porque é que os homens têm mais direito a ser reconhecidos e\ou a receber prémios mesmo quando fazem o mesmo ou até menos que uma mulher? Porque é que um género é considerado inútil para o progresso da sociedade mesmo quando faz descobertas que contribuem para esse progresso? Porque temos de fazer mais esforço para ser respeitadas? Qual é a justiça de fazer comparações quando fomos impedidas de aceder ao conhecimento por séculos? Amava que alguém fizesse um filme ou série sobre as mulheres portuguesas que se disfarçavam de homem para entrar nas faculdades! Porque é que se continua a ensinar uma História que nada tem de universal? Porque tenho de continuar a fazer estas perguntas neste século? 

Homens da Minha Vida

 

Sim, este é mais um post sobre livros...O título lamboso foi só para chegar a atenção. A verdade é que no post anterior admiti que sou uma queirosiana, soa snob mas é algo que não posso negar...Mas não é com se o meu coração de leitora não fosse largo o suficiente e por isso ei-los: os meus seis primeiros autores favoritos. Geralmente quando me perguntam por um autor de eleição respondo um destes, às vezes vou buscar os outros da lista para ir variando. Não tenho nenhuma estória interessante sobre como os encontrei, foi a modos que o habitual - rapariga disponível encontra por acaso livro bem parecido e também disponível. Menos no caso do Truman, cujo o primeiro apareceu cá em casa não sei como...Existia numa estante, sem nenhuma razão, uma edição de capa medonha. Também estou a pensar seriamente responder a quem me pergunta quando tenciono arranjar um senhor com quem assinar um contrato e procriar que já tenho e até mais que um, só para ficarem mesmo a achar que estou a falar de humanos e não de literatura e por isso que sou uma mulher sem honra.

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