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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Leituras perturbantes, leituras aconchegantes

Terminei o título que andava a ler - The Haunting of Alejandra. É uma chatice que tenha caído no meio da rua e dado cabo de um pé, mas mais chato ainda é isso ter acontecido a uns dois capítulos de acabar o livro que assim teve que ficar a aguardar o meu retorno uma semana depois (e mais uns dias de inércia). A ideia é boa, mas a execução é fraca - aquele problema do costume, mas acabei por dar duas estrelas. Às vezes a diferença entre uma ou duas é o meu nível de irritação, por exemplo com o Rapariga, Mulher, Outra, já estava sem paciência ainda no segundo capítulo - menciono isto de novo porque me lembrei que nunca cheguei a escrever uma resenha como tinha planeado, talvez tenha sido pelo melhor...

A seguir li uma coisa chamada But Not Too Bold, a história de uma rapariga que trabalha como criada numa excêntrica mansão e que um dia é promovida - passa a ser guardiã de um precioso molho de chaves e também passa a ter acesso ao terceiro andar onde vive a proprietária. O problema é que a proprietária não é uma pessoa. E ela devorou a última guardiã das chaves. Foi uma leitura rápida e satisfatória (e queer). E agora terminei The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making - já falado aqui antes, é parte de uma série de cinco livros mas na altura só li os dois primeiros porque sou realmente péssima com séries. Releitura cozy, perfeita para este tempo.

É curioso que no Goodreads vi alguém dizer que este livro é bom para mulheres adultas nostálgicas de contos infantis e dá uma estrela...De facto o TikTok tem feito um bom trabalho ao dar a impressão que nós só lemos lixo, mas o fenómeno de usar o feminino com uma conotação negativa é recorrente - como uma linda review que encontrei em que um tipo deu uma estrela a um livro e escreveu que era péssimo mas que as mulheres iam gostar...Isto apesar das opiniões acima, também de uma estrela, pelo menos dez eram de mulheres. Porque é o género foi importante para a review? Nunca saberemos. Mas pensem nisto quando ouvirem dizer que são as feministas a trazer o tema do género para qualquer conversa aleatória.

Imagine-se um mundo onde podemos com toda a naturalidade dizer "não achei este livro nada de jeito, só mesmo um homem para gostar disto" e onde podemos justificar não ler algo porque é escrito por um homem "e não acredito que isso vá ter grande qualidade, tenho muito que ler e o tempo é pouco obrigada" ou porque a personagem principal é masculina e não nos identificamos...

E as pessoas à volta acenam em concordância e procedem a carregar-nos em ombros para que não soframos com a dificuldade de nos tentarmos conectar com uma personagem que não é exactamente igual a nós.

O horror! O horror! Não há heróis em face dessa dor...Nada nesta vida apenas o desespero, o medo, a morte e a mais insana superficialidade que se estende sobre um abismo de sofrimento. A marca de um homem imaturo querer morrer nobremente por uma causa em vez de viver com humildade por ela, o seu coração o seu único orgulho, a única e solitária fonte de tudo, que só a ele pertence, a fonte de toda a aventura e de toda a desgraça...Do desejo permanente de coisas distantes, mares proibidos e costas selvagens. Mas no fim tudo passa - os homens, as estações, as nuvens, não vale a pena nos agarrarmos a estas pedras, seremos na mesma arrastados para o rio que flui lentamente e no entanto nunca pára...

(Ok chega de encaixar citações umas nas outras - é porque eu gosto de me sentir representada pela literatura universal)

Por falar em sustos, ontem descobri uma pequena rachadura num dos cantos da capa da Clarinha e tenho voado pelo quarto a tentar perceber o que raio aconteceu tendo em conta que ela só vai da cama para a mesa-de-cabeceira e vice-versa...Acho que o candeeiro que tem os pés pesados é o culpado. Mais uma razão para meterem uma capa nesses e-readers. É uma opinião meio impopular, já tenho várias sobre o assunto aliás, ainda por cima a minha Clarinha é a cores o que algumas pessoas detestam com uma intensidade absurda...Mas cinco meses volvidos as coisas vão muito bem entre nós.

A dull, dark, and soundless day

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Terminei Notas Para Uma Definição do Leitor Ideal, conjunto de ensaios de Alberto Manguel. Demorei mais do que estava a contar, os textos são curtos mas ainda são vinte e quatro ao todo e estava com receio de chegar aos últimos já sem me lembrar do tema dos primeiros, então fui parando para tirar notas sobre cada um. Não que seja importante o tempo que demoramos a ler um livro, a leitura não é contabilidade - embora, ironicamente tenha sido com esse propósito que os sumérios inventaram a escrita. Que diriam se soubessem que os seus recibos sobre que x de gado caprino foi comprado ou vendido estão agora guardados em museus.

Do mesmo autor já tinha gostado bastante do Uma História da Leitura - uma delícia para qualquer booklover - e também gostei bastante deste. Ainda não terminei os contos da Dorothy Parker, voltei à praia e li mais um pouco mas depois deixei-o de lado para acabar os ensaios. Não vou dizer que o dia na praia não estava bom, porque estava, ao mesmo tempo sentia-me a sucumbir à impiedade dos dias alegres...E que insistem em ficar para lá da conta. Presentemente está a chover, só umas pingas aqui e ali, e não está frio, está uma humidade repelente.

Mas enquanto esperamos por um Outono como deve ser, podemos aproveitar este breve período em que já passou a fase das intensas paixões em ilhas de mar azul - para dizer a verdade, não sei que tipo de livros se recomendam no Verão, Emily Henry e títulos do booktok desse género de certeza - mas ainda não chegou a fase amor, união familiar e um golden retriver. Também não posso dizer que tenha experiência com romances natalícios, a menos que esteja uma cobra na sala a tentar comer a árvore de Natal, não estou interessada.

Fui ao Youtube ver que leituras assustadoras estão a ser recomendadas. E lembrei-me da razão porque não consumo muito este tipo de conteúdo - fico facilmente assoberbada tanto pelo que não li como por aquilo que já li, basta a pessoa começar a falar do livro que eu fico logo com vontade de ir à estante buscá-lo para reler...E será que gostava de ter lindas edições de capa dura, em vez de ter, por exemplo, uma edição do Frankenstein do tamanho de um ovo, comprada por um euro numa feira? Sim. 

Também é fácil ficar-se assoberbado porque debaixo deste guarda-chuva há variadas ramificações e respectivos vídeos com sugestões para cada uma: gótico clássico, gótico contemporâneo, folclore, body horror, horror feminista, bruxas, folk horror, dark fairy-tales, vampiros, cosmic horror, história e arte macabra...Tanto ficção como não-ficção. Aquilo que o vosso negro coração desejar. Até comédia, como um título que encontrei sobre um Ikea assombrado. Pensando agora nisso, os manuais de instruções do Ikea serão tipo a escrita cuneiforme do futuro...

Agora estou a ler este livro, The Haunting of Alejandra - escolhi menos pela história e mais pela capa. Mas estou curiosa por continuar, ainda só vou no início. E agora uma história de terror bem moderna: tentei encontrei uma imagem estética de Outono no Pinterest, mas aquilo está cheio de AI...Em vez disso fui buscar estas duas fotos antigas que tirei na Quinta da Regaleira, sítio de que gosto muito e cuja vibe me parece encaixar perfeitamente.

Leituras no limbo

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(Sophia de Mello Breyner e Conceição Lima em São Tomé. Anos 80. Tirado daqui)

 

Que não sou a leitora mais organizada, já não é nenhuma novidade. E recentemente dei por mim com vários livros no limbo - tinha a intenção de os ler, mas outros títulos acabaram por se sobrepor. Por outro lado não queria estar a devolvê-los às estantes então ficaram à espera. Um deles é Vagina: A re-education de Lynn Enright, também é sabido que me entusiasmo facilmente com livros que versam sobre o pipi, comecei a ler mas depois havia este sentimento de culpa por o Sensibilidade e Bom Senso estar ali a ganhar pó e considerei ler os dois ao mesmo tempo - só que fiquei empolgada e a não-ficção ficou para trás. 

A empolgação durou até mais de meio e depois foi decaindo pelo que achei que o melhor seria pegar em outra coisa - A Dolorosa Raiz do Micondó, um belíssimo livro de poesia de Conceição Lima. É o segundo que leio dela, o primeiro foi O País de Akendenguê  que li durante a volta ao mundo. Estão ambos editados pela Caminho. Agora que penso nisso o desafio foi pródigo no que toca à poesia pois também gostei muito de Odete Costa Semedo e Ana Paula Tavares. E recorda-me mais uma vez como é absurdo que a literatura de países de expressão portuguesa esteja ausente dos currículos nas escolas...

Neste momento estou a ler Raparigas Mortas de Selva Almada. Este já estava à espera há um tempinho considerável - narrativa centrada no homicídio de três jovens mulheres nos anos oitenta na Argentina. Vendo a perspectiva de ler mais de cem páginas sobre mulheres violadas e assassinadas eu tinha-me acobardado logo na introdução. Recorda-me mais uma vez de como o feminicídio devia ter o mesmo estatuto que a prática de genocídio e ser julgado no Tribunal Internacional - muito difícil encontrar um genocídio que seja cometido de forma tão ampla em todos os países do mundo, todos os dias e no entanto aceite como perfeitamente normal...Já estou quase a acabar. A minha mente quer logo saltar para a próxima autora latina a descobrir, mas vou tentar acabar o que falta primeiro.

Leituras: alienígenas, flores...

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Terminei Kissing the Witch: Old Tales in New Skins de Emma Donoghue, um pequeno livro que reconta histórias e contos de fadas conhecidos dando-lhes um toque feminista e sáfico. Talvez algumas pessoas não gostem que ideias subversivas tintem as suas histórias preferidas, mas não é o meu caso. A realidade é que o período de vida em que uma pessoa acha que a Branca de Neve ou a Pequena Sereia são a última bolacha do pacote foi muito curto no meu caso - eu rapidamente passei a achar estas histórias aborrecidas e depois que passam péssimas mensagens às miúdas. E não tenho um físico de princesa nem um temperamento muito doce por isso também não valia a pena alimentar expectativas.

Não estou a falar dos originais que parecem sempre envolver métodos de tortura inquisitoriais... Isto não lêem os pais aos miúdos ao deitar, que estranho. Basicamente estou sempre disponível para diferentes explorações - não poria este livro no mesmo patamar de The Bloody Chamber and Other Stories da Angela Carter, que ainda me faz suspirar, mas de qualquer modo gostei bastante: da escrita e dos twists e de como as histórias estão todas interligadas.

Por falar em sangue a seguir passei para Bloodchild and Other Stories de Octavia Butler, não tinha a certeza se ia gostar visto que por norma não leio ficção-científica. O conto que dá título deve ser o mais conhecido, ganhou um prémio Nebula e Hugo - uma inesperada história de amor! Mas inclui mais seis histórias e dois ensaios autobiográficos e eu gostei muito da colecção como um todo.

Continuando com o esforço de "despachar" os livros que estão a amarelecer na estante à espera, a maioria abandonados quando virei a minha atenção quase em exclusivo para as autoras, decidi pegar no A Sétima Porta. Infelizmente não gostei assim muito...Nunca tinha lido nada do autor antes. Agora encontro-me a ler um pequeno livro sobre flores e os seus significados\simbolismos, pois queria algo simples e as ilustrações pareciam bonitas (e são) - Floriography: An Illustrated Guide To The Victorian Language Of Flowers. Na introdução é explicado que este era um método clandestino de comunicação numa altura em que as emoções não podiam ser mostradas abertamente - fascinante.

Quem Escreve Aqui

Feminista * plus size * comenta uma variedade de assuntos e acha que tem gracinha * interesse particular em livros, História, doces e recentemente em filmes * talento: saber muitas músicas da Taylor Swift de cor * alergia ao pó e a fascistas * Blogger há mais de uma década * às vezes usa vernáculo * toda a gente é bem-vinda, menos se vierem aqui promover ódio e insultar, esses comentários serão eliminados * obrigada pela visita!

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