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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Certos pensamentos ao Sábado

Obviamente que não estou contente com a chegada de calor. Há que aproveitar as coisas boas da vida enquanto é possível, por exemplo, no Sábado passado acordei mais cedo do que era necessário - não liguei o pc. Fui à cozinha comer e depois voltei para debaixo dos cobertores como uma lontra. E lá fiquei feliz e peluda a ler. Também são as vantagens de ser solteira, vantagens que este mundo tenta provar que não existem e que devia ter vergonha de estar a contar que estava deitada sozinha com um monte de almofadas, a ler coisas subversivas, sem ter que me preocupar em atender às necessidades de ninguém nem em arrancar qualquer pelinho. A bem dizer um tipo que ficasse maçado com isso (ou hum, com pingas de sangue na casa-de-banho) podia sair pela mesma porta por onde entrou. Que pressão viver assim. Ainda bem que o São Valentim já passou - dia mais piroso, hipócrita e patriarcal. Não quer dizer que não possam fazer algo com real significado neste dia...

 

28

1M.jpg

(tirada daqui)

 

Fiz 28 anos na semana passada. Não escrevi aqui nada na altura - bem, primeiro porque não é o mais interessante dos temas e porque calhou entre dias não muito bons então preferi escrever sobre outras coisas. Mas outro dia estava a sair do duche e pensei: seria deprimente escorregar aqui e partir algum osso. Depois vesti-me e sai para a rua com o guarda chuva a servir de bengala, especialmente nas escadas. Eu tenho medo de cair em todo o lado. Mais sinais de velhice para acrescentar à lista. E não consulto o telemóvel enquanto ando. Também porque não nasci com coordenação suficiente para executar tais tarefas em simultâneo. Enfim, para não deixar esta efeméride ainda mais deprimente decidi posar para a foto com um gorrinho catita. 

Diz-me que sou um perigo

Cada vez que alguém diz que as feministas são umas terroristas e que isso devia ser proibido, eu sinto-me sexy e perigosa. Não que isso até agora tenha atraído algum homem à minha cama, mas ainda assim. Também há quem diga que isso é assunto sobre o qual não se deve falar, que de modo nenhum deve estar em destaque num blog - ou que a palavra igualitarismo é a que se deve usar. Isto faz-me sentir subversiva. Sim, eu digo a palavra feminismo e acho que dois mais dois são quatro e não cinco. Há pessoas que dizem que não são feministas porque não pertencem a nenhum grupo - parece que estão a falar da máfia (e há quem diga coisas como: vou dizer isto, espero que as feministas não me ataquem. Tarde demais. Agora vais de ter de dizer olá ao meu pequeno amigo). Quem diga que somos umas guerreiras da justiça social, o que no início eu achava que era um elogio e claro: há quem nos chame de nazis. Como não amar? Foi por isso que virei feminista. Vi filmes da Riefenstahl e achei que me ia divertir imenso. Mas até agora nem sequer um país invadi. Um desapontamento.

Aviso: este texto contém vernáculo

Acabei A Pianista da Alfried Janelik - a história de uma pianista falhada de 35 anos que vive com a mãe, controladora e despótica. Fala de relações de poder não só entre mãe e filha, mas também entre géneros, de repressão sexual, de objectivação feminina e faz uma crítica incisiva a uma sociedade que esconde os seus mais sombrios desejos sob uma capa de pacatez burguesa. Antes de começar já sabia que ia ser duro. Só que este livro é mais que isso: é dilacerante. Visceral. Claustrofóbico. E muito bom. No posfácio diz o seguinte: “e de quebra se proclama admirada [a autora] com o fato de as mulheres não serem autoras de uma literatura mais agressiva.” É uma obra que dá muito que pensar e esta frase também. Um grande cliché é que as mulheres só escrevem lamechadas...Isto caiu por terra assim que comecei a descobrir mais autoras com diferentes formas de se expressarem incluindo com horror e violência. Mas pensem na repressão que as mulheres têm sofrido ao longo da História.

 

Motivos mais do que suficientes para que os nossos livros se tornem um grito. Uma vez uma pessoa, talvez fosse um senhor talvez fosse um habitante do planeta Kepler-16b, ficou ofendido com um texto meu e disse que eu era odienta...Comentário típico. Porque é que as feministas são tão agressivas e odeiam homens? Querem transformar o coração das jovens num bloco de gelo!!! São umas ofendidas que não se calam!! São pessoas que vêem uma notícia sobre homens que foram ilibados de terem violado uma mulher por ela ter consumido álcool, encolhem os ombros e pensam que é a vida, que é um azar...Se não acenarem em concordância. Que importa? É mais importante falar do drama que é deixarem de haver grandes planos de rabos e mamas em competições desportivas - já não se pode olhar para nada!! Não se pode apreciar a beleza do mundo! Que vou fazer? Furar os globos oculares? Arrancar a minha pila? Mulheres vêem os seus agressores saírem em liberdade, bebés meninas nunca viverão mais do que uns minutos, adolescentes são violadas e queimadas vivas....E vem pessoal choramingar sobre “atentados à liberdade”. Querem saber? Vão-se foder.

 

Sempre que vocês tentam defender quem está fora do grupo dominante, mulheres, refugiados, minorias - alguém vai aparecer para tentar descredibilizar a vossa raiva, dizendo que o problema não existe e que está tudo na vossa cabeça. Só que não está. Lembrem-se sempre que não são só vocês ou uma prima vossa a ter “azar”, são milhões de mulheres no mundo. Alguém diz que o feminismo é uma coisa irritante? Óptimo! Também sei o que algumas pessoas dizem: não se pode pensar assim, detestar mulheres ou pessoas de outra cor é só uma forma diferente de pensar, tens de ouvir e tens de debater e a liberdade de expressão! Há uns tempos escrevi aqui um texto sobre o paradoxo que é ter que respeitar este tipo de "opiniões". Mas há uma versão bem mais curta e não censurada desse texto, que já devem estar a ver qual é: misóginos neo-nazis querem debater ideias? Vão-se foder. 

Um porco-espinho na vida

Acho que nunca tive uma fase de sonhar com príncipes encantados. Nunca liguei a esse tipo de filmes nem a bonecas e também nunca liguei a brincadeiras de meninas. Tinha livros de autoras e livros com personagens femininas (Zé e o Tim!). E amava aquela colecção sobre miúdas num colégio interno, não que alguma vez tenha desejado estar num colégio interno feminino ou outro. Li-os todos várias vezes. Cheguei a ler dois da colecção diários de Sofia, achava-os fúteis e fascinantes ao mesmo (ela tinha 17 anos! Uma rapariga crescida) Coisas que não gostava, e ainda não gosto agora: comprar roupa e sapatos (de facto, tenho mais livros que sapatos), ir ao cabeleireiro (agora acho mais interessante pois passei a prestar atenção às conversas), comédias ou romances românticos. Tudo o que me soasse a futilidade era uma perda do tempo que podia usar para ler ou ver coisas interessantes na TV. Que coisinha irritante eu era. Gostava da Sailor Moon. Mas não queria ser a Usagi, ela era engraçada mas eu queria ser a Rei [a de Marte] que tinha um feitio mais espinhoso. É claro. Como resultado disto tornei-me um frágil calhau que quando está com pressa mal se penteia e que mal sabe andar de saltos altos (entre outros) A diferença é que agora não acho que sou melhor porque tenho mais livros que sapatos e vejo estas ideias românticas como elas realmente são: não coisas de mulherzinha, mas tentativas de subjugar e manipular as raparigas. 

O Frango da Tristeza

Por incrível que pareça a minha primeira ideia era abrir um blog sobre livros porque não tinha quase ninguém com quem falar sobre eles e pensei puxa estas pessoas da internet vão amar as minhas opiniões! Ainda bem que não o fiz: não sou organizada o suficiente, em especial agora que leio várias coisas ao mesmo tempo e em que há dias em que acabo dois livros de seguida (por ter andado a ler os dois e estarem ambos quase no fim) e porque nem sempre tenho paciência para escrever sobre isso. Pelo menos sem acabar enredada num texto com vários parágrafos que terei de andar a rever e com o qual é provável que não fique satisfeita.

 

Ter um blog é duro. E ainda é pior quando não se tem uma vida animada que deve obrigatoriamente incluir: viagens (uma ida ao Colombo não conta a menos que encontrem lá a Meghan Markle. Ela está em todo o lado, é só uma questão de estarem atentos), refeições em sítios na moda (aquele frango óptimo que fazem numa churrascaria perto da vossa casa não conta. Escusam de andar a por espuma de sabão em cima do peito do frango a fingir que é espuma de flor de sabugueiro azul da Tailândia colhida por virgens à meia-noite), últimos lançamentos de qualquer coisa ou as gracinhas do vosso rebento (cobras também servem desde que tenham um chapéuzinho. Amo fotos de cobras e pintinhos com chapéus!) Às vezes não sei sobre o que hei-de escrever...Não que os meus dias sejam todos aborrecidos. Por exemplo, há dias encontrei um gato num muro e fiz-lhe festas e isso foi sem dúvida um ponto alto. Todos queremos ser super espectaculares e ser amados.

 

E torna-se difícil admitir que comemos frango frio com as mãos em pijama em frente à TV enquanto aquele tipo tão promissor está a comer outra coisa (ele nem sabia o vosso nome, esta é a verdade). É melhor arranjarmos um subterfúgio. Ou simplesmente admitir que essa é a descrição de uma Sexta-Feira normal. Andamos desesperados por amor...Mas todos nós podemos contribuir para atenuar o problema dizendo o quanto gostamos uns dos outros! Eu amo toda a gente. Bem, não toda. Algumas como o velho que me chamou gorda na rua, os condutores que me ignoram na passadeira e passam a alta velocidade ou o tipo que decidiu ouvir Rádio Amália muito alto em frente à minha janela: Ou a besta que atropelou a porra do gato acima mencionado (sério). Estas não merecem.

Sopinha de Letras

Num post que escrevi com os 10 sinais que indicam que um leitor é um snob literário de nível médio: um deles era ter lido com prazer os livros obrigatórios na escola. Podia ter exagerado para efeitos humorísticos, mas sim: amei ler as malfadadas obras [o Garrett um pouco menos] e em alguns casos essa primeira leitura tornou-se a primeira pedra de uma relação estável e feliz. Acho que também tive sorte: tive excelentes professoras. E não tive que estudar o Amor de Perdição...Não que não o tivesse lido se fosse preciso. Eu lia tudo. E sim: também gostava da parte da análise - o que este parágrafo nos mostra sobre a personagem e por aí fora. Nisto a poesia oferecia mais liberdade...Todos os trabalhos de casa fossem analisar as moedas que caem em cima dos pêssegos no poema do Cesário. Era triste quando tínhamos de avançar no programa, havendo ainda tanta coisa para estudar sobre as obras - a parte do Camões não achei assim muito fácil, mas compensei enchendo as margens do manual com anotações impossíveis de entender. Em termos de notas safei-me bem [menos no Garrett], uma vez consegui falar 5 minutos seguidos sem me engasgar sobre a simbologia nos Maias. Fiquei contente comigo própria. Eu era uma nerd ridícula...Mas era só nisto [e em História claro], eu detestava quase todas as outras matérias e tentava não despender com elas mais do que o tempo necessário. 

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