Venho aqui hoje ao blog contar uma coisa que finalmente aconteceu ao fim de tanto tempo e não, não é casamento ou pior ainda gravidez...Acontece que sou agora possuidora de um e-reader, um kobo. Só faltam uns cinco por cento para acabar o livro que estou a ler no telemóvel e depois será, assim espero, o encerrar de uma longa jornada a ler em aparelhos pouco próprios para esse efeito - não dizem que estas coisas fazem menos mal aos olhos? Pior não deve ficar, ler no telemóvel tornou-se penoso além das muitas distracções que apresenta, uma pessoa começa a ler e quando dá por si já está a enviar uma receita de queijadas de laranja para alguém.
Liguei ontem o zingarelho - é certo que depois de três tutoriais não consegui inserir um screensaver e que depois de transferir alguns livros e os organizar em colecções estas desapareceram do nada do ecrã principal, mas tirando questões mais estéticas posso dizer que estou satisfeita...Vamos ver como corre quando estiver efectivamente a ler - mais sobre este assunto em breve.
Por falar em estética estou fascinada pela variedade de acessórios com que o pessoal decora os seus e-readers, há tantos vídeos com esse conteúdo (e sim, inclui bater de unhas na caixa e frases como i'm in my girl reading era...), apenas comprei uma capita (cor-de-rosa), em essência só quero algo que me permita ler com algum conforto e que não seja difícil de interagir. Também se encontram úteis reviews, em especial precisava de ver a diferença entre o modelo a cores e o preto e branco.
Após ter sido tirado da caixa houve insinuações de que era um e-reader para formigas, dado o seu tamanho um tanto diminuto - por alguma razão meti na cabeça que a este ponto do campeonato dava para comprar uma coisa destas por tipo sessenta mocas, mas não é o caso então um modelo maior ficou fora de questão. E alguém comentou que podia levá-lo para a praia - talvez ainda esteja no estágio inicial quando tratamos um aparelho como se estivéssemos a segurar a tocha olímpica mas passado quinze dias já está a ir pelo ar, mas acho que não vou fazer isso. E se apanha areia ou se risca?
Um tema recorrente aqui - bem, que tema não é recorrente num blog que vai fazer quinze anos, mais precisamente na semana que vem...Mas como é improvável que me vá lembrar na data certa e também não tenho grande coisa para dizer, fica já assinalado. Nunca abandonado totalmente, excepto em 2022 quando ficou abandonado por seis meses e depois regressei dos mortos para me queixar das pessoas que se estavam a queixar da nova Ariel, agora parece que até o Super-Homem acham que é woke...Este blog é muito woke, assim espero. Será que chegamos aos sweet sixteen?
É certo que andar pela blogosfera agora é um bocado como passear no deserto com aqueles fenos a serem empurrados pelo vento, e às vezes lá aparece uma casinha habitada no meio dos cactos...Mas o que posso dizer? Sempre fui boa a vencer as pessoas pelo cansaço. Ora, no post anterior disse que o último livro que li acabou meio fanado e aqui está a evidência - a primeira foto é de quando o comprei, em segunda mão mas com um aspecto bem decente. A segunda foto é de como ele está agora.
O coitado pode estar a desintegrar-se, mas pelo menos é sinal que foi lido. Não tenho muitos livros que tenham sofrido acidentes no exterior (também porque evito passar mais tempo no exterior do que é necessário) excepto uns que têm areia da praia que nunca consegui tirar, um que foi atirado de uma varanda e um que se molhou quando estava a tentar chegar a casa debaixo de chuva porque não tenho paciência para esperar...Estas coisas são de evitar - aqui ninguém maltrata livros à toa. Mas eles existem para serem lidos.
Há dias dei com um artigo que dizia que não devemos sublinhar ou anotar nos próprios livros porque isso pode interferir ou condicionar uma releitura no futuro. A nossa percepção é condicionada pelo que éramos no passado - este argumento nunca tinha ouvido, normalmente a questão é estética, manter o exemplar com aspecto de novo...Se calhar a pessoa estava a referir-se a notas pessoais. E agora quero muito encontrar em segunda mão além de livros que tenham nome e data na primeira página, e tenho alguns assinados, algum onde o leitor anterior tenha deixado as suas impressões pessoais - ou melhor ainda: notas em que argumenta com o escritor!
Estava a tentar arranjar espaço para os livros que trouxe da Feira quando Leitora Júnior sugeriu que os colocasse na vertical - eu prefiro tê-los deitados para diferenciar dos que já foram lidos, mas ela disse que não tem importância porque a pessoa sabe o que já leu e o que não, uma mente racional. Este post não é patrocinado, mas algumas prateleiras ficaram com uma aparência satisfatória...Só que agora quando for tirar um para ler vai estragar - e sim aquele Henry James pode estar em espera há uma década, mas não falemos sobre isso. Deitados, em pé, em cima da estantes, uns atrás dos outros, dentro de cestos, uma pessoa arruma como pode.
Entretanto já acabei o livro que andava a ler da Rachel De Queiroz - para se ver que aqui também se acabam livros, embora claramente não há mesma velocidade com que entram novos. Na verdade, ele andou semanas a passear pelas várias superfícies do quarto, ridículo para um título que não é muito grande e cuja escrita é fluida. Mas também em minha defesa, já falei disto aqui, se há um termo que não conheço, um sítio que não sei onde é, um acontecimento - tenho de assinalar e depois ir ver.
É por isso que os contos da Karen Blixen ainda estão pendurados (faltam dois), são muito bons mas no fim de cada um lá vamos de novo ao inicio e estou presentemente a escrever no interior da capa que é o espaço que resta - o horror. Menos quando um livro me começa a irritar, aí desisto disso...O Rapariga, Mulher, Outra só está sublinhado até uma parte porque às tantas o objectivo tornou-se acabar o mais depressa possível. Não gostei mesmo (e agora tenho uma trindade de livrosvery overrated: Normal people - Circe - Rapariga, Mulher, Outra).
Este que acabei não posso dizer que tenha amado, mas gostei. Chorei no final - estava a ficar um bocado frustrada porque a personagem tinha conseguido sair de uma vida de submissão numa fazenda no interior do Ceará, notem que a narrativa acontece nos anos 30\40, em direcção a um mundo mais largo, torna-se actriz (de uma companhia amadora sem cheta, mas ainda assim), mas então conhece um homem e apaixonar-se não é suficiente, ela vira um pequeno satélite girando à volta de um planeta, porque têm de ferir o meu coração feminista assim - mas pronto lá fui pelos altos e baixos, umas partes são questionáveis outras são mais doces, então chegamos à parte fatal onde ela conta como o perdeu e ficou sozinha...Ela chora e eu também, é tão triste.
Depois reparei que o exemplar que comprei que estava em estado bem decente - a internet dir-vos-á que Rachel de Queiroz foi uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX mas este foi o único livro dela que alguma vez encontrei à venda - está agora meio torto e a descolar-se todo da capa, acabamos ambos fanados portanto.
Talvez leia um pouco de não-ficção a seguir...Encontrei um curioso livro sobre como as pinturas podem nos mover às lágrimas. Fiquei surpreendida pelo primeiro capítulo falar dos trabalhos do Rothko, nunca me ocorreu que pudessem ter tal poder emocional mas é possível que eu seja apenas ignorante e claro que ver algo em presença é diferente. De qualquer modo não faço julgamentos, especialmente nesta idade, sobre lágrimas alheias e aquilo que as causa. Talvez o mundo fosse um lugar melhor se todos fossemos mais delicados e suaves, em vez de mais fortes.
Uma coisa positiva de ter os livros por ler numa estante em separado é que cada vez que entro neste quarto não dá para ignorar o ponto a que chegou a *situação* - claro que faltam aqui os que não estão em papel e sim dá para ver alguns títulos da qual falei entusiasticamente neste blog há cinco anos e que continuam à espera mas não vamos falar disso. E se há uma boa notícia é que ainda nada novo foi adicionado este ano, nem nos últimos tempos - embora esteja neste momento a subir pela mente uma certa vontade...Agora muitas vezes acabo a levar Leitora Júnior atrás porque ela também acha que não tem livros que chegue. Da última vez que perguntei andava a ler O Processo em inglês. Kids these days.
[Quando estava a escrever este texto encontrei o título de um artigo que me chamou a atenção no Diário de Notícias e cliquei: "Abriu recentemente, na avenida de Roma, em Lisboa, uma livraria low cost com livros em segunda mão. O conceito Re-Read nasceu em Barcelona há dez anos e tem a pretensão de “tornar a literatura mais sustentável e acessível”. Não dá para ler o resto, mas rápida pesquisa informa que Re-read é uma cadeia de livrarias low-cost que faz sucesso em Espanha. Nada tenho contra abrir uma livraria obviamente só fiquei intrigada porque compro livros usados há muito tempo - como é que isto é agora um conceito? Estou a sentir-me moderna em vez de remediada - quero lá ir]
But January is a wicked month - desde internamentos a um dente arrancado...Já escrevi sobre esta coisa de acontecer sempre qualquer merda (ou várias) em Janeiro e agora tenho o prazer de contar que a semana passada tive que ir às urgências. Percebi logo que ia ser um dia longo quando desconcertei o enfermeiro ao telefone ao não saber qual era o meu lado esquerdo e direito. Depois da triagem, era uma da tarde, fui mandada para um contentor porque aparentemente para evitar aglomerados o hospital manda os verdes e os azuis para esta área no exterior onde ficamos amontoados a tossir uns para cima dos outros a ver aparecer um nome no ecrã de quatro em quatro horas.
A *situação* estava um bocado mais caótica do que o habitual e temos de pensar que há sempre gente pior ali - esta frase tende a ser usada de maneira abusiva, é preciso levar em conta o contexto. Claro que melhor que a pessoa que estava ali desde a noite do dia anterior ou que os velhinhos estacionados no corredor, mas não é o tipo de coisa que queremos ouvir da boca de uma auxiliar quando estamos no chão a gemer de dores como aconteceu a uma senhora - ela já tinha ido lá dentro queixar-se mas mandaram-na de volta e depois fomos dar com ela deitada no chão. Nem é preciso dizer que a empatia da auxiliar especialmente quando decidiu ir-se embora com a cadeira de rodas sem levar a senhora obrigando-a a andar não caiu lá muito bem a quem estava na sala.
E um segundo problema com a mesma auxiliar uns minutos depois resultou numa queixa colectiva à hora da ceia. Entretanto, esta que vos escreve estava a ficar preocupada com possibilidade de apanhar uma otite por andar a passar do calor para o frio mas lá conseguiu chegar à presença de um médico, essa figura elusiva. Ah sim, antes disso uma segurança não me queria deixar esperar junto ao gabinete embora tivessem chamado duas pessoas para ali, queria que eu voltasse para a sala de espera o que não fazia sentido nenhum, ia perder a consulta. Mais um pequeno momento kafkiano.
Mas a conversa com as outras almas que aguardavam foi agradável e a enfermeira que me espetou a cena na mão era simpática, aquela agulha foi a melhor coisa que vi em dois dias. E pronto hora de ir para casa debaixo das estrelas a brilharem no escuro do firmamento. Esta parte não é bem verdade, é uma zona urbana mal se vê estrelas. Este texto tomou um rumo aborrecido quando devia ter sido só sobre os livros que tenho acumulado - com um bocado de pó por cima, mas lindos de qualquer modo.
Feminista * plus size * comenta uma variedade de assuntos e acha que tem gracinha * interesse particular em livros, História, doces e recentemente em filmes * talento: saber muitas músicas da Taylor Swift de cor * alergia ao pó e a fascistas * Blogger há mais de uma década * às vezes usa vernáculo * toda a gente é bem-vinda, menos se vierem aqui promover ódio e insultar, esses comentários serão eliminados * obrigada pela visita!
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