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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Uma pizza literária

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(Paul Landacre, Sultry Day. 1937)

 

Resumo das últimas leituras, que calharam a ser de quatro géneros diferentes

. Poesia

Amargos Como os Frutos, Ana Paula Tavares: o meu amor pela poesia era morno, gostava mas lia muito pouco. Mas como se tem visto, um dos efeitos deste desafio tem sido levar-me a ler mais deste género e foi com interesse que peguei neste conjunto que reúne seis títulos de poesia desta autora angolana - Ritos de Passagem (1985); O Lago da Lua (1999); Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos (2001); Ex-Votos (2003); Manual Para Amantes Desesperados (2007) e Como Veias Finas na Terra (2010). Comecei com interesse e só posso dizer: acabei maravilhada. 

. Contos

Com Esta Chuva, Annemarie Schwarzenbach (Suíça): um conjunto de quatorze contos cujas personagens são na sua maioria europeus e americanos que estão em trânsito por regiões do médio oriente ou que vivem lá seja por trabalho ou por mais íntimas razões, numa altura em que a Europa mergulhava na Segunda Guerra. Achei interessante, embora não memorável.

 

jagannath, Karin Tidbeck: Pessoas que se apaixonam por zepelins e outras que sobrevivem dentro de criaturas num futuro pós-apocalíptico, mulheres que criam vida em latas com o seu sangue menstrual, há estranhos avistamentos nas florestas da Suécia e não menos estranhos hábitos alimentares numa terra onde o tempo não funciona - são algumas das coisas que podemos encontrar neste conjunto de contos de ficção-especulativa. Muito bom.

. Memórias

Knitting the Fog, Claudia D. Hernández: a relação, por vezes tumultuosa, entre mães e filhas, resiliência e poder feminino marcam este livro de memórias. Uma combinação de prosa e poesia, onde a autora conta a sua infância passada numa pequena vila da Guatemala, marcada pela forte presença da sua avó, tias e a mãe que consegue passar para a América quando Claudia tem sete anos. Três anos mais tarde ela empreende de novo a mesma viagem mas desta vez acompanhada pelas filhas. Uma longa jornada, perigosa e incerta em autocarros e até barcos lotados para conseguir chegar à Califórnia. Ali Claudia tem de se adaptar a uma realidade bem diferente.

 

Guerreiras da paz: Como a solidariedade, a fé e o Sexo Mudaram Uma Nação em Guerra, Leymah Gbowee: a inspiradora biografia da mulher que em 2011 recebeu o Prémio Nobel da Paz pelos seus esforços para acabar com mais de uma década de guerra na Libéria. Convencida de que os enormes sofrimentos e abusos vividos pelas mulheres durante a guerra não podiam ser ignorados e que a sua participação no processo de paz era essencial - e que se as mulheres se juntassem podiam formar uma onda de poder imparável - ela liderou um movimento feminino com milhares de participantes que organizou diversas formas de protesto exigindo paz, o que veio a acontecer em 2013.

. Romance

Rua Katalin, Magda Szabó: a história de quatro personagens que se conhecem em crianças, durante os anos trinta enquanto vivem numa rua de Budapeste junto ao Danúbio, a rua que dá título ao livro. E como as suas vidas e relações são irremediavelmente marcadas pelos acontecimentos históricos - a invasão nazi, a guerra, a ocupação soviética e a revolução de 1956...No início a leitura não me estava a dizer muito, mas acabei por gostar bastante. 

 

Convenience Store Woman, Sayaka Murata: a história de Keiko, uma mulher de 36 anos que trabalha numa loja de conveniência, no Japão são chamadas konbini e são um pouco diferentes do que estamos habituados aqui. A nossa personagem sempre foi um pouco estranha e nunca se conseguiu inserir em lado nenhum, excepto na loja. A loja é o seu único interesse, mas conforme o tempo passa a pressão para casar e\ou arranjar um emprego melhor vai sendo cada vez maior. Tenho de admitir que fiz um sorrisinho quando vi na capa uma citação elogiosa de Sally Rooney...Não gostei nada deste livro.

 

The Future is Female

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(Tirado daqui)

 

Últimas leituras:

 

Pomar das Almas Perdidas, Nadifa Mohamed: um livro duro passado à beira do começo da guerra civil na Somália (1991-) que se centra em três personagens de diferentes proveniências - uma viúva que tragicamente perdeu a sua única filha, uma militar zelosa e uma rapariga órfã deixada num campo de refugiados, e em como as suas vidas se cruzam mudando para sempre. 

 

I, Tituba, Black Witch of Salem, Maryse Condé (Guadalupe): recriação dos famosos acontecimentos de salem mas da perspectiva de uma personagem frequentemente esquecida: uma mulher negra chamada Tituba, escrava na casa de um reverendo puritano na vila de Salem. Quando as duas filhas e uma sobrinha do reverendo começam a comportar-se como se estivessem possuídas, Tituba é a primeira mulher a ser acusada de bruxaria. Mais tarde beneficia de um perdão e é solta nada mais se sabendo sobre ela. Maryse faz Tituba ganhar vida ao mesmo tempo que aborda os temas do racismo, misoginia e intolerância.

 

Corpos celestesJokha Alharthi: história centrada numa família que vive em al-Awafi, uma aldeia no omã, especialmente em três irmãs - Asma casada com um poeta egocêntrico, Mayya uma rapariga quieta e com jeito para a costura que casa com um homem que não é aquele que secretamente ama e Khawla que rejeita todas as propostas porque está à espera que o seu amado regresse do Canadá. As suas vidas e os seus desgostos bem como a vida de outras pessoas à volta desenrolam-se ao longo dos anos tendo as mudanças políticas e sociais do país como pano de fundo. Um livro muito rico e um tanto desafiante ao início pois a narrativa não é linear, mas vale a pena o esforço.

 

Aya De Yopougon vol. 1, escrita de Marguerite Abouet (Costa do Marfim): Banda desenhada sobre uma rapariga de dezanove anos chamada Aya, séria e estudiosa com o sonho de se tornar médica apesar de objecções alheias, também é sobre as suas amigas festivaleiras e a vida em Yopougon, ou Yop City para parecer como num filme americano, um bairro em Abidjan no final do anos setenta. Tem um tom leve e divertido.

 

Oksana, Behave!, Maria Kuznetsova (Ucrânia): história de uma rapariga chamada Oksana que se muda com a família de Kiev para a Florida e que vamos acompanhando ao longo da vida, pareceu-me interessante mas acabei por não gostar - achei superficial e aborrecido mas o principal problema é que a nossa personagem é super tóxica e insensível e tem o mesmo carisma que um limão seco. 

 

Rumo a Casa, Yaa Gyasi: saga familiar que começa no século XVIII na Costa do Ouro com duas irmãs nascidas da mesma mãe mas em aldeias diferentes e cujo destino é também diferente - Effia é vendida em casamento a um inglês comerciante de escravos e passa a viver num castelo junto ao oceano, sem saber que nas masmorras desse castelo está presa a sua irmã Esi, pronta a ser enviada para América. A seguir acompanhamos os seus descendentes em ambos os lados, América e Gana, até aos dias de hoje.

 

Tantos países, tão pouco tempo

Estava a pensar guardar a resposta à pergunta: será que existem autoras suficientes para se fazer uma volta ao mundo em livros? - para quando chegar a altura de fazer o balanço do desafio, mas acho que já posso adiantar uma pista. Dado o ambiente patriarcal onde crescemos, o primeiro impulso talvez seja responder à pergunta com um não. Mas como em tudo o resto, também aqui o patriarcado está errado e a prova é o quão assoberbada estou neste momento pelo que ainda tenho por ler. Penso que a lista está a diminuir e fico contente. Mas logo a seguir descubro que, por exemplo, tenho uns cinco livros de autoras das Caraíbas ainda por ler.

 

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Também acabo de verificar que certos livros que tenho em espera são enormes - trezentas páginas ou mais num ecrã é duro. Tenho pena de deixá-los de fora. (quatro títulos de autoras africanas estão nesta situação...Chateada). E é preciso contar com os novos em papel que trouxe da Feira do Livro, sem dúvida teria dado jeito se ela tivesse acontecido um bocadinho mais cedo (digamos que encontrar autoras de países diversos na FL não foi assim tão difícil...). E não é meramente uma questão de preencher espaços num mapa - é que são tudo leituras que me parecem realmente interessantes e me entusiasmam. Pois a ideia de que para lermos coisas que não tenham sido escritas por homens brancos temos de abdicar da qualidade - não. Mas é que nem pensar.

Ler torna-nos mais empáticos?

Parece que abandonei outra vez este blog, mas por aqui ainda estou a tentar superar o dilema de ter várias ideias, mas pouca vontade de escrever. Ao menos vou lendo, como sempre - embora agora não esteja a ler nada pois tenho opiniões em atraso para escrever e o cinema para colocar em dia. Talvez fosse interessante fazer um daqueles balanços de meio do ano, mas nunca houve um ano em que eu chegasse a meio sabendo o que li ou quantos livros li e este não será diferente...Posso dizer que já estive em todos os continentes habitáveis várias vezes. O que não é muito tendo em conta a quantidade de países que há em cada um, mas ainda assim.

 

E tem sido um país um livro [ou contos ou um filme] sem repetições. Mesmo que quisesse repetir não teria tempo para tal. Ao mesmo tempo é um pouco exaustivo, estar sempre a saltar de uma realidade diferente para outra, sem nenhum ponto de apoio. Mas é também o que está a tornar este desafio fantástico: nunca sei o que esperar e o entusiasmo nunca esmorece. Também tem-me feito pensar em quanto sou ignorante em relação ao que se passou\passa no mundo. Claro que há tantos detalhes e coisas para aprender sobre cada cultura\lugar e é só um livro...

 

Só que esta que vos escreve nasceu no princípio dos noventa e durante muito tempo teve a percepção, não sei se mais pessoas também têm tal percepção, que foi um tempo mais prospero e calmo especialmente quando comparado com agora. Mas desde há uns tempos para cá tenho percebido que enquanto via as Navegantes da Lua e bebia sumo em pacotinhos (nada de errado em continuar a fazer ambas as coisas) havia convulsões a acontecer em tantos sítios - e sobre as quais só agora estou a ler! Alguém pode argumentar que é desnecessário um leitor estar constantemente a ler livros que o fazem passar por esta angústia, afinal a leitura é suposto ser um escape...

 

Talvez. Sempre tive uma certa curiosidade para saber coisas do mundo, se calhar podia ter sido uma curiosidade melhor direccionada mas eu fazia as minhas próprias escolhas. Acho que a educação escolar e geral não contribui muito para despertar a curiosidade sobre o que se passa com outras pessoas no mundo, como vivem e como se sentem....Ou sobre as pessoas que vêm de outras partes do mundo para viver aqui. Imaginem que nos preocupávamos tanto em ensinar datas e factos como em estimular a criatividade e a empatia das crianças. Nem todos os livros que leio para este desafio são pesados, tem sido muito variado...Mas acaba por ser inevitável e é algo importante que este desafio tem proporcionado (e ter a oportunidade de ler, muitas vezes, de uma perspectiva feminina).

 

Muitos leitores dirão que os livros e a leitura podem nos tornar pessoas mais empáticas pois vemos o mundo através dos olhos de tantas personagens. Concordo, mas percebo agora que o leitor precisa de ter essa predisposição. Um exemplo, já falei aqui, encontrei no Goodreads: o tipo que leu Beloved da Toni Morrison e se sentiu atacado. Estamos perante um homem branco que decidiu pegar num livro que retrata os horrores da escravatura, mas como não foi capaz de sair da sua própria bolha de experiência, em vez de aprender algo sentiu-se atacado e ofendido...Mais recentemente também no Goodreads alguém linkou um artigo de um professor de literatura que não inclui autoras nas suas aulas porque as acha irrelevantes.

 

Agora podemos dizer que esta pessoa tem muito conhecimento literário e que isso até lhe deu uma posição social privilegiada, mas onde é que tantas leituras o levaram como ser humano? Não muito longe (e o que está por trás deste tipo de comentários é a ideia de que qualquer experiência que não seja de um homem branco, não é válida nem é digna e que é até potencialmente ofensiva para o grupo dominante e por isso vocês devem abster-se de escrever). De facto, saber tudo sobre as peças de Shakespeare não faz de um leitor alguém mais empático (especialmente se for só isso que costuma ler)

 

É um fenómeno com que me deparo: esta pessoa lê tanto, quero seguir! E depois levo com uma barbaridade na cara. Como sabemos há quem leve isto a píncaros assustadores não mostrando pinga de humanidade perante sofrimento evidente à sua frente. Há quem diga que o problema não é assim tão grave porque são só coisas que se dizem na internet, mas acho que essa é uma posição perigosa especialmente nos tempos que vivemos. Infelizmente há pessoas que deram erro e que precisam de ir com urgência para arranjo - para voltarem a ser humanos. Quando falta a empatia e a humanidade o terreno torna-se fértil para o mal. Se quisermos e estivermos dispostos a sair da bolha os livros podem ajudar bastante.

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