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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Simplicidade nos Livros

Os leitores costumam ter um fraco por livros gordinhos, com várias personagens e reviravoltas do enredo. Mas devíamos apreciar os que não têm nenhuma destas características. Livros pequenos: é espantosa a quantidade de livros incríveis que não passam das duzentas ou cem páginas. Os contos: um género mal amado. Ao contrário da crença geral penso que escrever contos é mais difícil do que escrever histórias longas. Exige mais precisão, contenção e maturidade. Muitos leitores dizem que não gostam de ler contos porque ficam sempre com a sensação de que faltou mais. De incompleto. Mas um conto quando é realmente bom basta-se a si mesmo. Kate Chopin tem um conto chamado The Story of an Hour que nem chega a três páginas. Curto, mas passa a mensagem sem precisar sequer de mais uma linha. O The Yellow Wallpaper da Perkins Gilman. Ou o Nariz do Gogol. A Katherine Mansfield e a Alice Munro. Oh! e a Sophia. Da mesma forma que há livros pequenos incríveis, também há até mesmo obras primas cujos fios narrativos partem de detalhes corriqueiros, que não mudam de cenário ou que têm muito poucas personagens. A Paixão Segundo H.G da Clarice é um exemplo. Tão denso e maravilhoso, só tem duas entidades - uma mulher e uma barata e começa banalmente com a mulher sentada à mesa do café. Alguns autores conseguem escrever histórias até a partir de uma personagem sentada numa cadeira no meio de uma sala vazia e é um privilégio lê-los (e mesmo quando nos obrigam a olhar para recantos escuros cá dentro)

4 comentários

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    Descontos 21.08.2018

    Uau!
    Catarina, nem me dou ao trabalho de transcrever. Vou fazer um print screen e colo diretamente na minha agenda de leituras. ;)
  • Sem imagem de perfil

    Catarina 22.08.2018


    :) Obrigada, Descontos.
    Este tema é um nunca mais acabar.

    Isabelle Eberhardt foi uma pessoa bastante interessante e tem um livro, único que li até hoje que se chama "Histórias da Areia".  Recentemente comprei "Rakhil", mas ainda está por ler.

    Muito nova começou a vestir roupas de homem, e a gostar da liberdade que lhe davam, mais tarde mudou-se para a Algéria e abraçou a religião muçulmana. Foi uma mulher muito distinta das suas contemporâneas, em muitos aspectos.
    Da apresentação do sempre belíssimo e habitual trabalho de Aníbal Fernandes:
    «As mulheres de Isabelle Eberhardt [Genebra, Suíça, 1877 - Aïn Séfra, Algéria, 1904] sofrem com um desejo de liberdade no amor que a cultura islâmica proíbe, vivem amores nómadas dramáticos quando não transcendidos pela fé; os seus homens europeus sofrem o feitiço oculto no infinito das dunas e na solidão reveladora do "outro", místico e esotérico, transcendido com o esplendor magnífico dos elementos, vivem embriagados por um amor que opõe o Oriente e o Ocidente, e por ambos reprovado. Muitos traços destas personagens masculinas e femininas podem ser-lhe atribuídos, podem ser consideradas habitantes dos painéis de uma fragmentada e romanceada autobiografia raras vezes decidida a assumir-se com um explícito "eu". Isabelle Eberhardt, com uma prosa generosamente adjectivada que o calor do seu olhar exige, apaixonada por ruídos, cheiros, cores, sabores, ainda assim não deixa de fazer pesar nesta festa e nesta imemorial beleza uma presença de morte. Da morte que nunca a assustou, a benfazeja, a que inspira aos muçulmanos esta saudação: "Faça-te Deus morrer jovem." Ela própria reconhece-o nesta frase: "A morte sempre me surgiu com a forma atraente da sua imensa melancolia."

    […]
    "Bebia de mais", diz Robert Randau. "Era a única coisa que contrastava com a sua profunda aceitação da fé muçulmana. Sim, tinha a religiosidade intensa dos místicos e dos mártires. Vivia como um homem, como um rapaz, porque bem mais parecia rapaz do que rapariga. Mas era, com o seu ar de hermafrodita, apaixonada e sensual embora diferente de uma mulher. Ainda por cima com o peito completamente plano. Tinha pequenas vaidades, embora bem mais fossem as de um árabe elegante. Trazia as belas mãos sempre enfeitadas com henna, a roupa sempre imaculada, e quando tinha dinheiro punha desses perfumes muito intensos que os árabes adoram."»

    Annemarie Schwarzenbach foi também uma mulher diferente, de quem também só li "Morte na Pérsia", embora tenha adquirido na mesma leva do anterior, "O Vale Feliz".

    Viajou pelo Médio Oriente, África, Europa e Estados Unidos, algumas dessas viagens foram feitas na companhia do filho de Mann.

    Ambas tinham bastante em comum, se Eberhardt bebia demasiado, Schwarzenbach era viciada em morfina (devido à sua depressão). Foram mulheres altamente cultas e com conhecimentos, infelizmente, muito pouco acessíveis a outras, independentes e aventurosas.
    Mais umas linhas e já me calo, prometo. May Sarton escreveu um livro pequenino muito bom, na minha opinião: "Prepara-te Para a Morte e Segue-me".

    Maria Teresa Horta tem contos e novelas bastante bons, tal como Maria Velho da Costa.
    Ou seja, existem muitos e bons livros, curtos ou longos. Estão à espera da nossa descoberta!
  • Imagem de perfil

    Descontos 22.08.2018

    Os livros são como as cerejas e que nunca nos falte local de partilha. Desconhecia por completo Isabelle Eberhardt, mas Annemarie Schwarzenbach está no meu radar há algum tempo. Mas são tantas... e tão pouco tempo. :)
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