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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Raízes e uma História não oficial

Uma coisa que tenho notado: a diferença de ler algo com uma perspectiva feminista. Por exemplo, os livros que lia sobre mulheres com vidas desgraçadas noutros países. Alguns não teria estômago para ler agora...Nessa altura eu era ainda pior do que agora, sempre à procura de espinhos. Ainda tenho esses livros na estante, ocupam mais de uma prateleira. Mas há uma diferença entre olhar para essas histórias apenas como deprimentes e olhar para elas como parte de um sistema global que nos trata como lixo. Não são histórias isoladas. As mulheres possuem um mundo interior rico e particular e estou tentada a acreditar cada vez mais nisso - à medida que vou lendo mais autoras. Nisto e na frase: não há nada mais misterioso do que aquilo que uma mulher pensa.

 

Que infelizmente ainda se aplica à maioria do globo. Faz-me lembrar uma cena de um livro que li há anos: um policial passado na Arábia Saudita com dois protagonistas a tentar descobrir quem cometeu um crime. Às tantas o nosso detective por acaso tem de ir a casa de um pessoal rico e quando dá por si está nos aposentos reservados às mulheres - ele é um bom homem, mas o desconforto é inevitável. Sabe-se lá o que elas pensam ou dizem ali ou se congeminarão coisas perigosas que podem alastrar às outras divisões da casa. Por alguma razão esta cena ficou-me na memória e voltou enquanto lia sobre as mulheres da província de Hunan e o sistema de escrita por elas inventado, passado de mães para filhas por muitas gerações. Ironicamente o olhar superior dos homens, não se detendo em coisas tão insignificantes, ajudou a que este sistema incrível florescesse - com os devidos cuidados claro.

 

Era possível reescrever a História do mundo do ponto de vista feminino - ponto de vista esse que na História oficial não passa de uma sombra ou de uma breve nota de rodapé. Até as nossas lutas por direitos básicos ocupam duas páginas se tanto, basta uma aula para as dar e sigamos caminho que há coisas mais importantes para estudar. A nossa História faz-se muito destes gestos repetidos e partilhados em segredo. É como um conjunto de raízes que se interliga e se expande, sempre longe dos olhos de quem passa pela floresta.

 

Por vezes um brotinho irá crescer para cima em direcção à luz e terá de competir com exemplares que parecem mais fortes...Mas muito ficará para sempre invisível - coisas que não podem sair da nossa cabeça, que nunca serão ditas fora de portas. Talvez sejam notadas daqui a muito tempo quando alguém for escavar e encontrar as provas fossilizadas da vossa existência feita em condições tão agrestes com tão pouca água e tão pouca luz. A nossa experiência é única - não apenas pelas nossas funções corporais. Não é de admirar que sejam coisas tão fortemente reprovadas. Por escaparem à experiência masculina escapam também ao seu controlo: eu vou menstruar e se me engravidarem a criança vai sair independentemente da opinião de qualquer homem sobre isso. A sanção psicológica e moral é uma forma de controlo. Os múltiplos obstáculos que as mulheres enfrentam também tornam a sua experiência singular. Em Lab Girl da Hope jahren é particularmente tocante a cena em que ela faz a sua primeira descoberta. É o momento em que se torna realmente cientista.

 

E Hope deixa as lágrimas cair pelo que aquele momento representa, mas também porque aquele é um momento muito solitário. Ela sabe que acabou de colocar uma pedra definitiva em cima das possibilidades de vir a ser uma mulher "normal". E que agora terá de construir um novo padrão de normalidade adequado a si. É um livro maravilhoso. Naturalmente um momento destes também terá a sua importância para um cientista, mas precisará de vir acompanhado de preocupações sobre casamento, fertilidade e aceitação social? Os homens foram sempre livres de ir: para o seu escritório no último andar do arranha-céus, para as Galápagos, para a guerra...Que o seu núcleo familiar estará lá à sua espera. As raízes sustentam o mundo e no entanto são tratadas sem apreciação. A vida de uns sempre teve mais obstáculos do que a vida de outros: não é por acaso que uma mulher parece saber quase por instinto que para atingir um alvo vai ter de se esforçar o dobro do que um homem teria.

 

Muitas pessoas pensam que o feminismo amalgama as mulheres todas dentro de um gigantesco saco. Não é verdade. Todas as folhas são diferentes. A ideia sim, é esta: encontrar o ponto onde as nossas experiências se conectam. Eu não conheço pessoalmente as actrizes que foram vítimas de assédio nem preciso: aquilo que elas passaram faz parte de um sistema global de violência contra as mulheres e pode acontecer com qualquer uma de nós. A ideia do colectivo é muito importante no feminismo: cada mulher que morre alvejada, cada menina que é obrigada a sair da escola, cada actriz abusada é um ataque à nossa história e à nossa voz e como tal deve mexer com todas nós. 

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