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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Próximos, mas tão afastados

Por estes dias tenho andado a ler short-stories. E uma chuva de felicidade literária tem caído sobre o meu coração. Num mundo ideal eu teria espaço para colocar contos na lista de melhores leituras do ano. Comecei por algumas histórias da Kate chopin: abordam temas como a situação da mulher na sociedade (A Respectable Woman; A Pair of Silk Stockings...O romance The awakening pelo qual é mais conhecida também aborda este tema. Encontra-se disponível também nesse site) e racismo (Désirée's Baby), com uma escrita maravilhosa.

 

Depois passei para a Shirley Jackson. Perita em escrever sobre o mal que rasteja nas sombras daquilo que parece mais insuspeito. Comunidades simpáticas, cidadãos exemplares...Gostei muito de The  Possibility of Evil e The Witch, que me fez pensar na normalização da violência e nos efeitos disso nas crianças. E para a Charlotte P. Gilman com The Giant Wistaria: um conto feminista em estilo gótico. Terminei com histórias de autoras que não conhecia. Em The Friday Everything Changed (Anne Hart) um grupo de miúdas decide questionar uma tradição sexista:

 

"In Miss Ralston's class the boys have always carried the water bucket. Until one day, the girls decide it's time to challenge the rule"

 

A Story for Children (Svava Jakobsdóttir, autora islandesa), mostra como a confinação ao papel de cuidadora do lar destrói as mulheres física e psicologicamente. Que murro no estômago. Weekend (Fay Weldon) tem uma temática semelhante, com uma personagem sufocada na sua luta para corresponder às expectativas de mãe e esposa. Desde que comecei a ler mais autoras tenho encontrado muita coisa sobre este assunto e inevitavelmente dou por mim a comparar com a perspectiva masculina que estava mais habituada a assimilar. 

 

Lá vou irritar pessoas como uma ontem que disse que eu era uma feminista exacerbada e que para pessoas normais os meus textos não valiam nada. Já sabemos para quem não vai o prémio simpatia 2018. Mas tenho de o dizer - quando fiz esta comparação foi como comparar pisar um pionés com pisar uma mina terrestre. A perspectiva masculina é aquela que nos habituámos a ver representada e a levar a sério. Hollywood ama glorificar a história do desgraçado "preso" a filhos birrentos e a uma mulher chata e sem atractivos. Ou o tipo de meia idade que larga filhos birrentos e mulher chata para "rejuvenescer" e "encontrar o verdadeiro sentido da vida" ao lado de uma gostosa mais nova.

 

Nunca temos filmes que chegue sobre isso...As senhoras também podem "encontrar o verdadeiro sentido da vida" mas o nome para isso costuma ser diferente. Quem confiar no que encontra na internet vai pensar que o casamento é a coisa mais terrível que pode acontecer a um tipo. 

 

s-l300.jpg

 

Mas que pobres vítimas! Já nem podem jogar videojogos! Não estão contentes por partilharem a vida com a pessoa que amam e que escolheram? Nem toda a gente tem a mesma sorte. O facto de tantos milhões de meninas e de mulheres serem realmente destruídas por uniões matrimoniais já não parece ser tão interessante de representar.

 

"Each year, 12 million girls are married before the age of 18. That is 23 girls every minute. Nearly 1 every 2 seconds. If current trends on child marriage continue, 150 million more girls will be married in childhood by 2030, with devastating consequences for the whole world"

 

(tirado daqui)

 

É difícil negar que há todo um conjunto de coisas pelas quais as mulheres passaram e passam que jamais foi experienciado por homens (ou que foi experienciado em número bem inferior). Em The Giant Wistaria uma moça tem um filho fora do casamento. A devastação que se segue, nem precisarei de descrever, nunca sequer beliscou homem algum. Seria difícil já que as regras foram criadas para que eles pudessem escapar sem punição. Não estou a falar de coisas biológicas óbvias. Este fosso entre experiências de vida é criado pela desigualdade.

 

É assustador pensar neste fosso que nos separa. A partir do momento em que há homens que ficam surpreendidos ao ouvir mulheres falarem de como limitam a sua liberdade por medo, fica evidente que este fosso é bem largo. Como superar isto? Uma coisa que gostei nestes contos, e que também gosto em outros títulos que leio, é como as autoras conseguem condensar a mensagem em tão poucas páginas - o sofrimento é real. E no entanto continuamos aqui a tentar prová-lo...É até difícil conseguir falar de masculinidade tóxica, que é algo que leva muitos homens ao suicídio. Um mundo mais igual e diverso beneficia todos.

 

Sinto que repito isto muitas vezes, apesar de ser lógico. Entretanto pensar nestas coisas cimenta mais a minha vontade de continuar a ler autoras. Espero que não achem uma maçada isto das short-stories porque tenho mais algumas em lista de espera e se achar pertinente irei falar aqui delas.

2 comentários

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    Sara 15.12.2018 02:35

    São muito bons. O da Svava é um bocadinho gráfico, faz parte do livro - The Lodger and Other Stories. O da Anne penso que é um conto solto :)
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