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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler Autoras: a História das Mulheres

O Último Cais de Helena Marques, uma das últimas leituras, passa-se no século XIX (começa em 1879) na Madeira e um dos temas é a repressão das mulheres, não só reprimidas pelas rígidas regras vitorianas e católicas como pelo isolamento da ilha. Numa cena, uma das personagens femininas olha para um conjunto de escovas que têm o seu nome de solteira, em vez do nome de casada - “como se se tratasse de um testemunho da sua individualidade” e reflecte que o conjunto talvez um dia chegue às mãos de uma neta ou bisneta que saberá da sua existência e que será livre de partir sozinha para conhecer países que ela nunca verá. Ela pensa naquilo que as suas descendentes verão, elas por sua vez pensarão o mesmo. A Madeira, a Europa, um dia o Mundo. Talvez a lua. A História feminina é uma escada construída com grande esforço degrau a degrau, e é importante o momento em que percebemos a existência desta escada e como fazemos parte dela, uma História colectiva. 

 

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[A police officer tries to remove a suffragette from the railings outside Buckingham Palace, during a suffragette demonstration in London.1914. Central Press/Getty Images]

 

No Livro Hidden Figures da Margot Lee Shetterly: Dorothy Vaughan chegou à NASA (NACA na altura), em 1943 para trabalhar como computadora [mulheres com formação em matemática que faziam os cálculos usados nos projectos] e tornou-se a primeira mulher negra a ser promovida chefe de departamento. Mary Jackson chegou em 1951 e Katherine Johnson em 1953, ambas trabalharam por um tempo sob a direcção de Dorothy: ela colocou Katherine no grupo que ajudaria a pôr o primeiro americano a orbitar a terra. Mary foi a primeira engenheira negra da NASA. Quando Christine Darden chegou em 1967, contou com o apoio de uma mulher experimente que tinha trabalhado com Mary na promoção da igualdade dentro de Langley. Christine doutorou-se em Engenharia Mecânica 40 anos depois das primeiras computadoras negras terem chegado a Langley ("I was able to stand on the shoulders of those women who came before me, and women who came after me were able to stand on mine”), aproveitando a oportunidade criada pela escassez de homens e ainda que anónimas e mal pagas, no fundo da hierarquia -  pavimentaram o caminho. “Não havia como (...) os homens do laboratório, ou qualquer outra pessoa adivinhar que contratar um grupo de matemáticas negras no Laboratório Aeronáutico Langley Memorial acabaria na Lua.”

 

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 [Women's Liberation group marches in protest in support of Black Panther Party, New Haven, November, 1969. David Fenton/Getty Images]

 

Faz-me lembrar também a história de uma mulher italiana: ela foi violada pelo ex-namorado que se recusou a aceitar o fim da relação. O tipo era psico, ameaçou a família dela, que lhe pegava fogo à casa e depois raptou-a e abusou dela. Pela lei italiana, para manter a boa moral ela era obrigada a casar com ele [isto foi algures a meio do século XX, não há muito tempo]. Mas ela decidiu que ia levar o agressor a tribunal. Algo inédito e que atraiu grande mediatismo. No fim ela não só não casou com ele, como conseguiu que fosse condenado. Ainda que esta lei tenha demorado a morrer, casos como este estabelecem duas coisas muito importantes: um precedente e um exemplo. Há quem perca tempo a tentar encontrar uma explicação para o aparecimento sucessivo de vítimas de abuso, dizem que parece combinado. Esquecem-se desta verdade muito simples: em qualquer sociedade misógina a palavra de uma mulher não tem valor. Se uma tiver coragem de falar, talvez outra também tenha e outra e outra...Muitas vezes é preciso uma vila inteira para derrubar um monstro.

 

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[Policemen detain a topless Femen activist after she jumped in front of the car carrying former IMF chief Dominique Strauss-Kahn upon his arrival for his trial in Lille, northern France, on February 10, 2015. Philippe Huguen/AFP/Getty Images]

 

Apagar minorias ou mulheres da História priva gerações de pessoas de entender o seu lugar no mundo. Enchendo-lhes a cabeça de mentiras, como dizer que direitos foram concedidos. Sim, temos de voltar aqui: esta expressão é tão condescendente, como se não fôssemos suficientemente fortes, como se tudo  fosse tão simples como descalçar uma meia e tudo conseguido graças a homens (ou brancos) e não apesar deles. Nada foi concedido. Historiadores nunca quiseram saber de nós, só das suas batalhas épicas e guerreiros. Egos inchados cuidadosamente mascarados com qualidades nobres. Podemos eventualmente beneficiar de uma revolução mas é ingénuo pensar que revoluções, tratados e declarações nos incluíam (ou a qualquer um diferente de quem as fez), é igualmente ingénuo pensar que sempre fomos muito valorizadas nas artes e afins: apenas enquanto ocupássemos quietamente o papel de musas, as que passassem com os pincéis para o outro lado viravam alvo a abater. É crucial falar em conquistas femininas e não como alguns dizem, em conquistas feitas por pessoas. Como se o género ou a cor alguma vez tivessem sido irrelevantes.

 

Precisamos de falar daquilo que fizemos e do que fizeram contra nós, senão seremos apagadas e essas conquistas serão apropriadas por homens. A condescendência de achar que um grupo de esclarecidos apareceu para nos salvar e então se temos direitos a eles devemos, a ideia dos príncipes e dos salvadores brancos (que acaba por se infiltrar até em adaptações cinematográficas de que gostámos...) Havia abolicionistas brancos e alguns homens que não seriam contra movimentos sufragistas. Mas há uma diferença entre lutar ao lado de alguém e querer lutar à sua frente e se fazem questão de falar disso devem fazê-lo colocando essas pessoas como uma parte da equação e não como a principal.

 

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[Campaigners, some dressed as suffragettes, attend a rally organized by UK Feminista to call for equal rights for men and women on October 24, 2012 in London, England. Oli Scarff/Getty Images]

 

Ninguém lutou em nosso lugar. A História dos homens brancos é considerada oficial e universal, e para todos os outros o direito a ter a sua História tem sido sistematicamente negado. Quando pessoas dizem que nunca ouviram falar de pintoras ou escultoras, que devia existir dia do homem (clássico) ou que de certeza que um homem não passava sem punição por ter assassinado a mulher - a meio do século XX em Portugal - mostra não só que tanta gente falha em entender o ponto, com mostra o nível de desconhecimento que ainda existe. Temos o direito de reclamar a nossa História para nós. Talvez a ideia de que nascemos das cinzas de outras mulheres não seja tão estranha afinal...

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