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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler Autoras: A Esposa Cadáver

Não sou romântica, nunca liguei a casamentos e a todo esse ambiente em torno. Quando me tornei feminista passei a ver o casamento como ele é na realidade em 90% do mundo: mais uma forma de repressão. Uma ordem de prisão perpétua sentenciada todos os dias a raparigas inocentes. Mesmo nos 10% que restam de mundo, se tanto, casar ainda representa um aumento da carga de trabalho, trabalho esse que não é dividido nem valorizado. Mas ironicamente casar é nos apresentado como o único caminho para a felicidade. E somos levados a crer que é uma coisa intrínseca - claro que elas gostam de casamentos, afinal são mulheres - e não algo imposto. Muita gente não gosta de ler autoras porque dizem que elas só escrevem sobre futilidades, vestidos e casórios.

 

Ora, tenho encontrado um bom número de livros de autoras com personagens femininas que são tudo menos felizes no matrimónio ou que têm coisas nada convencionais a dizer sobre isso, quer escritos de maneira subtil ou directa. Por vezes elas libertam-se e reinventam-se. Por vezes metem a cabeça no forno. Tão normal que é a união matrimonial que se tornou uma arma particularmente cruel e eficaz para controlar e apagar a identidade feminina - as mulheres não se aperceberam disto só agora. Quanto mais autoras se lê mais fica evidente a clareza com que muitas delas viam as injustiças e os duplos padrões da sociedade. Na Jane Eyre, Charlotte mostra esta verdade: não há felicidade para uma mulher numa união desigual

 

Como é possível pessoas em pleno 2018 não perceberem isto. Jane tem 170 anos. Aquele que se considera ser o primeiro livro feminista português é datado de 1715. Algo notável já que: “Em Portugal, era um verdadeiro calvário publicar um livro. E então uma mulher que precisava, para além de passar por uma multidão de censores, da autorização do pai ou do marido!...Quantas mulheres teriam tentado e não conseguiram?” Foi escrito em verso - “contestando a distribuição da riqueza do reino só pelos homens, a mentalidade contra as mulheres na cultura, a não divulgação dos feitos femininos e a violência doméstica”. E algo tão típico:

 

“para não falarmos nas suas [malícias] puseram as das mulheres a pregão por essas ruas
 

Tirei as citações do livro Heroínas Portuguesas: Mulheres que enganaram o Poder e a História - Fina d'Armada (já falado aqui antes). Como uma coisa leva a outra aqui está um excerto de Primeira carta apologetica, em favor, e defensa das mulheres, escrita por Dona Gertrudes Margarida de Jesus de 1761. Tal como a obra de Paula da Graça acima referida, esta também foi uma reposta a um texto misógino de um certo Frei que acusava as mulheres de serem inconstantes e ignorantes:

 

“Não quero (Caríssimo irmão) lembrar a V. C. a nenhuma freqüência que as mulheres têm das Cortes, das Aulas e das Universidades, que é aonde se avultam as letras e apuram os engenhos, cousa que sendo aos homens tão frequente, é raríssimo aquele que admira. De mil que frequentam as Aulas e as Universidades apenas se encontra um, ou outro que faça admiração aos mais; quando certamente me persuado que, se às mulheres fosse permitida esta liberdade, seria a maior parte delas sapientíssimas pois vemos terem havido muitas de tão alta compreensão e engenho (...)

 

Gertrudes Margarida de Jesus era certamente uma mulher de cultura: alem de referir exemplos de mulheres admiráveis, conhecia os textos clássicos gregos e latinos e sabia italiano - ela refere Lucrezia Marinella, filósofa, escritora e defensora dos direitos das mulheres nascida em 1571, em Veneza. A sua obra The Nobility and Excellence of Women, and the Defects and Vices of Men (1600) era também ela uma reposta a um texto particularmente virulento em que as mulheres eram acusadas de: orgulho, avareza, glutonaria, bebedeira, ingratidão, desonestidade, adultério e vaidade - aguentaram ler esta frase sem rir? Gertrudes devia possuir este livro de Lucrezia e diz: 

 

“Peço a V.C. o queira ver e, se o não tem, como me persuado, eu lho remeterei, que o tenho em meu poder, e se ignora o idioma italiano em que ela o escreveu, procure-me que eu lho farei entender. 

 

Numa união em que um fala e o outro deve ficar calado, aprender a ouvir e a ver é essencial - acho que as mulheres sempre viram bem. Não é por acaso que muitas vezes dizemos que certas autoras tinham um olho apurado para detectar as idiossincrasias dos círculos em que viviam. Tinham que ver até quando não queriam, já que ao contrário dos homens nós não tínhamos um lugar privado onde escrever. Pensamos na escrita no acto da publicação - e bem, porque de facto publicar não tem o mesmo significado para autores e autoras mas não nos podemos esquecer da grande diferença nas condições para a produção de trabalho intelectual dentro do lar. 

 

Estou em crer que o mistério feminino é menos um mistério e mais um forma de protecção, tal como o sexto sentido deve ser menos uma capacidade sobrenatural e mais um mecanismo apurado para evitar levar um soco. Quando se corre risco de vida é melhor começar a agir em segredo. disso há inúmeros exemplos na História. Diz-se que Públia Hortênsia de Castro se disfarçava de homem para frequentar as aulas de Humanidades, Filosofia e Teologia às quais o seu irmão assistia em Coimbra. Foi a primeira portuguesa a falar em público - com 17 anos prestou provas de doutoramento, espantando todos com a sua erudição e perícia argumentativa. Em 1581 foi-lhe concedida pelo rei uma tença anual, o mesmo valor monetário concedido a Camões em 1572.

 

O casamento era pouco provável na vida destas mulheres letradas. De Auta da Madre de Deus se diz à data da sua morte (Lisboa, 26 de Maio de 1588) que era “dotada de génio sublime para estudar e compreender as maiores ciências”, que seu pai que era lente na Universidade em Lisboa “por fazer-lhe o gosto, e ver que aproveitava, a vestiu de estudante” e a levou com ele às aula de teologia e direito canónico - “em ambas estas faculdades saiu doutíssima”. Recusou o lugar de cátedra “tornando ao traje e recolhimento, que como mulher lhe competia.” [retirado daqui]

 

Vale a pena pensar nas leis que proibiam as mulheres de fazer algo. Porque ninguém vai criar uma lei sobre um fenómeno que não existe. No Último Cais da Helena Marques lê-se: 

 

“No século XI, as senhoras de Salerno estudaram aprofundadamente (...) as doenças femininas e foram as primeiras a levantar a questão escaldante da infertilidade masculina. O aparecimento de uma lei, no século XV,  proibindo o trabalho de mulheres como cirurgiões revela (...) que o número de médicas se tornara demasiado grande e demasiado incómodo para uma sociedade onde os homens detinham o poder (...)  ”

 

Pesquisando por médicas de Salerno encontramos Trotula de Salerno que foi médica e professora, a primeira ginecologista, autora de importantes livros de saúde feminina incluindo De Pas­sio­nibus Mulierum Curan­dorum Ante, In, Post Partum considerado o primeiro tratado de ginecologia e obstetrícia. Ela apoiava a ideia que os homens também podiam ser inférteis e que as mulheres deviam tomar opiáceos em contraste com a ideia católica que elas deviam sofrer o máximo possível durante o parto. Devia ser excelente no que fazia pois historiadores tentaram provar que ela nunca existiu. No casamento o marido é quem transmite o nome e a história da família - as áreas de estudo têm um pai mas nunca uma mãe. Como o interior da casa reflecte o exterior, e as consequências disso...

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