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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Filme: The Shape of Water

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Os dias de Elisa Esposito (Sally Hawkins) são feitos das mesmas rotinas: acordar sozinha no seu apartamento, arranjar-se para o trabalho como empregada de limpeza num laboratório de segurança máxima em Baltimore e no fim fazer o mesmo trajecto de volta a casa. As únicas pessoas a quebrar o seu isolamento são um artista gay chamado Giles (Richard Jenkins) e Zelda (Octavia Spencer), uma outra empregada de limpeza. É quando um dia trazem para o laboratório uma estranha criatura humanóide anfíbia (Doug Jones) que as coisas mudam e o mais improvável acontece...Elisa e a criatura encontram o caminho para o coração um do outro.

 

A Forma da Água é uma espécie de conto de fadas para adultos sobre solidão e amor. Os humanos são seres gregários como sabemos e o desejo de ter alguém advém naturalmente, só que é algo que pode não ser fácil de encontrar...Então acabamos por levar não necessariamente um vida triste, mas solitária no nosso pequeno mundo privado. Para algumas pessoas isso, por experiências passadas que deixaram marcas ou por imposições da sociedade, pode ser um desejo ainda mais difícil de satisfazer. Quando Elisa olha para o monstro não vê aquilo que os separa e que pode parecer muito: vê outro ser que tal como ela foi maltratado e está só. E pela primeira vez aquilo que a afasta das outras pessoas não tem importância - ela não fala, ele também não. Encontram maneira de desenvolver uma ligação por meio de pequenas coisas sem precisarem de verbalizar. O amor pode ter todo o tipo de formas. E é este sentimento mais do que qualquer outro que nos dá a força para fazer o que é certo.

 

Isto contrasta com o ambiente social e político em que a história está inserida e que não deve ter sido escolhido por acaso: o início da década de 60. Não tardamos a  perceber que não é só o "experimento" preso no tanque que está em perigo, mas todos os que tiveram o azar de nascer com características "erradas". Giles, Zelda ou Elisa...todos por um motivo ou por outro estão à margem da sociedade e não podem esperar dela tolerância ou misericórdia especialmente quando se decidem rebelar contra o que ela diz que é "correto", contra as leis que definem o seu lugar, o seu direito de poder falar e o que deve ser amado e o que não...há tanta gente condenada ao silêncio neste mundo que quando vemos Elisa mandar uma pessoa muito mais poderosa do que ela fazer uma certa coisa, por exemplo, é difícil não pensar no simbolismo desse gesto. Nesse sentido o vilão (Michael Shannon) torna-se credível e ainda mais assustador. Cidadãos respeitáveis com famílias modelo são as engrenagens de sociedades assim. A doçura das cenas entre Elisa e a sua criatura contrasta com o ódio e a paranóia e os papeis invertem-se: o que parece grotesco aqui não é esta relação. É o que está à volta.

 

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Outro detalhe é a importância que é atribuída à personagem feminina. Tristemente a norma ainda é ter personagens femininas que são apêndices: muito bonitos, mas fáceis de remover da narrativa. Mas neste caso a história não tem como funcionar sem Elisa: se ela não tomasse a decisão de se aproximar (ignorando claramente a tradicional ideia de que se deve ter medo do desconhecido e ficar longe), o resto nunca chegaria a acontecer. Ou seja: a história não lhe acontece a ela, mas acontece por causa dela. Além disso ela é  corajosa e assertiva: uma mulher com uma missão, não uma princesa bem comportada e passiva. E uma  mulher com necessidades como qualquer ser humano, incluindo necessidades sexuais. É um componente importante e que podia ser problemático, mas que é tratado com toda a naturalidade. Claro que isto também funciona porque Sally é deveras maravilhosa e encaixa que nem uma luva no papel. O facto de não falar não é problema porque conseguimos ver tudo na sua postura e na sua face muito expressiva.

 

Esteticamente falando é um filme muito bonito: o incauto espectador é logo de imediato submergido num ambiente dreamlike, potenciado pelas belíssimas cores e cenários cheios de coisinhas retro e de detalhes, com aquela vibe nostálgica especial dos velhos filmes da época dourada. A banda sonora é uma pérola e complementa perfeitamente a história. A Forma da Água faz deste modo um já bem necessário upgrade às narrativas clássicas que envolvem pessoas e monstros, servindo-o num pacote ricamente decorado e com o interior cheio de doçura e sensibilidade, numa altura do mundo em que parece tão fácil deixar o coração ficar frio...

2 comentários

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    Sara 08.03.2018

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