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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Daisy Miller

 

Daisy Miller de Henry James

Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 104
Editor: Europa-América
Preço: 6,55€ 
 

Frederick Winterbourne é um americano radicado à vários anos em Genebra. Um dia decide ir visitar a sua tia que esta hospedada num hotel em Vevey. Aí conhece Anne Miller (conhecida por Daisy) que está hospedada  no hotel com a mãe e com o seu irrequieto irmão mais novo e que também é americana. Winterbourne fica fascinado com a beleza e com modos da jovem: Daisy não cora nem tem os traços de timidez característicos das raparigas europeias. Este fascínio leva-o a seguir Daisy até Roma onde a descobre a passear despudoradamente pela rua com um cavalheiro...Este "atrevimento" precipitará a acção final. Daisy é uma heroína sem causa: viola as regras de conduta da sociedade, sem no entanto parecer ter consciência disso. Não pisa o risco para chocar os outros, mas porque é a sua inclinação natural.

 

Este comportamento fascina Winterbourne que tenta ao longo de toda a história arranjar um rótulo para a jovem. Será ela tão inocente como aparenta? Ou será uma mundana dissimulada? Por oposição a Daisy, Winterbourne é rígido e não consegue demarcar-se da opinião dos outros. Uma das características mais fascinantes deste pequeno romance é que atrás de um enredo e de uma linguagem muito simples está todo um jogo de sentido. Os diálogos que as duas personagens trocam parecem fúteis, mas há sempre qualquer coisa de sublimar...numa mensagem que não é dita explicitamente. Daisy parece estar sempre a tentar puxar Winterbourne para fora da sua rigidez, sendo mesmo atrevida ("Sempre tive muita vida social com cavalheiros", diz ela na primeira conversa que travam). A mensagem porém não é compreendida, senão tarde demais – "Enviou-me uma mensagem (...) que eu, na altura não compreendi(...)", dirá Winterbourne no final.

 

Daisy queria ser amada, mas de uma maneira livre como ela própria era. Quando Daisy pergunta a Winterbourne se acreditou quando ela lhe disse que estava noiva, está na verdade a dar-lhe uma oportunidade. A resposta de Winterbourne está também imbuída de um sentido – "Acredito que faz pouca diferença se esta noiva ou não". Para Daisy é um sinal que ele não aceita o seu modo de ser. Podiam simplesmente ser directos um com o outro...Mas assim são as relações entre os humanos. Cheias de sentidos ocultos.

 

Outra característica do romance é que não fornece pontos de apoio para o leitor. Daisy é apresentado ao ritmo das divagações de Winterbourne, sendo que também nunca se fica a saber muito sobre o próprio. São ambíguas tanto as personagens como os diálogos. As diferenças entre americanos e europeus são uma constante. Winterbourne começa por atribuir os atrevimentos de Daisy ao facto de ser americana o que o leva em Roma a perguntar a um americano o que acha do comportamento da compatriota. Como se sabe as americanas eram sempre vistas como sendo mais livres e até mais promíscuas que as mulheres europeias. Anne é como uma flor que floresce entre a neve impiedosa do Inverno (os nomes das personagens não terão sido escolhidos ao acaso). Mas as flores rapidamente murcham e desaparecem...Um romance breve, mas belíssimo.

 

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