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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Coming of age: Ghibli edition

ou reflexões sobre maturidade

Em homenagem ao anónimo que no post anterior deixou um comentário a dizer que esta que vos escreve tem a mania e que aquilo que vê não interessa a ninguém, hoje vamos continuar a falar de coisas que EU vi. E tenho MUITOS pensamentos.

(Isto é um aviso)

Uma delas foi Kiki's Delivery Service (1989) - honestamente, e olhando para a imagem que tenho agora no perfil, qual era a probabilidade de não gostar de um filme cuja protagonista é uma bruxinha que voa numa vassoura e que tem um sardónico gato falante? É possível que as duas vezes que vi tenham sido no espaço de uma semana, mas não vou confirmar.

 

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Desde a primeira vez que vemos Kiki, o vento a abanar a erva enquanto ela está deitada a ouvir a previsão do tempo num pequeno rádio vermelho, até ao momento em que ela se inclina num varandim para sentir a brisa do mar - não mudava nada. É tudo perfeito. E no entanto também quase não tem enredo.

(What Kind of Sorcery Is This?)

Kiki acabou de fazer treze anos e de acordo com a tradição as jovens bruxas devem viver fora de casa por um ano para melhorarem as suas habilidades e ganharem independência. No início vemos sua mãe a trabalhar numa poção mas detalhes relacionados com magia são mantidos vagos, o foco é que a nossa tenaz protagonista está prestes a iniciar uma nova fase da sua vida. O filme tem uma estética europeia, por exemplo a cidade é inspirada em Estocolmo e Visby, na ilha de Gotland no mar Báltico, bem como em outras cidades europeias - não será a última vez que veremos esta estética. Urbanismo não é a minha especialidade, mas diria que o cenário é por si só razão para ver este filme mais do que uma vez.

 

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Ela conhece pessoas, abre um negócio. É isto. Mais ou menos. Compreendo quem diz que este é um bom filme para ver num dia invernal debaixo de uma manta, quando Kiki voa sobre o mar com as gaivotas, é lindo. Ela está tão entusiasmada por sair de casa - e se conhecer um rapaz e acabar por nunca partir? É melhor apressar-se! - apesar de os seus pais estarem um pouco apreensivos, e toda gente se junta para lhe desejar boa viagem. Estas primeiras cenas estão cheias de expectativa. Mas as dificuldades não tardam a aparecer e são realistas: encontrar trabalho e um sítio para ficar, ir às compras (e constatar que é tudo mais caro do que esperava), fazer contas ao orçamento ainda disponível...

 

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Mesmo quando as coisas parecem ir bem, não é mesmo que a casa. kiki tem lidar com sentimentos de solidão - que parece ainda mais aguçada precisamente quando as coisas estão a correr bem e temos pessoas simpáticas à nossa volta - e começa a comparar-se com outros. Se ao menos socializar fosse um pouco mais fácil...Talvez se ela pudesse comprar aqueles lindos sapatos vermelhos que estão na montra da loja! E tudo isto mina a sua confiança. E ter um trabalho que envolve voar também tem o que se lhe diga pois uma coisa é fazer isso por apenas por gosto, outra é por trabalho e ter de lidar com clientes ingratos debaixo de chuva torrencial. O conflito neste filme é interior.

Estou em crer que a maior parte das pessoas facilmente se identificará com estes sentimentos, quando adolescentes\jovens adultos - com a personalidade ainda em formação e ainda em busca do seu lugar no mundo. E quantas vezes a única coisa que queremos é chegar a casa, cair de barriga na cama e apenas ficar ali um tempo sem nos mexermos. Mas esta questão é ainda mais presente nos dias de hoje quando se fala mais de saúde mental e sabemos o mal que o stress relacionado com o trabalho pode causar. E se ela ficar tão cansada que de repente deixa de conseguir voar? 

A dada altura kiki conhece uma pintora chamada Ursula que vive numa casinha na floresta. Para quem tenha alguma capacidade artística imagino que ficar mentalmente bloqueado deva ser ainda mais difícil. E Ursula não é alheia a tal situação - ela partilha aquilo que costuma fazer quando não consegue pintar. Ter um talento é ao mesmo tempo uma dádiva e uma dor...Os encontros que kiki tem com outras pessoas e todas as experiências que ela vive ajudam-na a ter uma compreensão mais profunda de si mesma e dos seus poderes. Na sua gentileza, este filme relembra-nos que amadurecer é um processo difícil, algumas coisas nunca vão voltar a ser as mesmas, mas que também é recompensador.

 

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*****************************

Recentemente encontrei um artigo, esqueci-me de o guardar, que dizia algo em que nunca tinha pensado: as transformações que ocorrem quando somos jovens são um tema muito comum, certo? Mas algo que é bem menos retratado é a necessidade que temos de um segundo Coming of age quando somos adultos. É como se houvesse um súbito corte num processo que devia ser contínuo.

Only Yesterday (1991) é um filme desprovido de vassouras voadoras e espíritos da floresta - apenas uma protagonista a ter de lidar com as expectativas de ser adulta e mulher neste mundo. Taeko é uma moça solteira de vinte e sete anos (a família faz questão de lhe lembrar que é melhor apressar-se a encontrar um homem pois está ficar velha - esta questão vem à tona várias vezes) que decide usar as suas férias do trabalho para ir colher flores de açafrão [safflowers]. Ela apanha o comboio para lá, trabalha no campo, conversa com pessoas, às vezes dentro de um carro. É isto. 

(Estou a fazer um óptimo trabalho a convencer alguém a ver estes filmes)

Há mais qualquer coisa que acontece: Taeko começa a lembrar-se de episódios da sua infância quando tinha dez anos. A narrativa vai saltando entre estes dois tempos, digamos assim, porém não fica confuso porque os estilos são distintos. O presente é saturado, vibrante e meticulosamente realista.

 

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(Algumas destas imagens foram tiradas daqui)

 

A atenção colocada em cada detalhe é realmente qualquer coisa. Por exemplo, alguém podia assumir que para desenhar as flores do açafrão bastava ver umas imagens, mas foi mesmo preciso ir a uma quinta ver os campos ao vivo e a cores e depois uma animadora ficou encarregue de desenhar apenas as ditas flores por um ano inteiro...O realismo estende-se igualmente às personagens - as vozes foram gravadas primeiro e só depois é que foram feitos os desenhos em vez do contrário, o que seria o método usual. Nem toda a gente é fã, eu acho que dá um charme particular. E quando as duas Taeko se cruzam percebemos que a animação é mesmo género ideal para este filme.

[Há um behind the scenes disponível no Youtube que mostra em detalhe o intenso processo de fazer este filme. O vídeo não tem a melhor qualidade mas vale a pena de qualquer modo]

 

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Em contraste o passado está feito num estilo de anime mais tradicional, com tons menos vibrantes e mais pastel e com poucos detalhes. Na verdade, não é como se viajássemos realmente atrás no tempo, estas cenas são flashbacks - memórias que lhe vêm à cabeça enquanto está sentada no comboio, por exemplo. E normalmente o nosso cérebro só retém uma parte de algo e o resto tende a ficar enevoado. Como é normal em criança as memórias de Taeko estão mais relacionadas com a escola e a casa - ter um crush por alguém, conversas sobre o período...Outras memórias são mais particulares como a cena icónica em que a família prova ananás pela primeira vez.

 

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Mas porque é que ela levaria o seu eu de dez anos na bagagem? A verdade é que a nossa protagonista não está muito satisfeita com o rumo da sua vida. À primeira vista não parece haver nada de errado, ela é independente com um  trabalho num escritório das nove às cinco, só que algo está em falta. Este filme é mais claramente direccionado para adultos - onde encontrar verdadeiro contentamento na vida? Se o vosso eu de dez anos vos pudesse ver agora o que é que diria? Ficaria orgulhoso da pessoa que vocês se tornaram? É preciso chegar a uma certa idade para estas perguntas pesarem um pouco mais...

Nem todas as suas memórias são felizes - a mais nova de três irmãs, ninguém tem muita paciência para ela...Isto pode ser um pouco perturbador depois de dois filmes com pais compreensivos e gentis. Ela tem de lidar com desapontamentos além de repreensões constantes por ser esquisita a comer e ter más notas a matemática. Muitas vezes com o passar do tempo percebemos que algumas coisas talvez não tivessem assim tanta importância...Mas quando se tem um coração jovem e sensível, ainda pouco preparado, essas coisas podem ser realmente difíceis de lidar não é?

A questão é o fazemos com estas memórias, como reagimos a elas enquanto adultos e o quanto elas ainda nos afectam. Sabemos que uma má memória pode pesar o resto da vida nos nossos ombros, mas por outro lado as boas memórias também podem ser uma armadilha já que os humanos tendem fortemente para a nostalgia...Uma coisa que não somos é estáticos, no entanto há esta ideia muito estranha de que a partir de um certo momento o nosso amadurecimento está completo e que devemos ficar fixados num ponto. Há uns dias ouvi alguém numa entrevista dizer que não se podia esperar que uma pessoa tenha a sua vida completamente definida aos vinte e um anos. Concordo, isso é insano. 

A nossa protagonista encontra verdadeira satisfação quando está trabalhar no campo. O filme faz questão de mostrar em detalhe todo o processo de apanhar e tratar as flores de açafrão e reflecte sobre a relação entre os humanos e a terra. 

[É difícil escolher uma cena preferida, mas uma delas é quando as pessoas estão apanhar as flores, o sol está a nascer no horizonte, e elas param uns segundos antes de continuarem o que estão a fazer em silêncio. Não parece nada de especial dito assim, é por causa das minhas limitações de vocabulário]

 

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Mas não se trata apenas de Taeko se transplantar da cidade para o campo, há mudanças interiores que têm de acontecer - de novo é onde está todo o conflito. No fim de contas tudo o que nos acontece, tanto de bom como de mau é o que nos torna aquilo que somos no presente, mas como podemos abraçar essa ideia e fazer as pazes com nosso eu do passado? Ela precisa de reflectir (e de verbalizar - às vezes é útil ter outra pessoa a oferecer uma perspectiva diferente sobre a situação) e da mesmo maneira que aos dez anos passou por transformações emocionais e físicas talvez seja preciso é uma nova metamorfose que lhe permita escolher um caminho mais feliz e até encontrar o amor, quem sabe...

(Embora a relação de amor que está realmente em foco seja entre Taeko e ela mesma. Encontrei um artigo que dizia isto. Também acho bonito que a esperança seja algo que liga estes quatro filmes até agora)

De notar que quando se pesquisa por este filme as primeiras coisas a aparecer têm títulos como este:  "Only Yesterday, Isao Takahata’s Forgotten Masterpiece". Ah sim, este não é um trabalho do Miyazaki mas do seu colega que com ele fundou o estúdio. É provavelmente uma das razões para este título ser meio obscuro logo para começo porque Takahata recebe muito menos crédito. Talvez a viagem introspectiva de uma mulher adulta com longas cenas neo-realistas de trabalho no campo, conversas sobre menstruação e música de leste não seja o que as pessoas esperam de um filme Ghibli - acabou por ser bastante bem recebido no Japão, mas ao contrário de Kiki que demorou uns 10 anos a ser lançado na América Only Yesterday demorou 25. É uma pena, este filme é mesmo uma preciosidade. 

 

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