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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Cega, surda e muda


 

Há uns tempos estava a navegar por um daqueles sites de humor meio ridículos e que são óptimos para matar o tempo e uma moça qualquer fez uma piada sobre estar com o período já não sei o que era mas os comentários a seguir eram todos do género ewww, que nojo, cala-te...Tipo, o problema não era a piada ser estúpida entendem? Era o tema. Fiquei a pensar...Uns podem falar dos seus namoros com a mão direita, ou esquerda, e outras cenas do mesmo calibre e toda a gente se ri mas se eu fizer uma piada sobre tampões toda a gente acha nojento?

 

Entretanto esqueci o assunto, mas voltei a lembrar-me dele quando estava a ouvir uma música da Lily Allen, bem ácida como de costume, e onde ela diz ás tantas: "Periods, we all get periods Every month, that's what the theory is, It's human nature, another cicle..." e apareceram logo umas criaturas acéfalas a dizer que era um nojo ela falar sobre isso. Apeteceu-me então discorrer sobre assunto e o que acho é isto: ninguém tem o direito de me fazer sentir nojenta ou repugnante por uma coisa que nem sequer escolhi e que é normalíssima. E mesmo que estes exemplos sejam parvos até porque já se sabe como é a internet há muita coisa subjacente que é preocupante...

 

De facto, apesar de estarmos no século XXI continua a persistir aquela mentalidade que uma mulher deve ser o mais calada e quieta possível: não digas, não olhes, tapa-te o mais possível (como se fosse um pecado ter mamas ou curvas...) porque já sabes se alguma coisa correr mal a culpa vai ser sempre tua. E não gostes, porque senão és logo rotulada como puta. Conhecem aquela piada: como se chama uma mulher que gosta de sexo? Ninfomaníaca. E um homem? Homem. É...A sexualidade feminina continua a ser um tabu ao que parece.

 

Parece mal falar disso, então ignora-se como se não existisse. Como se fosse uma coisa da qual nos devêssemos envergonhar. Desejo quando é numa mulher parece ser sempre algo de pecaminoso... O sentimento de vergonha é das piores coisas que se pode incutir a alguém. É altamente corrosivo. Mas, inconscientemente ele continua a ser incutido ás jovens. Não é só o não olhes ou o não digas é todo um código de comportamento. Uma vez entalei-me e disse um palavrão e a pessoa que estava comigo ficou muito chocada porque as meninas não dizem essas coisas. O que acho é que ninguém devia regularmente (as vezes não dá para evitar não é?) dizer palavrões porque é uma falta de respeito, não uma coisa que eu não devo fazer porque nasci com um pipi.

 

A nível sexual é mesma coisa: não mostres, não partilhes, guarda numa caixinha para quando o príncipe te vier buscar á prateleira. Como li algures já não sei onde, continuamos a policiar as raparigas e a julga-las sem complacência quando o seu comportamento se desvia. Claro que não concordo com tudo o que vejo por aí, mas o que é irritante é as coisas serem certas para uns e erradas para outros. Como naquela cena clássica: pai posso trazer a minha namorada para jantar? e o pai responde que sim, mas se for a filha vai buscar a caçadeira. Não só se ensina as miúdas a ter vergonha de si próprias como também ninguém as ensina a defender. Alguém te partiu coração? vai para um canto, chora e pensa no que fizeste de mal para a coisa não resultar.

 

Estas formas de diferenciação estão por todo o lado e são bastante insinuantes. Lembro-me, por exemplo, de um post que vi no blog Pais de Quatro sobre a descriminação na sinalética...Nunca tinha sequer parado para pensar nisso. E há muito mais...Já reparam em muitos dos anúncios a perfumes e cremes que passam na televisão? É do género: use isto não para sentir bem consigo própria mas porque assim vai atrair uma horda de gajos. Porque uma mulher que se sente perfeitamente bem consigo é...Pois. Anyway são apenas as minhas divagações sobre o assunto.

4 comentários

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    Sara 27.04.2014

    Quando se lê romances históricos (agora fiquei com água na boca...adoro livros com personagens femininas fortes!) à sempre aquela tendência para ser condescendente...Ah e tal era a mentalidade da época, mas cada vez mais noto que as pessoas, a humanidade em geral, simplesmente não muda apesar de toda a evolução operada nos costumes nos últimos anos. O sexismo existe mas noutros formas, como o pecado que foi substituído por outra coisa mais moderna mas vai dar ao mesmo...Ninguém devia viver com vergonha, é horrível. Também acho estas questões da descriminação bastante interessantes...É algo que nos afecta a todas.

    Cumps :)
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    Cristina Torrão 27.04.2014

    Eu tentei retratar a época, mas precisamente para mostrar certo absurdos.
    Trata-se de uma personagem feminina, no início, fraca, mas que aprende a ser forte e a lutar com a ordem estabelecida, tanto quanto lhe é possível ;)
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    Sara 28.04.2014

    Parece bem interessante :)
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