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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Cantar o corpo em perigo

Dei por mim a lembrar-me disto: uma vez escrevi num texto que todos os homens são ensinados a odiar as mulheres e houve alguém que não gostou. Ainda acho isso. Mas não estou a sugerir que os vossos companheiros ou filhos estão apenas à espera de uma oportunidade para vos espetarem uma faca nas costas como nos Idos de Março. Estava a referir-me ao facto de crescerem rodeados pela ideia de que as mulheres são coisas sem grande valor: as raparigas são nojentas, falam muito, fazem coisas sem sentido, são instáveis, não têm força, nasceram para se adornarem e tomarem conta de bebés...

Um dos documentários que vi recentemente mostrava que apesar da escravidão ter sido abolida nos Estados Unidos, continuou a existir apenas metamorfoseada em outra coisa e quando essa coisa também deixou de ser aceitável metamorfoseou-se de novo. De certo modo acontece o mesmo com as mulheres. Se não é mais aceitável queimá-las vivas, ou fechá-las em hospitais psiquiátricos ou impedí-las de votar ou de entrarem para uma universidade ou de fazerem um aborto - qualquer outra coisa se vai arranjar: “Systems of oppression are durable, and they tend to reinvent themselves.” 

Muita gente acaba por ter a sensação de que avançamos pouco pois por cada avanço e cada direito conquistado (e não concedido) o contra ataque é enorme. É naive achar que estas ideias misóginas não se vão entranhar (o mesmo acontece com o racismo e a homofobia). Quando ando a pesquisar filmes nem sempre é imediatamente perceptível se a pessoa que realizou é uma mulher - porque não sei se o nome é masculino ou feminino ou o texto tem no início uma imagem do filme. E percebi que até essas pequenas imagens me estavam a activar os estereótipos de género interiorizados, sobre o tipo de filme que é suposto uma mulher e um homem realizarem. 

Mesmo que um tipo seja decente a crua realidade é que ainda assim estará a beneficiar deste sistema de desigualdade - do facto de ganharmos menos e sermos mais afectadas em alturas de crise, por exemplo. Esta realizadora não estará a competir com vocês por um Óscar porque ela foi destruída por homens menos decentes e abandonou a indústria, esta cientista não estará na lista de candidatos aos Prémios Nobel porque o ambiente era tão hostil que ela acabou por escolher outra carreira, esta mulher de negócios não chegará a ceo porque a pressão de conjugar trabalho, filhos e casa sem ajuda foi demais. Esta rapariga nunca chegará a ser médica ou artista porque foi humilhada na escola por estar com o período e cometeu suicídio - uma história real que terei do livro Period. End of Sentence de Anita Diamant, mas uma pesquisa rápida devolve vários casos semelhantes:

 

"According to media reports, the girl's mother said a teacher had called her "dirty" for soiling her uniform and ordered her to leave the class. In Kenya, many girls cannot afford sanitary products such as pads and tampons and – despite the passage of a law in 2017 to provide free sanitary towels for schoolgirls – the girl had nothing to protect her clothes. She came home and told her mother about the incident but when the mother went to fetch water, she took her own life.

(...)

Access to menstrual products is a huge problem across sub-Saharan Africa, where an inability to afford sanitary products prompts many girls to avoid school during their periods. A 2014 Unesco report estimated that one in 10 girls miss school during menstruation, which means they miss out on 20% of their schooling each year"

(Tirado daqui e daqui)

 

Livro que também fala de mulheres que morreram por terem de ficar em lugares sem condições enquanto estavam menstruadas, pois não lhes é permitido estar em casa com a família, e de raparigas em países "civilizados" que também faltam às aulas por não terem dinheiro para comprar produtos de higiene (ou porque têm tantas dores que não se conseguem levantar da cama. Muitas vezes os médicos desprezam as queixas das mulheres - um estudo revela: "Women 32% more likely to die after operation by male surgeon"

O corpo feminino é um corpo em perigo constante. Outro dia encontrei uma lista de filmes e séries que mostram personagens femininas de um modo misógino\hiper-sexualizado. Tinha os suspeitos do costume incluindo séries que são: rape/torture porn for the male gaze. E isto fez-me pensar que é um bocado contraditório - por um lado a concordância de que as mulheres merecem respeito. Somos iguais. A violação é um crime. E por outro o tempo dispensado a ver séries onde mulheres são violadas constantemente. Penso: é isso excitante? É um bom entretenimento? É apelativa a ideia de dobrar qualquer mulher que apeteça? Mas continuaria a ser excitante se no lugar delas estivessem eles ou seria desconfortável? 

Aquilo que somos capazes de normalizar é impressionante. E as coisas não existem no vácuo, a ideia de ter a violação como entretenimento integrada na cultura popular é horripilante - uma manifestação de puro ódio (e uma arma de guerra, não nos esqueçamos). Um corpo destruído é um corpo que não consegue mais erguer a sua voz, especialmente quando as pessoas se recusam a acreditar. 1001 formas não de cozinhar bacalhau mas de destruir uma mulher [o patriarcado também mata homens, paradoxalmente]

"The opposite of rape is understanding", diz um poema. Não é só o corpo feminino, mas também os corpos não brancos e queer que estão sempre em perigo. A questão da empatia ficou de novo a burilar no meu espírito: empatia é ouvir uma vítima de violação; não é apenas entender um não dito de forma directa mas entender quando a outra pessoa está desconfortável - e não ter de a forçar a inventar desculpas para não ter que fazer sexo (btw aqui está outro dado: apenas cerca de 30% das mulheres têm um orgasmo provocado pela penetração - há muita preguiça e muitas mulheres não estão a receber o que merecem...); talvez seja comprar uma caixa de pensos para a outra pessoa e não exigir que fiquem escondidos fora da vista; talvez seja menos passar aulas a dissecar sapos e mais a aprender anatomia feminina.

Talvez seja deixar uma aluna ir à casa de banho durante um exame, calando alguém na fila atrás que protestou ao ver isso. Não é ver na televisão tantas pessoas a fugirem de conflitos e pobreza ao longo dos anos e só agora ocorrer ao pensamento que essas mulheres vão precisar de pensos, tampões ou panos limpos: uma manifestação de privilégio da minha parte. Só que não é conveniente ensinar isto aos rapazes, não vão eles abandonar a ideia de que têm de dominar e controlar a todo o custo. E assim se inventaram coisas como: os homens não conseguem ser empáticos porque vieram de Marte...Tenho a certeza que esse planeta vermelho nada tem que ver. Precisamos de mais produtos onde não sejamos desumanizadas. O corpo livre é um conceito revolucionário, séries inteiras poderiam ser escritas sobre ele.

Quem Escreve Aqui

Feminista * plus size * comenta uma variedade de assuntos e acha que tem graça * interesse particular em livros, História, doces e recentemente em filmes * talento: saber muitas músicas da Taylor Swift de cor * Blogger há uma década * às vezes usa vernáculo * toda a gente é bem-vinda, menos se vierem aqui promover ódio, esses comentários serão eliminados * obrigada pela visita

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