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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

As estátuas precisam de continuar a cair

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Vejo muitas vezes gente orgulhosa pelo português ser falado em vários países, mas vejo muito menos gente a discutir como a língua portuguesa foi imposta, tornando-se um instrumento de submissão e controlo e assim ajudando a perpetuar o colonialismo. Falar de colonialismo é também falar de coisas que parecem benignas e normais, desconstruindo o que está por trás. Não pude deixar de me lembrar da questão das estátuas. Fazia tanta falta debater seriamente como elas podem ser instrumentos de opressão e de manipulação da História.

 

É curioso que tantas pessoas tenham saltado logo a dizer que tais estátuas não têm mal nenhum e que vandalismo bárbaro atirá-las ao rio. Ou que não têm assim tanta importância. Ora, se não têm e isto é tudo um exagero porque é que quando se fala em homenagear alguém há sempre quem sugira uma estátua ou um busto...Ou dar esse nome a uma rua ou a um aeroporto? Não é porque achamos que essa pessoa contribuiu para o país com os seus talentos e arte, então merece ser homenageada e merece que as gerações vindouras conheçam o seu nome? Um exemplo? A verdade é que quando se ergue uma estátua de alguém, uma escolha foi feita e essa escolha vai projectar uma ideia da História. 

 

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(Protesters throw statue of Edward Colston into Bristol harbour)

 

Não é de admirar a tendência dos ditadores de se espalharem, a si e aos seus símbolos, por todo o lado. Não será por mera opção estética que a Coreia do Norte está cheia de estátuas dos líderes...Não é apenas uma questão de culto do líder mas também de construir uma versão histórica que sirva os seus propósitos, não importa quão distorcida essa versão seja.

 

Há efectivamente um impacto e é estranho ignorá-lo  porque não nos agrada que o racismo esteja em debate...Lembro-me de ter consultado, já não sei em que ano, as propostas mais votadas no orçamento participativo da CML e duas eram monumentos de homenagem. E acabo de descobrir agora que em 2017 foi aprovado que a Praça do Parlamento em Londres iria ter a primeira estátua de uma mulher, da sufragista millicent fawcett - agora imaginem-se a passear num jardim entre várias estátuas de pessoas célebres e não há nenhuma mulher...Que imagem passa?

 

Talvez nem nos apercebamos da ausência e isso por si só já diz muito. Também é estranho que a primeira pergunta de muita gente seja: mas porque é que estão arrancar a pobre estátua? E não: porque é que aquilo está lá em primeiro lugar? É uma táctica clássica: é muito mais fácil apontar que coisas como quotas ou autocarros só para mulheres são medidas ridículas do que analisar o que leva a que tenham de ser aplicadas...Na verdade, tudo serve para desviar a conversa. Para as feministas isto é o quotidiano:  quase terem de pedir desculpa por falar de igualdade porque alguém em 2012 viu um vídeo de um minuto de uma rapariga a dizer que os homens deviam morrer.

 

"(...) we need to ask ourselves, are the white men we choose to commemorate the people we truly want to celebrate? Are their deeds the stuff of heroism? Do these statues inform? Do they educate? Do they help us be the nation we imagine ourselves to be? Do they move us closer to justice?"

(Tirado daqui)

 

E sim, pobres estátuas porque me pareceu que havia gente a mostrar mais pena pelas ditas estarem a ser atiradas à água do que pelos seres humanos que foram escravizados ou pelos que continuam a morrer nas águas do Mediterrâneo e a serem metidos em campos de concentração. A língua e as estátuas são coisas que funcionam como agregadores da identidade nacional e mexer com isso provoca um frisson...Mas ignorar a fotografia completa da História do vosso país em favor de uma imagem cortada ou decorada com estrelinhas não vai conduzir ao progresso, bem pelo contrário. E para erguer de novo aquele retrato já temos voluntários que chegue. A cara pode mudar mas é claro que o cheiro é sempre o mesmo.

 

 

Faz-me lembrar quando partilhei aqui a notícia de que a estátua do beijo representando a famosa foto tirada nas celebrações do fim da Segunda Guerra, tinha sido vandalizada. Houve quem tivesse ficado irritado porque se não é uma estátua tão bonita e romântica, pelo menos nada de mal ela tem. Isto mostra como os grupos dominantes conseguem manipular a História - e melhor para eles que continuemos aqui a achar tudo normal. Uma normalidade assassina. Pode-se argumentar que a foto não vai desaparecer. É verdade. Provavelmente nem o Portugal dos Pequenitos ou o Padrão dos Descobrimentos. Mas podemos fazer o que esses monumentos não fazem: procurar pelo resto da fotografia (fora da História oficial) e falar sobre isso.

 

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(Harriet Tubman projected onto the Robert E. Lee monument in Richmond, Virginia)

 

Claro que falar de genocídios, roubos e violações em massa não é lá muito engraçado, mas esta foi a verdade para milhões de seres humanos cujas histórias não podem ser ignoradas em favor de uma ilusão colectiva de grandeza mística que tresanda a mofo. Há quem se escude no argumento de que estas estátuas têm um valor educativo e histórico que não pode ser apagado - bastante irónico, devo dizer. Depois de séculos a apagar da História a experiência de quem não é um homem branco, querer um símbolo racista fora do espaço público é apelidado de censura. E podemos ver o nível de valor educativo pela imagem que ilustra o artigo australiano que citei - a estátua de James Cook que continua a ter a legenda: "Discovered this territory 1770". Claro que as estátuas são parte de um sistema e isto lembra-me outro argumento: que tudo isto é passado, temos é que avançar.

 

Uma ideia perigosa pois cega para o facto de o racismo e as desigualdades que existem hoje terem raízes no passado. Se menciono aqui o facto de as mulheres durante tanto tempo terem sido excluídas das universidades não é por simples arrelia, é porque isso teve impacto no fosso que existe hoje entre géneros. Como compreender este fosso sem olhar para trás? Não dá. E daí emergem as ideias que este fosso não é real, que é criado por diferenças biológicas...E assim é com o racismo. É preciso debater o passado colonial e os mitos criados à sua volta para se entender o racismo hoje. Este argumento culpa as vítimas: elas é que estão a causar confusão, em vez de estarem quietas...E mostra algo que também está base de tudo isto: a completa falta de empatia para com o outro.

 

6 comentários

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    Sara 28.07.2020

    Também não foi um livro que me tivesse dito muito e para ser honesta nem os Lusíadas, que nunca cheguei a ler todo...O mais chocante é olhar para trás e ver o quão pouco espaço ocupam no programas outras vozes, não brancas e não masculinas, e também o quão presos estamos à história oficial, sem espaço para crítica e debate...A lavagem cerebral começa logo aqui, aumentada por todos os produtos culturais que glorificam os descobrimentos. Acho que continuamos a alimentar esta ideia porque nos faz sentir melhor enquanto nação, podemos ser pequenos mas demos novos mundos ao mundo e isso também nos faz sentir unidos...Por isso tanta gente interpreta qualquer tentativa de debate como um ataque anti patriótico. E para piorar ainda temos a ideia de que isto é um país de brandos costumes além, claro, de todas as consequências de um passado fascista. É verdade, até poder ser a língua que se ensina nas escolas, mas não é aquela que se fala em casa no dia a dia...Mas lá está, debater isso implica mexer com as noções que temos como portugueses. Obrigada pelo link, não conhecia.
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    Bárbara Ferreira 28.07.2020

    Detestei Os Lusíadas, mesmo com os talvez 14 e depois 17 anos com que li na escola: pega em mitologia que não é nossa (o que me faz zero sentido se o texto é para enaltecer - palavra medonha - Portugal)... olha, escrevi esta review no goodreads em 2009:


    "Eu sei que me devia sentir mal por só dar uma estrela a isto, mas convenhamos: é uma imitação barata de clássicos gregos; está escrito de uma forma tão rígida, sempre com as mesmas sílabas e número de versos, que se calhar o próprio Camões gostaria de ter dito outra coisa nalgumas situações; e é mais uma das obras que contribui para a tão conhecida mentalidade do "ai coitadinhos de nós um dia tivemos um país tão grandioso".
    Não me sinto mal, não."


    Tenho zero sentimentos patrióticos. Não tenho qualquer sentimento a ouvir o hino (contra os bretões!), não quero saber da selecção, acho que temos monumentos muito bonitos e eu, que vivi grande parte da minha vida a 15 minutos a pé de Belém, sei que aquilo tudo é lindíssimo mas tem um contexto que não pode ser desligado. Gosto muito do Museu da Marinha porque o visitei com a escola primária após ter lido o "Segredo do Licorne" do Tintim. Não preciso de sentir que Portugal é melhor ou pior enquanto nação (ou Nação. Escrever "Nação" não me incomoda, da mesma maneira que em inglês se capitaliza "Portuguese" ou "French" ou "Swahili"). As ideias de amor nacional e patriotismo fazem-me muita confusão, e eu não sou uma pessoa de sentimentos pan-europeístas ou globais ou algo que se assemelhe.


    E, claro, quando alguém mata uma pessoa proferindo palavras como "volta para a senzala", não houve motivo racista. A vítima teve de fazer qualquer coisa para merecer isso (anda a circular na internet um comentário muito pertinente sobre isso por parte da mãe da Beatriz Lebre). Especialmente - e isto é a minha opinião - se a vítima não for um homem branco...
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    Sara 30.07.2020

    Eu na altura não detestei, só achei aborrecido mas agora olhando para trás vejo claramente que não é uma coisa que me apeteça ler...E a parte de foderem as ninfas? Tenham dó da nossa paciência...E não há qualquer espaço para uma análise diferente, os programas escolares parecem congelados no tempo. E claro: se damos a nossa opinião sincera sobre a obra levamos logo com olhares azedos, então se dissermos que não gostamos do Conquistador dos Da Vince levamos um murro! Concordo em relação aos sentimentos patrióticos, também é algo que me faz confusão. Por mais que tanta gente diga que um pouco de patriotismo não faz mal a ninguém o certo é que esse tipo de sentimentos muito rapidamente se tornam perigosos e acabam por minar a visão que devíamos ter de nós próprios...Já era de prever que fossem arranjar desculpas para o crime, nos EUA se um negro é assassinado pela polícia corre-se logo a desvalorizar o crime porque a vítima era isto e aquilo, mas se um branco entra numa escola e mata vários colegas, dizem logo que ele até era um bom rapaz, só estava deprimido porque lhe tinha morrido o hamster... 
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    Bárbara Ferreira 31.07.2020

    Nunca fui fã dessa canção, e só agora me dei ao trabalho de ir ver a letra: "levámos a luz da cultura"? Porra...


    E sim, é um facto: não há lugar para opiniões "dissidentes" no ensino das várias obras em Português na escola. Acredito que em parte possa ser porque a maior parte das críticas provirá de garotos mais preguiçosos que dirão apenas que "é chato" ou "uma seca" ou "não gosto de ler" - acho que esses comentários, que serão mais frequentes, podem abafar críticas mais construtivas. Não há abertura (ou quiçá conhecimento...) para tentar abordar de outra maneira esses conteúdos. Ou eu é que já saí da escola em 2007 e não estou actualizada nestas coisas, mas duvido.
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    Sara 03.08.2020

    Eu nem sabia que a música dizia isso, só sei o refrão que por si só já é tão duvidoso...Enfim. Ah, eu estava falar no geral: não importa que a pessoa nem tenha lido nada dos Lusíadas, há uma forte probabilidade de ela nos acusar de anti-patriotismo se dissermos o que realmente pensamos sobre a obra...Mas é verdade:  não há abertura para nada no ensino, não é só no Português. Acho que é um ciclo vicioso - como os programas são enormes, ultrapassados e rígidos, os professores acabam por ter pouco espaço para fazer outras coisas  (além de vários outros problemas claro) e como os miúdos não são habituados desce cedo a uma troca de ideias, depois mesmo que tenho algo de jeito para dizer não o fazem...
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