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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

A Anatomia da Boa Rapariga

O que temos aqui nesta imagem é o que a civilização humana extinta depois da super explosão chamava de uma boa rapariga. É do que vamos falar resumidamente nesta palestra hoje. Estes dois membros são os pés: a boa rapariga usava-os quando pressentia uma situação de perigo, para mudar de direcção. Cautelosa desde cedo, preferia coexistir em grupos em especial em determinadas zonas longe do seu território. O predador natural das fêmeas era uma variante particularmente agressiva do grupo dos machos que existia em grande número e a boa rapariga era instruída a nunca tentar um ataque directo, mas a camuflar-se. Se fosse atacada? Já não seria mais uma boa rapariga. 

 

Notem que nas pernas não se observa nenhum prolongamento filiforme. Estes fragmentos de texto, do que aparenta ter sido um colorido manuscrito, mostra os rituais a que a boa rapariga era submetida. Pela complexidade, sofrimento e valor da moeda de troca  podemos concluir que não possuir qualquer prolongamento filiforme era do ponto de vista social algo muito importante e não só nesta parte do corpo. E chamo a atenção para esta articulação que descobrimos ser um sítio de eleição para a variante particularmente agressiva do grupo dos machos colocarem a mão, mesmo fora do ritual associado à reprodução, e sempre sem qualquer pergunta prévia. A boa rapariga sendo instruída a reagir passivamente e a fazer sempre uma expressão que os humanos entendem como sorriso ficava vulnerável a esta demonstração de dominância predatória. Subindo um pouco, sim esta é uma zona que apesar de todos os nossos esforços ainda não conseguimos nomear. Descobrimos que pode ter tantos nomes que inicialmente pensámos ser uma entidade divina, parte de algum cânone religioso.

 

Assemelha-se a um deserto. Não possui nenhuma vegetação, é seca e embora fosse a zona principal para os machos exercerem dominância - de facto, este era um aspecto basilar das relações humanas. Era uma sociedade bastante estratificada - era raro ser explorada em profundidade e com interesse. Sim, um pouco como o solo de um planeta distante. Raramente chovia ali. Diz-se que sangrava, mas não há provas. Também considero fantasioso que esta zona servisse para dar prazer sexual à boa rapariga, muito menos a ideia de um órgão especial no seu interior. Não creio que as boas raparigas possuíssem tal, talvez fosse prática comum cortá-lo.

 

Reparem como a barriga da boa rapariga é lisa, nos mesmos coloridos manuscritos vemos que ela tinha de se submeter a mais rituais complicados, incluindo expelir a comida pelo boca. Era essencial ocupar o menos espaço possível. Sobre estas duas glândulas que veem mais acima há muitas teorias. Podiam servir para amamentação: observando outros animais é possível que as fêmeas humanas não tenham tido outra função que não reprodução e amamentação, outra prova são estes artefactos que tenho sobre a mesa. Pequenas oferendas à cria fêmea para a treinar a ser maternal e cuidar bem da toca. Estas oferendas eram apenas para as fêmeas. Boa pergunta, os humanos só reconheciam dois géneros e diziam que só se podia ser um deles. Mas como as imagens de fêmeas que temos apresentam discrepâncias entre si, talvez estas glândulas sejam um mito criado pelos machos. Não podemos ter 100% certeza de como era uma fêmea humana. Como devem saber existe uma corrente de pensamento que diz que elas nunca existiram fora da cabeça dos machos da sua espécie.

 

Com os dois membros superiores a boa rapariga realizava trabalhos desde manhã até à noite, pois era uma obrigação à qual estava ligada por uma pequena coleira no dedo semelhante às usadas para prender animais. Era o macho que oferecia a coleira se a boa rapariga merecesse. Trabalhar e carregar este símbolo eram as funções da parte final de cada extremidade superior da boa rapariga. Não chegou até nós se ela estudava outros assuntos, mas acredita-se que ainda existam na terra provas de que algumas conseguiam escrever. A capacidade de falar da boa rapariga era atrofiada, pela falta de uso. O silêncio podia ser uma forma de protecção. A visão e sobretudo a audição eram apuradas. Não sabemos o que poderão ser estas marcas roxas no revestimento externo.

 

E agora a parte mais misteriosa! Era deste conjunto de estruturas nervosas chamado cérebro que provinham os pensamentos dos seres humanos. Mas embora dos machos tenhamos informação, da boa rapariga que hoje estudámos não temos qualquer registo. Nenhum registo sobre o que ela pensava do mundo, nenhuma opinião, nenhum nome. Tão limpas, quietas, obedientes, cautelosas, as boas raparigas começaram a construir um mundo interior que não podiam partilhar com ninguém e que se tornou tão poderoso que explodiu o mundo exterior, reduzindo-o a nada mais do que cinzas. Nada sobreviveu. Exactamente há 222 anos lunares. Para terminar a palestra, este apontamento: investigações recentes confirmam que formas de vida estão de novo a crescer na terra. Os sítios onde as boas raparigas entraram em combustão são especialmente nutritivos. Todas as formas de vida nascidas nesses pontos específicos são fêmeas. 

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