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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Problemas com roupa

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(Foto de Kindra Nikole, tirada daqui)

 

Há dias enquanto navegava por aí encontrei alguém que perguntava se era a única a achar que as mulheres ficam sexy de armadura completa. Não, não é. Eu também acho. Assim como acho que as mulheres ficam bem de fato. Uma opinião polémica, já que vai contra o conceito de feminilidade e do que é apropriado para cada género, imposto pela sociedade patriarcal - e cujo objectivo é moldar-nos aos desejos masculinos. 

 

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(Marlene D. in Morocco, 1930)

 

Imaginem o perigo se começamos a sentir-nos como homens, ainda podemos pensar que temos o direito de participar no mundo...E analisando a moda feminina ao longo dos tempos não vemos apenas a intenção de nos transformar em objectos de consumo - esta é uma das razões porque casar está fora dos meus planos: não conseguirei agradar ao meu esposo ao estar em casa de vestido floral e cabelo arranjando com uma travessa contendo um peru inteiro, à espera que ele entre em casa. Mas também privar-nos de liberdade física e mental - com os pés amarrados não podíamos fugir para lado nenhum, presas em barbas de baleia provavelmente iríamos hesitar em fazer certas actividades.

 

How Could A Woman Possibly Fight In This? GIF - WonderWoman ...

 

Boa pergunta, Diana. Em Mulheres Viajantes, que li o ano passado, Sónia Serrano conta como a roupa era um problema para as primeiras viajantes - algumas adoptavam trajes masculinos, com a censura que isso implicava, mas outras não. O que significava ir para o meio da selva e atravessar pântanos vestidas como se estivessem a tomar chá em Londres. Queria ver os viajantes a fazer o mesmo. E liberdade psicológica: no subconsciente cimenta-se a ideia do sexo fraco, que precisa de ajuda. Virginia ilustrou isso muito bem, quando Orlando passa a usar as pesadas saias vitorianas:

 

"Era o mais pesado e banal de todos os trajes que já usara. Nenhum lhe impedira tanto os movimentos. Não poderia mais passear pelos jardins com os seus cachorros nem galgar apressadamente a alta colina e lançar-se sob o carvalho. Suas saias prendiam folhas úmidas e palha (...) Seus músculos tinham perdido a flexibilidade. Ficou com medo de que houvesse ladrões atrás dos lambris, ou, pela primeira vez na vida, fantasmas nos corredores. Todas essas coisas levavam-na passo a passo a submeter-se à nova descoberta (...) que a cada homem correspondia uma mulher (...)"

 

Em Clear Light of The Day de Anita Desai há uma passagem em que as duas irmãs, Bim e Tara, decidem às escondidas vestir as roupas do irmão e processa-se uma mudança que não é apenas física ("Great possibilities unexpectedly opened up now they had their legs covered so sensibly and practically and no longer needed to worry about what lay bare beneath ballooning frocks (...)"), mas elas começam a sentir um senso de confiança e possessão.

 

De independência ("Now they thrust their hands into their pockets and felt even more superior —what a sense of possession, of confidence it gave one to have pockets, to shove ones fists into them as if in simply owning pockets one owned riches, owned independence"). Não será coincidência quando várias autoras abordam um aspecto semelhante e não será de espantar que a roupa possa ser usada como arma social. Não há muito tempo podemos ver como este país ainda não lida bem com homens de saia. Problemas como violência doméstica ou desigualdade é como o outro, agora isso nem pensar.

 

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(Billy Porter nos Óscares de 2019)

 

Mas voltando às armaduras do início - é um assunto igualmente polémico pois alguns senhores não podem conceber a ideia de uma roupa que não identifique de imediato a personagem como feminina ou a ideia de não poderem ver o máximo possível de pele dela. E como muitos desses senhores são artistas\realizadores continuamos a ter de ver certas abominações...Num mundo patriarcal o desejo masculino heterossexual vem acima de tudo inclusive do mais elementar bom senso pois até uma criança perceberia que lutar de biquíni não faz sentido.

 

E não é preciso ser nenhum fã de comics ou de fantasia para se reparar, nem falando da câmara apontada para sítios estratégicos do corpo delas, das poses estranhas, dos papéis resumidos a apêndices românticos (um papel que não tem nada de mal claro, deve ser por isso que o vemos ser ocupado por tantos homens). É de tal modo que às tantas podemos ser levadas a pensar que nós é que estamos trocadas e que estas são as escolhas de guarda-roupa mais realistas e lógicas...

 

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(Patty Jenkins [Wonder-Women] Amazon warriors on the left.

Zack Snyder's [Justice League] on the right."

Tirado daqui)

 

Talvez as samurais ou Antónia Rodrigues, essa mítica figura portuguesa, lutassem realmente de calças justas ou como se estivessem a caminho da Caparica - Ora, deve ser coincidência que a personagem deste jogo seja uma colegial com uma micro saia e que quando se senta a câmara se foque directa nessa "fronteira" (pobre Carrie a ter de se expor para as hordas sedentas - "I emerge from my three-week-long ECT treatment to discover that I am not only this Princess Leia creature but also several-sized dolls, various T-shirts and posters, some cleansing items (...) It turns out I was even a kind of pin-upa fantasy that geeky teenage boys across the globe jerked off to me with some frequency")

 

Basicamente, é uma forma de nos dizerem que não nos podemos equiparar aos homens - claro que vocês podem ser badass mas não se esqueçam de que têm pipi e como tal a vossa principal função é serem agradáveis à vista. Ou seja, sermos fodíveis. Mas se decidimos andar na rua com uma micro saia corremos o risco de sermos insultadas e de não sermos colocadas na lista das que são material para casar. Muito confuso não?

O útero pouco comovido

A conversa de que neste país nascem poucos bebés anda-me a irritar. Primeiro porque periodicamente isso ocupa espaço nas notícias como se tivessem medo que nos esquecêssemos que não estamos a cumprir a nossa missão de ter 2,1 ou 2,5, seja lá qual for o número de filhos necessários para que não se extinga a raça lusa. Que fêmeas egoístas estamos a criar? E em segundo porque quando se fala do assunto não vejo serem abordadas medidas concretas para tornar menos difícil a vida das mulheres.

 

Nada sobre eliminar os obstáculos que dificultam conjugar a maternidade com o trabalho, nada sobre as mulheres trabalharem o dobro ou o triplo (trabalho extra que não é sequer valorizado), nada sobre melhorar os cuidados de saúde para que os preciosos números não nasçam na estrada porque não havia obstetras no hospital que ficava mais perto, nada para diminuir o fosso salarial entre homens e mulheres, nada concreto para diminuir a violência doméstica...

 

E depois esperam que o meu útero se comova. Quando eu era uma feminista no início dos dias, fiquei pasmada diante da clara explicação dada por outras feministas sobre o papel do corpo feminino nesta sociedade e neste sistema económico. Agora não tenho nenhuma dúvida que para este mundo nós somos coisas. Não temos valor humano, somos um recurso que é útil porque serve para expelir mais mão-de-obra para o sistema e mais carne para canhão para os sucessivos conflitos provocados pelos lunáticos que ocupam o poder.

 

Somos um recurso que eles desejam controlar ao máximo. Quanto mais controlado, mais comprimido dentro dos sistemas patriarcais (sendo o casamento, já sabemos, o preferido e muito provavelmente o mais eficaz), mais vigiado e escrutinado - e claro: quanto mais pesadas forem as sanções para as que se rebelarem - melhor para eles. Não é nenhuma coincidência que os momentos de forte luta feminista sejam acompanhados pelo despoletar de movimentos fascistas, conservadores e afins - tão importante é terem as patas em cima de nós que atacam com toda a força. Quando começamos a descascar a cebola vemos o quanto tudo na História se resume a isto: controlar o nosso corpo. Políticos e homens ornamentados com vistosos paramentos religiosos gostam de falar sobre a importância da vida, mas é mentira. Eles não querem saber de vida nenhuma.

Reflexões enquanto leio sobre mulheres

Comecei a ler Portuguesas com M Grande. Fico sempre entusiasmada com livros destes - e este tem correspondido plenamente às expectativas! Tenho o hábito depois de ler cada biografia ir pesquisar um pouco mais, o que torna estas leituras um perigo à noite. Vou a ler e a clicar por aí fora e quando dou conta já é tardíssimo. Quando estava a pesquisar sobre Josefa de Óbidos descobri que há quem não aprecie esta artista do século XVII e ache que as suas pinturas são pastosas, uma freira que pintava quadros, uma artista menor com as suas naturezas mortas: 

 

"Em 1949, o escritor Miguel Torga visitou a primeira exposição sobre Josefa de Óbidos realizada no Museu Nacional de Arte Antiga e não escondeu a sua decepção. “A senhora faz renda com os pincéis. Que falta de imaginação, que miséria de desenho, que geleia aquilo tudo!”, escreveu no seu Diário. “Enquanto um baboso se extasiava diante de um Menino Jesus rechonchudo, que parecia uma trouxa-de-ovos, raspei-me. Raça de portugueses que não dão um pintor que se aproveite!”

O desprezo de Torga não foi um caso isolado. Quase todos os críticos, exasperados com a aura de popularidade de que a pintora do século XVII gozava junto dos coleccionadores, que disputavam os quadros que surgiam nos leilões ou no mercado de antiguidades, concluíram tratar-se de uma artista menor, monótona, ingénua."

(tirado daqui)

 

O que achei muito curioso foi isto: as galerias dos museus estão cheias de pinturas religiosas feitas por homens, há para todos os gostos incluindo muita cena mística e extasiada - ou diria pastosa? Mas não costumo ouvir estes adjectivos serem usados para classificar as suas obras, em vez disso costumo ouvir o quanto elas são importantes na História. Estes pintores não recebem epítetos inferiorizantes e se pintaram naturezas mortas isso não os torna menos geniais - é visto como uma prova de versatilidade! De facto, este duplo padrão mostra que o mundo não suporta uma mulher que, neste caso, pegue nos pincéis. Ainda menos uma que consiga viver da sua arte e ter sucesso, críticos atiram-se de pontes perante a ideia, os seus corpos flautando que nem Ofélias rio abaixo.

 

Mais adiante vim a descobri que a primeira arquitecta portuguesa foi Maria José Estanco (1905-1999). Em 1942 ela terminou o curso tendo recebido o prémio de o melhor aluno de Arquitectura da Escola Superior de Belas ArtesUm futuro promissor parecia estar à sua espera. Só que a realidade é que ela não conseguia arranjar emprego, ninguém queria uma mulher nos ateliês. Jornais publicaram cartoons ridicularizando-a. Por fim ela acabou por enveredar pela decoração de interiores. Mais um caso em que uma mulher é forçada a virar costas ao que ambicionava fazer.

 

Fiquei com raiva. E mais uma vez veio-me à mente o que o mundo diz: que as mulheres não escolhem certas carreiras porque não querem ou porque não estão naturalmente inclinadas para elas - uma explicação tão fácil, afinal a culpa é nossa! Não obriga a pensar nem a mudar nada. Podemos alegremente ignorar estereótipos, descriminação, condescendência, assédio e ambiente hostil, as verdadeiras causas que fazem as mulheres não seguirem uma carreira numa determinada área ou optarem por certos nichos: médica não, enfermeira com sorte; Piloto? Nem pensar. Só hospedeira; porque não escreves livros infantis? Não estou a dizer que umas coisas são superiores as outras - é a sociedade que cria tais distinções, o que é considerado mais "apropriado" para homens e mulheres.

 

Carreiras patriarcalmente vistas como mais femininas ou como uma extensão das funções femininas funcionam como um escape. Dizer que as escolhas das mulheres foram\são totalmente livres ou que vivemos numa meritocracia é ignorar o ambiente ainda tão tóxico que nos impede de atingirmos o nosso potencial. Sobre isto li algo interessante recentemente: a respeito do Me Too muitas pessoas esfrangalharam os dedos dizendo que não podíamos simplesmente começar a acusar toda a gente, que estávamos a ficar fora de controlo [é esse o ponto, amigos], que era uma caça às bruxas [AH AH AH!] e queríamos era proibir o sexo e o romantismo - sucede que não é o sexo que nos horroriza, mas sim esta fortemente plantada arquitectura misógina que nos torna vulneráveis aos abusos de poder. Abusos que tem consequências directas e graves na nossa vida laboral .

 

Não se pára para pensar nos filmes incríveis, peças, teses científicas...Que estas mulheres podiam ter feito. Se não se tivessem despedido do emprego depois de agarradas e beijadas à força, se não tivessem voltado costas a uma certa área depois de esperem em vão por uma promoção ou depois de receberem mais uma proposta sexual, se não tivessem que gastar tanta energia a levar a tribunal um chefe que as abusou sexualmente. Nunca vamos saber. Mas o mundo não dá a mínima para este desperdício, está mais ocupado em fazer-nos ter pena de monstros e a tentar fazer-nos acreditar que a descriminação só existe nas nossas cabeças...

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