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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler Autoras: Mentiras

Sei que muita gente não é fã de biografias e auto-biografias, mas tenho cada vez mais percebido a importância de incluí-las nas minhas leituras. Depois do Lab Girl da Hope Jahren e do Let's Pretend That Never Happened da Jenny Lawson, já mencionados aqui, li Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons From the Crematory (Caitlin Doughty); Heartbreak: The Political Memoir of a Feminist Militant (Andrea Dworkin) e Hunger (Roxane Gay). É um privilégio poder ler a história de tantas mulheres contadas na primeira pessoa ou pela escrita de outras autoras. Também tenho tropeçado em alguns livros que me têm deixado perplexa, não porque sejam maus - mas porque não consigo perceber porque não estão nas listas de livros que toda a gente deve ler.

 

E pensar que até há não muito tempo eu aceitava passivamente a ideia de que se havia poucas autoras nestas listas era porque não havia assim tantas que prestassem...Mais chocante ainda quando são autoras que foram pioneiras ou mesmo as primeiras a fazer algo neste caso no campo da literatura. Esta sociedade odeia-nos tanto que é capaz de atribuir trabalhos\descobertas nossas a homens - não admite que uma mulher possa ter talento. Este ano já tive o caso do Life and Death of Harriett Frean da May Sinclair: poeta, filósofa, tradutora e crítica nascida em Inglaterra em 1863. Desempenhou um papel fundamental no movimento modernista e foi ela quem primeiro pegou na técnica do fluxo de consciência e a aplicou à literatura. May também era sufragista. Infelizente ela permanece na sombra enquanto os homens (James Joyce, Ezra Pound, DH Lawrence, blá, blá...) ocupam as listas.

 

Está longe de ser o único caso - a minha última leitura: A Raisin in the Sun da Lorraine Hansberry, uma peça teatral publicada em 1959 e cuja história gira em torno de um família negra vivendo debaixo da segregação racial em Chicago. Devia estar em todas as listas de livros que se devem ler. Lorraine foi o mais jovem dramaturgo, a quinta mulher e o primeiro negro a receber o New York's Drama Critic's Circle Award e a primeira mulher negra a ter uma peça na Broadway. Estas listas de "obrigatórios" não só são misóginas como fazem publicidade à lixívia. Aquilo que algumas pessoas costumam dizer: falar em conquistas no feminino não é igualdade, devemos falar de todas as conquistas! É o mesmo pensamento que está subjacente ao: devia existir dia do homem! Devia chamar-se igualitarismo e não feminismo, deviam dizer que todas as vidas são importantes! Quão nonsense é este argumento.

 

Algum homem foi alguma vez impedido de entrar numa faculdade e tendo por força conseguido ser admitido, acabou expulso porque respondeu numa aula a uma pergunta que mais ninguém sabia e os colegas foram a correr fazer uma petição dizendo que a sua presença prejudicava o progresso deles? Ou teve um tubo enfiado na garganta apenas por querer participar na normal vida pública? E quem era enforcado em pacatas ruas americanas enquanto famílias riam e aplaudiam? Quem foi massacrado e expulso da sua terra? A frequência com que vejo este "argumento" mostra o quanto algumas pessoas estão deslocadas da realidade. Realmente só quando se começa a pesquisar sobre aquilo que as mulheres fizeram ao longo da história, a ouvir as suas músicas, a ver os seus filmes, a ler os seus livros...Se percebe o quão profundas são as mentiras fabricadas por este mundo misógino.

Planos para a Feira do Livro 2018!

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Contando que consiga ir e a minha carteira colabore:

 

- tirar algumas fotos decentes (nunca tiro por estar sempre demasiado entusiasmada e me esquecer da máquina. E porque para evitar uma sobrecarga de estímulos não me posso concentrar em demasiada coisa. Muita gente, barulho, muitos livros, é muita coisa a acontecer na minha pobre cabecinha aspie. Se desse tempo para ver tudo preferiria ir de noite)

 

não ficar nervosa demais com as necessárias interacções (só mesmo o amor aos livros ainda mais a bom preço me faz estar numa banca quase vazia com quatro pares de olhos em cima de mim. Também podiam facilitar...) 

 

não fugir de pessoas conhecidas (é muito improvável. Quer dizer a parte de não fugir, não a parte de encontrar conhecidos...Isso acontece muito, é um fenómeno que não dá para explicar)

 

comer (também é improvável, mas nunca se sabe. Sou tão chique que se parasse para comer seria um pãozinho preparado em casa)

 

- não pisar nenhum chihuahua (gente, eu amo os vossos animais sejam eles chihuahuas, pastores alemães ou cabrinhas, mas a sério...Há mais sítios onde comer na Feira do que bom senso)

 

- só comprar livros de autoras (espero que o anónimo que disse que eu era uma exagerada por tirar da lista livros que me parecem misóginos não esteja a ler isto. Um dia este blog vai mesmo provocar uma apoplexia a alguém. A FL é um boa oportunidade para trazer mais autoras para a minha estante e tenciono aproveitá-la por isso em princípio homens não irão constar da lista. É uma lista mental, não consigo guiar-me por uma lista física nem costumo fazer)

 

- Arranjar um cestinho ou um saco grande. Tenho um saco de pano grande de levar para a praia (quase nunca faço praia) e estou a pensar nele. Alguém vai acabar a carregar com isso, é certo

Complicadas Férias

Às vezes parece que sou a única que não fica entusiasmada com a ideia de a) sítios paradisíacos b) cruzeiros c) escapadinhas românticas. Tenho a ideia de que em ilhas paradisíacas não há muito para fazer o que deve ser o principal atractivo, mas eu não sou muito boa em estar parada (uma das razões porque não gosto de fazer praia) A minha ansiedade não gosta de viajar e conta o tempo que vamos passar longe de casa, a distância e analisa as melhores rotas de fuga. E também não sou boa na parte de fazer as malas. O ano passado nem fui para fora nem nada e insisti que tinha de levar todas as minhas almofadas. Cruzeiros não me parece um conceito apelativo por vários motivos - "é como estar num hotel gigante, um pessoa nem dá conta que está no mar!" Para isso fico num hotel em terra. Não vou pagar um balúrdio por coisas que posso fazer em terra tipo ir a centros comerciais e piscinas.

 

O David Foster Wallace tem uma excelente crónica sobre cruzeiros chamada Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer. As escapadinhas românticas parecem sempre envolver jantares chiques, massagens a dois e spas e eu não sou o tipo de pessoa que se queira levar para sítios desses (há dias cortei uma ponta de cabelo sem querer enquanto brincava distraidamente com uma tesoura...) Além disso o conceito: "bora pegar nas coisas e partir" entra em choque com a minha ansiedade e com o meu lado aspie que não gostam de surpresas e que precisam de tempo para pensar em tudo o que pode acontecer (se chove, se fico com o período, se apanho sarampo, se terroristas invadem o hotel...). Se o meu futuro marido estiver a ler isto (a probabilidade de nos encontrarmos deve ser a mesma que terroristas invadirem um hotel no Caramulo, mas temos de pensar em tudo) gostaria de dizer que não precisamos de gastar dinheiro nestas coisas.

 

Podemos ficar em casa no sofá com uma manta, a ver filmes de zombies e a comer pizza enquanto os cães nos tentam saltar para o colo. Sim vamos ter cães e não, não podemos trocar de programação especialmente para coisas de crimes: deixam-me sempre a pensar que de facto a gente não tem como saber quantos psicopatas cruzam o nosso caminho. Até tu podes ser um deles e então vou ter que te amarrar ao sofá enquanto grito e agito uma tesoura. Claro que nada nos garante que zombies já não estejam a atacar pessoas enquanto vemos o filme, mas aí podemos decidir juntos o que fazer e começar logo um inventário das provisões. Talvez possamos trocar por documentários sobre a guerra mas é possível que eu fique emocional e carente e a precisar de chocolates que vais de ter ir comprar e uma vez na rua podes ser atacado pelos zombies ou pelo psicopata e eu vou chorar por já não ter ninguém para tratar do IRS. Vamos ser um casal muito feliz.

A Justiça é uma máquina trituradora

A propósito do Dia da Mulher voltei-me a lembrar deste fenómeno muito comum: feminismo amigável. Quando uma pessoa quer escrever sobre igualdade mas não quer ofender...Ou passar a imagem de uma mulher histérica ou raivosa - e por isso se atira tantas vezes a palavra feminismo para debaixo do tapete: substituindo por mais "diplomáticos" e "agradáveis" termos; escrevendo textos que dão tais voltas parece que a pessoa está perdida no labirinto de Creta; fazendo ressalvas a cada três linhas ou parágrafos introdutórios para que se saiba absolutamente, sem sombra de dúvida e com atestado de psiquiatra que se trata de uma fêmea equilibrada.

 

Este conceito de feminismo amigável não faz sentido. Mesmo que ninguém escreva a primeiríssima coisa que lhe venha à cabeça, se vamos escrever sobre feminismo que o façamos sem rodeios. Em primeiro lugar porque de outro modo é perda de tempo. Vai haver sempre alguém a sentir-se ofendido, não importa as voltas que dêem. Em segundo quando isso acontece o problema não é vosso. Em terceiro, esta sociedade não gosta quando se fala de igualdade por isso andarem a pedir desculpa por falarem sobre isso ou sentirem que têm de se justificar, quando é tão legítimo indignarem-se com tanta desigualdade - é o que esta sociedade quer. Não é preciso muito para uma mulher ser vista como histérica, raivosa ou exagerada basta ter mais sentimentos que uma jarra decorativa. E falar mais do que uma. Lembrem-se que esta é a mesma sociedade que diz que vocês nasceram para cozinhar, serem fodidas e parirem. O que nos leva ao quarto motivo: usar paninhos quentes para falar de uma sociedade que vos vê desta maneira?

 

Muitas vezes tenho vontade de imprimir passagens que leio sobre igualdade e distribuí-las por aí, pois fico perplexa com a dificuldade de algumas pessoas em perceber coisas tão básicas - como o facto de não sermos jarras decorativas. A algumas eu gostaria de atirar um sapato. A existência de predadores sexuais já é horrível por si só, mas vemos a profundidade do problema quando hordas de defensores começam a sair do pântano. Defender um violador é tão fácil e ainda passamos por corajosos contra a corrente, especialmente se falarmos na importância da "liberdade de expressão" e da "arte". Cada vez que alguém começa um texto com: "porque é que elas só decidiram falar agora" ou "porque é que elas não fizeram nada antes", isso é descredibilizar as vítimas e desviar a atenção do agressor - é ficar ao lado do agressor. Não importa quão modernos e boas pessoas vocês se possam achar: é este tipo de pensamento que permite que estes predadores continuem a ficar impunes.

 

"Hoje em dia já nem se pode tocar..."; "será que também vão proibir o sexo?"; "porque parecem as mulheres terem medo de sexo?!"...Fico a imaginar se estas pessoas estivessem frente a frente com uma mulher violada aos onze anos por dez tipos que acabaram ilibados, teriam coragem de dizer tais coisas. Claro que para alguns tudo isto é um complô do politicamente correto. Eu seria politicamente correta se dissesse, digamos que é triste que o Nobel da Literatura possa não ser entregue este ano por causa dos escândalos de abuso, um prémio tão nobre e importante...Mas não vou dizer isso. Que se dane. Quando é que estes prémios foram alguma vez justos connosco? Ou se parasse para analisar o que realizadores\actores dizem em defesa de outros. É expectável: não querem que as suas cabeças rolem também. E não querem ficar sem os seus brinquedos preferidos...Monstros defendem monstros.

 

Um conhecido autor escreveu: "Garotas comuns normalmente se preocupam muito mais em saber o que é bonito e como podem ser felizes do que com a questão de alguma coisa ser justa. “Justiça” é, sem dúvida, uma palavra de uso exclusivo masculino". Como garota comum que sou, não candidata a um Nobel, temo que este pensamento seja demasiado profundo para conseguir analisar. De facto, um conceito de justiça que desumaniza e humilha brutalmente um ser humano - que diz a uma mulher, uma menina, que é uma puta sedenta de dinheiro e que não só é culpada pelo que aconteceu como gostou de ser fodida à força, parece um conceito de justiça de "uso exclusivo masculino" que não nos deve interessar. Não feito para nos proteger - é por isso que precisamos de um novo.

A leitora do contra

Já não basta não ter dito nada no Dia da Mulher, na verdade não foi desleixo...Como já contado eu estava ocupada demais a apreciar o que ia sendo publicado sobre assunto, actividade muito engraçada se vocês tiverem estômago: "será que ainda existe desigualdade?", "porque acho que devia existir dia do homem"... Esta última deixa-me sempre perplexa. Como também não escrevi nada no Dia do Livro. Pior: não li nada nesse dia. Estava indecisa - se ia começar um novo livro, acabar os três que já tinha começado ou fazer uma pausa e actualizar o meu registo de leituras que está com umas dez entradas em atraso. Acabei por não fazer nada disso. Ao contrário da crença popular eu não leio todos, todos os dias. Há um dia em que não leio e outro em que leio metade de um livro, não consigo ser como essas pessoas que têm que ler um número de páginas definido. Podia contar os dias em que leio ou não leio e assim fazer uma reflexão e melhorar como leitora, mas é trabalho demais.

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