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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler torna-nos mais empáticos?

Parece que abandonei outra vez este blog, mas por aqui ainda estou a tentar superar o dilema de ter várias ideias, mas pouca vontade de escrever. Ao menos vou lendo, como sempre - embora agora não esteja a ler nada pois tenho opiniões em atraso para escrever e o cinema para colocar em dia. Talvez fosse interessante fazer um daqueles balanços de meio do ano, mas nunca houve um ano em que eu chegasse a meio sabendo o que li ou quantos livros li e este não será diferente...Posso dizer que já estive em todos os continentes habitáveis várias vezes. O que não é muito tendo em conta a quantidade de países que há em cada um, mas ainda assim.

 

E tem sido um país um livro [ou contos ou um filme] sem repetições. Mesmo que quisesse repetir não teria tempo para tal. Ao mesmo tempo é um pouco exaustivo, estar sempre a saltar de uma realidade diferente para outra, sem nenhum ponto de apoio. Mas é também o que está a tornar este desafio fantástico: nunca sei o que esperar e o entusiasmo nunca esmorece. Também tem-me feito pensar em quanto sou ignorante em relação ao que se passou\passa no mundo. Claro que há tantos detalhes e coisas para aprender sobre cada cultura\lugar e é só um livro...

 

Só que esta que vos escreve nasceu no princípio dos noventa e durante muito tempo teve a percepção, não sei se mais pessoas também têm tal percepção, que foi um tempo mais prospero e calmo especialmente quando comparado com agora. Mas desde há uns tempos para cá tenho percebido que enquanto via as Navegantes da Lua e bebia sumo em pacotinhos (nada de errado em continuar a fazer ambas as coisas) havia convulsões a acontecer em tantos sítios - e sobre as quais só agora estou a ler! Alguém pode argumentar que é desnecessário um leitor estar constantemente a ler livros que o fazem passar por esta angústia, afinal a leitura é suposto ser um escape...

 

Talvez. Sempre tive uma certa curiosidade para saber coisas do mundo, se calhar podia ter sido uma curiosidade melhor direccionada mas eu fazia as minhas próprias escolhas. Acho que a educação escolar e geral não contribui muito para despertar a curiosidade sobre o que se passa com outras pessoas no mundo, como vivem e como se sentem....Ou sobre as pessoas que vêm de outras partes do mundo para viver aqui. Imaginem que nos preocupávamos tanto em ensinar datas e factos como em estimular a criatividade e a empatia das crianças. Nem todos os livros que leio para este desafio são pesados, tem sido muito variado...Mas acaba por ser inevitável e é algo importante que este desafio tem proporcionado (e ter a oportunidade de ler, muitas vezes, de uma perspectiva feminina).

 

Muitos leitores dirão que os livros e a leitura podem nos tornar pessoas mais empáticas pois vemos o mundo através dos olhos de tantas personagens. Concordo, mas percebo agora que o leitor precisa de ter essa predisposição. Um exemplo, já falei aqui, encontrei no Goodreads: o tipo que leu Beloved da Toni Morrison e se sentiu atacado. Estamos perante um homem branco que decidiu pegar num livro que retrata os horrores da escravatura, mas como não foi capaz de sair da sua própria bolha de experiência, em vez de aprender algo sentiu-se atacado e ofendido...Mais recentemente também no Goodreads alguém linkou um artigo de um professor de literatura que não inclui autoras nas suas aulas porque as acha irrelevantes.

 

Agora podemos dizer que esta pessoa tem muito conhecimento literário e que isso até lhe deu uma posição social privilegiada, mas onde é que tantas leituras o levaram como ser humano? Não muito longe (e o que está por trás deste tipo de comentários é a ideia de que qualquer experiência que não seja de um homem branco, não é válida nem é digna e que é até potencialmente ofensiva para o grupo dominante e por isso vocês devem abster-se de escrever). De facto, saber tudo sobre as peças de Shakespeare não faz de um leitor alguém mais empático (especialmente se for só isso que costuma ler)

 

É um fenómeno com que me deparo: esta pessoa lê tanto, quero seguir! E depois levo com uma barbaridade na cara. Como sabemos há quem leve isto a píncaros assustadores não mostrando pinga de humanidade perante sofrimento evidente à sua frente. Há quem diga que o problema não é assim tão grave porque são só coisas que se dizem na internet, mas acho que essa é uma posição perigosa especialmente nos tempos que vivemos. Infelizmente há pessoas que deram erro e que precisam de ir com urgência para arranjo - para voltarem a ser humanos. Quando falta a empatia e a humanidade o terreno torna-se fértil para o mal. Se quisermos e estivermos dispostos a sair da bolha os livros podem ajudar bastante.

África e um pouco além

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(ilustração de Annya Karina Marttinen)

 

Um apanhado das últimas leituras. Gostei de todos, houve um ou outro que achei que poderia ter uma melhor execução mas nada demasiado frustrante. Em termos de temas não foi dos lotes mais fáceis.

 

As Alegrias Da MaternidadeBuchi Emecheta: abrangendo um período desde o início do século XX até aos anos cinquenta na Nigéria colonial, The Joys of Motherhood foca-se na vida de Nnu Ego, filha de um chefe tribal. Uma mulher que como tantas outras foi levada a acreditar que só poderá ser um ser humano completo quando tiver filhos rapazes. Quando não consegue engravidar, quase enlouquece. Então é lhe arranjado um segundo marido e ela tem de se mudar para Lagos, aí confronta-se com um ambiente completamente diferente, com novos valores e ao mesmo tempo as suas expectativas sobre criar filhos começam a colidir com a realidade.

 

Wave, Sonali Deraniyagala (Sri Lanka): no dia 26 de Dezembro de 2004, Sonali estava a aproveitar os últimos momentos de férias com a família no parque nacional de Yala no sudeste do Sri Lanka, junto ao oceano Índico. Mas o que parecia ser mais um dia depois do Natal transformou-se num pesadelo quando o tsunami atingiu o parque provocando ali 250 vítimas. Ela conseguiu sobreviver ao se segurar a um ramo de árvore, mas perdeu o marido, os filhos de 8 e 5 anos e os pais. Escrito como parte da sua terapia e publicado em 2013, neste livro Sonali revive os horríveis acontecimentos desse dia e conta a longa e extremamente dolorosa jornada que se seguiu.

 

Out of Darkness, Shining Light, Petina Gappah (Zimbabwe): em 1873 quando o famoso explorador escocês David Livingstone terminou para sempre as suas expedições as pessoas negras que o acompanhavam podiam tê-lo enterrado logo ali. Em vez disso decidiram carregar o corpo desde o que hoje é a Zâmbia até à costa, em Zanzibar, para que depois este pudesse seguir para Inglaterra. Uma jornada de 1500 milhas por pântanos e savanas feita por 69 pessoas, homens, mulheres e crianças e que durou nove meses. Neste romance Petina resgata este acontecimento real do esquecimento ao mesmo tempo que aborda o tema do colonialismo.

 

The Secret of Hoa Sen, Que Mai Phan Nguyen (Vietname): uma colecção de poemas plenos de beleza e com uma forte ligação à natureza onde autora resgata memórias suas, faz uma homenagem aos seus pais e avós - e às pessoas simples e anónimas que todos os dias lutam para sobreviver - e aborda temas como a guerra e as feridas por ela causadas.

 

"MY MOTHER’S RICE
Through the eyes of my childhood I watch my mother,
who labored in a kitchen built from straw and mud.
She lifted a pair of chopsticks and twirled sunlight into a pot of
boiling rice,
the perfume of a new harvest
soaked her worn shirt as she bent and fed rice straws to the
hungry flames.
I wanted to come and help, but the child in me
pulled myself into a dark corner
where I could watch my mother’s face
teach beauty how to glow in hardship,
and how to sing the rice to cook with her sunbaked hands.
That day in our kitchen,
I saw how perfection was arranged
by soot-blackened pans and pots,
and by the bent back of my mother, so thin
she would disappear if I wept, or cried out."

 

Mornas Eram as Noites, Dina Salústio (Cabo Verde): um conjunto de trinta e cinco textos curtos que quase se lêem como poemas pois são bastante líricos, mas também abordam temas fortes como pobreza, violência e vários falam da vida das mulheres e os seus problemas.

 

Sem gentileza, Futhi Ntshingila (África do Sul): com um título tirado de um poema de Dylan Thomas sobre resistência em face da morte, este livro conta a história de Zola, uma mulher que está a morrer com SIDA, e de Mvelo a sua filha de quatorze anos - e dos desafios colossais que elas enfrentam todos os dias para sobreviver numa favela em Durban. 

 

Opiniões Impopulares

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Últimas leituras. Ficou um pouco maior do que o costume mas também já não escrevia aqui há uma semana por isso aqui vai:

 

Livros que gostei menos do que esperava

Normal PeopleSally Rooney (Irlanda) - mesmo que nunca tivesse ouvido falar deste livro bastava olhar para a edição que tenho para ficar entusiasmada. Contado as citações elogiosas na contracapa, capa, interior da capa e três páginas extra são para aí umas trinta, fora os prémios. Infelizmente, vou ter de discordar desta gente toda - este livro é medíocre. Um rapaz, Connell, e uma rapariga, Marianne, conhecem-se no secundário e iniciam uma relação intermitente que é basicamente assim - encontram-se, fodem por um tempo, separam-se para foder outras pessoas, encontram-se de novo...É só isto, não há mais história. São capítulos e capítulos da mesma coisa...

Outras questões (saúde mental, questões de classe...) estão lá como mero ruído de fundo e nunca são exploradas. As personagens não são desenvolvidas. Connell é um idiota tremendo e Marianne é uma mistura trágica de Bella Cullen e Anastasia Grey (sim, também esta última. leram bem). Ela é abusada física e psicologicamente durante o livro inteiro, tem a auto-estima tão destruída que não é capaz de reagir e a autora nunca aprofunda o problema. Marianne diz que não se importa que o namorado lhe um dê um soco na cara porque se acha uma pessoa má e corrompida e por isso merece, então a cena termina e começa outra. Just like that.

E muitas outras coisas inquietantes como esta são ditas, en passant. Ela é agredida num capítulo e para o caso de não termos visualizado bem, no seguinte é agredida de novo. Sinto que a minha simpatia era suposto ter sido dirigida para a personagem masculina, pois é ela que se safa melhor e que tem as melhores perspectivas de futuro, enquanto Marianne não tem nenhumas a não ser continuar a ser uma menina obediente...Quase provoca dores físicas ler uma coisa destas por 266 páginas. E também é uma dor ver isto ser classificado como história de amor. Uma relação tóxica, como aliás o são quase todas as interacções neste livro. A escrita é inconsistente e a história salta por vezes dois dias outras vezes quatro meses, não percebi porquê. Enfim, não recomendo.

 

Behold The DreamersImbolo Mbue - romance de estreia desta autora nascida nos Camarões e a viver em Nova York, lançado em 2017 ganhou o prémio PEN/Faulkner e foi seleccionado para o clube de leitura da Oprah. É sobre um casal, Jende e Neni, que partem dos Camarões à procura de uma vida melhor nos Estados Unidos.

As coisas parecem seguir um bom caminho: Jende consegue um bom trabalho como motorista de um executivo do Lehman Brothers e Neni começa a estudar para se tornar farmacêutica e depois também é contratada para trabalhar para a mulher do executivo. Mas quando eles se veem metidos no meio dos problemas conjugais dos patrões e cada vez mais perdidos nos trâmites legais para obter documentos (o tal cartão verde), os seus sonhos ficam em risco. Não posso dizer que tenha gostado muito, a ideia é boa mas a execução deixa a desejar.

 

Livros que gostei

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus - Nascida em 1914, Carolina foi uma mulher negra que vivia numa favela chamada Canindé, em São Paulo. Quase sem instrução e sozinha com três filhos sobrevivia de catar papel das ruas, nas horas vagas ela escrevia um diário usando cadernos apanhados entre o material que recolhia e onde relatava o quotidiano da favela. São relatos simples mas pujantes de fome, desespero e miséria extrema. 

 

Livros que gostei mais do que esperava

The Artificial Silk Girl, irmgard keun - Na Berlim pré-segunda guerra, com as suas luzes ofuscantes e actividade frenética, uma jovem chamada Doris tenta o seu sonho de se tornar uma estrela. Publicado em 1932 tornou-se um best-seller, mas depois foi atirado à fogueira e esquecido até à década de 70 quando o movimento feminista o resgatou. Tem um tom de humor que o coloca na mesma linha de livros como O Diário de Bridget Jones, ao mesmo tempo é um registo histórico escrito com a precisão de um quadro expressionista e tem a universalidade própria de um clássico.

 

Redemption in Indigo, Karen Lord (Barbados) - Uma história charmosa que mistura magia (é parcialmente baseado num conto tradicional senegalês) e ficção científica, sobre uma mulher chamada Paama que recebe um presente muito especial: um objecto com o qual é possível controlar as forças do caos.

 

Fearless Fighter: The Life of Vera Chirwa - a autobiografia de Vera Chirwa, activista dos direitos humanos e a primeira mulher advogada no Malawi. Nascida debaixo do regime colonial, desde cedo tomou consciência do racismo e da descriminação instituída - duplamente por ser mulher e negra - e juntamente com o marido participou activamente na luta pela independência do Malawi (1964) e quando o poder foi tomado pela ditadura ela passou mais de uma década na prisão. A história é fácil de seguir, mesmo para quem não esteja familiarizado com a história do país, e apesar de tudo o que Vera sofreu não há aqui um traço de amargura. Uma mulher extraordinária.

 

As Invisíveis

Outro dia estava a preparar-me para ler um livro da Nadine Gordimer, mas decidi pesquisar um pouco primeiro e foi quando reparei em algo - a quantidade de vezes que vejo esta autora ser sugerida em listas, ou a Lauren Beukes (conhecida pelos seus livros Broken Monsters ou The Shining Girls, este até foi publicado cá), tudo bem que a Nadine é Prémio Nobel, mas de certeza que não há nenhuma autora sul-africana negra que possa ser sugerida? Acho que tenho de procurar melhor...Também tenho pensado em quão poucas vezes adjectivos como fortes, majestosas ou inteligentes são aplicados a outras mulheres, como africanas ou árabes. Elas são sempre submissas, pobres, analfabetas...Não vale a pena esperar que tenham algo de interessante para dizer. Encontrar perspectivas diferentes desta tem sido muito refrescante, mas é fácil cair de novo no mesmo modelo de pensamento...

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As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

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