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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Este mundo desgasta

- num curto espaço de tempo vi no Sapo Lifestyle, esse lugar de lendas, três interessantes artigos: um com o título: "É uma das mulheres mais sexy da Eurovisão, mas já foi gorda"; um sobre a idade em que se deve começar a aprender as tarefas domésticas ilustrado com imagem de uma mãe com a filha na cozinha e um sobre as vantagens de ser mãe a tempo inteiro. Que nunca nos esqueçamos nem por um único dia de qual é o nosso lugar no mundo...

 

- Pessoas que publicam frases inspiradoras sobre aceitação e logo a seguir dicas para ter um corpo de praia 

 

- O suspeito converteu-se à organização terrorista no ano tal e não: o suspeito converteu-se ao Islão no ano tal. Não pode ser assim tão difícil. Uma vez na cobertura televisiva de uma homenagem às vítimas de um atentado um microfone foi colocado à frente de uma rapariga de véu, apesar de estar ali um monte de gente que poderia falar...Se contribuímos para espalhar ódio qual é a diferença entre nós e os terroristas? Termos melhor aspecto?

 

- Ontem estava a pesquisar sobre um livro e encontrei uma opinião que dizia - "[pode] conter algumas situações que desagradam às leitoras mais feministas" Se vocês forem pouco não há problema. Ou se só forem feministas tipo uma vez por mês, quando estão com o período...

Reflexão sobre o que não vale a pena

Uma feminista tem de saber escolher as suas batalhas, fora ou dentro da net. Por uma questão de preservar a sanidade...Certas discussões não valem o esforço. Com certos senhores com certeza não valem: eles odeiam-vos. Qualquer coisa que vocês digam será de imediato seguida de uma chuva de "argumentos" misóginos e descrições explícitas sobre o que eles gostariam de fazer à vossa vagina num beco. Não percam tempo e sobretudo nunca demonstrem que estão irritadas. Mas há outro tipo de homens: os que parecem racionais e bem educados. Com certeza estes vão entender - só que não. Vivem alienados na sua própria bolha de privilégio e acham que a sua experiência é norma por isso quando vocês chegam e dizem que não, que a liberdade que eles têm não é algo que as mulheres usufruam, eles reagem como se vocês tivessem acabado de chegar do planeta HD 188753.

 

Não pode ser mesmo assim...Não estarão a ser demasiado pessimistas? Isso não me diz respeito, diz? No Coisas Que os Homens me Explicam há uma passagem sobre uma aula numa universidade onde se perguntou às alunas o que faziam para evitar o risco de violação: "as raparigas descreveram o modo intrincado como se mantinham alerta e limitavam o seu acesso ao mundo, tomavam precauções (...) enquanto os rapazes da turma (...) as fitavam boquiabertos". Pois é, não importa que eles não gritem na rua que são misóginos com orgulho, a nossa experiência não é real para eles.

 

Quando isto acontece com mulheres - os homenzinhos mencionados acima sentem-se ameaçados pela igualdade porque isso significa perderem os seus privilégios. Mesmo que os neguem, estes privilégios reservados aos homens (especialmente brancos) existem. Mas nós? Defender uma sociedade que acha que nem devíamos ter nascido? É como estarem num quarto todo arranjadinho onde todos os dias alguém entra com croissants frescos - só que vocês estão acorrentadas e não podem nunca sair dali. Algumas mulheres podem não ver estas correntes: vivendo num sítio com relativa liberdade, nunca tendo sofrido abusos podem pensar que isso é a norma. O que acontece com as outras, isso não lhes diz respeito. Podem pensar que nasceram em igualdade (não nasceram) e que não precisam dessa conversa. E olham para casos de abuso como algo isolado e não como parte de um sistema. Quando não se consegue entender o conceito de colectivo, torna-se difícil entender o resto.

 

A sociedade misógina não só exerce diversas formas de violência sobre as mulheres, como ainda as ensina a reproduzir essas formas de violência.  Se uma rapariga é castrada mentalmente e é forçada a torturar-se para corresponder a um ideal de beleza e de comportamento, ver outras que se estão nas tintas para esse ideal será uma afronta. As que dizem: fui abusada e quero justiça. Uma afronta. A reprodução destas formas de violência pode ir da indiferença, ao "acho isto tudo um exagero" até à defesa de monstros. Pode ser uma questão de comodidade. Há uns tempo num site uma rapariga dizia que costumava ir ter com o namorado para este lhe explicar matérias da faculdade. O interessante é que ela percebia a matéria. Só fazia isso para ele ter o prazer de lhe explicar coisas, a ela. À minha mente, que ainda não se tinha achado feminista mas já era aspie e literal, aquilo pareceu muito estranho. Vocês podem dizer que é uma boa atitude, que ela deve ter uma relação e uma vida sexual feliz...Talvez. Alguns homens gostam muito das nossas correntes.

 

Pode ser uma questão de consequências. Já falei aqui de uma das minhas cenas preferida do Lab Girl da Hope Jahren, quando ela faz a sua primeira descoberta - o momento em que ela sente que se tornou realmente cientista. Ao mesmo tempo é um momento solitário, ela sabe que esta é a pedrada final nas suas hipóteses de ser uma "mulher normal". No seu percurso uma mulher tem de tomar decisões que aos homens não se colocam e as consequências de quebrar as correntes podem ir desde a ideia que nunca ninguém irá gostar de nós até mesmo à morte. Não importa se somos bloggers na Europa, cientistas na América ou adolescentes no médio oriente o mundo faz questão de lembrar que para nós tudo tem um preço. O triste é que estas pessoas realmente acham que estão a ser corajosas e a nadar contra a corrente quando dizem que tudo isto é uma perda de tempo exagerada e todos esses afins - não estão. De todo. 

Feira do Livro e os esquecidos

Quando os leitores pensam na Feira do Livro é inevitável que pensem logo no que pretendem comprar e é possível que isso leve a uma reflexão sobre o que foi comprado e ainda não lido. Ao contrário do que se possa pensar a vida de um leitor é cheia de pequenas regras: não comprar demasiado, ler o que está na estante em espera, ler um número determinado de livros por ano, não desistir de uma leitura a meio...Algumas destas regras\hábitos podem trazer resultados positivos dependendo de cada um: não acho um frete ler autoras mesmo que isso signifique adiar outras leituras, já ter metas vocês já sabem: não. Em relação ao que veio da Feira o ano passado: já li tudo, menos um (alguns do ano anterior ao anterior ainda estão em espera, é verdade...) Alguns entraram para a lista de favoritos mas com as autoras portuguesas não tive muita sorte: achei o Que Importa a Fúria do Mar meh e de Os Olhos de Tirésias da Cristina Drios, a minha última leitura - tentei, mas não gostei nadinha. A vida de um leitor também é feita de altos e baixos e nunca se sabe quando será um ou outro. 

Ler Autoras: aberta a época

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A fim de me manter a par do espírito dos tempos, declaro aberta aqui a época dos casamentos (espero que isto não seja considerado spoiler) Por ordem cronologia: quatro releituras e duas leituras, sendo que o primeiro já está. Outras coisas serão lidas pelo meio é claro, mas com sorte isto não vai durar até Dezembro. No fim discutiremos a questão mais importante e profunda de todas: qual protagonista masculino é o melhor. Tenho uma ideia de quem não ficará no topo da lista, mas se verá.

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