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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Sou mulher, logo sou assassinada

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Estava a fazer scroll por uma das páginas feministas que sigo e vi menção a três sites - Unconsenting Media: a search engine for sexual violence in broadcasting. Basta colocarem o nome de um filme ou série na pesquisa e o site diz-vos se esse conteúdo contém violência sexual, como se vê na imagem acima. Até vos informa em que episódios isso acontece. O Does The Dog Die: crowdsourced emotional spoilers for movies, tv, books and more. Tem imensas categorias incluindo jumpscares, morte de uma pessoa LGBT ou discurso de ódio. No Rotten Apples podem colocar o nome de um filme na pesquisa e ver se na sua direcção ou elenco esteve envolvido alguém acusado de mau comportamento sexual. Estas páginas ajudam uma pessoa a evitar cenas que possam provocar reacções de stress e deixaram-me a pensar na quantidade de violência que consumimos e que toleramos, real e ficcional.

 

O preenchimento de todos aqueles quesitos é uma das razões porque nunca me interessei por GOT. O meu objectivo na vida é ver menos violência e não mais, já basta tudo o que se vê nas notícias. E já fico angustiada o suficiente quando autoras escrevem sobre os abusos que sofreram - não preciso de ver tortura e abuso sexual glorificado, muito obrigada. A morte e o abuso de mulheres nos ecrãs é uma epidemia global com raízes profundas, ainda a televisão não tinha cor. A sua base é a misoginia. 

 

"Melissa Silverstein reiterates this sentiment in her essay “Hollywood’s Rape Culture is a Reflection of Our Culture,” writing, “rape is a device in TV and films with such regularity that we are almost immune to it… Movies are not just movies. They are touchstones, reflections of our culture of where we are, of who we all want to be.”

(tirado daqui)

 

" (...) critics of “Game of Thrones” fear that rape has become so pervasive in the drama that it is almost background noise: a routine and unshocking occurrence"

(tirado daqui)

 

[Não fazia ideia que alguém tinha questionado o autor sobre este detalhe - parece que sim: "Mr. Martin wrote that as an artist, he had an obligation to tell the truth about history and about human nature". A última vez que verifiquei isto era uma série de  fantasia...Ou andei enganada estes anos ou esta resposta não faz sentido.]

 

Às vezes estou a ver alguém a jogar uma coisa qualquer no Youtube e estou super interessada, mas depois penso: tipo, já não é para aí a sexta ou sétima vez que vemos esta moça a ser degolada? Em anos, já perdi a conta aos jogos que, além do sexismo (como fazer a personagem feminina ter que se molhar com uma camisa branca para se ver o soutien por baixo), começam ou acabam com o assassinato de uma mulher que depois é investigado por um detective ou pelo marido\namorado - que é assombrado pela memória\fantasma dela. Outra ideia de terror popular: fazer um crime ser cometido por uma pessoa com uma doença mental (esquizofrenia costuma ser a preferida, ou uma mistura de várias...). Ou atirar o jogador para um hospício. Quantas séries já vimos cujo enredo girava em torno de uma mulher morta?

 

She dies to provide a plot twist. She dies to develop the narrative (...) She dies because no one could think of what else to do with her (...) The woman dies so the man can be sad about it. She dies to give him a destiny. Dies so he can fall to the dark side. Dies so he can lament her death. As he stands there, brimming with grief (...) the woman lies there in silence. The woman dies for him. We watch it happen. We read about it happening."

 

(The Woman Dies, conto de Aoko Matsuda na revista Granta)

 

Quantos corpos femininos mutilados já vimos em glorioso HD? E que dizer dos livros? Ler sinopses de policiais ou thrillers é como entrar num loop de corpos femininos mortos - estão sempre a aparecer mais. Não contando com aqueles livros que já trazem a palavra mulher\rapariga e\ou partes de corpos de mulheres na capa...Que ninguém vá ao engano. E tão arrepiante quanto a frequência desta imagem, sou uma mulher, logo vou ser morta, é a brutalidade dos ataques. Não somos apenas violadas, mas esfaqueadas, decapitadas, desmembradas [desumanização total], degoladas, torturadas, disfiguradas...

 

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(capas de livros de crime vintage -  a segunda tirada daqui e a

outras daqui - podem ver mais clicando em ambos os links)

 

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(capas de thrillers recentes tiradas aleatoriamente da net)

 

Como leitores\espectadores não queremos um crime qualquer, simples. Queremos detalhe, requintes de sadismo. Um fluxo constante de dálias negras para nosso entretenimento. Uma coisa fundamental que temos de entender: todos os homens são ensinados a odiar as mulheres. Todos. Porque essa é a base do patriarcado. Mesmo que um homem não manifeste ódio através de ataques directos, pode fazê-lo através de conteúdos como estes - e disfarçar com o rótulo de arte ou liberdade criativa. Pode fazê-lo violando mulheres num jogo, transferindo assim o ódio para lugares mais cómodos. Pode fazê-lo de muitas maneiras, tristemente.

 

O corpo feminino é percepcionado como um mero objecto sexual, de consumo...Nos ecrãs existe para ser devorado pelos olhares masculinos (male gaze). Não é inocente a posição em que o corpo da mulher (vivo ou morto) é colocado, a posição das câmaras e para onde elas apontam. E muitas vezes nem o cenário onde o crime ocorre - pensemos na cena do chuveiro (que nos fornece bastante material de reflexão...). Começar uma série ou filme com o assassinato de uma mulher semi-nua na cama, depois de um momento de predatório voyeurismo, ou na rua a altas horas da noite - é um recurso de terror, mas também é um reflexo do mundo real. O corpo feminino é a imagem do pecado capital da vaidade e da luxúria. Vende, dá para preencher espaços narrativos - e agora uma cena aleatória de nudez! há um prazer patriarcal em expiá-lo, em dominá-lo...

 

Muitas mulheres absorvem esta ideia extremamente tóxica de si mesmas. Mas da nossa parte essa "luxúria" paga-se caro: as que usam livremente a sua sexualidade são punidas com extrema violência. Um exemplo: se vocês gostam de filmes de terror, especialmente slasher-movies, sabem de quem os psicopatas vão logo atrás. Das mulheres sexualmente activas. Das putas. Da loura, mamalhuda e pouco inteligente - mostra os peitos, dá uns ginchos, está fora de cena. As putas são as primeiras a morrer, muitas vezes durante o acto sexual ou logo depois dele. Não é coincidência, pelo contrário: reflecte a obsessão doentia da sociedade em controlar a nossa sexualidade e reprodução. E é uma mensagem de aviso para todas nós: isto é o que acontece se sairmos dos trilhos patriarcais. 

 

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(tirado daqui)

 

A grande maioria das pessoas reconhece que as histórias são poderosas. Que Influenciam as emoções, os pensamentos e moldam a nossa visão do mundo. Que há livros que influenciaram o pensamento humano. Há listas com eles - todo o cânone ocidental. Talvez sejam capazes de fazer listas de livros ou filmes que influenciaram a sua vida particular. Mas parece-me que há dificuldade em reconhecer essa influência quando os conteúdos são danosos para a imagem das mulheres - isso é descartado como mera má ficção, só um livro...Só que não é. Sites como os mencionados também nos ajudam a fazer escolhas de entretenimento mais éticas.

 

Vocês podem argumentar que um artista morto não vai beneficiar do dinheiro do bilhete que pagaram para entrar na exposição, ou algo do género. Mas não dá para argumentar isso em relação a quem está vivo - o que significa se vocês pagam bilhete para ir ao cinema ver filmes de certas pessoas ou se sentam na primeira fila dos seus shows? Estão a ser coniventes: continua a dizer umas piadas ou a produzir arte que nós esquecemos essa parte de atacar sexualmente outros seres humanos...Temos responsabilidade pelo que produzimos. E também pelas escolhas de consumo que fazemos.

A culpa é de Marte...Ou não

No fim de semana passado li um pequeno livro juvenil. Tinha coisas que me aqueceram o coração: mulheres com poderes mágicos, relações femininas fortes, um tema social importante, a diferença entre um homem a sério e aquele que não é - desconfio que nem colocada da maneira mais simples algumas pessoas perceberiam a diferença. E o que um homem a sério pode fazer para nos ajudar, especialmente quando certas situações acontecem. Gostava que a história fosse mais desenvolvida, mas fiquei contente ao imaginar adolescentes a lê-la...

 

Nunca cessa de me espantar a dificuldade que é encontrar um personagem masculino decente em livros juvenis. Sim, os YA são o exemplo sempre à mão - porque se lê lá cada coisa que não se acredita e porque são lidos por muitas jovens. Imaginem-nas a ler um livro em que o protagonista (não um tipo secundário qualquer, mas o que namora com a moça da história) fala sem parar três páginas seguidas ou está sempre a interrompe-la, é metido a besta, diz que precisa de fazer sexo naquele momento se não morre..A lista podia continuar. Juntem protagonistas apagadas que vivem numa espécie de bolha sem relações significativas com mães, irmãs ou até amigas. Que cocktail explosivo.

 

Gostaria de me lembrar de mais do que dois ou três exemplos de jovens protagonistas que namoram com tipos decentes. Um tipo marca pontos no meu coração quando diz que a rapariga fica bem de martelo ao ombro ou quando não se aproveita dela num momento frágil - é assim que um ser humano tem obrigação de se portar, sem ficar à espera de receber um prémio. Mas em face da realidade fica difícil elevar os padrões.

 

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A situação no cinema não é melhor. A menos que vocês se sentem para ver a Wonder Woman. Não tenho culpa que isto encaixe outra vez no tema. Porque o Steve é um tipo decente: não diz cretinices, não usa como desculpa o facto da Diana não saber como funcionam algumas coisas neste mundo para ser condescendente nem faz birra por ser ela a liderar um combate - não seria a atitude mais sensata quando a vossa parceira tem super poderes. Mas não é o que estamos habituadas a ver...

 

 

Encontram-se mais exemplos negativos porque o patriarcado influencia tudo e arruína tudo. E não pensem que escapam só porque vêem filmes ou lêem livros mais cultos. Só recentemente me apercebi de quantos autores constroem carreiras à volta do seu próprio pénis. Quando paramos para analisar o modo como descrevem as coisas ou as escolhas que fazem essa verdade torna-se evidente. O resultado de uma sociedade masculina tóxica que odeia as mulheres, e que priva os homens de um bom desenvolvimento emocional e empático.

 

A masculinidade tóxica atinge o pináculo no conceito do macho alfa. É triste que tantos autores e autoras façam da sua missão de vida encher os escaparates com livros protagonizados por esse tipo de espécimes. Como se fosse algo sexy. E é triste que tantas mulheres consumam este tipo de conteúdos, esperando encontrar relações assim na vida real...Com as previsíveis consequências. Quanto mais um tipo se tenta encaixar neste estereótipo menos humano se torna. E menos homem. É irónico...

 

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Não estou a dizer que se devem criar personagens perfeitas. Se pegarmos em alguns clássicos: certo, o caríssimo senhor Rochester tem muito que expiar e aprender e o senhor John Thornton [Norte e Sul] embora tenha menos para expiar porque é bem comportado, parece um bulldog teimoso. Mas se pensarmos nas reviravoltas que acontecem na trama e naquilo que vão provocar no fim, não podemos dizer que estes dois ficam na mesma tal como no primeiro capítulo. E nem jane nem Margaret servem para vaso decorativo. Aprender e mudar é humano. É diferente de achar que ser cretino deve ser a base formadora da personagem e que não deve mudar. Afinal é o que elas gostam. Elas, que não têm a hipótese de se tornarem mais interessantes que um vaso...E muitas vezes a cretinice vem disfarçada. Ele não é mau tipo, só é um rebelde, incompreendido...

 

Parem de arranjar desculpas esfarrapadas para comportamentos de merda. E que condenamos logo quando se trata de uma ela. Gosto de inventar personagens: é bom para adormecer, para fingir que estou interessada em conversas e agora percebo que é um bom exercício para ver que ideias sexistas estão cá dentro...De modos que decidi começar a eliminar traços de masculinidade tóxica dos meus homens: torná-los mais suaves, com mais emoções e interesses mais variados. Não quero saber se neste país se venera quem tem músculos, gajas e carros, agressividade e ego exacerbado - uma pausa para eu conter as náuseas. A sociedade patriarcal é que restringe a liberdade e a expressão individual não o feminismo, não a igualdade. O primeiro diz que uns vêm de Marte e outros de Vénus. O segundo diz que vocês podem vir do planeta que quiserem. Não é uma perspectiva muito melhor?

Não é uma celebração. É uma mentira

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(Tirado daqui)

 

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(tirado daqui)

 

A minha reação:

 

 

Melhor do que usar tinta seria terem usado um machado. Já não basta essa merda dessa foto estar em todo o lado. Até quando vamos permitir que homens brancos continuem a manipular a História? Até quando vamos engolir passivamente o produto dessa manipulação - uma versão da História enviesada e mentirosa? Permitir que as nossas raparigas aprendam isto? Que elas não valem nada, que até devem agradecer terem sido beijadas à força por um bestalhão qualquer? Vivemos num mundo em que pessoas se passeiam alegremente com bandeiras racistas e defendem conteúdos que promovem o abuso sexual, mas há quem olhe para imagem e diga: que maldade terem vandalizado o património, isto já foi longe demais!

 

E uma simples estátua de uma menina sentada representando todas as raparigas e mulheres que foram sexualmente escravizadas durante a guerra provoca uma crise diplomática. Quanto mais tempo vamos aceitar ficar de fora da História, ter o nosso sofrimento obliterado porque não é importante? Mas o grupo dominante nunca está satisfeito: tem que ter sempre mais livros, mais estátuas, mais filmes...Glorificando o seu poder.

 

Mary Beard no seu livro Mulheres & Poder dá um excelente exemplo: a estátua de Benvenuto Cellini, Perseu Segurando a Cabeça de Medusa. Que não apenas mostra o herói erguendo a cabeça cortada de Medusa enquanto pisa o seu corpo morto, mas também Aquiles a raptar violentamente uma princesa troiana. A cena do beijo ali de cima é descendente desta. Claro que não podemos dizer que tal obra é um símbolo claro de demonstração de poder patriarcal - é "arte". E aquele realizador é um "artista" e vamos todos perder se ele não continuar a fazer filmes. Chega de mentiras.

 

Bravo também para a pessoa que escreveu isto em resposta à notícia no Twitter. Diz tudo e assim não preciso eu de escrever um texto maior - e que iria incluir mais vernáculo.

 

"It represents misogynistic culture. The nurse didn't know the soldier, and the soldier didn't ask to kiss her. In that era, men treated women like pets, and that iconic photo is an example."

 

"The nurse didn't consent. I wonder how many decades we'll have to fight defensive old people, who try to brand misogyny, racism, and homophobia as traditional and cultural."

 

"The nurse may not have felt violated or offended. That doesn't make it okay. Do you have any idea how much sexual harassment women dealt with back then? What was normal to them? If one slave refused freedom, does that minimize the severity of slavery?"

Um mundo ao contrário...Ou não

É muito frequente as pessoas dizerem coisas como - "concordo contigo, mas não te esqueças que as mulheres também fazem y e z" ou "ao dizer isso estás a ser sexista para com os homens". Há quem use isto numa tentativa de invalidar argumentos feministas. Acho que vale a pena nos debruçarmos sobre esta questão. Será que existe sexismo ao contrário? Podemos dizer que certo livro ou filme é racista em relação a brancos? Na minha opinião a resposta é não. A violência de género e racial tem características específicas que não se aplicam se invertidas. 

 

1.Todos os dias em todo o lugar

 

A violência contra as mulheres não é algo esporádico nem específico de um certo período ou local. É algo que acontece todos os dias em enorme escala ao redor do globo - século após século...Está entranhada no tecido social. Por isso é considerada normal e não é sancionada. Há quem diga que nos devíamos era preocupar com as mulheres que são realmente abusadas em alguns países - nunca percebi esta ideia de ser cego perante os problemas de género que estão debaixo do nariz, como se houvesse um machismo mais suave. Não há. E também há quem sofra de amnésia esquecendo-se que aqui mesmo há relativamente poucos anos uma mulher era um nada perante a lei. As experiências de descriminação são semelhantes onde quer que se esteja.

 

Escolha a sua preferida!

 

O Código Civil (1966) estabelecia que "a falta de virgindade da mulher ao tempo do casamento" podia ser motivo para a sua anulação. Os contraceptivos não podiam ser tomados contra a vontade do marido, que podia alegar este facto para pedir o divórcio

 

Antes de 1969 as mulheres não podiam viajar para o estrangeiro sem a permissão escrita do marido ou do pai

 

Até 1975  o Código Penal consagrava os “crimes de honra”, permitindo que um marido ou pai matasse a mulher adúltera ou as filhas menores de 21 se “corrompidas” com castigo máximo de 6 meses de desterro da comarca. Quando se tratava de um marido a prostituir a mulher a pena era igualmente inócua: desterro, multa e perda de "direitos políticos por 12 anos"

 

Até 1976 os maridos tinham o direito de abrir a correspondência das mulheres

 

Os maridos podiam impedir que as esposas trabalhassem. Só depois do 25 de Abril as mulheres se puderam candidatar à magistratura judicial, ao ministério público, aos quadros de funcionários da justiça, a todos os cargos de carreira administrativa local e carreira diplomática. Só mulheres solteiras podiam ser enfermeiras, telefonistas ou hospedeiras. 

 

 

2. Todas somos um alvo 

 

Tal como o racismo e a homofobia, a violência contra as mulheres não visa este ou aquele indivíduo - é um esforço concertado para forçar à submissão e ao silêncio um género inteiro. Não é apenas quem vive ao nosso lado, são todos os que pertencem a esse grupo na cidade, no país...Não há escapatória

 

3. Com muito poder vêm muitas tragédias

 

Outro aspecto fundamental para entender porque a misoginia tal como o racismo e a homofobia não funcionam em reverso é este: são demonstrações de dominância de um grupo sobre outro. Ora, quem domina? Quem detém o poder. E quem detém o poder? Homens brancos.

 

Encontre o Wally!

 

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(Do filme Hidden Figures)

 

Vocês podem ter preconceitos. Podem odiar homens e decidir que têm de expressar isso. Mas qual vai ser o impacto? Pouco ou nenhum. Só que enquanto expressam essa opinião há um grupo de homens brancos numa sala a fazer uma lei para eliminar o planeamento familiar e a desejar que a violação se torne legal. Nunca em momento algum mulheres ou minorias tiveram uma tal concentração de poder e representatividade que lhes permitisse influenciar negativamente e de forma profunda a vida de outros, como homens brancos fazem desde sempre. É por isso que a diversidade é tão importante: para que o poder fique distribuído em vez de concentrado. E para que outros também tenham voz.

 

4. Um campo minado

 

Esta dominância é exercida tanto de formas directas como indirectas. Quanto mais obstáculos forem colocados no caminho de mulheres e minorias menos conseguirão chegar a cargos de decisão e assim o poder continuará nas mãos do mesmo grupo privilegiado. Ao olharem para um qualquer painel só composto por homens brancos não pensem que eles estão ali exclusivamente por mérito. Quanto mais as mulheres forem mantidas na pobreza e na iliteracia mais fáceis serão de controlar. Quem quer um escravo que saiba ler?

 

E quanto menos conscientes estiverem do seu valor melhor - vai ser isso que irão transmitir às filhas continuando o círculo vicioso de opressão. A misoginia usa a violência física e a lei, mas também actua a nível psicológico no dia-a-dia. Os resultados são devastadores pois afectam não apenas aquela geração de mulheres mas igualmente as seguintes como um campo minado que ainda mata muito depois de terminada a guerra. É uma violência que actua de modo profundo a longo prazo.

 

Uma menina, mesmo que nasça numa bem equipada maternidade de um país desenvolvido já está em desvantagem à partida - desvantagem esta que vai aumentando ao longo da vida. A sociedade tenta provar que estes obstáculos são imaginários, que vivemos na tal meritocracia e que portanto a falta de representatividade é culpa das mulheres, menos dotadas para certas áreas. Pensando bem que outra explicação poderia haver...

 

 

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(Notícia de 07/08/2018. Completa aqui

 

 

 

5. O que é liberdade? Viver sem medo

 

O medo é uma arma de opressão e subjugação por excelência. Podemos pensar que depois de uma mulher ser abusada num campo universitário é normal que as outras comecem a  tomar precauções. O que sucede é que as mulheres limitam a sua experiência do mundo desde meninas mesmo antes de terem contacto directo ou indirecto com uma situação de abuso. Elas sabem que devem andar em grupos, que devem mudar de rua, que não devem aceitar qualquer copo de bebida, etc,etc...

 

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(Young girl in a school for black civil rights activists in 1960

being trained to not react to smoke blown in her face)

 

Elas sabem que podem ser as próximas. Que os seus filhos podem ser os próximos a ser brutalizados no meio da rua. E levantar a voz é perigoso e tem consequências. Homens brancos não passam por este tipo de medo. Eles não limitam a sua experiência depois de tomarem conhecimento de um caso de abuso e ficam genuinamente espantados quando sabem das múltiplas precauções que nós tomamos. Porque cresceram num mundo que diz que o espaço todo lhes pertence, que não há porque aquela porta não estar aberta...A ideia de deixar de dizer alguma coisa por medo ou por achar que ninguem vai ouvir, ou não ter controlo sobre o próprio corpo nem sequer se coloca. Ao contrário do que tem sido dito recentemente: Eles nunca estiveram em perigo nem estão.  

 

6. Feminismo é a palavra

 

A violência contra as mulheres cria problemas que nos são específicos - é por isso que a palavra deve ser feminismo [interseccional] e não igualitarismo ou que quer que seja que tenham inventado agora. Precisamos de livros e filmes sobre personagens femininas porque são elas que são apagadas da História. Não precisamos de um dia do homem nem de livros com personagens masculinas (embora ambas as coisas existam), porque todos os dias são dias do homem e nunca as conquistas deles deixaram de ser celebradas. E que as vidas brancas importam já toda a gente sabe

 

Não tem sentido alguém ficar ofendido quando se fala em misoginia e em violência contra as mulheres. Nos últimos tempos o feminismo tem chamado a atenção para o problema da masculinidade tóxica. É importante que se perceba como o conceito tradicional do que é ser homem e do que é ser mulher nos torna infelizes e a responsabilidade que tem na agressividade masculina e nas taxas de suicídio, por exemplo. Escrevi sobre isto neste texto.

Livros, sexo e bruxas: uma reflexão

É curioso analisar o modo como as pessoas ao longo do tempo se têm vindo a referir a coisas naturais da vida: gravidez, sexo, menstruação...De certeza que já se fizeram estudos e se há livros sobre o assunto gostaria de os ler. Já contei aqui que uma das minhas expressões favoritas, pescada em livros vitorianos, é: a Mary está num estado interessante. Para dizer que a Mary está grávida. Se eu vivesse na altura ia sentir-me ofendida. Parece implicar que eu não seria interessante no resto do tempo. Há uma passagem no A Tree Grows in Brooklyn em que a protagonista comenta as diferenças entre grávidas:

 

"I guess that's why the Jews have so many babies," Francie thought. "(...) And why they aren't ashamed the way they are fat. Each one thinks that she might be making the real little Jesus. That's why they walk so proud when they're that way. Now the Irish women always look so ashamed. They know that they can never make a Jesus (...) 

 

É possível compreender uma sociedade ou momento histórico através do corpo de uma mulher: o nosso cabelo, a nossa pele, até os nossos músculos registam o mundo...Como se fôssemos livros de História andantes. No Orlando, a dado capítulo entramos no século XIX: época vitoriana, muito repressiva. Isso transparece em todos os aspectos da vida - os géneros distanciam-se ainda mais, o discurso passa a estar cheio de evasões e dissimulações. 

 

"Mas é verdade, senhora — perguntou a boa mulher, toda encolhida (...) que a rainha — bendita seja — está usando o que se chama uma — a boa mulher hesitou e corou. — Uma crinolina — ajudou Orlando"

 

Ou seja: a rainha estava prenhe (a crinolina era usada para esconder o facto). O vestuário impede mais do que nunca os movimentos das mulheres: 

 

"Era o mais pesado e banal de todos os trajes que já usara. Nenhum lhe impedira tanto os movimentos. Não poderia mais passear pelos jardins com os seus cachorros (...) Seus músculos tinham perdido a flexibilidade. Ficou com medo de que houvesse ladrões atrás dos lambris, ou, pela primeira vez na vida, fantasmas nos corredores."

 

Infelizmente, o mundo em que vivemos ainda é muito desigual e racista e isso nota-se no que dizemos: provérbios, expressões populares, canções...Por estarem tão entranhadas no tecido social é  difícil para muita gente entender que não são coisas inofensivas, mas coisas que normalizam a violência contra outros. De certeza que há canções melhores para cantar às crianças do que o Sebastião que come sem colher ou o gato que leva com o pau...

 

A sociedade patriarcal é hábil na manipulação do discurso, do modo como ouvimos e como avaliamos o que ouvimos - é ingénuo pensar que o género não tem influência nessa avaliação. Quando pensamos num discurso sério e assertivo, talvez numa assembleia ou num palanque perante uma multidão, qual é o género que associamos de imediato? E se pensarmos numa voz irritante?

 

Muita gente reclama da voz da Cristina Ferreira, mas poucas reclamam dos comentadores de futebol à volta de uma mesa a gritar e a insultarem-se. Acho isso mais do que irritante, é tóxico. Hábil na manipulação das palavras. No Monólogos da Vagina há um monólogo que consiste em repetir a palavra cunt varias vezes. Exige coragem fazer isso num palco. Mas a verdadeira origem da palavra é esta: "the Indo-European word cunt was derived from the goddess Kali’s title of Kunda or Cunti, and shares the same root as kin and country." Era uma palavra imbuída de iluminação e poder feminino. Spinster, gíria para solteirona, designava uma fiandeira. Agora servem de pedras de arremesso.

 

A palavra e o conceito de bruxa é outro exemplo. Geralmente nenhuma menina quer ser uma bruxa, isso significa ser má e feia - é o querem que acreditemos. Mas não há conceito mais anti-patriarcal: bruxas são independentes, vão onde lhes apetece, não são agradáveis à vista, elaboram planos, são ambiciosas...Já as princesas são eternamente desejáveis, sem defeitos, sempre a precisar de ajuda porque a acção é sempre algo que lhes acontece e nunca algo que elas provocam. As bruxas têm poder. Que insulto é muitas vezes atirado às mulheres na política? Exactamente. Elas têm poder e por isso devem arder. Que longa experiência temos disso, metafórica e literalmente. Isto também serve para nos separar: deste lado estão as falhadas, as loucas com a casa cheia de gatos, as putas...Sê boa menina para não acabares assim. Mas esta linha é uma ilusão.

 

Sempre achei graça aos romances em que uma moça não está grávida num capítulo e no outro já está, sem nada no meio. Sentia-me um bocado defraudada. Por exemplo, em todos os seus romances a Jane [Austen] interrompe a história no altar deixando espaço para especularmos sobre variadas coisas, nomeadamente as consideradas impróprias. No último livro que li, a amiga da protagonista pergunta-lhe se dormiu com um certo sujeito. Presumo eu, já que a pergunta foi feita timidamente...

 

"Oh, não, Regina, nunca! Pois tu cuidas que se tivéssemos transigido com o nosso desejo (...) se numa só hora de fraqueza as nossas vidas se entrelaçassem na comunhão absoluta das nossas existências (....) tínhamos ambos a certeza (...) que no momento em que a fatalidade do amor nos fizesse beber pela mesma taça o filtro de Iseu, a nossa carne, o nosso sangue, a nossa vida, não poderia mais ser dominadas pela própria vontade!"

 

Isto é que é classe! Acho que devia ser considerado sexy gemer em português arcaico. Em outro livro a protagonista diz ao seu par: que lhe apetecia fazer aquela coisa em que tinham prazer juntos. Achei adorável, embora não me pareça que seja algo que a grande maioria das mulheres no mundo possa dizer. A nossa protagonista era uma moça feliz. Pessoalmente, não gosto muito da expressão fazer amor quando é usada como eufemismo - porque há coisas que uma senhora não faz nem diz. Se escrevesse um livro colocava-lhe o título: as mulheres também fodem.

Tiroteios, homens e flores pisadas

Quando ocorrem tiroteios fala-se logo na questão das armas e na questão da saúde mental, mas nunca se aborda um aspecto que a maioria destes massacres têm em comum: serem cometidos por homens [brancos]. Apesar das mulheres também serem afectadas por problemas psicológicos e terem acesso a armas. A violência provocada por homens, motivada por conceitos distorcidos de masculinidade, é o elefante no meio da sala...Mas temos de encarar o facto: que esta é também uma questão de género, profundamente enraizada na nossa ideia tradicional do que é ser homem:

 

“While mass shooters are often seen as “outliers or oddballs ... we should actually think of them as conformists,” says Tristan Bridges, a sociologist at The College at Brockport, State University of New York, citing research on masculinity by expert Michael Kimmel. “They’re over-conforming to masculinity, because they perceive themselves, in some way or another, as emasculated.... It’s a terrible statement about American masculinity, to say that when you’re emasculated, one way to respond is to open fire.”

(tirado daqui)

 

E que não emerge apenas quando acontecem massacres, mas nas mais variadas esferas da vida, quer estejamos em Lisboa ou em Nova York. Ser o mais valente, o mais forte, o mais racional, o que enfia a pila em mais conas, o que tem os outros abaixo de si, o que não aceita um não...É isto que o mundo diz que um homem a sério deve ser. Valores amplamente promovidos em todo o lado: anúncios, eventos desportivos (e no tipo de individualidades que se idolatra), no modo como tantos políticos falam e se apresentam, tantos filmes, aquilo com que os miúdos brincam...A onde é que esta masculinidade tóxica nos leva? A abuso e morte. 

 

“General periodic reminder: The term “toxic masculinity” does not mean “all men are toxic.” It refers to cultural norms that equate masculinity with control, aggression, and violence and that label emotion, compassion, and empathy “unmanly.” 

(tirado daqui)

 

Estas normas culturais privam os homens de apreciarem coisas na vida, pelo medo de que isso os faça parecer menos machos: livros (este livro tem uma rapariga como personagem principal, será que me vai interessar?), música (sou homem, será que devo ouvir isto?), vídeos (este vídeo de coelhinhos é tão fofo, agora preciso de socar a parede para a minha masculinidade voltar)...Parece piada mas não é. Estou sempre a encontrar comentários como estes e dá-me sempre vontade de dizer aos tipos para não esmurrarem as paredes, não me parece algo que valha a pena ter de volta...

 

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Priva-os de ter uma conexão real com alguém, porque tudo se torna uma ameaça. Não vão ouvir o que os subordinados têm a sugerir, porque afinal quem é que manda ali? Não vão ouvir a boa ideia de uma colega, porque uma mulher saber mais sobre algo do que eles é ofensivo (então pegam na ideia e dizem que foi sua. Um clássico), vão impedir a esposa de aceitar uma boa promoção porque quem é que manda em casa? Nem pensar em ter uma mulher que ganhe mais. Como é que uma pessoa pode aprender, partilhar e crescer se não ouve? Se tudo gira em torno de dominar e controlar?

 

As ideias que somos forçados a engolir sobre o que é um homem, o que é uma mulher - tudo mentira. E é irónico, porque o sistema dá a entender que quanto mais vocês se conformarem a estas mornas de masculinidade mais fortes se tornam - quando é o contrário. Mais frágeis os homens se tornam. Basta ver o ego de alguns. E é por demais evidente no modo como tentam argumentar ou ter uma conversa, que suplício...Ou como reagem a um não.  

 

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(ver notícia) 

 

Literalmente o oposto de alguém confiante e racional. É tão tóxico que até afecta a relação entre entre pais e filhos. Não é apenas o problema de deixar todo o trabalho para a parceira, mas há realmente tipos que acham gay um pai abraçar o seu filho bebé ou que acham indigno carregá-lo no canguru. Não podemos defender um ideia de masculinidade que priva homens de desenvolver empatia até para com a sua própria família. Imaginem como seria diferente o mundo se aqueles que olham para a sua esposa como uma verdadeira companheira, em vez de uma coisa que está ali para obedecer, não fossem a minoria...O quanto se perde por continuarmos a viver num sistema que incentiva os homens a olharem só para a própria pilinha em vez de olharem à sua volta.

 

A questão da empatia é muito preocupante:

 

“Men are often raised to be stoic, to suppress emotions rather than understand them, and when they struggle, often the only emotion that they see as sufficiently masculine to express is anger”

 

(tirado do primeiro artigo citado)

 

A empatia é algo que nos torna humanos: nascemos com uma gama tão variada de sentimentos e modos de os expressar! Quando se mina o desenvolvimento emocional e se priva gerações de rapazes de adquirirem competências afectivas fundamentais o resultado são monstros. Existe tanta coisa no mundo para amar: tantas pessoas e seres diferentes. Tanto a que podem demonstrar afecto e pelo qual podem fazer algum bem...Mas envergonhamos um rapazinho por apanhar uma flor e aplaudimos aquele que a pisa...

 

O que acontece quando se força alguém sistematicamente a suprimir emoções, quando se passa a ideia de que conversar é coisa inútil (de mulher), que procurar ajuda é humilhante e que violência é a melhor maneira de mostrar status e ganhar respeito? A resposta: tipos que preferem enfiar uma bala na cabeça a passar por “fracos”, milhões de raparigas e mulheres mortas ano após ano, o sangue de pessoas que apenas estavam ali...Basta! Estou farta de “homens a sério”. Quero seres humanos. 

 

“I want the same things for my son. I want him to know that he can be strong and brave but that he can also be sensitive and kind. I want my son to have a high emotional IQ where he is free to be caring, truthful, and honest. It’s everything a woman wants in a man, and yet we don’t teach it to our boys.

 

I hope to teach my son not to fall victim to what the internet says he should be or how he should love. I want to create better representations for him so he is allowed to reach his full potential as a man, and to teach him that the real magic he possesses in the world is the power to affirm his own existence.”

 

(Beyoncé. Tirado daqui)

Ideias importantes sobre consenso e sexo positivo

Não tinha planeado este post, mas ontem estava a pensar que além de haver tanta gente que parece simplesmente não ver a violência sistemática contra as mulheres, há um número arrepiante que não entende o significado da palavra não nem entende o conceito de consentimento. Reuni alguns pontos importantes sobre isso. Obrigada de antemão a quem quer que esteja desse lado a ler.

 

Ponto 1: o consentimento não tem excepções. O vosso não é sempre válido, sempre! Não interessa com quem estão e em que fase - se ainda estão no restaurante ou no quarto já sem roupa. Quando alguém diz para parar, é para parar. Fim da história. Até podíamos correr nuas pela rua e ainda assim não haveria desculpa para uma agressão sexual. Não interessa a vossa roupa, cor, profissão, o que fizeram antes, o número de parceiros sexuais que tiveram. Não há desculpa. NUNCA.

 

Ponto 2: é válido mudar de ideias. Não interessa se foram para o quarto com a ideia de fazer sexo, se chegaram lá e mudaram de ideias - é totalmente válido mesmo que já estejam na cama. É válido em qualquer momento. Não continuem com algo com a qual não estão confortáveis. Já sabias ao que ias, estavas a pedi-las. Não acreditem nesta merda.

 

Ponto 3: O corpo é vosso, vocês devem tomar as decisões que acharem melhor. Querem esperar, não estão preparadas - isso é totalmente válido. Arrepia pensar no número de raparigas que se sujeitam, porque ele quer e é tudo uma questão de “relaxar”. Não! Ignorar as dúvidas da outra pessoa descredibilizando-as dizendo que ela está a complicar tudo, usar meios para ela “relaxar” ou coagi-la do tipo se recusas mostras que não me amas...Amor envolve respeito e envolve saber ver quando um lugar e um momento não são apropriados e quando a pessoa não está confortável. Ignorar isso e continuar: mesmo que o não, não tenha sido dito explicitamente - é violação.

 

“Ele também me beija, e logo estamos nos agarrando como se fosse a única coisa que soubéssemos fazer. Não é o bastante. Minhas mãos descem pelo peito dele, e ele está com um volume em outras partes além dos braços. Eu começo a abrir o zíper da calça jeans dele. Ele segura minha mão.

— Opa. O que você está fazendo?

— O que você acha?

Os olhos dele observam os meus.

— Starr, eu quero, quero mesmo…

— Eu sei que quer. E é a oportunidade perfeita. — Beijo o pescoço dele e acerto cada uma daquelas sardas perfeitamente posicionadas. — Não tem ninguém aqui além de nós.

— Mas a gente não pode — diz ele, a voz tensa. — Não assim.

— Por quê? — Eu enfio a mão na calça dele com a intenção de tocar no volume.

— Porque você não está bem.

Eu paro.

Ele olha para mim e eu olho para ele. Minha visão fica embaçada. Chris passa os braços em mim e me puxa para perto dele (...) Ele me deixa chorar tanto quanto preciso”

 

(eu queria muito arranjar forma de encaixar esta cena num post)

 

Ponto 4: não têm de fazer sexo para mostrar que gostam de um tipo. Esta ideia está em todo o lado: amo-te agora abre as pernas. Bullshit! O Amor não é um dever. Isto leva ao Ponto 5: uma mulher não deve sexo a homem nenhum. Não interessa se é vosso namorado ou marido ou o que for. Vocês são seres humanos completos e têm o direito de estar com alguém que faz coisas para vos ver felizes não simplesmente porque quer enfiar a pila.

 

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Nunca percebi qual é a dos maridos que lavam um copo e esperam que a mulher se ajoelhe logo, ainda menos quem se finge amigo só para isso. Vão-se foder com a vossa friendzone. Ponto 6: maridos (parceiros) também podem ser violadores. O problema não apenas o simpático estudante nota 20 que faz voluntariado e que violou uma rapariga à saída de um bar, mas também os que o fazem a coberto de instituições socialmente aceites. Não importa que estejam casadas há 10 anos - é violação.

 

Ponto 7: uma mulher têm o direito de dizer ao seu parceiro para usar protecção. Arrepia pensar em raparigas assustadas até para dizer ao namorado para usar um preservativo. A nossa segurança vem em primeiro lugar! Podemos fazer as perguntas que quisermos e devemos poder dizer o que queremos e o que não queremos, o que gostamos e o que não. Não é feio nem é sinal de promiscuidade falarem de sexo com o vosso parceiro. Se ele ficar chateado, então é um idiota. Não percam o vosso tempo com tipos assim. Temos de ensinar as raparigas que elas têm valor e que não se devem anular a favor de ninguém. Isto pode prevenir uma vida inteira de sofrimento.

 

Ponto 8: o nosso prazer é importante. Temos o direito de ser felizes na cama com outra pessoa. Quem é que tem o único órgão do corpo humano cuja única função é o prazer? Exactamente! E não só. Não é admissível ainda termos em países que afirmam ser civilizados, mulheres que nunca tiveram um orgasmo ou qualquer tipo de intimidade real na vida ou que suportam dores e desconforto.

 

 

Ponto 9: assédio não é piada, é uma agressão que deve ser punida. há quem ainda não tenha percebido que temos o nosso espaço e o direito de decidir quem nos irá tocar e em que circunstâncias. Toques e elogios não solicitados tal como as violações são motivados por dominância: eu ponho a mão aqui porque quero e posso e não há nada que possas fazer. Mas quem quer ser macho alfa que vá para selva. Não temos de tolerar esta merda em lugar algum.

 

Ponto 10: temos o direito a ser ouvidas. Quando acontece sabemos o que tanta gente diz. Vão dizer que é melhor ficarem caladas. Vão esmiuçar a vossa vida, insultar-vos...dizer que a culpa foi vossa. Não acreditem e não se esqueçam que há milhões de mulheres em todo o mundo a passar pelo mesmo, algumas tão longe, como no Congo, outras tão perto que é só virar a esquina. Não estaremos sozinhas.

 

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 (The Clothesline Project)

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