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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Feira do Livro: compras (e certas tristezas)

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Começando pelas tristezas: os planos previamente traçados (e até abordados aqui) tiveram que se resumir apenas a um: conseguir sair de casa. Porque a minha ansiedade decidiu que estava na altura de um meltdown. Mas já que a Feira não ia estar aberta até o meu humor estabilizar e já que não comprava livros há quase um ano (verdade), fui. Vi tudo, nada em especial me fez palpitar. Pode ter sido influência do meu estado de espírito. Só talvez um Pynchon numa das bancas de usados, mas tal como o ano passado não queria autores. Decidi partilhar esta informação com quem estava comigo e recebi olhares de incompreensão. Como uma das minhas resoluções para este ano é maçar pessoas também fora da internet com o meu feminismo irei persistir. Acabei por trazer o que já tinha pensado: a Simone e a Svetlana. As Cientistas é um livro ilustrado que destaca as contribuições de várias mulheres notáveis no campo das ciências. Achei fofo. Diz na parte de trás: "É um facto científico: as mulheres são o máximo!" Fora isto não choveu e vi vários Pugs. Esta informação é muito importante. 

 

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Depois voltei para aproveitar a hora H. Já estava mais próxima do meu estado de espírito costumeiro na FL: o quer ver e trazer tudo. Mas desta vez levei mesmo uma lista, uma folhinha impressa. Fui pesquisar ao site para saber o preço e onde encontrá-los (alguns não apareceram na pesquisa não sei porquê, mas depois dei com eles lá...). E andei a abordar funcionários. Já não sei quem sou. Tudo bem que a lista só tinha quatro títulos. Foram esses que trouxe: o da Rebecca, outro da Svetlana -sim, já li o War's Unwomanly Face mas não o tinha e os outros dois dela desta editora que sobravam (As Últimas Testemunhas e Rapazes de Zinco) não estavam em promoção. Além disso estou em fase de seleccionar livros leves para ler na praia; o da Maria Teresa Horta que ouvi dizer por aí que era bom e o da Siri que encontrei referenciado numa lista algures. Claro que tinha que trazer uns fora da lista...Mas a Meg também estava em promoção (só A Paixão Segundo Constança H não estava por ter sido reeditado agora). Verão só custou três euros. Estou contente, ainda que tenha a noção que isto saiu branco demais. Felizmente tenho alguns títulos em espera que irão equilibrar. 

Falando sobre quotas e poder

É frequente quando surgem notícias de governos com várias mulheres ou a notícia de uma mulher que foi nomeada para um qualquer cargo de prestígio, ou quando se fala de quotas aparecer logo alguém a dizer coisas como: "não importa quem é escolhido desde que seja competente", "isto é sexismo ao contrário ou também seria notícia se fosse um homem" ou "as quotas são cancerígenas". Vamos falar de cada um começando pelo primeiro: imaginem que entram numa sala onde deputados estão a discutir saúde reprodutiva e reparam que todos ali são homens, brancos e que uma boa metade já está na meia idade. Nenhuma deputada ou médica presente. Iriam sentir-se confortáveis? E se um deles dissesse que as mulheres podem engravidar pela boca? Não importa quão competentes são estes políticos (Isto é válido para os muitos conteúdos que mostram apenas pessoas brancas e esbeltas). No fim do dia não há ninguém naquela sala que possa compreender a vossa experiência. 

 

"Isto é sexismo ao contrário! Porque não destacar apenas pessoas sem falar em géneros?" "se há uma Wonder Womam devia haver um Wonder Man!" "Se há dia da mulher porque não há dia do homem?" Tudo isto não passa de misoginia disfarçada...Quando o filme estreou, este exemplo é tão bom, e uma cadeia de cinemas decidiu fazer uma sessão só para mulheres, alguns homens irados estavam prontos para fazer um motim. Comparem isto, um coisa que em nada prejudicaria a sua vida, com séculos de repressão e violência  contra nós...O que achariam de uma pessoa que vai ao hospital por um aranhão que fez com o bico de um lápis e que insiste em passar à frente de alguém que levou um tiro? O ano passado saiu um livro: The Power, Naomi Alderman. Fui ao Goodreads e está lá esta singela pergunta: what would happen if an author wrote a book about men having the power to electrocute to death, women? Respostas: it would be under history category; It would be just like the everyday news section. Touché. 

 

A misoginia, tal como o racismo, está ligada a dois conceitos: poder e dominância. Neste momento o poder continua concentrado nas mãos de homens brancos e muitos desses podem tornar a vida de quem é não igual a eles muito, muito difícil. Vocês até podem odiar homens mas não têm o mesmo poder nem o mesmo nível de representatividade que vos permita influenciar negativamente e de forma profunda a sua vida, quantas vezes nem a nível local ou mesmo pessoal. Por terem todo este poder, este grupo privilegiado exerce à vontade a sua dominância em todos os aspectos da vida e ser ou não afectada por ela não é uma escolha. Não obrigo nenhum senhor a ler os meus textos, eles podem escolher fechar a janela e seguir o seu caminho. Mas eu não posso escapar a uma lei que diz que é legal um homem abusar sexualmente de mim. 

 

A ideia de existirem quotas chateia muita gente que diz que as pessoas devem ser escolhidas por mérito e valor. Calculo quem diz isto dá por adquirido que quem está no topo foi escolhido por esse motivo antes de tudo. Nós devemos ser muito burras então. Porque ao olhar para esse topo vemos menos mulheres que homens. Se quem lá está foi escolhido com base num critério justo como se explica esta discrepância? Não é possível que homens brancos tenham também a supremacia da inteligência é? Se a percentagem de homens, especialmente em cargos de topo e de decisão, continua a ser bem superior então lamento mas não podemos falar em pessoas em vez de géneros. A partir do momento em que o sexo do bebé é conhecido, as meninas já estão em desvantagem: os progenitores começam logo a projectar nelas ideias misóginas e esta desvantagem vai aumentando com os anos à medida que mais responsabilidades se acumulam.

 

O tipo de brinquedos que lhes serão oferecidos, o comportamento que lhes será exigido...Os rapazes são talentosos as meninas esforçadas; eles são lideres naturais, mas a liderança numa mulher é indesejável de tal modo que até se inventam nicknames para certas mulheres na política ("a dama de gelo"), se vocês dão ordens são mandonas mas se não dão são sentimentais; vão ser punidas por não terem filhos e por cada hora que passarem longe deles em reuniões; vão ouvir que só chegaram ali porque abriram as pernas ou porque as mulheres têm sempre benesses - nunca por mérito próprio. E não podem falhar. Se falharem é porque a culpa é do vosso género e isso irá dificultar ainda mais o caminho para as mulheres que vierem a seguir embora isso jamais aconteça com os homens.

 

É uma corrida viciada. Este é o verdadeiro problema, este fosso enorme criado pela desigualdade constante ao longo dos tempos - não as quotas que apenas são uma tentativa de o resolver. Não seriam precisas se a sociedade fosse justa em primeiro lugar. Vocês perderiam tempo a apontar uma telha partida quando as fundações da casa estão podres? E não podemos esperar que quem está no topo comece espontaneamente a contratar caras diferentes...Talvez devêssemos ir lá acima perguntar porque é que é eles precisam de uma lei para os obrigar a isso. Talvez descubramos que as fundações estão ainda mais podres do que parecem.

Este mundo desgasta

- num curto espaço de tempo vi no Sapo Lifestyle, esse lugar de lendas, três interessantes artigos: um com o título: "É uma das mulheres mais sexy da Eurovisão, mas já foi gorda"; um sobre a idade em que se deve começar a aprender as tarefas domésticas ilustrado com imagem de uma mãe com a filha na cozinha e um sobre as vantagens de ser mãe a tempo inteiro. Que nunca nos esqueçamos nem por um único dia de qual é o nosso lugar no mundo...

 

- Pessoas que publicam frases inspiradoras sobre aceitação e logo a seguir dicas para ter um corpo de praia 

 

- O suspeito converteu-se à organização terrorista no ano tal e não: o suspeito converteu-se ao Islão no ano tal. Não pode ser assim tão difícil. Uma vez na cobertura televisiva de uma homenagem às vítimas de um atentado um microfone foi colocado à frente de uma rapariga de véu, apesar de estar ali um monte de gente que poderia falar...Se contribuímos para espalhar ódio qual é a diferença entre nós e os terroristas? Termos melhor aspecto?

 

- Ontem estava a pesquisar sobre um livro e encontrei uma opinião que dizia - "[pode] conter algumas situações que desagradam às leitoras mais feministas" Se vocês forem pouco não há problema. Ou se só forem feministas tipo uma vez por mês, quando estão com o período...

Reflexão sobre o que não vale a pena

Uma feminista tem de saber escolher as suas batalhas, fora ou dentro da net. Por uma questão de preservar a sanidade...Certas discussões não valem o esforço. Com certos senhores com certeza não valem: eles odeiam-vos. Qualquer coisa que vocês digam será de imediato seguida de uma chuva de "argumentos" misóginos e descrições explícitas sobre o que eles gostariam de fazer à vossa vagina num beco. Não percam tempo e sobretudo nunca demonstrem que estão irritadas. Mas há outro tipo de homens: os que parecem racionais e bem educados. Com certeza estes vão entender - só que não. Vivem alienados na sua própria bolha de privilégio e acham que a sua experiência é norma por isso quando vocês chegam e dizem que não, que a liberdade que eles têm não é algo que as mulheres usufruam, eles reagem como se vocês tivessem acabado de chegar do planeta HD 188753.

 

Não pode ser mesmo assim...Não estarão a ser demasiado pessimistas? Isso não me diz respeito, diz? No Coisas Que os Homens me Explicam há uma passagem sobre uma aula numa universidade onde se perguntou às alunas o que faziam para evitar o risco de violação: "as raparigas descreveram o modo intrincado como se mantinham alerta e limitavam o seu acesso ao mundo, tomavam precauções (...) enquanto os rapazes da turma (...) as fitavam boquiabertos". Pois é, não importa que eles não gritem na rua que são misóginos com orgulho, a nossa experiência não é real para eles.

 

Quando isto acontece com mulheres - os homenzinhos mencionados acima sentem-se ameaçados pela igualdade porque isso significa perderem os seus privilégios. Mesmo que os neguem, estes privilégios reservados aos homens (especialmente brancos) existem. Mas nós? Defender uma sociedade que acha que nem devíamos ter nascido? É como estarem num quarto todo arranjadinho onde todos os dias alguém entra com croissants frescos - só que vocês estão acorrentadas e não podem nunca sair dali. Algumas mulheres podem não ver estas correntes: vivendo num sítio com relativa liberdade, nunca tendo sofrido abusos podem pensar que isso é a norma. O que acontece com as outras, isso não lhes diz respeito. Podem pensar que nasceram em igualdade (não nasceram) e que não precisam dessa conversa. E olham para casos de abuso como algo isolado e não como parte de um sistema. Quando não se consegue entender o conceito de colectivo, torna-se difícil entender o resto.

 

A sociedade misógina não só exerce diversas formas de violência sobre as mulheres, como ainda as ensina a reproduzir essas formas de violência.  Se uma rapariga é castrada mentalmente e é forçada a torturar-se para corresponder a um ideal de beleza e de comportamento, ver outras que se estão nas tintas para esse ideal será uma afronta. As que dizem: fui abusada e quero justiça. Uma afronta. A reprodução destas formas de violência pode ir da indiferença, ao "acho isto tudo um exagero" até à defesa de monstros. Pode ser uma questão de comodidade. Há uns tempo num site uma rapariga dizia que costumava ir ter com o namorado para este lhe explicar matérias da faculdade. O interessante é que ela percebia a matéria. Só fazia isso para ele ter o prazer de lhe explicar coisas, a ela. À minha mente, que ainda não se tinha achado feminista mas já era aspie e literal, aquilo pareceu muito estranho. Vocês podem dizer que é uma boa atitude, que ela deve ter uma relação e uma vida sexual feliz...Talvez. Alguns homens gostam muito das nossas correntes.

 

Pode ser uma questão de consequências. Já falei aqui de uma das minhas cenas preferida do Lab Girl da Hope Jahren, quando ela faz a sua primeira descoberta - o momento em que ela sente que se tornou realmente cientista. Ao mesmo tempo é um momento solitário, ela sabe que esta é a pedrada final nas suas hipóteses de ser uma "mulher normal". No seu percurso uma mulher tem de tomar decisões que aos homens não se colocam e as consequências de quebrar as correntes podem ir desde a ideia que nunca ninguém irá gostar de nós até mesmo à morte. Não importa se somos bloggers na Europa, cientistas na América ou adolescentes no médio oriente o mundo faz questão de lembrar que para nós tudo tem um preço. O triste é que estas pessoas realmente acham que estão a ser corajosas e a nadar contra a corrente quando dizem que tudo isto é uma perda de tempo exagerada e todos esses afins - não estão. De todo. 

Feira do Livro e os esquecidos

Quando os leitores pensam na Feira do Livro é inevitável que pensem logo no que pretendem comprar e é possível que isso leve a uma reflexão sobre o que foi comprado e ainda não lido. Ao contrário do que se possa pensar a vida de um leitor é cheia de pequenas regras: não comprar demasiado, ler o que está na estante em espera, ler um número determinado de livros por ano, não desistir de uma leitura a meio...Algumas destas regras\hábitos podem trazer resultados positivos dependendo de cada um: não acho um frete ler autoras mesmo que isso signifique adiar outras leituras, já ter metas vocês já sabem: não. Em relação ao que veio da Feira o ano passado: já li tudo, menos um (alguns do ano anterior ao anterior ainda estão em espera, é verdade...) Alguns entraram para a lista de favoritos mas com as autoras portuguesas não tive muita sorte: achei o Que Importa a Fúria do Mar meh e de Os Olhos de Tirésias da Cristina Drios, a minha última leitura - tentei, mas não gostei nadinha. A vida de um leitor também é feita de altos e baixos e nunca se sabe quando será um ou outro. 

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