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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Conselhos contraditórios e outros

- Outro dia passou no telejornal uma peça sobre influencers (eu sei que bateram agora três vezes na madeira e quem vos pode censurar) e tive a mesma sensação confusa que tenho quando abro revistas femininas que tanto sugerem que eu aceite o meu corpo como escolha peças de roupas que seja apropriadas para o meu tipo, que seja tanto independente como evite estas dez coisas que os homens não gostam. Pois mostraram uma mulher que explica os truques que se usam para alterar a imagem no Instagram, como é tudo mentira e como não devemos ter medo de mostrar a celulite...E a seguir mostraram uma outra no ginásio e que disse qualquer coisa do tipo: as mulheres reais também são aquelas que querem ter um corpo de sonho. E agora quem é que sigo? Em princípio a segunda, parece mais interessante. Mas depois lembrei-me que esse objectivo do corpo perfeito é me impossível, fiquei triste e tive dificuldade em acabar o caril do jantar...Não é verdade. Acabei-o facilmente. Nem sequer estava a jantar caril. Criei uma mentira para efeito dramático. Assim se vê que passei ao lado de uma grande carreira no Instagram. 

- Cada vez que alguém escreve mais um livro sobre Pedro e Inês eu lembro-me como sou uma ovelha ranhosa pois nunca tive especial interesse pela história, talvez por ser recontada até à exaustão e com cobertura de caramelo...Mas fui à Quinta há uns anos, é bonita. 

 

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- Terminei A Visão das Plantas da Djaimilia Pereira de Almeida. As críticas eram positivas e a história parecia intrigante: o capitão de um navio negreiro depois de uma vida de atrocidades regressa a casa e dedica-se à jardinagem, cuidando com amor das flores e plantas do seu jardim; uma personagem que a autora encontrou mencionada em Os Pescadores de Raul Brandão. É realmente um livro muito bom. 

- Como não amar as pessoas que realmente acreditam que as mulheres são psicologicamente mais instáveis e emocionais....Pois elas vivem no mesmo mundo onde homens adultos choram por causa de futebol, mas o facto passa a voar pelas suas cabecitas. Temos de pensar dez vezes antes de dizer ou fazer qualquer coisa, mas os homens podem ser patéticos até em directo na televisão...Já tinha falado disto aqui antes, mas é mais forte do que eu. Devia aprender a morder a língua. Conselho da revista.

- Voltando a pisar também em outro tema, começou uma nova novela na TVI e já estou a amar: pois tem os mesmos pobretanas e os mesmos ricos na qual está incluída uma empresária má e dura, as mesmas personagens femininas sem miolos, uma personagem gay estereotipada (é o máximo que temos neste quesito, assim como as gordas só têm papéis cómicos e comem três chouriços enquanto as outras pessoas conversam à mesa ou então têm papéis maus e repugnantes), filhas que odeiam as mães, dois irmãos que também se odeiam porque querem comer a mesma mulher, diálogos insanos ("deixa-la lá, um noivado dá sempre a volta à cabeça de um homem") e situações insanas - alguém de muletas vai para o meio da montanha, cai por ali abaixo e duas abéculas passam horas à procura até ser noite sem chamar as autoridades! Mas o protagonista já fez de Jesus por isso em principio é ok. 

 

Sobre livros & tempo

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(Tirado daqui)

 

Outro dia entrei no site de uma editora e li uma frase que era deste género: um dia passado sem ler é um dia desperdiçado. Pensando nisto, considero que há uma variedade de coisas que se podem fazer e que não envolvem ler - e que não são vergonha nenhuma, nem desperdício de tempo! Ver imagens de pessoas a ler; fazer aqueles questionários para saber qual é o vosso namorado\namorada literário; ver imagens de bibliotecas; pesquisar títulos e autoras(es); olharem para as vossas estantes; ler o que pessoas escreveram sobre os livros que leram; fazer planos para o que vão ler a seguir e mudá-los logo passado meia hora; ler uma página e ficar a sonhar acordado(a) durante a meia hora seguinte porque às vezes a concentração; escrever sobre livros; encontrar uma lista e marcar quantos livros já leram...

Pensando nisto um pouco mais a sério - gosto de livros desde sempre e desde que me ensinaram ando sempre a ler qualquer coisa, triste vida, mas este pensamento parece-me uma pressão que ninguém precisa. Têm de ler rigorosamente todos, todos os dias e rigorosamente acabar um livro por semana? Já falei disto aqui antes e provavelmente vai ser tema para o post com o balanço literário do ano (se me apetecer escrever...) mas esta frase ficou-me na cabeça, por ser tão directa. Daqui a nada dizem que toda a gente tem as mesmas vinte e quatro horas do dia e que vocês acabariam dois livros por dia se fossem organizados. Não sei quem inventou esta ideia das vinte e quatro horas, mas mata-me todas as vezes que a encontro. E porque encontro tantas ilustrações fofas com livros e gatos e tão poucas com livros e cães? Acho mal e agora vou usar o meu tempo para criar uma petição. 

TAG: livros & chá

“Merricat, said Connie, would you like a cup of tea?

Oh no, said Merricat, you’ll poison me.

Merricat, said Connie, would you like to go to sleep?

Down in the boneyard ten feet deep!”

 

Já há algum tempo que não faço uma coisa destas, com perguntas, então para relaxar do post anterior vamos a este que encontrei no Sweet Stuff e que consiste em relacionar livros com chás - não sou nada elegante pois não bebo chá a não ser que esteja doente. Mas também não bebo café a menos que tenha algo importante para fazer e esteja com muito sono, o sabor é péssimo - nunca percebi o que é que algumas pessoas pretendem provar quando dizem orgulhosamente que gostam do café muito amargo e que só comem chocolate negro...Mas independentemente do gosto em bebidas, todos podemos concordar que os livros são a melhor coisa. 

 

paparazzi gif | Tumblr | Lady gaga, Lady, Round sunglass women

 

- English breakfast: um livro que é uma leitura essencial

 

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- Earl grey: um livro clássico e sofisticado, mas com um toque especial

 

"What women have endured is not only the history of men, but also their own specific oppression. Extraordinarily violent. Hence this simple suggestion: you can all go and get fucked, with your condescension toward us, your ridiculous shows of group strength, of limited protection, and your manipulative whining about how hard it is to be a guy around emancipated women. What is really hard is actually to be a woman and to have to listen to your shit.”

(Teoria King Kong, Virginie Despentes)

 

- Chai: um livro exótico, que se passa num país diferente do teu

 

Quando li a primeira vez pensei que era erótico em vez de exótico e já ia lançada para recomendar o 1001 Sítios Para Fazer Sexo Antes de Morrer, que um dia aconteceu folhear, sendo assim coloco aqui descaradamente o meu mapa de viagens do ano passado

 

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- Chá de hortelã-pimenta: um livro revigorante

 

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- Chá verde: Um livro refrescante e ligeiramente diferente

 

Orlando, refrescante mesmo passado noventa anos, mas também:The Bloody Chamber da Angela Carter por tornar os contos tradicionais muito mais interessantes; As paixões de G.H e Constança H. por tantas razões, uma delas por conterem tantos sentimentos brutais, desesperados e nada bonitos; Lucy da Jamaica Kincaid, pela luta agridoce pela  independência num sítio novo de uma rapariga vinda de uma ilha do Caribe; The Colour Purple, porque laços profundos de amizade (e não só!) entre mulheres, especialmente negras, não é algo sobre o qual se leia todos os dias [pena que a autora tenha perdido um pirolito...]; The Hearing Trumpet da Leonora Carrington, por ser uma história fora do comum com senhoras de idade; A Guerra não Tem Rosto de Mulher por trazer à luz do dia histórias de mulheres que estiveram no inferno.

 

- Chá de camomila: Uma leitura aconchegante para a hora de deitar

 

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- Chá de rosas: Uma leitura florida e gentil

 

"It was midday. From the building's garden we could hear the shouts of children playing in the springlike weather. The plants near the window, enveloped in the gende sunlight, sparkled bright green; far off in the pale sky, thin clouds gently flowed, suspended. It was a warm, lazy afternoon (...) There we were, eating breakfast, all sorts of things set out directly on the floor (there was no table). The sunlight shone through pur cups, and our cold green tea reflected prettily against the floor."

(kitchen, Banana Yoshimoto. Gentilmente melancólico)

 

- Açúcar: um livro doce

Patience and Sarah, Isabel Miller

 

Coisas bizarras e uma leitura lenta

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(Marcha das Mulheres, 21 de Janeiro de 2017. Tirado daqui

 'We are the granddaughters of the witches you weren't able to burn")

 

- Uma coisa excruciante de ser feminista é que antes de podermos sugerir qualquer ideia a respeito de um problema, temos de convencer hordas de gente que o dito problema realmente existe...Qualquer coisa que afecte as mulheres é imediatamente desacreditada ou negada: desigualdade de salários, dores causadas pelo período (episódios do Twilight Zone empalidecem perante a bizarria de termos um homem aleatório a tentar nos explicar que essas dores são pouca coisa...Se bem que isto não devia surpreender já que o corpo feminino é desde sempre regulado por governos masculinos), violência doméstica, objectificação...

E recentemente vi um tipo a tentar negar a caça às bruxas, dizendo que não passa de um mito. Que bizarro um mundo onde a caça às bruxas é mito mas os homens terem concedido direitos às mulheres é considerado um facto. E algumas pessoas ainda se perguntam se este mundo realmente odeia o género feminino...Já eu penso no quão mais profundo o poço do ódio pode ser. 

 

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(A mesma frase, aqui num protesto contra a proibição do aborto

na Polónia. 2020. Foto de Aleksandra Perzyńska)

 

- A expressão caça às bruxas é frequentemente usada em contextos diversos, mas às vezes ainda penso nas pessoas que no auge do Me Too a empregavam para defender os predadores sexuais. Usar uma perseguição massiva levada a cabo por agentes da Igreja e do Estado que visava, na sua grande parte forçar as mulheres, à submissão e controlar o seu corpo

 

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(Handmaid's Tale protest outside European Parliament against Polish

abortion ban. 2020. Tirado daqui)

 

baseando-se em crimes que não eram reais e compará-la a um movimento que consistiu em mulheres civis [e alguns homens] revelarem como foram abusadas e assediadas depois de anos de sofrimento em silêncio e exigirem justiça; insinuando que estes homens, que não só praticaram crimes bem reais como muitos deles infelizmente mal tiveram qualquer punição, viviam no alto dos seus escritórios num ambiente semelhante ao de Salem - é absolutamente bizarro. Ironicamente estes predadores também são parte de um genocídio contra as mulheres. Um genocídio intelectual:

 

"We just don’t consider, don’t even see, the loss of all the women who—
driven out, banished, self-exiled, or marginalized—might have been more
talented or brilliant or comforting to us, on our airwaves or in our governing
bodies, but whom we have never even gotten the chance to know."

(Tirado de Good and Mad: The Revolutionary Power of Women's Anger, Rebecca Traister)

 

- Ainda não acabei O Fim do Homem Soviético. Tinha pensado numa semana, mas é bem angustiante então tem ido aos pedaços. É verdade que não há nenhum livro da Svetlana que não seja brutal...Não acho que seja necessário ler os livros por ordem mas faz sentido que este fique para último e ter algum conhecimento prévio ajuda, poupa algumas idas ao Google. Claro que pode ser que vocês à data já fossem adultos interessados em política internacional, mas eu nasci em Janeiro de 1991. Entretanto já vou a mais de meio. 

 
"My blood is all over your hands
Is it pretty?
You like how it tastes?
(...)
Do you think that I'm an easy prey?
(...)
No wire hangerz ever
No wire hangerz ever"
 
 

- Tropecei num documentário que aborda a descriminação e a disparidade de género no cinema [e logo a seguir encontrei um comentário negando isto, ah pois é] e fiquei tão entusiasmada que não reparei logo que foi realizado por um homem com produção de três pessoas, duas delas também homens. Ainda gostaria de vê-lo, mas no momento achei este detalhe um tanto incongruente...

- Tenho andado a reparar num fenómeno bizarro nas caixas de comentários de canais de culinária. Há cavalheiros que vão lá comentar não o que é costume, por exemplo - que bom aspecto, mal posso esperar por fazer esta receita! Em vez disso, exprimem o seu desejo de encontrarem uma esposa que saiba cozinhar tão bem...Algumas pessoas podem achar isto inócuo, mas as coisas escalam e assim também encontramos comentários como: se pudesse casava contigo sem pensar duas vezes, és a esposa perfeita; que pena que hoje em dia não existam mais mulheres como tu; bonita e que sabe cozinhar o que mais um homem precisa na vida? O meu comentário preferido até agora era um que dizia: eu daria um murro na cara de uma modelo para ficar contigo. Tudo o que a moça do vídeo queria era ensinar a fazer uma quiche...

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Quem Escreve Aqui

Feminista * plus size * comenta uma variedade de assuntos e acha que tem graça * interesse particular em livros, História, doces e recentemente em filmes * talento: saber muitas músicas da Taylor Swift de cor * Blogger há uma década * às vezes usa vernáculo * toda a gente é bem-vinda, menos se vierem aqui promover ódio, esses comentários serão eliminados * obrigada pela visita

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