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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Os Homens que não leem as mulheres

(e alguns autores adoráveis)

Tenho pensado outra vez na ideia de que se uma pessoa decide ler mais autoras e\ou pessoas não brancas, vai estar necessariamente a perder algo. Ou seja, se eu escolher passar um ano só a ler escritoras estarei a desperdiçar a oportunidade de ler boas obras por uma mera questão de género...E também na ideia de que é injusto tirar um livro da wishlist porque encontrei opiniões que apontam para conteúdo misógino. Porque não dar uma oportunidade? Outro dia encontrei uma lista com as passagens mais misóginas e as descrições mais absurdas (e grotescas) de personagens femininas que pessoas encontraram em livros escritos por homens.

Recomendo dar uma vista de olhos, mas tenham um saco para o vómito à mão. Alguns nomes são fáceis de reconhecer, Murakami, Ian Fleming ("All women love semi-rape (...)". Não esperaríamos nada menos, pois não?), Stephen K. (as suas descrições do corpo feminino parecem mais assustadoras que o próprio palhaço)...Um famoso autor de ficção-científica acha que as mulheres não têm lugar em naves porque - "weightless did things to their breast that were too damn distracting. It was bad enough when they were motionless; but when they started to move, and sympathetic vibrations set in, it was more than any warm-blooded male should be asked to take".

Um outro diz que temos um instinto natural para a cozinha. Clássico...Tanta imaginação, mas não chega para ver as mulheres como seres humanos e não como carniça. No livro da Rebecca Solnit The Mother of All Questions (da qual gostei muito) há um ensaio com o título - Oitenta Livros Que Nenhuma Mulher deveria ler. Foi baseado numa lista publicada por uma revista, Oitenta melhores livros que todos os homens deveriam ler. Há muitos pontos de contacto com as duas listas mencionadas acima, surpresa! E além das escolhas, os comentários do editor são qualquer coisa. Rebecca menciona o comentário sobre As Vinhas da Ira e tive mesmo de ir confirmar - "Because it's all about the titty"

 

"A lista me fez pensar que devia existir outra, com alguns dos mesmos livros, chamada “Oitenta livros que nenhuma mulher deveria ler” — embora, claro, eu ache que todo mundo deva ler o que quiser. Só acho que alguns livros são manuais de instruções explicando os motivos pelos quais as mulheres não passam de escória ou mal existem, a não ser como acessórios, ou por que são intrinsecamente pérfidas e vazias. Ou são manuais ensinando a versão de masculinidade que consiste em ser bruto e insensível, aquele conjunto de valores que irrompe como violência em casa, na guerra e por meios económicos"

 

A seguir ela menciona alguns homens que estão na zona de não leitura e que estão nesta lista (e em muitas outras):  Norman Mailer; Charles Bukowski; Saul Bellow ("The commissioner (...) petted and admire all women and put his hand wherever he liked. I imagine women weren´t very angry when he saluted them in this style because he picked out whatever each of them herself prized most - color, breasts, hair, hips (...)"; Hemingway (o comentário a Por Quem os Sinos Dobram também é giro: "A lesson in manhood: Even when you're damned, you press on" . Eu penso em conselhos diferentes, sendo o primeiro não usar o Hemingway como professor); Henry Miller; Philip Roth; John Updike (As she struggled, lamplight struck zigzag fire from her slip and static electricity made its nylon adhere to her flank”).  William Burroughs devia estar presente. Difícil conter o vómito, eu sei.

Na mesma zona estão as obras que descrevem crimes violentos contra mulheres de forma erótica e "aquelas monstruosidades de novecentas páginas que, se tivessem sido escritas por mulheres, seriam (...) mandadas fazer regime" (lembrei-me logo do Gravity's Rainbow. Não li, mas não faz mal pois nunca ninguém mentalmente são o fez). Eu acrescentaria autores, muitos dos quais ainda caminham entre nós e recebem prémios, que estão ligados à extrema direita ou expressam esse tipo de ideias e os predadores sexuais (e os que dizem que os livros escritos por autoras não prestam, como V. S. Naipaul)

Eu tive a minha dose, afinal li O Apanhador no Campo de Centeio e o Matadouro Cinco (fartos de citações adoráveis? “The women all had big minds, because they were big animals, but they did not use them much for this reason: unusual ideas could make enemies, and the women, if they were going to achieve any sort of comfort and safety, needed all the friends they could get.”) duas vezes (!) e também não acho que vocês devam ler Ayn Rand que aparece em todas as listas com livros de escritoras. Mas questiono a ideia de que se não ler o que diz o cânone literário vou ser considerada menos culta e vou estar a perder ou em falta.

Gosto de clássicos e há coisas que valem a pena, mas este cânone é um desfile de homens brancos e se nunca nos desviarmos dele não vamos contactar com uma miríade de histórias diferentes.  Porque é que os homens são considerados essenciais e a experiência que retratam universal, mas a experiência de uma mulher é acessória? Num artigo que encontrei alguém dizia que estava grato a autores que construiram histórias na esfera doméstica mostrando assim o seu valor como literatura, mas a ideia de que precisamos de um homem para validar a nossa experiência e o que escrevemos é absurda.

As pessoas podem ver post, atrás de post sobre livros de homens...Mas assim que alguém anuncia que vai fazer uma pausa para ler mais diversamente: everyone loses their minds. Também acho que vale a pena questionar se o talento de tantos autores brancos é tão incrível que mulheres ou pessoas não brancas não conseguem competir com ele ou se existe algo a puxá-los para cima. Quando estava a fazer uma rápida pesquisa sobre Jonathan Franzen (também mencionado por Rebecca) encontrei um artigo com dados que já têm alguns anos mas são muito interessantes: 

 

"Of the 545 fiction books reviewed in the Times between June 29, 2008, and August 27, 2010, 338 were written by men and 207 were written by women. In 2010, the Atlantic reviewed books by 10 women and 33 men. Harper’s reviewed 21 women and 46 men. The New Yorker published articles and short stories by 163 women, 449 men. At the New York Review of Books, a whopping 88 percent—or 133 of 152 articles—were written by men. And in 2010 the New York Times Book Review reviewed 283 books by women, 584 books by men."

 

E mais isto: nós assim que aprendemos a ler começamos logo a consumir a experiência masculina e em especial quando falamos em autores que odeiam mulheres, vale a pena pensar nos danos que isso nos causa, como a interiorização desse ódio. Mas o contrário não é exigido aos homens: não têm de ler qualquer autora. Podem colocá-las de parte toda vida sem serem incomodados (e nunca se lhes é dito que para aprenderem sobre as mulheres talvez devam ler, sei lá...Escritoras?) Porque deveria eu ser chamada de injusta (ou mesmo sexista) por querer ler mais mulheres, mas tudo bem se um tipo acha que se tocar no Orgulho e Preconceito a sua pila vai ganhar asas e sair a voar pela janela?

 

"For the top 10 bestselling female authors (who include Jane Austen and Margaret Atwood, as well as Danielle Steel and Jojo Moyes), only 19% of their readers are men and 81%, women. But for the top 10 bestselling male authors (who include Charles Dickens and JRR Tolkien, as well as Lee Child and Stephen King), the split is much more even: 55% men and 45% women. In other words, women are prepared to read books by men, but many fewer men are prepared to read books by women."

 

E as consequências:

 

"If men don’t read books by and about women, they will fail to understand our psyches and our lived experience (...) And this narrow focus will affect our relationships with them, as colleagues, as friends and as partners. But it also impoverishes female writers, whose work is seen as niche rather than mainstream if it is consumed mainly by other women. They will earn less respect, less status and less money."

(Tirado daqui, mas visto primeiro aqui)

 

É triste pensar na quantidade de homens que está presa neste reduto onde não entra nada diferente e se não entra, como é que a empatia se vai desenvolver? Não vai, porque isso também não lhes é requerido. Isto sim, é uma grande perda. Quando pensamos em listas de livros como estas realmente não surpreende que haja tantos homens a colocar um fim à sua vida e à de tanta gente...

Filmes: alzheimer, vampiros, pais desaparecidos

(Três filmes por coincidência com posters que contrastam entre si)

 

A9 (2).jpg

 

 Sarah Polley

2006

"Long married, Fiona and Grant find their mutual devotion tested by her struggle with Alzheimer's disease. When it becomes apparent that the condition is worsening, she checks into a rest home. Grant visits her a month later and finds that his wife has grown close to (...) a fellow resident."

(Tirado do Rotten Tomatoes)

 

A7.jpg

 

Ana Lily Amirpour

2014

"A Girl Walks Home Alone at Night takes place in the desolate, dusty oil town of Bad City, where a young man struggles against a junky dad (...) and an unassuming young woman stalks the night as a vigilante vampire...Preying on men who disrespect women."

(Sinopse adaptada daqui)

 

A6 (1).jpg

 

Debra Granik

2010

"Faced with an unresponsive mother and a criminal father, Ozark teenager Ree Dolly does what she can to manage the household and take care of her (...) siblings. Informed by the sheriff that their father put their home up for bond and then disappeared, Ree sets out on a dangerous quest to find him."

(Tirado do Rotten Tomatoes)

 

Vacina parte dois

Desta vez o pavilhão estava ao rubro e não me despachei com tanta rapidez - umas duas horas ao todo, mais coisa menos coisa. Penso que a nossa homenagem se devia estender aos voluntários que estão nos centros a distribuir questionários, arranjar cadeiras, a indicar ao pessoal para onde deve ir e onde se deve sentar...Evitando assim o caos total. No momento crucial nem prestei atenção à agulha porque estava concentrada na explicação sobre os efeitos secundários - não há nada para prestar atenção na verdade, não há a satisfação de ver o sangue a sair. Fiz agora alguém sorver o ar em horror com esta imagem...

Mas tirando dores no braço, não tive nada. Enquanto estava à espera vi que há dois tipos de pessoas - as que deixam cair algo no chão e seguem em frente e as que pelo menos procedem a algum tipo de desinfecção. Faz-me lembrar quando eu pelo sim pelo não já andava a desinfectar bem mãos e cenas, mas o pessoal ainda estava um bocado blasé. Nunca fui muito optimista. E falam-me em voltar a dar abraços e não sei quê, partindo da ideia de que isso era algo de que eu gostava em primeiro lugar. Há demasiada gente com pouca noção do espaço, na minha opinião...Relacionado com isto, outro dia tive que ir ao médico. Realmente seria muito estranho para alguém de fora ver um médico(a) tapado(a) dos pés à cabeça a falar com alguém que não está à sua frente mas numa cadeira afastada, encostada à parede. Mais outra coisa que não tínhamos visionado para o futuro.

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