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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Livro: Circe

Já está acabado e vou então expor em mais detalhe o que achei dele. Atenção que esta é daquelas opiniões impopulares - que posso fazer? Para mim, o primeiro problema deste livro está relacionado com a própria construção da história. Depois de serem estabelecidas as relações familiares de Circe e de uma trapalhada resultar no seu exílio na ilha de Eana, ainda no começo do livro, o que se segue é um saltitar de episódio em episódio mítico: Circe faz a sua vidinha de bruxa, a colher flores e a fazer poções. Situação A acontece. Situação A é resolvida. Passamos para a B. E assim sucessivamente.

 

Não há direcção, clímax...Acho que dá para eliminar capítulos sem que isso faça uma grande diferença. As personagens são pouco desenvolvidas. É tudo estereotipado, sem espessura...Algumas só aparecem por umas poucas de páginas e depois desaparecem para não mais voltar. As interacções entre elas são igualmente superficiais. Eana é tipo uma estação de serviço...O segundo problema é que não me parece que este livro acrescente nada de novo ao que já foi recontado milhares de vezes. Precisamos de novas perspectivas que nos obriguem a desviar os olhos da narrativa dominante...

 

SAAM-1910.9.4_1.jpg

(Circe, Frederick Stuart Church, 1910.  Oil on canvas, Smithsonian American Art Museum)

 

Muitas vezes estes livros são incluídos em listas feministas, porque o feminismo é por excelência o corte com a narrativa tradicional. Mas em Circe a autora simplesmente recorta alguns mitos e encaixa-os na narrativa...Para isso basta-me abrir a Wikipédia. Há breves tentativas de questionamento e umas tiradas feministas que deixam ver que este livro poderia ter sido diferente. Mas no fim nem a Guerra de Troia, nem o Minotauro, nem Penélope...Ninguém terá sido resgatado do papel em que costuma vir embrulhado. E apesar da história ser contada por uma personagem feminina a visão tem bastante de patriarcal. A autora parece ter pouco apreço pelas suas intervenientes femininas...

 

Há poucas personagens que prestem no geral, mas as mulheres são especialmente ruins. Qualidades que são valorizadas como coragem, persistência e gosto pelo desconhecido...Estão todas do lado dos homens. Já elas são umas víboras, fúteis, mesquinhas, vingativas...As descrições estão cheias destes adjectivos. E embora se mencione brevemente que as ninfas sofrem abusos, elas são pintadas da pior maneira possível. Este livro está cheio de girl hate.

 

A1 (3).jpg

(Circe Offering the Cup to Odysseus, John William Waterhouse. 1891)

 

Circe detesta as primas, as tias, a mãe, a irmã (que é muito má), as ninfas que vivem com ela...As suas interacções positivas são com homens e quando perante outra mulher a interacção é sempre tensa, como duas gatas prontas a atirarem-se uma à outra. Por exemplo, Circe preocupa-se com o estado em que os marinheiros chegam à ilha, mas quando Alke lhe aparece ali de repente ela fica logo toda eriçada. Só no fim é que a autora permite que Circe aprecie a companhia de outra mulher e mesmo assim é quase um nada, que gira em volta de homens e que começa com um confronto...Até elas chegarem à conclusão que a culpa afinal é da cabra da Atena. Que é isto? Um drama da secundária?

 

Há slut-shaming e vários clichés (raparigas bonitas não podem ser inteligentes, não sou como as outras!, abuso sexual como mera ferramenta narrativa...). E claro que tem de existir romance, mesmo quase sem química entre as personagens. Se o mito diz que Circe precisa de um falo, então ela aqui o terá - para ser feliz e cumprir a sua missão patriarcal de fêmea (Medeia, outra cabra, vai morder a língua, depois de ter dito que a nossa protagonista era uma spinster que tresanda a solidão!) e para que possa ter alguém que lhe faça reparações e pequenas obras. Não é que Circe não as possa fazer, só que está muito ocupada com feitiços (o que é giro) e com...Lavar e cozinhar (o que não é tão giro).

 

Gostava de ter conseguido me importar mais com a nossa protagonista. E teria gostado que ela fosse um pouco mais badass como parece naquele quadro, em vez de constantemente insegura e carente. O modo como se vê a si própria é por vezes perturbador ("Desde então, eu me perguntei se ele usava em mim aqueles mesmos charmes que tinham funcionado nos marinheiros. Pois eu era como uma vaca bem alimentada, plácida e sem questionamentos"). Está hora de eu navegar para outras águas.

Desilusões gregas e outras leituras

Comecei a ler Circe - já era para o ter começado há mais tempo, sucede que o tenho em pdf e são umas trezentas páginas então fui adiando. Estar em pdf significa que tenho que ler no tablet, o que não é tão confortável. Tenho vários livros que quero muito ler e que estão nessas condições, todos com mais de trezentas páginas. No caso do Circe, derivado de insónias, comecei e já vou na página 123. Estou em dúvida sobre o que será um suplício maior: continuar a lê-lo ou ter o meu fígado arrancado por pássaros. Estou seriamente Inclinada para a primeira. Aborrecido, sem profundidade, personagens estereotipadas e pouco ou nada desenvolvidas - Circe parece uma rapariga de um YA, no pior sentido.

 

É isto um YA? E a que propósito é que este livro e a palavra feminismo têm alguma associação? Eu não vejo nenhuma na minha leitura até agora. Lamento ter que informar mas o simples facto de um livro ter uma personagem principal feminina não faz dele feminista, especialmente com certas ideias (que nem vou perder tempo a mencionar...) nas entrelinhas. Uma pena. Mas vou acabá-lo...Talvez? Para ter mais um título para mencionar naqueles desafios que incluem a alínea - "livro que detestou ou achou frustrante". Vocês veem muitas vezes o Rebecca, também porque não há muitos livros realmente frustrantes que eu tenha terminado - a nível de autoras. Ok, também há a Vegetariana...Outras leituras recentes: The Summer Book (Tove Jansson), From Here to Eternity: Traveling the World to Find the Good Death (Caitlin Doughty) e Citizen: An American Lyric (Claudia Rankine). Gostei muito dos três.

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