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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Leituras actuais e chuva

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Ontem adormeci a ouvir a chuva a cair...Algo que pensei que nunca mais ia acontecer, mas não teve grande efeito pois está um dia de sol abafado, sem frio nenhum. Isto é inadmissível. Reparei que falta pouquinho para completar o desafio de ler só autoras de Janeiro a Dezembro. Irei falar mais disto quando chegar a altura, mas posso já adiantar que vai ser cumprido. Estou na expectativa de folhear o registo de leituras e ver como vai ficar a lista final. E também na expectativa de ver se conseguimos passar sem um anónimo qualquer a dizer que o que importa é a QUALIDADE dos livros e não o género.

 

Pois claro que sim, as mulheres escrevem pior que os homens por isso é que há tão poucas nas listas de livros fundamentais. Além de olhar para o céu, dei um bom avanço às leituras: terminei o Mulheres Viajantes (houve um ponto ou outro, mas gostei) e o What We Lose da Zinzi Clemmons (achei assim-assim); cheguei a meio do Delusions of Gender, está a demorar um pouco mais porque é daqueles em que tenho de parar para tirar apontamentos. Um dia fiquei sem bateria no tablet e queria continuar a ler alguma coisa então peguei no Death of The Heart, também estou quase a chegar a meio.

 

Leituras actuais e mulheres

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- Aquela tenda de livros danada está de volta aqui às imediações. Mas é claro que eu só vou lá passar para ver e nada mais...Como sempre.

 

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- Noto que no programa de cultura geral há uma predilecção  por - qual foi a primeira mulher a fazer y ou qual foi a primeira mulher presidente do país z. E os concorrentes tropeçam quase invariavelmente. Duas das últimas: em que área se destacou Maria de Lourdes Sá Teixeira e quem foi a primeira mulher a concluir um doutoramento em medicina em Portugal. 

 

- Encontrei aqui uns posters gratuitos que celebram mulheres na ciência, tecnologia e matemática. Coisa mais linda.

 

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- Ando a dormir pouco e a pensar demais por isso fiz a melhor coisa possível:

 

- começar a ler três livros ao mesmo tempo - Delusions of Gender, Cordelia Fine [um livro de não-ficção onde a autora desmascara a ideia de que homens e mulheres são de planetas diferentes, bem como as ideias tóxicas que vem agarradas a essa, como a de que mulheres não são biologicamente capazes de serem cientista]; Mulheres Viajantes e What we Lose, Zinzi Clemmons.

 

Livro: Circe

Já está acabado e vou então expor em mais detalhe o que achei dele. Atenção que esta é daquelas opiniões impopulares - que posso fazer? Para mim, o primeiro problema deste livro está relacionado com a própria construção da história. Depois de serem estabelecidas as relações familiares de Circe e de uma trapalhada resultar no seu exílio na ilha de Eana, ainda no começo do livro, o que se segue é um saltitar de episódio em episódio mítico: Circe faz a sua vidinha de bruxa, a colher flores e a fazer poções. Situação A acontece. Situação A é resolvida. Passamos para a B. E assim sucessivamente.

 

Não há direcção, clímax...Acho que dá para eliminar capítulos sem que isso faça uma grande diferença. As personagens são pouco desenvolvidas. É tudo estereotipado, sem espessura...Algumas só aparecem por umas poucas de páginas e depois desaparecem para não mais voltar. As interacções entre elas são igualmente superficiais. Eana é tipo uma estação de serviço...O segundo problema é que não me parece que este livro acrescente nada de novo ao que já foi recontado milhares de vezes. Precisamos de novas perspectivas que nos obriguem a desviar os olhos da narrativa dominante...

 

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(Circe, Frederick Stuart Church, 1910.  Oil on canvas, Smithsonian American Art Museum)

 

Muitas vezes estes livros são incluídos em listas feministas, porque o feminismo é por excelência o corte com a narrativa tradicional. Mas em Circe a autora simplesmente recorta alguns mitos e encaixa-os na narrativa...Para isso basta-me abrir a Wikipédia. Há breves tentativas de questionamento e umas tiradas feministas que deixam ver que este livro poderia ter sido diferente. Mas no fim nem a Guerra de Troia, nem o Minotauro, nem Penélope...Ninguém terá sido resgatado do papel em que costuma vir embrulhado. E apesar da história ser contada por uma personagem feminina a visão tem bastante de patriarcal. A autora parece ter pouco apreço pelas suas intervenientes femininas...

 

Há poucas personagens que prestem no geral, mas as mulheres são especialmente ruins. Qualidades que são valorizadas como coragem, persistência e gosto pelo desconhecido...Estão todas do lado dos homens. Já elas são umas víboras, fúteis, mesquinhas, vingativas...As descrições estão cheias destes adjectivos. E embora se mencione brevemente que as ninfas sofrem abusos, elas são pintadas da pior maneira possível. Este livro está cheio de girl hate.

 

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(Circe Offering the Cup to Odysseus, John William Waterhouse. 1891)

 

Circe detesta as primas, as tias, a mãe, a irmã (que é muito má), as ninfas que vivem com ela...As suas interacções positivas são com homens e quando perante outra mulher a interacção é sempre tensa, como duas gatas prontas a atirarem-se uma à outra. Por exemplo, Circe preocupa-se com o estado em que os marinheiros chegam à ilha, mas quando Alke lhe aparece ali de repente ela fica logo toda eriçada. Só no fim é que a autora permite que Circe aprecie a companhia de outra mulher e mesmo assim é quase um nada, que gira em volta de homens e que começa com um confronto...Até elas chegarem à conclusão que a culpa afinal é da cabra da Atena. Que é isto? Um drama da secundária?

 

Há slut-shaming e vários clichés (raparigas bonitas não podem ser inteligentes, não sou como as outras!, abuso sexual como mera ferramenta narrativa...). E claro que tem de existir romance, mesmo quase sem química entre as personagens. Se o mito diz que Circe precisa de um falo, então ela aqui o terá - para ser feliz e cumprir a sua missão patriarcal de fêmea (Medeia, outra cabra, vai morder a língua, depois de ter dito que a nossa protagonista era uma spinster que tresanda a solidão!) e para que possa ter alguém que lhe faça reparações e pequenas obras. Não é que Circe não as possa fazer, só que está muito ocupada com feitiços (o que é giro) e com...Lavar e cozinhar (o que não é tão giro).

 

Gostava de ter conseguido me importar mais com a nossa protagonista. E teria gostado que ela fosse um pouco mais badass como parece naquele quadro, em vez de constantemente insegura e carente. O modo como se vê a si própria é por vezes perturbador ("Desde então, eu me perguntei se ele usava em mim aqueles mesmos charmes que tinham funcionado nos marinheiros. Pois eu era como uma vaca bem alimentada, plácida e sem questionamentos"). Está hora de eu navegar para outras águas.

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