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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Rapariga deitada com um livro, remoendo invejas

Há alturas na vida de uma leitora ou leitor: começam um livro e muitas (ou poucas) páginas mais tarde quando o fecham percebem que nada voltará a ser como era antes, pelo menos literariamente falando. Uma intensa experiência literária, quando aquilo que pensavam ficou virado de cabeça para baixo. São momentos formadores, de crescimento. A história fica gravada cá dentro para não ser mais esquecida, às vezes são pequenos detalhes que ficam...E outras vezes a história é esquecida mas não o momento da leitura em si mesmo, o ambiente e as sensações físicas e mentais. Não acontece todos os dias, mas é daquelas coisas que fazem valer a pena continuarmos a ler.

 

Quem sabe que livro encontraremos amanhã? E não é uma questão de idade, há demasiados livros por descobrir para se perder a capacidade de deslumbramento quando se deixa de ser jovem. Neste ponto pessoas já terão saído deste blog pensando que estou a escrever drogada. Mas não. Já tive os meus livros que chegaram e não deixaram as coisas como antes, momentos de "merda, nunca vou escrever assim!", de achar que nunca mais leria nada tão bom, de voltar atrás só para ler aquelas passagens de novo e de novo (talvez com vontade de chorar...). Há alguns títulos em que basta pegar para sentir uma sensação de felicidade.

 

Mas aqui está um detalhe: não que eu não lesse mulheres ou que os livros delas não tivessem a sua importância, mas a grande maioria das minhas experiências literárias formadoras estão ligadas aos meus autores preferidos. Esta é a nossa sina não é? Caminharmos pelo mundo dos livros sem nunca nos encontrarmos, sem nunca fazermos realmente parte dele. Reinos que não conquistámos e que nunca governaremos.

 

 

"I read more than ever, and wished my soul that I had been born a boy. Horatio Alger was the greatest writer in the world. His heroes were always good, always won, and were always boys. I could have developed the first two virtues, but becoming a boy was sure to be difficult, if not impossible."

 

(I Know Why The Caged Bird Sing, Maya Angelou)

 

 

Quando estava a começar a ler mais autoras tive uma destas experiências que guinam o pensamento para direcções inesperadas. Como contado antes aqui, comecei a coisa toda por escolher um pequeno grupo de livros de autoras, só naquela de ver no que dava. Não foi nada má selecção...Então, chegou a vez de pegar no livro da Pearl S. Buck em que ela conta a história da sua mãe. Ao fim dos primeiros capítulos dei por mim a comparar com um título de um autor que tinha tentado ler pouco antes - achei muito diferente.

 

"De quantas recordações me deixou, escolho uma, aquela que melhor a identifica: de pé, no jardim americano, que ela própria plantara (...) A flor da maturidade concedeu-lhe ao rosto uma expressão correcta e forte e ao corpo uma atitude bela e livre, realçada pelo sol esplendoroso e quente de Verão. Não é alta nem exageradamente baixa, mas tem um porte altivo e erecto. Na mão, segura o ancinho com que estivera a tratar do jardim"

 

(The Exile, Pearl S. Buck)

 

Ora, ali estava todo um novo mundo que precisava explorar. E pensei: porque é que a sociedade insiste nas mesmas versões da História, sempre com homens como protagonistas? Onde estava o nosso ponto de vista? Mas que coisa incrível: as mulheres podiam de facto serem seres humanos completos com direito a protagonizar um livro! Não apenas meras fantasias masculinas. Terem coisas para dizer!

 

Estas guinadas de pensamento causam choques. Aquilo que se descobre é um pouco diferente daquilo que sempre se aprendeu...E sim, uma boa parte desses escritores que têm na estante disseram coisas grotescas a vosso respeito. Nem todos concordariam se vocês lhes dissessem que também gostariam de escrever livros. De quem é a culpa de eu ter que levar com alguém a dizer que tenho inveja de não ter um pénis? É engraçado porque no livro que estou a ler agora é contada a experiência de uma mulher que foi ao psiquiatra e quando disse que estava a planear fazer o secundário - "(...) the shrink told me that I was denying my femininity . . . and that I was envying the male penis, what I needed to do was get laid and pregnant and I’d be fine". Realmente, não tenho que pensar se este argumento ainda é usado ou não...Aquele caso aconteceu em 59, eu recebi o mimo o ano passado:

 

"Freud explica: https://en.wikipedia.org/wiki/Penis_envy
Ah não, Freud é um homem, não pode ser. Se ao menos tivesse uma vagina..."

 

(comentador arreliado)

 

Há quem diga que o feminismo estraga tudo: piadas, o romantismo, as fotografias de beijos...Mas acho difícil partir o que sempre esteve partido. Recentemente, quando li Teresa e Isabel tive um momento formativo parecido com aquele mencionado acima - Violette Leduc descreve com tanta minúcia o encontro entre as protagonistas, não há uma parte do corpo uma da outra que elas não toquem desde os cabelos à ponta dos pés. Tão diferente de outras descrições de encontros sexuais que já li...Pensei: vemos tudo do ponto de vista masculino. Como assim uma relação entre duas personagens [fêmeas] que não foi escrita por um homem, para homens e que não precisa de nenhum? O ano passado a Blake Lively entrou num filme onde aparece de camisa apertada até ao pescoço e laço: "they were like it´s not gonna be sexy if she´s [a personagem] buttoned all the way up to her neck and bowties. And we were like just trust us. it´s gonna be super hot. It´s gonna be so sexy". Claro que ia:

 

 

Imagem relacionada

 

 

Aquilo que encaixa na ideia sexista de feminilidade é considerado bonito, enquanto tudo o que ameaça o patriarcado é considerado feio e inapropriado. Não admira que tantas pessoas achem pouco sexy mulheres de fato....Essas pessoas estão tão erradas:

 

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(Cate Blanchett e Kristen Bell)

 

 

Quando estava a transcrever o início do livro da Pearl apercebi-me deste contraste: quando pensamos numa personagem de pé, firme, com confiança...Pensamos numa mulher? Os homens é que aparecem de pé em estátuas, a olhar para o rio...Nós somos retratadas de maneira bem diferente, nunca com poder: deitadas (ou reclinadas languidamente), de joelhos (a rezar ou..) de gatas no chão ou debruçadas sobre um lava-loiça. Como é imperativo que cada rapariga que começa a sua viagem pelos livros sinta que tem todo o direito a estar de pé, cabeça levantada. A olhar de frente para o mundo.

A leitora frustrada

- No site das listas a propósito do Dia da Mulher pessoas colocaram lá várias listas com títulos só de autoras. Claro que cliquei em todas. Não tenho nenhum auto-controlo no que respeita a listas de livros. Se vejo uma que me parece interessante tenho que clicar e tenho que ir pesquisar os títulos. Outro dia encontrei um livro de não-ficção sobre a história da manteiga e a primeira coisa que pensei: quero!

 

- Aguardo com expectativa aqueles momentos em que alguma coisa que não tenho passa de moda e então já não parece tão mal eu estar fora...Infelizmente é uma longa lista, antes era só do Facebook. Estas coisas modernas consomem muito tempo. Quando penso nos livros que ainda quero ler tenho um pequeno fanico.

 

- Vocês devem estar em pulgas para saber como vai a minha wishlist para a FL. Não vai muito bem pois por mais voltas que dê choco sempre nesta verdade universal: comprar livros novos mesmo com desconto, é quase um suicídio monetário. Só tenho 10 livros na lista e o preço total quase chega aos cem euros, já comprei mais do que isso por metade desse preço...Porque é que o livro Capitãs de Abril [que o Google solícito corrige para capitães] da Ana Sofia Fonseca, que tem 250 páginas, custa 18 euros? O Mulheres Portuguesas (Irene Flunser Pimentel e Helena Pereira de Melo) tem mais do dobro do tamanho e só custa mais 4 euros...

 

- Andei a limpar pastas no meu pc. Ficheiros, pdfs, coisas que já não ia voltar a ler\usar. Menos de 48 horas depois já tinha lembrado de pelo menos 5 livros que precisava reler - não tinha pensado neles até os ter mandado para a reciclagem. É ridículo...

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