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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Considerações Variadas

- Estive a planear a minha ida à próxima Feira do Livro. Com certeza que é isso que as pessoas normais fazem quando não conseguem dormir. O que quero comprar, em que bancas estão, a quantas horas H tenho que ir...Sempre preferi ir à descoberta sem listas, mas já não tenho dezassete anos. Vou passar de uma neurótica super-estimulada para uma neurótica super-estimulada com um plano.

 

- Em textos feministas penso muito enquanto estou a lavar loiça. É uma tarefa doméstica chata eu sei,  mas ainda não arranjei um marido.

 

- Quando é que vamos colectivamente tomar consciência que o Last Christmas é na verdade um lamento amargo e não uma música sobre paz e amor...Isto leva-nos a esta problemática: pessoas que escolhem músicas para momentos especiais sem olhar para a letra.

 

- Terminei outro livro da tia Agatha (li dois: Crooket House e Death on The Nile - gostei do primeiro, do segundo nem por isso...) e li um conto muito bom (A Sorrowful Woman, Gail Godwin). Está fechado o ano literário. Que novas leituras nos aguardarão?

 

- Que tendência é esta de contar a mesmas histórias só colocando actores reais e efeitos modernos...E porque estão continuamente a fazer filmes sobre o Robin Hood ou passados no império romano. Que aborrecimento.

Considerações Literárias

- Se deliberadamente decidirem não ler quanto tempo é aguentam?

 

- A última vez que tentei foram seis dias, um bocado sofridos...

 

- Está na altura em que o pessoal começa a traçar os planos literários para o novo ano. Só de olhar fico com ansiedade...

 

- Descobri que até agora li 20 livros da tia Agatha. Tomei nota num documento para não me perder. Ao todo as novelas policiais são 82. 

 

- Sei que não se nota, mas estou muito vidrada em não-ficção. Já deixei a fase de ler um livro de não-ficção que casualmente encontrei. Agora pesquiso activamente e tenho um pequeno fanico cada vez que encontro um título de interesse. Todo um novo mundo que se abriu.

 

- Eu digo muitos disparates por dia e entre esses acontece às vezes estarem coisas sexistas, depois fico a cismar então devo continuar a ler autoras. E a comprá-las - isso torna as minhas idas à FL muito mais desafiantes, não vou abdicar disso. Eventualmente vou ter que ler alguns autores. 

 

- Não olho muito para o que está por ler porque isso dá-me ansiedade.

Então, como foi o ano literário?

Foi muito feliz, embora só tenha tomado plenamente consciência disso quando fiz a lista com todos os livros lidos - à mão numa folha como é costume, sublinhando a marcador os títulos a que dei 5 estrelas. Mais coisa menos coisa fiquei com 30 candidatos à lista final...Precisei de uns segundos para assimilar esta informação e depois devo ter dado um gritinho (para dentro pois era muito tarde na noite)

 

O ano passado foi óptimo e neste as coisas encaminharam-se ainda mais no sentido de me fazer ver a importância de ler autoras e de celebrar o talento e expressão feminina. Houve alturas em que além da questão literária e de escrita eu estava contente pela mera existência daquele livro. Por uma mulher decidir falar sobre a relação com o seu corpo ou sobre a sua experiência de índia numa sociedade branca e intolerante. Ou decidir ilustrar um livro sobre cientistas ou que o seu romance terá senhoras idosas como protagonistas.

 

Não é apenas crescermos como leitoras(es), mas também como humanas(os). Mas é preciso estarmos na disposição de ouvir estas vozes à margem. E o que li afinal? Bem, não achavam que eu ia ficar pelos quatro subtilmente mencionados acima...Aqui vão mais alguns dos favoritos: 

 

Próximos, mas tão afastados

Por estes dias tenho andado a ler short-stories. E uma chuva de felicidade literária tem caído sobre o meu coração. Num mundo ideal eu teria espaço para colocar contos na lista de melhores leituras do ano. Comecei por algumas histórias da Kate chopin: abordam temas como a situação da mulher na sociedade (A Respectable Woman; A Pair of Silk Stockings...O romance The awakening pelo qual é mais conhecida também aborda este tema. Encontra-se disponível também nesse site) e racismo (Désirée's Baby), com uma escrita maravilhosa.

 

Depois passei para a Shirley Jackson. Perita em escrever sobre o mal que rasteja nas sombras daquilo que parece mais insuspeito. Comunidades simpáticas, cidadãos exemplares...Gostei muito de The  Possibility of Evil e The Witch, que me fez pensar na normalização da violência e nos efeitos disso nas crianças. E para a Charlotte P. Gilman com The Giant Wistaria: um conto feminista em estilo gótico. Terminei com histórias de autoras que não conhecia. Em The Friday Everything Changed (Anne Hart) um grupo de miúdas decide questionar uma tradição sexista:

 

"In Miss Ralston's class the boys have always carried the water bucket. Until one day, the girls decide it's time to challenge the rule"

 

A Story for Children (Svava Jakobsdóttir, autora islandesa), mostra como a confinação ao papel de cuidadora do lar destrói as mulheres física e psicologicamente. Que murro no estômago. Weekend (Fay Weldon) tem uma temática semelhante, com uma personagem sufocada na sua luta para corresponder às expectativas de mãe e esposa. Desde que comecei a ler mais autoras tenho encontrado muita coisa sobre este assunto e inevitavelmente dou por mim a comparar com a perspectiva masculina que estava mais habituada a assimilar. 

 

Lá vou irritar pessoas como uma ontem que disse que eu era uma feminista exacerbada e que para pessoas normais os meus textos não valiam nada. Já sabemos para quem não vai o prémio simpatia 2018. Mas tenho de o dizer - quando fiz esta comparação foi como comparar pisar um pionés com pisar uma mina terrestre. A perspectiva masculina é aquela que nos habituámos a ver representada e a levar a sério. Hollywood ama glorificar a história do desgraçado "preso" a filhos birrentos e a uma mulher chata e sem atractivos. Ou o tipo de meia idade que larga filhos birrentos e mulher chata para "rejuvenescer" e "encontrar o verdadeiro sentido da vida" ao lado de uma gostosa mais nova.

 

Nunca temos filmes que chegue sobre isso...As senhoras também podem "encontrar o verdadeiro sentido da vida" mas o nome para isso costuma ser diferente. Quem confiar no que encontra na internet vai pensar que o casamento é a coisa mais terrível que pode acontecer a um tipo. 

 

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Mas que pobres vítimas! Já nem podem jogar videojogos! Não estão contentes por partilharem a vida com a pessoa que amam e que escolheram? Nem toda a gente tem a mesma sorte. O facto de tantos milhões de meninas e de mulheres serem realmente destruídas por uniões matrimoniais já não parece ser tão interessante de representar.

 

"Each year, 12 million girls are married before the age of 18. That is 23 girls every minute. Nearly 1 every 2 seconds. If current trends on child marriage continue, 150 million more girls will be married in childhood by 2030, with devastating consequences for the whole world"

 

(tirado daqui)

 

É difícil negar que há todo um conjunto de coisas pelas quais as mulheres passaram e passam que jamais foi experienciado por homens (ou que foi experienciado em número bem inferior). Em The Giant Wistaria uma moça tem um filho fora do casamento. A devastação que se segue, nem precisarei de descrever, nunca sequer beliscou homem algum. Seria difícil já que as regras foram criadas para que eles pudessem escapar sem punição. Não estou a falar de coisas biológicas óbvias. Este fosso entre experiências de vida é criado pela desigualdade.

 

É assustador pensar neste fosso que nos separa. A partir do momento em que há homens que ficam surpreendidos ao ouvir mulheres falarem de como limitam a sua liberdade por medo, fica evidente que este fosso é bem largo. Como superar isto? Uma coisa que gostei nestes contos, e que também gosto em outros títulos que leio, é como as autoras conseguem condensar a mensagem em tão poucas páginas - o sofrimento é real. E no entanto continuamos aqui a tentar prová-lo...É até difícil conseguir falar de masculinidade tóxica, que é algo que leva muitos homens ao suicídio. Um mundo mais igual e diverso beneficia todos.

 

Sinto que repito isto muitas vezes, apesar de ser lógico. Entretanto pensar nestas coisas cimenta mais a minha vontade de continuar a ler autoras. Espero que não achem uma maçada isto das short-stories porque tenho mais algumas em lista de espera e se achar pertinente irei falar aqui delas.

Livros, sexo e bruxas: uma reflexão

É curioso analisar o modo como as pessoas ao longo do tempo se têm vindo a referir a coisas naturais da vida: gravidez, sexo, menstruação...De certeza que já se fizeram estudos e se há livros sobre o assunto gostaria de os ler. Já contei aqui que uma das minhas expressões favoritas, pescada em livros vitorianos, é: a Mary está num estado interessante. Para dizer que a Mary está grávida. Se eu vivesse na altura ia sentir-me ofendida. Parece implicar que eu não seria interessante no resto do tempo. Há uma passagem no A Tree Grows in Brooklyn em que a protagonista comenta as diferenças entre grávidas:

 

"I guess that's why the Jews have so many babies," Francie thought. "(...) And why they aren't ashamed the way they are fat. Each one thinks that she might be making the real little Jesus. That's why they walk so proud when they're that way. Now the Irish women always look so ashamed. They know that they can never make a Jesus (...) 

 

É possível compreender uma sociedade ou momento histórico através do corpo de uma mulher: o nosso cabelo, a nossa pele, até os nossos músculos registam o mundo...Como se fôssemos livros de História andantes. No Orlando, a dado capítulo entramos no século XIX: época vitoriana, muito repressiva. Isso transparece em todos os aspectos da vida - os géneros distanciam-se ainda mais, o discurso passa a estar cheio de evasões e dissimulações. 

 

"Mas é verdade, senhora — perguntou a boa mulher, toda encolhida (...) que a rainha — bendita seja — está usando o que se chama uma — a boa mulher hesitou e corou. — Uma crinolina — ajudou Orlando"

 

Ou seja: a rainha estava prenhe (a crinolina era usada para esconder o facto). O vestuário impede mais do que nunca os movimentos das mulheres: 

 

"Era o mais pesado e banal de todos os trajes que já usara. Nenhum lhe impedira tanto os movimentos. Não poderia mais passear pelos jardins com os seus cachorros (...) Seus músculos tinham perdido a flexibilidade. Ficou com medo de que houvesse ladrões atrás dos lambris, ou, pela primeira vez na vida, fantasmas nos corredores."

 

Infelizmente, o mundo em que vivemos ainda é muito desigual e racista e isso nota-se no que dizemos: provérbios, expressões populares, canções...Por estarem tão entranhadas no tecido social é  difícil para muita gente entender que não são coisas inofensivas, mas coisas que normalizam a violência contra outros. De certeza que há canções melhores para cantar às crianças do que o Sebastião que come sem colher ou o gato que leva com o pau...

 

A sociedade patriarcal é hábil na manipulação do discurso, do modo como ouvimos e como avaliamos o que ouvimos - é ingénuo pensar que o género não tem influência nessa avaliação. Quando pensamos num discurso sério e assertivo, talvez numa assembleia ou num palanque perante uma multidão, qual é o género que associamos de imediato? E se pensarmos numa voz irritante?

 

Muita gente reclama da voz da Cristina Ferreira, mas poucas reclamam dos comentadores de futebol à volta de uma mesa a gritar e a insultarem-se. Acho isso mais do que irritante, é tóxico. Hábil na manipulação das palavras. No Monólogos da Vagina há um monólogo que consiste em repetir a palavra cunt varias vezes. Exige coragem fazer isso num palco. Mas a verdadeira origem da palavra é esta: "the Indo-European word cunt was derived from the goddess Kali’s title of Kunda or Cunti, and shares the same root as kin and country." Era uma palavra imbuída de iluminação e poder feminino. Spinster, gíria para solteirona, designava uma fiandeira. Agora servem de pedras de arremesso.

 

A palavra e o conceito de bruxa é outro exemplo. Geralmente nenhuma menina quer ser uma bruxa, isso significa ser má e feia - é o querem que acreditemos. Mas não há conceito mais anti-patriarcal: bruxas são independentes, vão onde lhes apetece, não são agradáveis à vista, elaboram planos, são ambiciosas...Já as princesas são eternamente desejáveis, sem defeitos, sempre a precisar de ajuda porque a acção é sempre algo que lhes acontece e nunca algo que elas provocam. As bruxas têm poder. Que insulto é muitas vezes atirado às mulheres na política? Exactamente. Elas têm poder e por isso devem arder. Que longa experiência temos disso, metafórica e literalmente. Isto também serve para nos separar: deste lado estão as falhadas, as loucas com a casa cheia de gatos, as putas...Sê boa menina para não acabares assim. Mas esta linha é uma ilusão.

 

Sempre achei graça aos romances em que uma moça não está grávida num capítulo e no outro já está, sem nada no meio. Sentia-me um bocado defraudada. Por exemplo, em todos os seus romances a Jane [Austen] interrompe a história no altar deixando espaço para especularmos sobre variadas coisas, nomeadamente as consideradas impróprias. No último livro que li, a amiga da protagonista pergunta-lhe se dormiu com um certo sujeito. Presumo eu, já que a pergunta foi feita timidamente...

 

"Oh, não, Regina, nunca! Pois tu cuidas que se tivéssemos transigido com o nosso desejo (...) se numa só hora de fraqueza as nossas vidas se entrelaçassem na comunhão absoluta das nossas existências (....) tínhamos ambos a certeza (...) que no momento em que a fatalidade do amor nos fizesse beber pela mesma taça o filtro de Iseu, a nossa carne, o nosso sangue, a nossa vida, não poderia mais ser dominadas pela própria vontade!"

 

Isto é que é classe! Acho que devia ser considerado sexy gemer em português arcaico. Em outro livro a protagonista diz ao seu par: que lhe apetecia fazer aquela coisa em que tinham prazer juntos. Achei adorável, embora não me pareça que seja algo que a grande maioria das mulheres no mundo possa dizer. A nossa protagonista era uma moça feliz. Pessoalmente, não gosto muito da expressão fazer amor quando é usada como eufemismo - porque há coisas que uma senhora não faz nem diz. Se escrevesse um livro colocava-lhe o título: as mulheres também fodem.

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