Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Considerações Variadas

- Estive a planear a minha ida à próxima Feira do Livro. Com certeza que é isso que as pessoas normais fazem quando não conseguem dormir. O que quero comprar, em que bancas estão, a quantas horas H tenho que ir...Sempre preferi ir à descoberta sem listas, mas já não tenho dezassete anos. Vou passar de uma neurótica super-estimulada para uma neurótica super-estimulada com um plano.

 

- Em textos feministas penso muito enquanto estou a lavar loiça. É uma tarefa doméstica chata eu sei,  mas ainda não arranjei um marido.

 

- Quando é que vamos colectivamente tomar consciência que o Last Christmas é na verdade um lamento amargo e não uma música sobre paz e amor...Isto leva-nos a esta problemática: pessoas que escolhem músicas para momentos especiais sem olhar para a letra.

 

- Terminei outro livro da tia Agatha (li dois: Crooket House e Death on The Nile - gostei do primeiro, do segundo nem por isso...) e li um conto muito bom (A Sorrowful Woman, Gail Godwin). Está fechado o ano literário. Que novas leituras nos aguardarão?

 

- Que tendência é esta de contar a mesmas histórias só colocando actores reais e efeitos modernos...E porque estão continuamente a fazer filmes sobre o Robin Hood ou passados no império romano. Que aborrecimento.

Considerações Literárias

- Se deliberadamente decidirem não ler quanto tempo é aguentam?

 

- A última vez que tentei foram seis dias, um bocado sofridos...

 

- Está na altura em que o pessoal começa a traçar os planos literários para o novo ano. Só de olhar fico com ansiedade...

 

- Descobri que até agora li 20 livros da tia Agatha. Tomei nota num documento para não me perder. Ao todo as novelas policiais são 82. 

 

- Sei que não se nota, mas estou muito vidrada em não-ficção. Já deixei a fase de ler um livro de não-ficção que casualmente encontrei. Agora pesquiso activamente e tenho um pequeno fanico cada vez que encontro um título de interesse. Todo um novo mundo que se abriu.

 

- Eu digo muitos disparates por dia e entre esses acontece às vezes estarem coisas sexistas, depois fico a cismar então devo continuar a ler autoras. E a comprá-las - isso torna as minhas idas à FL muito mais desafiantes, não vou abdicar disso. Eventualmente vou ter que ler alguns autores. 

 

- Não olho muito para o que está por ler porque isso dá-me ansiedade.

Então, como foi o ano literário?

Foi muito feliz, embora só tenha tomado plenamente consciência disso quando fiz a lista com todos os livros lidos - à mão numa folha como é costume, sublinhando a marcador os títulos a que dei 5 estrelas. Mais coisa menos coisa fiquei com 30 candidatos à lista final...Precisei de uns segundos para assimilar esta informação e depois devo ter dado um gritinho (para dentro pois era muito tarde na noite)

 

O ano passado foi óptimo e neste as coisas encaminharam-se ainda mais no sentido de me fazer ver a importância de ler autoras e de celebrar o talento e expressão feminina. Houve alturas em que além da questão literária e de escrita eu estava contente pela mera existência daquele livro. Por uma mulher decidir falar sobre a relação com o seu corpo ou sobre a sua experiência de índia numa sociedade branca e intolerante. Ou decidir ilustrar um livro sobre cientistas ou que o seu romance terá senhoras idosas como protagonistas.

 

Não é apenas crescermos como leitoras(es), mas também como humanas(os). Mas é preciso estarmos na disposição de ouvir estas vozes à margem. E o que li afinal? Bem, não achavam que eu ia ficar pelos quatro subtilmente mencionados acima...Aqui vão mais alguns dos favoritos: 

 

Próximos, mas tão afastados

Por estes dias tenho andado a ler short-stories. E uma chuva de felicidade literária tem caído sobre o meu coração. Num mundo ideal eu teria espaço para colocar contos na lista de melhores leituras do ano. Comecei por algumas histórias da Kate chopin: abordam temas como a situação da mulher na sociedade (A Respectable Woman; A Pair of Silk Stockings...O romance The awakening pelo qual é mais conhecida também aborda este tema. Encontra-se disponível também nesse site) e racismo (Désirée's Baby), com uma escrita maravilhosa.

 

Depois passei para a Shirley Jackson. Perita em escrever sobre o mal que rasteja nas sombras daquilo que parece mais insuspeito. Comunidades simpáticas, cidadãos exemplares...Gostei muito de The  Possibility of Evil e The Witch, que me fez pensar na normalização da violência e nos efeitos disso nas crianças. E para a Charlotte P. Gilman com The Giant Wistaria: um conto feminista em estilo gótico. Terminei com histórias de autoras que não conhecia. Em The Friday Everything Changed (Anne Hart) um grupo de miúdas decide questionar uma tradição sexista:

 

"In Miss Ralston's class the boys have always carried the water bucket. Until one day, the girls decide it's time to challenge the rule"

 

A Story for Children (Svava Jakobsdóttir, autora islandesa), mostra como a confinação ao papel de cuidadora do lar destrói as mulheres física e psicologicamente. Que murro no estômago. Weekend (Fay Weldon) tem uma temática semelhante, com uma personagem sufocada na sua luta para corresponder às expectativas de mãe e esposa. Desde que comecei a ler mais autoras tenho encontrado muita coisa sobre este assunto e inevitavelmente dou por mim a comparar com a perspectiva masculina que estava mais habituada a assimilar. 

 

Lá vou irritar pessoas como uma ontem que disse que eu era uma feminista exacerbada e que para pessoas normais os meus textos não valiam nada. Já sabemos para quem não vai o prémio simpatia 2018. Mas tenho de o dizer - quando fiz esta comparação foi como comparar pisar um pionés com pisar uma mina terrestre. A perspectiva masculina é aquela que nos habituámos a ver representada e a levar a sério. Hollywood ama glorificar a história do desgraçado "preso" a filhos birrentos e a uma mulher chata e sem atractivos. Ou o tipo de meia idade que larga filhos birrentos e mulher chata para "rejuvenescer" e "encontrar o verdadeiro sentido da vida" ao lado de uma gostosa mais nova.

 

Nunca temos filmes que chegue sobre isso...As senhoras também podem "encontrar o verdadeiro sentido da vida" mas o nome para isso costuma ser diferente. Quem confiar no que encontra na internet vai pensar que o casamento é a coisa mais terrível que pode acontecer a um tipo. 

 

s-l300.jpg

 

Mas que pobres vítimas! Já nem podem jogar videojogos! Não estão contentes por partilharem a vida com a pessoa que amam e que escolheram? Nem toda a gente tem a mesma sorte. O facto de tantos milhões de meninas e de mulheres serem realmente destruídas por uniões matrimoniais já não parece ser tão interessante de representar.

 

"Each year, 12 million girls are married before the age of 18. That is 23 girls every minute. Nearly 1 every 2 seconds. If current trends on child marriage continue, 150 million more girls will be married in childhood by 2030, with devastating consequences for the whole world"

 

(tirado daqui)

 

É difícil negar que há todo um conjunto de coisas pelas quais as mulheres passaram e passam que jamais foi experienciado por homens (ou que foi experienciado em número bem inferior). Em The Giant Wistaria uma moça tem um filho fora do casamento. A devastação que se segue, nem precisarei de descrever, nunca sequer beliscou homem algum. Seria difícil já que as regras foram criadas para que eles pudessem escapar sem punição. Não estou a falar de coisas biológicas óbvias. Este fosso entre experiências de vida é criado pela desigualdade.

 

É assustador pensar neste fosso que nos separa. A partir do momento em que há homens que ficam surpreendidos ao ouvir mulheres falarem de como limitam a sua liberdade por medo, fica evidente que este fosso é bem largo. Como superar isto? Uma coisa que gostei nestes contos, e que também gosto em outros títulos que leio, é como as autoras conseguem condensar a mensagem em tão poucas páginas - o sofrimento é real. E no entanto continuamos aqui a tentar prová-lo...É até difícil conseguir falar de masculinidade tóxica, que é algo que leva muitos homens ao suicídio. Um mundo mais igual e diverso beneficia todos.

 

Sinto que repito isto muitas vezes, apesar de ser lógico. Entretanto pensar nestas coisas cimenta mais a minha vontade de continuar a ler autoras. Espero que não achem uma maçada isto das short-stories porque tenho mais algumas em lista de espera e se achar pertinente irei falar aqui delas.

Pág. 1/2

Quem Escreve Aqui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

Calendário

Dezembro 2018

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

Sumo que já se bebeu

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

A Ler...

Algo especial a dizer?