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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Aviso: este texto contém vernáculo

Acabei A Pianista da Alfried Janelik - a história de uma pianista falhada de 35 anos que vive com a mãe, controladora e despótica. Fala de relações de poder não só entre mãe e filha, mas também entre géneros, de repressão sexual, de objectivação feminina e faz uma crítica incisiva a uma sociedade que esconde os seus mais sombrios desejos sob uma capa de pacatez burguesa. Antes de começar já sabia que ia ser duro. Só que este livro é mais que isso: é dilacerante. Visceral. Claustrofóbico. E muito bom. No posfácio diz o seguinte: “e de quebra se proclama admirada [a autora] com o fato de as mulheres não serem autoras de uma literatura mais agressiva.” É uma obra que dá muito que pensar e esta frase também. Um grande cliché é que as mulheres só escrevem lamechadas...Isto caiu por terra assim que comecei a descobrir mais autoras com diferentes formas de se expressarem incluindo com horror e violência. Mas pensem na repressão que as mulheres têm sofrido ao longo da História.

 

Motivos mais do que suficientes para que os nossos livros se tornem um grito. Uma vez uma pessoa, talvez fosse um senhor talvez fosse um habitante do planeta Kepler-16b, ficou ofendido com um texto meu e disse que eu era odienta...Comentário típico. Porque é que as feministas são tão agressivas e odeiam homens? Querem transformar o coração das jovens num bloco de gelo!!! São umas ofendidas que não se calam!! São pessoas que vêem uma notícia sobre homens que foram ilibados de terem violado uma mulher por ela ter consumido álcool, encolhem os ombros e pensam que é a vida, que é um azar...Se não acenarem em concordância. Que importa? É mais importante falar do drama que é deixarem de haver grandes planos de rabos e mamas em competições desportivas - já não se pode olhar para nada!! Não se pode apreciar a beleza do mundo! Que vou fazer? Furar os globos oculares? Arrancar a minha pila? Mulheres vêem os seus agressores saírem em liberdade, bebés meninas nunca viverão mais do que uns minutos, adolescentes são violadas e queimadas vivas....E vem pessoal choramingar sobre “atentados à liberdade”. Querem saber? Vão-se foder.

 

Sempre que vocês tentam defender quem está fora do grupo dominante, mulheres, refugiados, minorias - alguém vai aparecer para tentar descredibilizar a vossa raiva, dizendo que o problema não existe e que está tudo na vossa cabeça. Só que não está. Lembrem-se sempre que não são só vocês ou uma prima vossa a ter “azar”, são milhões de mulheres no mundo. Alguém diz que o feminismo é uma coisa irritante? Óptimo! Também sei o que algumas pessoas dizem: não se pode pensar assim, detestar mulheres ou pessoas de outra cor é só uma forma diferente de pensar, tens de ouvir e tens de debater e a liberdade de expressão! Há uns tempos escrevi aqui um texto sobre o paradoxo que é ter que respeitar este tipo de "opiniões". Mas há uma versão bem mais curta e não censurada desse texto, que já devem estar a ver qual é: misóginos neo-nazis querem debater ideias? Vão-se foder. 

Um porco-espinho na vida

Acho que nunca tive uma fase de sonhar com príncipes encantados. Nunca liguei a esse tipo de filmes nem a bonecas e também nunca liguei a brincadeiras de meninas. Tinha livros de autoras e livros com personagens femininas (Zé e o Tim!). E amava aquela colecção sobre miúdas num colégio interno, não que alguma vez tenha desejado estar num colégio interno feminino ou outro. Li-os todos várias vezes. Cheguei a ler dois da colecção diários de Sofia, achava-os fúteis e fascinantes ao mesmo (ela tinha 17 anos! Uma rapariga crescida) Coisas que não gostava, e ainda não gosto agora: comprar roupa e sapatos (de facto, tenho mais livros que sapatos), ir ao cabeleireiro (agora acho mais interessante pois passei a prestar atenção às conversas), comédias ou romances românticos. Tudo o que me soasse a futilidade era uma perda do tempo que podia usar para ler ou ver coisas interessantes na TV. Que coisinha irritante eu era. Gostava da Sailor Moon. Mas não queria ser a Usagi, ela era engraçada mas eu queria ser a Rei [a de Marte] que tinha um feitio mais espinhoso. É claro. Como resultado disto tornei-me um frágil calhau que quando está com pressa mal se penteia e que mal sabe andar de saltos altos (entre outros) A diferença é que agora não acho que sou melhor porque tenho mais livros que sapatos e vejo estas ideias românticas como elas realmente são: não coisas de mulherzinha, mas tentativas de subjugar e manipular as raparigas. 

Livros, vendas, más ideias

Uma das coisas que não gostei muito no Stiff - The Curious Lives of Human Cadavers da Mary Roach foi o quão óbvio se tornou que ela só escolheu o tema por ser chocante e vendível. Vocês podem dizer que não há nada de errado com isso, mas eu gosto quando alguém tem outros motivos além desse para partilhar algo: uma personagem que vocês gostam e querem escrever sobre ela; uma história em que tropeçaram e que acham que merece muito ser contada, até pode ser da vossa família, um evento histórico que acham que é pouco falado ou que precisa de outra perspectiva, os anos que trabalharam num lado qualquer...Não estou com isto a dizer que os autores devem viver na penúria é claro...Mas há certas coisas.

 

Como por exemplo tornar o livro mais vendável por inserir as personagens em certos períodos ou lugares: vou enfiar a minha personagem no Gueto de Varsóvia porque é triste e dramático e como é um romance não tenho de fazer nenhuma pesquisa adicional. Há quem doure a pílula. Nos filmes de guerra isto acontece muito: em caso de dúvida encharca-se a coisa em patriotismo e bravura. É uma das razões porque gostei do Dunkirk: toda a gente tem um ar zombinado. Ou por inserir amor entre duas personagens. E vocês dizem: livros como o Atonement também têm romance e é dramático e o pessoal chora (eu pelo menos, embora não nessa parte óbvia)...Certo, mas o livro fala de outras coisas. O problema é quando o autor (seja qual for o tipo de livro) faz o peso da narrativa cair todo sobre o aspecto romântico sem desenvolver mais nada e sem criar um contexto minimamente sólido. Há quem atribua aos protagonistas poderes transcendentes, estilo Billy Pilgrim (já encontrei dois este ano) e quem acredite realmente no poder da paixão e os coloque a apaixonarem-se na própria frente, geralmente por enfermeiras - parem com isso ou levam com uma chaleira. E se fazem questão que a vossa personagem feminina esteja no gueto e tenha um par romântico não a emparelhem com...agh. A vida não é como na Branca de Neve (não sou a única a reparar neste estranho fenómeno)

 

Muitas vezes para tornar algo vendável basta copiar qualquer coisa que tenha tido sucesso - todos já vimos isto: alguém tem sucesso com um livro onde as personagens fazem amor cobertas de gelatina enquanto levitam, no dia a seguir os escaparates das livrarias já estão a ser invadidos por histórias semelhantes em que só muda o sabor da gelatina, se tanto. Pessoas espertas não se sentam e começam a escrever, primeiro veem o que está trending. Não admira que estes escaparates sejam a coisa mais amorfa e desinteressante. E não, como já partilhado aqui, não sou fã do conceito de que todos os livros são bons - há coisas que pela sua falta de criatividade e pior: pela mensagem que transmitem, mais vale ficar aqui a navegar na maionese...

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