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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Um porco-espinho na vida

Acho que nunca tive uma fase de sonhar com príncipes encantados. Nunca liguei a esse tipo de filmes nem a bonecas e também nunca liguei a brincadeiras de meninas. Tinha livros de autoras e livros com personagens femininas (Zé e o Tim!). E amava aquela colecção sobre miúdas num colégio interno, não que alguma vez tenha desejado estar num colégio interno feminino ou outro. Li-os todos várias vezes. Cheguei a ler dois da colecção diários de Sofia, achava-os fúteis e fascinantes ao mesmo (ela tinha 17 anos! Uma rapariga crescida) Coisas que não gostava, e ainda não gosto agora: comprar roupa e sapatos (de facto, tenho mais livros que sapatos), ir ao cabeleireiro (agora acho mais interessante pois passei a prestar atenção às conversas), comédias ou romances românticos. Tudo o que me soasse a futilidade era uma perda do tempo que podia usar para ler ou ver coisas interessantes na TV. Que coisinha irritante eu era. Gostava da Sailor Moon. Mas não queria ser a Usagi, ela era engraçada mas eu queria ser a Rei [a de Marte] que tinha um feitio mais espinhoso. É claro. Como resultado disto tornei-me um frágil calhau que quando está com pressa mal se penteia e que mal sabe andar de saltos altos (entre outros) A diferença é que agora não acho que sou melhor porque tenho mais livros que sapatos e vejo estas ideias românticas como elas realmente são: não coisas de mulherzinha, mas tentativas de subjugar e manipular as raparigas. 

Livros, vendas, más ideias

Uma das coisas que não gostei muito no Stiff - The Curious Lives of Human Cadavers da Mary Roach foi o quão óbvio se tornou que ela só escolheu o tema por ser chocante e vendível. Vocês podem dizer que não há nada de errado com isso, mas eu gosto quando alguém tem outros motivos além desse para partilhar algo: uma personagem que vocês gostam e querem escrever sobre ela; uma história em que tropeçaram e que acham que merece muito ser contada, até pode ser da vossa família, um evento histórico que acham que é pouco falado ou que precisa de outra perspectiva, os anos que trabalharam num lado qualquer...Não estou com isto a dizer que os autores devem viver na penúria é claro...Mas há certas coisas.

 

Como por exemplo tornar o livro mais vendável por inserir as personagens em certos períodos ou lugares: vou enfiar a minha personagem no Gueto de Varsóvia porque é triste e dramático e como é um romance não tenho de fazer nenhuma pesquisa adicional. Há quem doure a pílula. Nos filmes de guerra isto acontece muito: em caso de dúvida encharca-se a coisa em patriotismo e bravura. É uma das razões porque gostei do Dunkirk: toda a gente tem um ar zombinado. Ou por inserir amor entre duas personagens. E vocês dizem: livros como o Atonement também têm romance e é dramático e o pessoal chora (eu pelo menos, embora não nessa parte óbvia)...Certo, mas o livro fala de outras coisas. O problema é quando o autor (seja qual for o tipo de livro) faz o peso da narrativa cair todo sobre o aspecto romântico sem desenvolver mais nada e sem criar um contexto minimamente sólido. Há quem atribua aos protagonistas poderes transcendentes, estilo Billy Pilgrim (já encontrei dois este ano) e quem acredite realmente no poder da paixão e os coloque a apaixonarem-se na própria frente, geralmente por enfermeiras - parem com isso ou levam com uma chaleira. E se fazem questão que a vossa personagem feminina esteja no gueto e tenha um par romântico não a emparelhem com...agh. A vida não é como na Branca de Neve (não sou a única a reparar neste estranho fenómeno)

 

Muitas vezes para tornar algo vendável basta copiar qualquer coisa que tenha tido sucesso - todos já vimos isto: alguém tem sucesso com um livro onde as personagens fazem amor cobertas de gelatina enquanto levitam, no dia a seguir os escaparates das livrarias já estão a ser invadidos por histórias semelhantes em que só muda o sabor da gelatina, se tanto. Pessoas espertas não se sentam e começam a escrever, primeiro veem o que está trending. Não admira que estes escaparates sejam a coisa mais amorfa e desinteressante. E não, como já partilhado aqui, não sou fã do conceito de que todos os livros são bons - há coisas que pela sua falta de criatividade e pior: pela mensagem que transmitem, mais vale ficar aqui a navegar na maionese...

Livros e convites ao amor

Depois de me ter apaixonado pelo The First-Hand Story of Young Lives Lived and Lost in World War II e de me ter resignado ao facto de ele não existir em lado nenhum que me seja acessível, agora estou apaixonada por este: Ravensbruck: Life and Death in Hitler's Concentration Camp for Women. Não é frequente que a história das mulheres seja considerada digna de ser contada e isto é uma densa investigação com mais de 700 páginas. Não que eu seja doida, mas sim: fiquei com vontade de me precipitar para a Fnac mais próxima. Só que depois vi que custava trinta euros e já não me precipitei. Dramas de um leitor, ou o livro a) não existe b) existe, mas têm primeiro que vender os vossos globos oculares no mercado negro c) já existiu no ano em que a Torre Eiffel foi construída e agora nada d) faz parte de uma série e) só o primeiro e (talvez) o segundo estão publicados. Numa nota mais positiva continuo a ler autoras e acabei Esta Distante Proximidade da Rebecca Solnit que trouxe da Feira do Livro. Se todos os que trouxe de lá forem como este sou uma leitora feliz. Eu podia apimentar este blog com outros assuntos, mas geralmente só me apetece escrever sobre livros e feminismo. É pena que os homens não olhem para estes dois temas como um convite ao amor. Se o meu príncipe encantado entrasse agora no meu quarto: primeiro iria tropeçar na bagunça, depois iria olhar para mim de pijama e peúgos a escrever um texto de mulherzinha com uma pilha de livros ao lado, iria suspirar e virar costas. Morada errada, amigo. Na verdade, penso muito em textos feministas enquanto lavo loiça...Ah, quando o coitado percebesse já seria tarde demais para fugir.

A Leitora Sentimental

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Há sempre quem seja mais desprendido, capaz de deixar casualmente um livro num banco de jardim, e quem seja mais possessivo. Eu não pertenço a este primeiro grupo e também não acredito em relações à distância. Gosto de ter livros. E gosto de os ter por perto. Nos primórdios a minha micro-biblioteca era ainda mais micro, só ocupava meia prateleira num móvel...Agora já demora uma tarde inteira a limpar e arrumar, se não houver muitas paragens para ler passagens. No fim é boa a sensação de os ver todos alinhados (mas sem nenhuma ordem de organização). Alguns dos que estão por ler ficam em cima (uns 46 no total). Claro que alguém pode dizer que bastaria comprar novos - é certo, mas não seria igual. Já não seria aquele livro que tem páginas todas enrugadas porque apanhou chuva naquele dia de Inverno no ano x, ou que ainda tem areia da praia do verão passado no sítio y, ou aquele que foi comprado numa lojinha que encontraram por acaso...É a mesma história, mas ao mesmo tempo não é. Vou sentimental no que toca às memórias que os livros podem guardar. E há aqueles que estão muito sublinhados e\ou têm anotações nas margens. E não, nunca haverá fotos suficientes da minha estante neste blog.

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