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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Eurovisão 2018 - apontamento breve

Eis a razão porque gosto da música da Netta: porque é uma combinação capaz de implodir a galáxia, canção infecciosa + feminismo + intérprete gorda confiante. Estas últimas estão bem posicionadas na lista de coisas que a sociedade odeia deveras, porque minam as suas bases. Como feminista estou consciente de que o mundo quer continuar a ver-nos como objectos e como mulher acima do peso em particular também estou consciente de que há muitas coisas que não é suposto fazer, como sentir-me uma criatura bonita e estar num palco mundial a fazer a minha cena. Tristemente muitos dos comentários que vi mostram isso mesmo. No fim da noite (ou no fim do dia, dependendo de onde estão) esta é a mensagem que podemos tirar do que vimos: não importa que vocês sejam mulheres, negros, gordos (ou que decidam colocar dois bailarinos masculinos a actuar na vossa música fofa, fazendo a vossa parte na implosão da galáxia. E de contractos), vocês são importantes e podem ter uma chance naquele palco (e noutros). "Não precisamos de nos encaixar nos padrões normais de como devemos ser, pensar, falar ou criar". E quando as pessoas enchem o coração de coisas ruins e aproveitam qualquer detalhe para agirem como bullies, elas só estão a perder - porque não vêem a beleza desta mensagem e a beleza das coisas diferentes. 

Ler Autoras: Mentiras

Sei que muita gente não é fã de biografias e auto-biografias, mas tenho cada vez mais percebido a importância de incluí-las nas minhas leituras. Depois do Lab Girl da Hope Jahren e do Let's Pretend That Never Happened da Jenny Lawson, já mencionados aqui, li Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons From the Crematory (Caitlin Doughty); Heartbreak: The Political Memoir of a Feminist Militant (Andrea Dworkin) e Hunger (Roxane Gay). É um privilégio poder ler a história de tantas mulheres contadas na primeira pessoa ou pela escrita de outras autoras. Também tenho tropeçado em alguns livros que me têm deixado perplexa, não porque sejam maus - mas porque não consigo perceber porque não estão nas listas de livros que toda a gente deve ler.

 

E pensar que até há não muito tempo eu aceitava passivamente a ideia de que se havia poucas autoras nestas listas era porque não havia assim tantas que prestassem...Mais chocante ainda quando são autoras que foram pioneiras ou mesmo as primeiras a fazer algo neste caso no campo da literatura. Esta sociedade odeia-nos tanto que é capaz de atribuir trabalhos\descobertas nossas a homens - não admite que uma mulher possa ter talento. Este ano já tive o caso do Life and Death of Harriett Frean da May Sinclair: poeta, filósofa, tradutora e crítica nascida em Inglaterra em 1863. Desempenhou um papel fundamental no movimento modernista e foi ela quem primeiro pegou na técnica do fluxo de consciência e a aplicou à literatura. May também era sufragista. Infelizente ela permanece na sombra enquanto os homens (James Joyce, Ezra Pound, DH Lawrence, blá, blá...) ocupam as listas.

 

Está longe de ser o único caso - a minha última leitura: A Raisin in the Sun da Lorraine Hansberry, uma peça teatral publicada em 1959 e cuja história gira em torno de um família negra vivendo debaixo da segregação racial em Chicago. Devia estar em todas as listas de livros que se devem ler. Lorraine foi o mais jovem dramaturgo, a quinta mulher e o primeiro negro a receber o New York's Drama Critic's Circle Award e a primeira mulher negra a ter uma peça na Broadway. Estas listas de "obrigatórios" não só são misóginas como fazem publicidade à lixívia. Aquilo que algumas pessoas costumam dizer: falar em conquistas no feminino não é igualdade, devemos falar de todas as conquistas! É o mesmo pensamento que está subjacente ao: devia existir dia do homem! Devia chamar-se igualitarismo e não feminismo, deviam dizer que todas as vidas são importantes! Quão nonsense é este argumento.

 

Algum homem foi alguma vez impedido de entrar numa faculdade e tendo por força conseguido ser admitido, acabou expulso porque respondeu numa aula a uma pergunta que mais ninguém sabia e os colegas foram a correr fazer uma petição dizendo que a sua presença prejudicava o progresso deles? Ou teve um tubo enfiado na garganta apenas por querer participar na normal vida pública? E quem era enforcado em pacatas ruas americanas enquanto famílias riam e aplaudiam? Quem foi massacrado e expulso da sua terra? A frequência com que vejo este "argumento" mostra o quanto algumas pessoas estão deslocadas da realidade. Realmente só quando se começa a pesquisar sobre aquilo que as mulheres fizeram ao longo da história, a ouvir as suas músicas, a ver os seus filmes, a ler os seus livros...Se percebe o quão profundas são as mentiras fabricadas por este mundo misógino.

Planos para a Feira do Livro 2018!

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Contando que consiga ir e a minha carteira colabore:

 

- tirar algumas fotos decentes (nunca tiro por estar sempre demasiado entusiasmada e me esquecer da máquina. E porque para evitar uma sobrecarga de estímulos não me posso concentrar em demasiada coisa. Muita gente, barulho, muitos livros, é muita coisa a acontecer na minha pobre cabecinha aspie. Se desse tempo para ver tudo preferiria ir de noite)

 

não ficar nervosa demais com as necessárias interacções (só mesmo o amor aos livros ainda mais a bom preço me faz estar numa banca quase vazia com quatro pares de olhos em cima de mim. Também podiam facilitar...) 

 

não fugir de pessoas conhecidas (é muito improvável. Quer dizer a parte de não fugir, não a parte de encontrar conhecidos...Isso acontece muito, é um fenómeno que não dá para explicar)

 

comer (também é improvável, mas nunca se sabe. Sou tão chique que se parasse para comer seria um pãozinho preparado em casa)

 

- não pisar nenhum chihuahua (gente, eu amo os vossos animais sejam eles chihuahuas, pastores alemães ou cabrinhas, mas a sério...Há mais sítios onde comer na Feira do que bom senso)

 

- só comprar livros de autoras (espero que o anónimo que disse que eu era uma exagerada por tirar da lista livros que me parecem misóginos não esteja a ler isto. Um dia este blog vai mesmo provocar uma apoplexia a alguém. A FL é um boa oportunidade para trazer mais autoras para a minha estante e tenciono aproveitá-la por isso em princípio homens não irão constar da lista. É uma lista mental, não consigo guiar-me por uma lista física nem costumo fazer)

 

- Arranjar um cestinho ou um saco grande. Tenho um saco de pano grande de levar para a praia (quase nunca faço praia) e estou a pensar nele. Alguém vai acabar a carregar com isso, é certo

Complicadas Férias

Às vezes parece que sou a única que não fica entusiasmada com a ideia de a) sítios paradisíacos b) cruzeiros c) escapadinhas românticas. Tenho a ideia de que em ilhas paradisíacas não há muito para fazer o que deve ser o principal atractivo, mas eu não sou muito boa em estar parada (uma das razões porque não gosto de fazer praia) A minha ansiedade não gosta de viajar e conta o tempo que vamos passar longe de casa, a distância e analisa as melhores rotas de fuga. E também não sou boa na parte de fazer as malas. O ano passado nem fui para fora nem nada e insisti que tinha de levar todas as minhas almofadas. Cruzeiros não me parece um conceito apelativo por vários motivos - "é como estar num hotel gigante, um pessoa nem dá conta que está no mar!" Para isso fico num hotel em terra. Não vou pagar um balúrdio por coisas que posso fazer em terra tipo ir a centros comerciais e piscinas.

 

O David Foster Wallace tem uma excelente crónica sobre cruzeiros chamada Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer. As escapadinhas românticas parecem sempre envolver jantares chiques, massagens a dois e spas e eu não sou o tipo de pessoa que se queira levar para sítios desses (há dias cortei uma ponta de cabelo sem querer enquanto brincava distraidamente com uma tesoura...) Além disso o conceito: "bora pegar nas coisas e partir" entra em choque com a minha ansiedade e com o meu lado aspie que não gostam de surpresas e que precisam de tempo para pensar em tudo o que pode acontecer (se chove, se fico com o período, se apanho sarampo, se terroristas invadem o hotel...). Se o meu futuro marido estiver a ler isto (a probabilidade de nos encontrarmos deve ser a mesma que terroristas invadirem um hotel no Caramulo, mas temos de pensar em tudo) gostaria de dizer que não precisamos de gastar dinheiro nestas coisas.

 

Podemos ficar em casa no sofá com uma manta, a ver filmes de zombies e a comer pizza enquanto os cães nos tentam saltar para o colo. Sim vamos ter cães e não, não podemos trocar de programação especialmente para coisas de crimes: deixam-me sempre a pensar que de facto a gente não tem como saber quantos psicopatas cruzam o nosso caminho. Até tu podes ser um deles e então vou ter que te amarrar ao sofá enquanto grito e agito uma tesoura. Claro que nada nos garante que zombies já não estejam a atacar pessoas enquanto vemos o filme, mas aí podemos decidir juntos o que fazer e começar logo um inventário das provisões. Talvez possamos trocar por documentários sobre a guerra mas é possível que eu fique emocional e carente e a precisar de chocolates que vais de ter ir comprar e uma vez na rua podes ser atacado pelos zombies ou pelo psicopata e eu vou chorar por já não ter ninguém para tratar do IRS. Vamos ser um casal muito feliz.

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