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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Feira do Livro e os esquecidos

Quando os leitores pensam na Feira do Livro é inevitável que pensem logo no que pretendem comprar e é possível que isso leve a uma reflexão sobre o que foi comprado e ainda não lido. Ao contrário do que se possa pensar a vida de um leitor é cheia de pequenas regras: não comprar demasiado, ler o que está na estante em espera, ler um número determinado de livros por ano, não desistir de uma leitura a meio...Algumas destas regras\hábitos podem trazer resultados positivos dependendo de cada um: não acho um frete ler autoras mesmo que isso signifique adiar outras leituras, já ter metas vocês já sabem: não. Em relação ao que veio da Feira o ano passado: já li tudo, menos um (alguns do ano anterior ao anterior ainda estão em espera, é verdade...) Alguns entraram para a lista de favoritos mas com as autoras portuguesas não tive muita sorte: achei o Que Importa a Fúria do Mar meh e de Os Olhos de Tirésias da Cristina Drios, a minha última leitura - tentei, mas não gostei nadinha. A vida de um leitor também é feita de altos e baixos e nunca se sabe quando será um ou outro. 

Ler Autoras: aberta a época

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A fim de me manter a par do espírito dos tempos, declaro aberta aqui a época dos casamentos (espero que isto não seja considerado spoiler) Por ordem cronologia: quatro releituras e duas leituras, sendo que o primeiro já está. Outras coisas serão lidas pelo meio é claro, mas com sorte isto não vai durar até Dezembro. No fim discutiremos a questão mais importante e profunda de todas: qual protagonista masculino é o melhor. Tenho uma ideia de quem não ficará no topo da lista, mas se verá.

History Lover Problems - VIII

No sábado estava a ver isso do casamento à hora de almoço e a conversa desviou-se para o facto de haver ou não castelos na América, não me perguntem porquê. Mas como não sou fã de casamentos e ver o Harry a casar-se faz-me sentir velha, achei que este era um rumo de conversa mais interessante então eu disse que a América era uma colónia e a Austrália também e que esta aparentemente foi descoberta por nós...Não gosto deste termo e tive que morder a língua para não ter a tentação de o repetir - que branco e cruel é este termo: "descoberta". Cada vez menos partilho o entusiasmo por tudo que esteja envolvido nisso: navegações, odisseias, patriotismo, dar novos mundos ao mundo...Se eu chegasse aqui e dissesse que o que era giro era fazermos uma festa para celebrar o holocausto - é certo que algumas pessoas iriam concordar, mas em principio muitas não. Então porque tenho que ver este genocídio de civilizações como uma coisa gloriosa? Por causa do ouro para encher altares (se certos objectos pudessem fazer algo, esse algo seria sangrar em silêncio...) ou de um pau de canela?

 

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Claro que vocês podem dizer, puxa então os avanços científicos e geográficos isso é muito importante. Pois, de tal modo importante que afoga tudo o resto...O que é violência, massacres, violação  em massa e roubo quando são servidos numa bandeja reluzente? É como as revoluções, tão importantes mais as constituições que saíram daí...A menos que vocês não fossem homens brancos nesse caso a vossa vida continuava fodida à mesma. Não sei se já viram aquele livro Histórias de Adormecer para Raparigas RebeldesÉ fantástico. Mas para a "História oficial" essas mulheres não existem. Não admira que várias das personagens femininas mencionadas ali sejam quase desconhecidas, embora as pessoas consigam dizer o nome de mais do que um homem na mesma área - porque foi isto que nos ensinaram, que um único grupo tem a supremacia da importância. E fontes históricas consideradas "confiáveis" continuam a bombardear-nos com esta ideia enviesada da História, não mais que um instrumento de ignorância e submissão - ainda nos obrigando a pedir desculpa ou a ter vergonha de existirmos e de reclamar-mos o nosso lugar passado e presente no mundo.

Justiça para mim!

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Aqui se vê a injustiça no mundo: eu digo que passei um ano a ler (quase) só autoras e que foi óptimo e tenho gente à perna a dizer que isso não é igualdade, que é misandria, que devemos escolher os livros pelo conteúdo e não pelo género - pára de estar sempre a puxar a conversa do género! Mas este tipo pode literalmente dizer - é, eu acho a maior parte das autoras insuportáveis mas esta até escapa" e está tudo bem. Deve ser porque eu não sou um autor famoso e premiado. Deve ser incrível poder dizer qualquer imbecilidade sem consequências..."Não digas que há livros escritos por homens para homens, isso é tão redutor e exagerado...Quê? Ah não, não aprecio escrita feminina." Se fosse escritora iria exigir que a minha editora pusesse na parte de trás do meu livro quatro homens a dizerem que a minha escrita é maravilhosa. Nada de autoras. Só homens. Para me sentir plenamente validada. Talvez deva começar a aplicar este "elogio" noutras facetas da vida. Por exemplo, se um dia casar e alguém me perguntar a razão da escolha vou responder: é que a maioria dos homens não presta para nada, este é dos poucos que consigo tolerar. Se o meu marido não ficar tão comovido com isto que me leve logo para cama e coloque a cabeça lá em baixo para uma boa sessão de beijinhos, não sei....

Eurovisão 2018 - apontamento breve

Eis a razão porque gosto da música da Netta: porque é uma combinação capaz de implodir a galáxia, canção infecciosa + feminismo + intérprete gorda confiante. Estas últimas estão bem posicionadas na lista de coisas que a sociedade odeia deveras, porque minam as suas bases. Como feminista estou consciente de que o mundo quer continuar a ver-nos como objectos e como mulher acima do peso em particular também estou consciente de que há muitas coisas que não é suposto fazer, como sentir-me uma criatura bonita e estar num palco mundial a fazer a minha cena. Tristemente muitos dos comentários que vi mostram isso mesmo. No fim da noite (ou no fim do dia, dependendo de onde estão) esta é a mensagem que podemos tirar do que vimos: não importa que vocês sejam mulheres, negros, gordos (ou que decidam colocar dois bailarinos masculinos a actuar na vossa música fofa, fazendo a vossa parte na implosão da galáxia. E de contractos), vocês são importantes e podem ter uma chance naquele palco (e noutros). "Não precisamos de nos encaixar nos padrões normais de como devemos ser, pensar, falar ou criar". E quando as pessoas enchem o coração de coisas ruins e aproveitam qualquer detalhe para agirem como bullies, elas só estão a perder - porque não vêem a beleza desta mensagem e a beleza das coisas diferentes. 

Ler Autoras: Mentiras

Sei que muita gente não é fã de biografias e auto-biografias, mas tenho cada vez mais percebido a importância de incluí-las nas minhas leituras. Depois do Lab Girl da Hope Jahren e do Let's Pretend That Never Happened da Jenny Lawson, já mencionados aqui, li Smoke Gets in Your Eyes: And Other Lessons From the Crematory (Caitlin Doughty); Heartbreak: The Political Memoir of a Feminist Militant (Andrea Dworkin) e Hunger (Roxane Gay). É um privilégio poder ler a história de tantas mulheres contadas na primeira pessoa ou pela escrita de outras autoras. Também tenho tropeçado em alguns livros que me têm deixado perplexa, não porque sejam maus - mas porque não consigo perceber porque não estão nas listas de livros que toda a gente deve ler.

 

E pensar que até há não muito tempo eu aceitava passivamente a ideia de que se havia poucas autoras nestas listas era porque não havia assim tantas que prestassem...Mais chocante ainda quando são autoras que foram pioneiras ou mesmo as primeiras a fazer algo neste caso no campo da literatura. Esta sociedade odeia-nos tanto que é capaz de atribuir trabalhos\descobertas nossas a homens - não admite que uma mulher possa ter talento. Este ano já tive o caso do Life and Death of Harriett Frean da May Sinclair: poeta, filósofa, tradutora e crítica nascida em Inglaterra em 1863. Desempenhou um papel fundamental no movimento modernista e foi ela quem primeiro pegou na técnica do fluxo de consciência e a aplicou à literatura. May também era sufragista. Infelizente ela permanece na sombra enquanto os homens (James Joyce, Ezra Pound, DH Lawrence, blá, blá...) ocupam as listas.

 

Está longe de ser o único caso - a minha última leitura: A Raisin in the Sun da Lorraine Hansberry, uma peça teatral publicada em 1959 e cuja história gira em torno de um família negra vivendo debaixo da segregação racial em Chicago. Devia estar em todas as listas de livros que se devem ler. Lorraine foi o mais jovem dramaturgo, a quinta mulher e o primeiro negro a receber o New York's Drama Critic's Circle Award e a primeira mulher negra a ter uma peça na Broadway. Estas listas de "obrigatórios" não só são misóginas como fazem publicidade à lixívia. Aquilo que algumas pessoas costumam dizer: falar em conquistas no feminino não é igualdade, devemos falar de todas as conquistas! É o mesmo pensamento que está subjacente ao: devia existir dia do homem! Devia chamar-se igualitarismo e não feminismo, deviam dizer que todas as vidas são importantes! Quão nonsense é este argumento.

 

Algum homem foi alguma vez impedido de entrar numa faculdade e tendo por força conseguido ser admitido, acabou expulso porque respondeu numa aula a uma pergunta que mais ninguém sabia e os colegas foram a correr fazer uma petição dizendo que a sua presença prejudicava o progresso deles? Ou teve um tubo enfiado na garganta apenas por querer participar na normal vida pública? E quem era enforcado em pacatas ruas americanas enquanto famílias riam e aplaudiam? Quem foi massacrado e expulso da sua terra? A frequência com que vejo este "argumento" mostra o quanto algumas pessoas estão deslocadas da realidade. Realmente só quando se começa a pesquisar sobre aquilo que as mulheres fizeram ao longo da história, a ouvir as suas músicas, a ver os seus filmes, a ler os seus livros...Se percebe o quão profundas são as mentiras fabricadas por este mundo misógino.

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