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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Festival da Canção: também quero opinar!

Não estava nos planos falar sobre isto por 3 razões, a saber: toda a gente está a fazer o mesmo; tenho uma tendência para ser do contra (surprise!) e não tenho televisão no quarto portanto só apanho as coisas aos bocados. Mas ontem dei por mim com tempo livre e fui ouvir as músicas, sim as 14 que se é para opinar que seja em termos! Cá vai:

 

1. "Canção do Fim", Diogo Piçarra - não desgostei, mas também não me desfiz em água de emoção e saí serpenteando pelo quarto qual regato...btw, é realmente igual à outra 

2. "Só Por Ela", Peu Madureira - se a minha janela não tivesse grades eu ter-me-ia atirado só para não continuar a ouvir isto

3. "Patati Patata", Minnie e Rhayra - idem...

4. "(Sem título)", Janeiro - não achei piada

5. "Pra Te Dar Abrigo", Anabela - grande voz, mas a música é um bocado pimpona demais para o meu gosto

6. "Bandeira Azul", Maria Inês Paris - não desgostei

7. "O Voo das Cegonhas”, Lili - não papo muito aquela vozinha, mas a letra é a mais bem escrita de todas: uma lenda nasceu e o povo a cantou Sobre a mulher sem peso Que a dor esvaziou Como subiu aos céus Onde o voo das cegonhas se cruza com a voz de Deus - cum catano

8. "Amor Veloz", David Pessoa - meh

9. “Sunset”, Peter Serrado - surpreendentemente agradável. Gostei

10. "Zero a Zero", Joana Espadinha  - não gostei
11."Sem Medo", Rui David-se eu fosse o Palma fazia o mesmo, mandava um clone mais novo em vez de ir para lá maçar-me

 

E então as favoritas por ordem:

 

 

 

 

Diversidade: porque é tão importante

Não é irónico que os estúdios se esfalfem tanto para fazer filmes com super-heróis masculinos e brancos quando no fim do dia as produções mais cotadas e com mais sucesso parecem ser aquelas cujos protagonistas não se encaixam nessa categoria? Claro que para algumas pessoas pensar nisso é motivo para espumar da boca: coisa "nociva", "politicamente correcta" e "uma forma de sexismo (ou racismo) ao contrário". E também há os que dizem que tudo isto não tem qualquer importância. Fico contente por quem acha que a diversidade é uma coisa de somenos. Com certeza são pessoas que se sentem representadas quando vão ao cinema ou ligam a televisão...

 

Cada vez que uma mulher tem o papel principal, cada vez que um realizador negro recebe um prémio, cada vez que uma modelo amputada ou tamanho 44 é capa de revista - isso é um tijolo colocado na construção da auto-estima de muita gente, especialmente crianças. Algures o ano passado encontrei este relato num site: uma menina depois de ver um certo filme decidiu que queria ir sempre para a escola vestida como a personagem. Quando lhe disseram que ir assim vestida todos os dias não podia ser, ela disse que era preciso porque podia precisar de salvar o mundo a qualquer momento. Quantas oportunidades as meninas têm para se sentirem assim? Nós gostamos de nos sentir valorizados certo? então porque não estender esse sentimento a todos neste mundo? A rapidez com que as crianças interiorizam a inferioridade: ainda nem perderam os dentes de leite e já aceitaram que a sua cor é feia e que as mulheres não podem fazer o papel de guerreiras...

 

Recuperando uma metáfora já usada aqui e que se aplica muito bem: a diversidade só é nociva para quem pensa nela como uma tarte: se alguém tirar uma fatia eu vou ficar com menos. "Só 97% dos filmes terem como  personagens centrais homens brancos enquanto o ano passado eram 98%?!! Não é isso um complô armado pelo paradigma social  para me retirar os meus direitos?" Não. Dizer-se que a diversidade é racismo (ou sexismo) ao contrário é usar um argumento utópico. É como cantarem sobre o quão maravilhoso é este mundo enquanto tentam passar por uma pilha de corpos no chão. Outra coisa engraçada que encontrei algures: alguém indignado porque uma actriz publicou uma foto de uma camerawoman que estava a trabalhar naquela produção - por quê destacar o trabalho dessa pessoa só por ser mulher? Resposta - vou deixar de fazer isso quando as mulheres passarem a ganhar o mesmo. Touché. Não seria necessário destacar o trabalho feminino se ele fosse valorizado. Se todos os seres humanos fossem tratados como iguais e não como seres de segunda ou como objectos. E se todos tivessem as mesmas oportunidades. "Quê? O paradigma social já não conseguiu que mulheres e afins tivessem mais direitos?" A resposta também é não. 

 

Para que se vai criar um mês para celebrar as conquistas masculinas (brancas), se isso acontece todos os dias do ano e basta abrir um manual de História - estão lá detalhadas com toda a glória...Subtraindo até alguns factos interessantes, por exemplo: como é que na realidade os impérios são construídos. À sombra de corpos enforcados e sobre os corpos de Judites inertes. Quando falei aqui da ideia de ler mais autoras alguém questionou: "mas ser feminista não é querer igualdade de género?" Como se eu estivesse a ser sexista por escolher ler mulheres, quando nós nunca tivemos igual oportunidade de estudar, publicar e ter uma carreira literária (ou outra). É uma questão de justiça - estas histórias escritas por mulheres são tão dignas de atenção atenção como as escritas por homens. Da mesma forma se eu for ver um filme sobre Marie Curie, Bessie Coleman ou Nancy Wake (nunca se sabe...), não estou a dizer que acho uns superiores aos outros na ciência, na aviação ou na espionagem, mas sim: a experiência destas mulheres é digna e merecedora de ser contada, em vez de ser enterrada ou apagada. Quando a diversidade aumenta todos são beneficiados.

Relendo livros e assim

Além da ideia de ler mais não-ficção feminista ando mesmo com a ideia de reler alguns livros, não sei se já tinha falado disto aqui. Ainda não coloquei em prática pois cada vez que olho para a estante e tento escolher o que vou reler acabo com uma pilha de dez títulos no mínimo...Muita gente não gosta de voltar a algo que já foi lido com tantos livros interessante à espera de uma oportunidade. Mas acho necessário por várias razões: já quase me esqueci da história de alguns e não gosto disso, eu devia conhecer todos os livros. Por exemplo amei o Vermelho e o Negro e já quase não sei por quê...Isto de andar a experimentar coisas novas é giro, mas também é cansativo. Não posso viver tanto tempo sem os meus clássicos, especialmente quando as últimas leituras não foram nada de extraordinário. Li Carol, que deu origem depois ao filme em 2015, mas achei aborrecido. E li um livrinho que me foi amavelmente sugerido: os estranhos eventos que levaram a personagem principal, uma jovem chamada Shirley, a iniciar a sua luta contra o patriarcado.

 

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A minha reacção sempre que alguma coisa feminista se cruza no meu caminho. Ao reler há uma forte probabilidade de descobrir que alguns livros são sexistas não é?

Amor no ar, mas não aqui

Esta parece-me uma boa altura do ano para falar aqui de novo do flagelo que são as pessoas que insistem em dizer que certos livros são bonitas histórias de amor. Há uns anos alguém num blog dizia que o Monte dos Vendavais era um livro muito romântico - só que não no sentido convencional...Era sobre o lado negro do amor. Achei isto incrível. Nem falando do crítico literário que disse que a Lolita era a melhor história de amor do século XX. Não sei quem foi a primeira pessoa a pegar em qualquer destes livros e a colocá-los nessa categoria, mas essa pessoa cometeu um erro. Eles são muita coisa, mas não histórias de amor. De modo nenhum. Para começo de conversa isso de o lado negro do amor não existe: se a vossa relação passa para o lado negro isso já não é amor e vocês devem sair dela o mais depressa possível. Ninguém que esteja no seu juízo perfeito vai desejar ter um Heathcliff ou uma Catherine na sua vida. Também tenho algumas dúvidas sobre rotular livros como o Grande Gatsby de lindas histórias românticas. Gostei dos três, mas com toda a franqueza. Até o próprio Nabokov vos daria um calduço se vos ouvisse dizer que a sua obra é uma história de amor. Infelizmente e como bem sabemos hoje encontram-se vários "livros", alguns cujo nome não deve ser pronunciado, que romantizam o abuso...Até YA fazem isso. É tão nojento. Não promovam isso gente. Abuso sexual e verbal, stalking e violência doméstica não são amor. Essas fantasias na vida real acabam com um dos elementos sete palmos abaixo do chão. E quanto a isto ser tudo uma questão de interpretação como algumas pessoas afirmam, vamos pedir opinião ao nosso amigo patinho: 

 

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