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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Sou feminista, sem querer ofender

É difícil calcular o quanto as mulheres são obrigadas a se conter neste mundo, todos os dias desde tempos imemoriais. Se contássemos todas as injustiças cometidas um quarto só para nós não ia chegar, precisaríamos de metade do mundo. Pensando nisto, uma coisa que me chateia quando alguém diz que sou uma feminista maluca (não é um insulto que me faça querer entregar ao álcool, talvez no dia em que disserem que sou uma mal fodida. Ainda não aconteceu directamente), é que isso mostra que a pessoa não dá valor ao meu trabalho para tornar este textos apresentáveis. Há pessoas que implicam com qualquer coisa: experimentem irem todas lançadas a escrever um texto sobre violência doméstica e não escreverem que tanto mulheres como homens são vítimas. Alguém vai apontar essa discriminatória omissão. O que é muito curioso. Expressões demasiado veementes, exemplos dúbios - devem ser substituídos por argumentos lógicos e ordenados. O problema é quando esbarramos em coisas que não são possíveis de analisar dessa maneira.

 

Quando começaram a aparecer notícias tristes sobre o que um produtor de música fez a uma cantora conhecida, senti necessidade de escrever sobre isso mas nenhum texto saiu lógico e ordenado. Como poderia? Em nenhum texto, sobre qualquer assunto num blog público podemos escrever a primeira coisa que nos vem à cabeça e com assuntos destes também é assim. Quando faço referência a tesouras de trinchar peru ou cutelos - isso é apenas um resumo breve daquilo que me ocorre depois de dezenas de notícias de violência sexual. Queremos que as pessoas olhem para o feminismo como uma coisa positiva. Mas se pensarmos bem isto é bullshit: começamos a agir como se a nossa raiva não fosse plenamente justificada. Só que é. Porque quando o mundo trava uma luta contra o vosso género, vocês têm todo direito a estar zangadas. Mais uma táctica da sociedade patriarcal: descredibilizar a raiva feminina perante uma injustiça. Dizer que é exagerada, fora de propósito ou fruto de uma mente desequilibrada. Uma vez num livro um escritor dizia que as mulheres não querem saber de injustiças, isso era uma coisa masculina.

 

Sem pretender saber mais que o premiado autor, acho que o problema é os homens não limparem bem os ouvidinhos. Há um fenómeno inquietante que vejo muito, não sei se já falei dele aqui: pessoas que antes de escreverem um texto sobre igualdade fazem uma espécie de disclaimer: "vou falar disto, mas calma não sou maluca! Tudo na paz pessoal!" Duvido que façam isto para outros assuntos - "hoje vou falar do estado da justiça, mas calma não odeio nenhum juiz ou isso" ou "vou falar da economia da Namíbia, mas olhem que amo todos os países do mundo, até sou casada com um!" É isto que esta sociedade quer: que tenham vergonha da vossa indignação. Quando na verdade se alguém não gosta isso não é problema vosso. Quando alguém acha parvoíce estarmos indignados com algo sexista o problema é dessa pessoa que está tapada pelos seus próprios preconceitos. 

 

Conhecem aquele famoso provérbio: cada vez que uma mulher demonstra mais sentimento do que um capacho da entrada, há dois tipos numa cave algures que têm um princípio de enfarte. Até no dia da Mulher encontro textos a começar assim: "para começar gostaria de dizer que não tenho nada contra os homens." Reparem: se eles tiverem bom senso vão perceber isso, se não - não é problema vosso. E sim, eu sei que há pessoas que têm medo de usar a palavra feminismo. Eu também tinha, tipo quando era mais miúda e assim. Mas já ouvi dizer que agora se pode pesquisar numa coisa começada por G, tão moderno e rápido! Se eu não tivesse filtro poderíamos passar um momento divertido a dissecar todos os disparates que se dizem nos blogs sobre isto e não é preciso ir assim tão longe. Não há razão para ter medo. Também sei que há pessoas que acham que se fala demasiado disto e mimimi mas cada vez que vocês pensam assim lembrem-se que não estão a nadar contra a corrente ou a ser politicamente incorrectos - só estão fazer exactamente o que a nossa velha sociedade quer. 

Esses objectos especiais

Cada vez que tenho de limpar a minha estante ocorrem-me certos pensamentos: o primeiro é quando vejo que alguns dos meus livros estão a ficar velhinhos. É como as pessoas: começam a ficar enrugados e com manchas e não há muito que eu posso fazer. No sentido mais prático, mostra o quanto as editoras se preocupam ou não com os livros que colocam à venda: tenho alguns cujo papel é um autêntico sugador de pó enquanto em outros ele se mantém branco. Penso na tristeza que é no futuro ninguém ter estantes com livros - e até sinto um arrepio. Por mais que goste de livros digitais e ache prático, não quero uma estante ou listagem digital. É certo que uma estante ocupa espaço, os livros envelhecem, ficam com um cheiro esquisito, pessoas podem entrar agora em vossa casa e pegar-lhes fogo...Mas isso também não é diferente do que acontece com os seres humanos. Sejamos salvos da total frieza antisséptica. Penso que devia empilhar os livros no chão e não no cimo da estante evitando uma potencial morte e no quanto uma estante pode ser um álbum da vida do seu possuidor - pega-se neste ou naquele livro e pensa-se: "que quente foi aquele verão", "sinto falta desta pessoa" ou "que discussão ridícula que tivemos naquele dia". Nada disso relacionado com a história em si. Algumas memórias podem ser embaraçosas, mas a menos que as contem a alguém elas continuarão guardadas na privacidade das páginas do livro. Podem pegar nele e lê-lo de novo, acrescentado novas camadas de memória ou podem deixá-lo quietinho durante anos que quando voltarem a abrir elas estarão lá. Não sei o que faz com que os livros tenham esta capacidade de cristalizar um momento, como uma foto com conversas, música e sensações incluídas. Mas é algo muito bonito.

Book Lover Problems - XXXI

Esta é aquela altura do ano em que começo a ter a sensação que o número de lugares disponíveis para os melhores livros do ano não vai chegar para todos os candidatos...É por enquanto apenas uma vaga suspeita pois como é sabido a minha capacidade de situar coisas no tempo é meio medíocre então não sei que livros li nos últimos meses. Mas tenho uma suspeita forte que li mais autoras do que autores, porque só me lembro de ter lido uns seis ou sete autores. Foram demais. Ok. Mas eu demorei mais de vinte anos a chegar a este ponto literariamente falando. Por isso

 

Sopinha de Letras

Num post que escrevi com os 10 sinais que indicam que um leitor é um snob literário de nível médio: um deles era ter lido com prazer os livros obrigatórios na escola. Podia ter exagerado para efeitos humorísticos, mas sim: amei ler as malfadadas obras [o Garrett um pouco menos] e em alguns casos essa primeira leitura tornou-se a primeira pedra de uma relação estável e feliz. Acho que também tive sorte: tive excelentes professoras. E não tive que estudar o Amor de Perdição...Não que não o tivesse lido se fosse preciso. Eu lia tudo. E sim: também gostava da parte da análise - o que este parágrafo nos mostra sobre a personagem e por aí fora. Nisto a poesia oferecia mais liberdade...Todos os trabalhos de casa fossem analisar as moedas que caem em cima dos pêssegos no poema do Cesário. Era triste quando tínhamos de avançar no programa, havendo ainda tanta coisa para estudar sobre as obras - a parte do Camões não achei assim muito fácil, mas compensei enchendo as margens do manual com anotações impossíveis de entender. Em termos de notas safei-me bem [menos no Garrett], uma vez consegui falar 5 minutos seguidos sem me engasgar sobre a simbologia nos Maias. Fiquei contente comigo própria. Eu era uma nerd ridícula...Mas era só nisto [e em História claro], eu detestava quase todas as outras matérias e tentava não despender com elas mais do que o tempo necessário. 

Linhas que nos separam ou não

Há uns tempos falei aqui de algumas ideias equivocadas sobre liberdade de expressão, respeito e sobre o que deve ser ou não tolerado. Tristemente, é um tema que ainda não morreu e acho que há mais esclarecimentos que se impõem, pois parece-me que há muito pessoal a viver iludido. Tomemos como exemplo certos senhores em Hollywood: qualquer pessoa razoável irá dizer que aqueles tipos são uns porcos doentes e muitos homens irão dizer que jamais se comportariam de tal forma. Agora vamos supor que encontro uma crónica sobre este assunto. Lá fala-se em discutir quando é que um não significa não, o conceito de consensual e a atitude de actrizes que permitem isso para subir na carreira. Será que posso colocar ao mesmo nível certos produtores e estes hipotéticos cronistas? Não será cometer uma injustiça para com pessoas que só estão a dar a sua "opinião" e que até podem ser moralmente correctíssimas? Não - estas pessoas estão todas no mesmo clube. Têm exactamente a mesma linha de pensamento, que permite que a violência sexual continue a grassar impune.

 

Pois é: temos de nos preocupar não só com todos estes predadores, mas também com todos os seus simpatizantes disfarçados que aparecem a seguir. Fazem valer a velha máxima: por cada homem que vos manda directamente para a cozinha, há três que vão tentar fazê-lo indirectamente - porque são espertos ou porque vivem iludidos... Vão tentar convencer-vos que a culpa dos crimes é vossa, mas usando palavras caras. Isto estende-se para outras situações: recentemente acabei de ler o The Hate You Give, um óptimo YA que tem a violência policial como pano de fundo - a personagem principal, uma adolescente negra chamada Starr, vê um polícia matar um amigo seu. A dada altura da narrativa Starr tem que dizer a uma das suas melhores amigas que fazer piadas racistas\xenófobas não é certo e pode realmente magoar os outros. Mas ela não percebe e diz que a Starr é que tem de superar isso - e que não são umas piadinhas que vão fazer dela uma racista! De um lado temos os adeptos do: não concordo com isso, mas [inserir objecção] e depois temos estes: não concordo com isso, mas até tem muita piada. Não é como se isso pudesse ser comparado a linchar alguém...

 

Só que tal como no exemplo anterior o pensamento é o mesmo: o raciocínio que leva alguém a proferir algo xenófobo não é diferente do raciocínio que leva alguém a matar por causa da cor da pele, tem tudo a mesma génese que é o ódio - interiorizado e transformado numa coisa normal. E porque tanta gente acha normal e é condescendente isso abre caminho para que outras achem que podem matar ou abusar sem consequências. E notem sobre quem recai novamente a tónica: se não achas graça o problema é teu. Se pessoas fazem explodir coisas na vossa cidade e vocês vão para as redes atacar outras pessoas que não vos fizeram mal algum, não há diferença entre vocês e quem fez esse acto horrível. Não importa que vocês estejam a postar no conforto do vosso lar - estão a ser guiados pelo mesmo sentimento. É outra das razões porque o ódio é  tão perigoso: dá-nos a sensação de estar a ganhar, mas ainda antes de clicarmos no botão de publicar já perdemos.

 

Nem precisamos de ir assim tão longe: a blogosfera é um sortido rico neste aspecto, especialmente em fat e slut shaming. Estereótipos e juízos de valor sobre opções que as mulheres tomam, porque é giro e normal. Já viste esses sítios onde apedrejam as mulheres? Ainda bem que somos pessoas esclarecidas, com ideias modernas e com blogs com fundos rosa bebé. Arranjem um blog engraçadito e já podem dizer que as gordas de biquíni são nojentas e que as mulheres que fazem isto ou aquilo são umas putas...Ou um blog daqueles com um ar respeitável para parecer que a vossa "opinião" é apoiada por cinco estudos científicos. Podemos não ser fanáticos, não fazer parte da KKK nem assediar ninguém, mas se não tivermos cuidado podemos facilmente fazer parte desses clubes. As linhas de separação são mais ténues do que parecem.

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