Lendo e Relendo
Estive a reler a Alice no País das Maravilhas. Na verdade, li duas vezes de seguida: a edição que li no telemóvel não me agradou então fui buscar a que tenho em papel. Agora vou passar para a Alice do outro lado do espelho. Muitos amantes de livros não são fãs de reler, eu própria incluída. Quando era pequena como só tinha livros novos de vez em quando no tempo entre acabar um e receber outro novo lia os que já tinha. Alguns li tantas vezes que decorei partes inteiras. A fartura quase matou o hábito mas cada vez mais acho que reler tem muitas vantagens: é bom para a memória (creio que me consigo lembrar da história de quase todos os livros que tenho, mas há detalhes que acabam por se esbater claro. Já por isso arranjei um caderninho para ir tomando notas do que leio) especialmente se costumam sublinhar passagens. Fazer uma introspecção quando vêem certas passagens e não sabem porque as sublinharam...É giro analisar um livro à medida que o tempo vai passando.
Há sempre novas coisas para descobrir em certas obras - não tinha percebido como Wonderland é, de facto, um sítio tão cruel. Ao mesmo tempo aquilo é hilário de ler. Infelizmente muitas piadas perdem-se em português. Foi preciso ler duas vezes o Memorial do Convento para me dar conta que as duas personagens principais quase não falam uma com a outra - o que só me fez gostar mais do livro. O ano passado dicidi reler o Apanhador no Centeio mas fiquei mais triste do que da primeira vez...Como disse alguém: um clássico é um livro que nunca termina aquilo que tem a dizer. Reler algo ou ler um autor predilecto é como voltar a casa. Navegar por novas águas é bom, mas também é bom entrar em casa e pousar as malas. Tirar o pó dos móveis e pegar nas fotos emolduradas. Uma coisa que acho muito triste quando vejo as bibliotecas físicas passarem a digitais é que uma estante é como um álbum da nossa vida: sítios, pessoas, conversas...Basta folhear. E cada vez que relemos um livro acrescentamos uma nova camada de memória. Existirão objectos mais maravilhosos?