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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Distopias?

 

Há uns dias atrás comecei a ler o Clockwork Orange. Estava na hora do jantar e não apetecia ligar o pc por isso fui á estante e tirei a primeira coisa que apareceu. Por lógica devia ler os livros que já estão á espera há mais tempo, mas enfim...Peguei no livro, uma edição de capa dura bem catita que entretanto se desfez, li os primeiros capítulos e fui então jantar. Esta é única altura em que vejo notícias, fora isso leio o que me interessa na net, e entre as coisas do costume vejo uma peça sobre uns assaltos numa faculdade do porto levados a cabo por miúdos de quinze e dezassete anos, pelo vistos armados...Antes que eu tivesse tempo de dizer algo, a minha mãe começou com um discurso sobre como estes jovens andam violentos e como o mundo está cada vez mais louco. Fiquei a pensar nisto e quando voltei ao livro senti um arrepio na espinha...É que tinha pensado que a Laranja era uma distopia, mas se pesarmos o que é distópico e o que se pode aplicar á realidade a primeira fica a perder. Estamos assim tão longe do que é  descrito neste livro?

 

Não nos entra todos os dias violência a um nível insano pelos olhos a dentro? Acho que o conceito de distopia está a ficar um bocado ultrapassado, deviam classificar estes livros simplesmente como factos do nosso mundo. É por isso que isto que estou a ler agora me arrepia. Pela violência também claro (ficar indiferente ao sofrimento é outro inquietante sinal dos tempos...Alguém vira a cara quando aparecem cadáveres nas notícias?), mas sobretudo porque um dia poderemos estar a viver num mundo paralelo àquele. Isso é o que assusta mesmo...Talvez eu seja pessimista e de facto devo confessar que acredito pouco no ser humano, mas é assim que penso. "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural", já dizia o Brecht que também viu muita ultraviolência nos dias dele...Especialmente quando pessoas pegam, por exemplo, no Orwell e pensam que aquilo é um manual sobre como governar bem um país. Mal sabia o autor que o grande irmão ia estar mesmo em todo o lado. You can run away but...

Filme: Maleficent

 

Toda a gente conhece a Aurora - a princesa enfeitiçada pela bruxa, como vingança por não ter sido convidada para a festa, e que depois pica o dedo e cai a dormir até chegar o príncipe. História adoçada pelos Grimm e depois transformada em clássico pela Disney, onde á semelhança de outros contos tudo acontece como devia: o bem vence e mal e todos acabam felizes. Não há meio termo: quem é bom é feliz e quem não é recebe a punição. Mas todas as histórias podem ser contadas de mais do que de uma maneira. Já olharam para dentro de um caleidoscópio? Não se vê apenas um fragmento, mas centenas deles juntos e rodando vê-se os vários padrões que formam. Assim são as historias, as reais e as imaginadas...As mesmas contas formando diferentes formas.

 

Maleficent é um destes exercícios caleidoscópicos: a história da Bela Adormecida, vista não por ela, mas pelo seu oposto. Somos levados a acompanhar Maléfica desde que era uma pequena fada dona de um coração brilhante e guardiã de uma terra encantada, até á sua passagem para o lado negro da força...Algo que normalmente é ignorado partindo do principio que os vilões têm simplesmente um carácter torcido e nada mais. Nesta versão, a maldade de Maléfica advêm não do nascimento mas do crescimento...Mais que um simples reescrever de um clássico, este filme acaba por ser também uma forma alternativa de analisar a questãodo bem e do mal. Porque é tão simples ver as coisas de maneira linear, isto é branco isto é preto. Nunca se espera que a bruxa má se comova ou que a branca de neve desate a gritar com os anões, isso não faz parte. É a esta a moral que pauta a narrativa: não nascemos maus, podemos nos tornar, mas também nos podemos redimir. Podemos ser o herói e o vilão da nossa própria história. Acho que boa uma mensagem, especialmente para quem está há pouco tempo neste mundo, e bem melhor que o redutor viveram felizes para sempre - não julguem antes de terem visto todas as cores do caleidoscópio.

 

A história faz assim uns quantos desvios ao original, o que pode não agradar a alguns, mas não é por isso que perde o encanto de um conto de fadas. Quem não gostaria de viver numa terra cheia de quedas de água e criaturas míticas? Mesmo que não se seja fã de fairytales, eu não sou fã, mas gosto especialmente desde há uns tempos para cá, deve ser de estar a ficar velha, há um bom motivo para ir ver: A Angelina. Ela é absolutamente magnifica. A maneira como interpreta as diferentes camadas da personagem...Parece que nasceu para o papel. O resto do elenco é competente, Ella fanning não está nada mal como Aurora (embora não se perceba porque é que ela fica com o príncipe....) e as aquelas três fadas são um mimo. Adorei os cenários e creio que devem merecer o preço do bilhete 3D. Algumas partes podiam estar melhor explorados e há uma ou outra talvez demasiado cliché, além do inevitável narrador. No geral é um filme com pontos interessantes, nada aborrecido e realmente encantador para os pequenos e para os grandes. Vale a pena também ficar para ouvir a versão mais dark de Once Upon A Dream cantada pela Lana [Del Rey] durante os créditos. Gosto bastante da música mas neste aspecto sou um pouco suspeita...

Slogans Honestos

 

 

 

Só verdades...Podem conferir mais no site, que foi de onde tirei estes. Mais uma descoberta feita durante navegações aleatórias na net numa noite de insónia e que achei engraçado partilhar. Acho que ainda tenho o meu monopólio, mas nunca construi hotéis: eu atirava aquilo pelo ar antes de chegar a essa fase. E a 24 de Julho custava 1000 escudos...

Amados Livros

 

Quando comecei a navegar pela blogosfera literária uma das coisas que me agradou foi perceber que o universo das pessoas que lêem era, de facto, muito maior do que tinha pensado. Adoro falar sobre livros, mas não tenho muitas pessoas em carne e osso com quem possa fazer isso, de maneira que fiquei contente...É boa esta sensação de fazer parte de uma comunidade que comunga do mesmo gosto. Mas também constatei, por exemplo, que não sou assim tão gastadora ou acumuladora...Quando acho muito ter trinta e cinco livros por ler, vou ler posts de pessoas que se queixam de ter cem e já me sinto melhor. Nem sequer uma leitora assídua, quer dizer não leio todos os dias...Tento, mas nem sempre me apetece. A minha vontade de ler tem fases, tipo uma linha ondulada. E também o quanto sou desleixada a tratar os meus livros...Não que ande a atira-los pelo ar mas também não lhes pego com luvas ou coisas do género. Adoro sublinhar as passagens que gosto e escrever nas margens, aliás chateiam-me deveras aquelas edições de bolso sem margens e com um espaçamento minúsculo...Gosto de espaço, especialmente porque a minha letra é difícil de perceber. E escrever em folhas soltas é inútil, porque as perco e os post-it soltam-se.

 

Comigo só resulta o bom e velho lápis na própria página, quando não é a caneta que está á mão. Dobro os cantinhos, quando o marcador decide dar sumiço, parto as espinhas o que até nem é propositado mas tenho de conseguir abrir o livro de alguma maneira, ás vezes deixo-os cair e também andam comigo dentro da mala o que os deixa um bocado amassados. Não compro uma mala sem ter a certeza que um livro de tamanho normal cabe lá dentro...Como é que algumas senhoras conseguem andar para todo o lado com uma mala minúscula, é para mim um mistério. Eu ando com a casa quase toda atrás...No banho nunca caiu nenhum, mas tenho vários com areia - quando se entranha dentro do livro simplesmente não sai mais...é quase tão irritante como o pó. Realmente, o pó é um elemento que não consigo eliminar: limpo e no dia a seguir já lá está de novo. A mesma coisa a propósito das manchas de humidade. Elas aparecem por mais que areje o quarto, de maneira que apesar de haver na net um monte de dicas para combater isto, decidi ignorar...

 

Acho que é impossível impedir que os nossos livros envelheçam. Neste aspecto são parecidos connosco: sempre em risco de serem esquecidos, erodidos pelo mundo exterior. Acho que alguns leitores morreriam por dentro se vissem certos livros meus...Mas é um sinal de afecto. Se comprar um livro em segunda mão e estiver assinado ou garatujado, pode não ser considerada a obra mais bem tratada do mundo mas foi lida e apreciada. Tenho alguns cuidados simples, mas gosto de os tirar da estante, folhear ao acaso...Viver com eles basicamente. É o que acho mais difícil em relação aos ebooks: têm muitas vantagens, é certo, mas não tem graça abraçar o aparelho. É como manter uma relação com uma pessoa totalmente pela net. Preciso de ver a pessoa de vez em quando, sei que parece antiquado...Claro que pessoas racionais dirão que não se abraçam livros, mas essas pessoas não sabem nada. Talvez não seja tão bibliófila quanto isso, mas gosto dos meus livros, mesmo quando me esqueço deles em algum lugar ou aterram no chão...Há poucos objectos ás quais conseguimos imprimir uma marca tão pessoal, como acontece com os livros.

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