Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Livros e Fofices

O pessoal acha que eu sou uma pretensiosa a nível de livros. Não sei ao certo quando foi colocada no pedestal, talvez quando disse que não achava Saramago assim tããão difícil (é profundo claro, mas também não é preciso exagerar...) ou que não tinha grande interesse em ler coisas da moda tipo Nora Roberts (e é verdade, aquelas sinopses não me despertam curiosidade). Uma vez perguntaram-me se gostava dos livros do Rodrigues dos Santos e eu com o meu tacto habitual disse que tinha lido um e não tinha gostado nada o que fez esmorecer bastante a conversa. Podia ter dito que tinha achado assim-assim, mas pensando bem não estava a ser honesta pois achei aquilo uma bodega. Mas as pessoas ficam com a ideia que sou uma intelectualóide. Ainda por cima usam isso como desculpa para não me oferecerem livros, há e tal não sei aquilo que gostas...Não é uma desculpa plausível, na medida em que tenho uma wishlist do tamanho de uma enciclopédia, aliás na conjectura actual fico contente por me oferecerem qualquer coisa. Agora estou numa fase de ler romances fofinhos. Estão a ver, aqueles leves, cheios de peripécias e que geralmente acabam bem...Pelo menos a maior parte das vezes. São bons para ler no pc porque não exigem muito...Conseguem-se alguns títulos bem interessantes, garimpando por essa internet fora. Na mesa de cabeceira tenho um chamado Amor e chocolate: uma moça e um moço são amigos. Um dia acabam na cama. As coisas ficam desconfortáveis...A sério a história começa assim. Pura bobice, mas quem disse que não podia ler livros destes só porque também leio clássicos? Ando, de facto, a ler coisas de altíssimo calibre, absolutamente nada doces. E nem uma única lágrima foi derramada...

 

 

Coisas que as pessoas comem...

Está a chegar o verão e inevitavelmente vão começar a surgir nos blogs fotos de pessoas a deliciarem-se com pitéus como caracóis. Eu quando era pequena também comia mas hoje só de olhar dá-me vómitos...É tipo, uma lesma com uma concha. Repelente...Caracoletas então. Não sei como é que se consegue comer tal coisa. Ou comer morcela, ou serrabulho, ou enguias, ou dobrada, ou pés de porco, ou caras de bacalhau, ou amêijoas, ou gelatina ou ovos crus...Acho que não temos razão para torcer o nariz quando vemos pessoas na tv a comer moscas fritas ou cão, quando aqui comemos coisas como estas. Claro que se tivesse mesmo fome que remédio. É incrível como qualquer coisa pode virar pitéu quando se tem fome a sério, se bem que pensando bem nisso acho que não iria ficar melhor alimentada comendo caracóis ou orelha de porco que é tipo só cartilagem...Em compensação como fígado, miudezas, cogumelos crus (devidamente lavados) e ovas. As pessoas comem coisas estranhas nos mais diversos sentidos de facto...Mesmo assim a nível de comida é difícil bater os caracóis:

 

 

(a sério...)

Sobre Ana Karenina

 

Actualizando os posts anteriores, finalmente acabei a Ana Karenina. E Gostei muito...Pensando bem como é possível ler isto e não gostar? É tão, mas tão bom... A escrita é maravilhosa, nada secante pelo contrário lê-se com bastante facilidade e se vocês não forem picuinhas como a minha pessoa que andou a adiar os capítulos finais uma data de tempo lê-se também bastante rápido. Nas opiniões que encontrei por aí na net muita gente dizia que as partes que se passam no campo e tal eram um tédio e a história nunca mais andava, mas não achei. Foram os capítulos que mais gostei, não obstante aquilo soar um pouco romantizado, camponeses felizes e não sei quê...E as personagens são maravilhosas também, no sentido da sua construção e complexidade.

 

Não é tipo a Madame Bovary ou o Primo Basílio do Eça, onde quase toda a gente é horrível sem apelo nem agravo, embora tenham outras características em comum...Tolstoi é muito mais benevolente para com as suas personagens o que de certa forma torna as coisas mais interessantes. Não dá para estar aqui a falar de todas, mas Ana é soberba...Parece que muitos leitores não a suportam, mas a minha impressão foi a contrária. Ela é a única personagem corajosa de todo livro e estranhamente é a mais digna. A parte do coração (não parece mas tenho um, se bem que ás vezes esqueço-me dele no frigorifico) que eu reservo para as personagens dos meus livros morria um bocadinho á medida que os capítulos iam avançando e Ana ia ficando cada vez mais isolada. Ninguém ali se preocupa realmente com ela ou sequer a tenta compreender...Também adorei a forma como as personagens contrastam umas com as outras. 

 

E de resto a história tem de tudo: é ácida, altamente divertida, tem momentos de dramatismo e tensão e alguma ternura (aquele pedido de casamento com giz...Gente, que lindo! Toda a parte que envolve o noivado de Levine e Kitty é linda demais. Todos os seres humanos deviam ter direito a sentirem-se assim apaixonados pelo menos uma vez na vida) e claro também é uma história actual. Era actual quando foi escrita, continua hoje e assim será. Um verdadeiro clássico...Isto porque fala de questões que não estão restritas a uma época. É como Hamlet divagando sobre a morte com a caveira - as questões de sempre. E também porque a humanidade simplesmente não muda, já falei disto aqui, evoluímos no plano tecnológico e assim mas continuamos os mesmos no essencial. É por isso que é tão fácil uma pessoa de hoje identificar-se com uma personagem real (ou imaginada) que viveu há vários séculos. No caso deste livro em particular as personagens são perfeitamente reconhecíveis. A maneira como agem não é diferente da maneira como agimos nós, até as conversas são idênticas. As relações entre homens e mulheres não me parecem ter sofrido grande alteração, esta é aliás das coisas mais engraçadas na narrativa. Um diz z outro percebe x...O autor sabia esquadrinhar bem a essência do ser humano. Lamentavelmente, também não me parece que os homens tenham ficado mais espertos desde há dois séculos para cá...

 

A nível da própria época também é interessante (aquele pessoal caçava ursos..E eu a achar que era radical caçar perdizes!), mas há, de facto, muita coisa que pode ser transportada para os dias de hoje. Ana vivia uma sociedade sufocante que impedia a liberdade sexual e mental das mulheres e que era implacável para com as que se desviavam. O papel delas era unicamente a maternidade. Mas Ana tem a coragem de assumir o seu pecado e de virar costas a toda aquela gente mesquinha...E claro paga caro por isso, ao contrário do amante que não sofre qualquer punição e que na verdade nem tem nada a perder ao contrário dela. Por acaso há dias encontrei num blog que sigo um texto em que a autora relatava uma conversa em que alguém dizia que era horrível uma mulher trair o marido mas o contrário não era nada de mais (homens, certo?), não encontro esse post em lado nenhum, mas entretanto peguei neste livro e encontrei isto a páginas tantas: "a razão principal desta desigualdade estava [...] na diferença estabelecida pela lei e pela opinião publica entre a infidelidade da mulher e a do marido". Touché.

 

É um livro que fala de uma variedade de coisas sobre as quais se poderia escrever uma tese: casamento, ciúme, Deus...Eu pessoalmente acho que é sobretudo uma história sobre procurar a felicidade. Um caminho estão a ver? Ana procura a satisfação no amor ("Ana é acima de tudo uma mulher de coração"), mas para o autor as paixões são traiçoeiras e por isso o caminho dela revela-se espinhoso. Pelo contrário, Levine procura uma orientação através da prática do bem e do contacto com a natureza longe do ambiente vicioso da cidade. E dá-se bem, como prova o final que é das partes mais bonitas de toda a obra. É outra questão universal: procurar respostas para o sentido de estarmos neste mundo...Há quem passe a vida a procurar, quem acabe por conseguir e quem se perca pelo meio. No fundo é o que todas as personagens do livro estão á procura seja através do amor, da filosofia, da sociedade...E é o que nós procuramos também agora no presente.

 

Senti-me realmente conectada á historia. Estão a ver aquela sensação de sofrer com as personagens e de ficar contente quando elas se dão bem? A sério, foi intenso. E há tanta coisa que ainda poderia dizer...Poderia continuar a escrever eternamente. Mas ok, estão são as minhas breves impressões. Recomendo, como é obvio. Em relação a esta edição da Civilização tem alguns erros de tradução, se poderem comprar a outra que anda por ai melhor mas se não também não vão ficar a saber menos da história por isso.

Pág. 3/3

Quem Escreve Aqui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Avisos

As opiniões sobre livros e afins podem conter spoilers. Comentários insultuosos serão apagados. Este blog não adopta o novo acordo ortográfico.

Calendário

Maio 2014

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Sumo que já se bebeu

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

A Ler...

Algo especial a dizer?

subscrever feeds