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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Wolf Hall

 

 

Wolf Hall de Hilary Mantel

Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 672
Editor: Civilização
Preço: 22,41€

 

Inglaterra, 1529. O rei Henrique VIII está decido a divorciar-se de Catarina de Aragão apesar da oposição da Igreja Católica. O protestantismo alastra pela Europa e William Tyndale termina a primeira tradução da bíblia para inglês. O clima é de permanente tensão: a mais pequena suspeita de heresia e acaba-se na fogueira. Enquanto isso a peste vai matando sem piedade. É neste contexto que se destaca uma figura singular: Thomas Cromwell, um advogado ao serviço do cardeal encarregado de obter o divórcio do rei, Thomas Wolsey,  Homem astuto e perspicaz, Cromwell vai-se movendo pela corte, fervilhante de intrigas onde um passo mal dado pode ser fatal, como uma sombra até que o rei repara nele…E ai começa a sua ascensão rumo ao poder. Este é fio condutor da narrativa que se inicia em 1500 quando Cromwell é apenas um rapaz de uma área pobre de Inglaterra, filho de um ferreiro, e termina em 1535 quando ele alcança o cargo de guarda-mor do arquivo, sendo nessa altura um dos homens de maior confiança do rei e um dos importantes a seguir a este.

 

Ao contrário do que acontece em muitos romances sobre os Tudor, aqui o foco não está direccionado para Ana Bolena nem para outros pormenores de alcova que tanto atraem alguns leitores. Hilary Mantel pegou na personagem mais improvável, a mais brutal e mais maquiavélica e recriou a história sob o seu ponto de vista. É uma personagem que não está inicialmente ligada à corte e que não tem sangue nobre ascendo através das suas próprias capacidades. Isto permite dar uma visão do funcionamento da corte real e da sociedade inglesa muito interessante, especialmente no início quando Cromwell é ainda um outsider ao serviço de Wosley. Com esta mudança daquilo que o foco tradicional, a autora consegue também fornecer ao leitor uma visão abrangente do processo de divórcio do rei, que foi muito mais complexo e não se resumiu unicamente a Ana Bolena.

 

Além de traçar o percurso desta personagem a autora faz também um retrato de época nomeadamente no que toca às controvérsias religiosas e politicas. Um trabalho profundo que tem todas as características que um romance histórico deve ter: é empolgante, interessante sem ser excessivamente maçudo e bem escrito. Felizmente a autora não caiu na tentação de encher a história de factos e datas, tendo restringido a acção a certo um período de anos, nem de transformar o enredo num dramalhão. Cada capítulo deixa o leitor na expectativa do que possa acontecer no seguinte: quem cai e quem sobrevive aos perigos da corte, quem sobrevive à peste, sempre presente na história…Além disso, autora fez um óptimo trabalho na humanização das personagens, nomeadamente na humanização de Cromwell atribuindo-lhe dúvidas e sentimentos que o aproximam do leitor. O rei é retratado também de forma bastante humana, especialmente nos momentos de melancolia. Podemos não estar em 1529 mas alguns sentimentos são comuns à humanidade de todas as épocas. Não se mandam pessoas para as fogueiras, mas a intolerância infelizmente ainda existe e sem dúvida que a máxima “o homem é o lobo do homem” continua actual. O passado pode sempre ensinar-nos algo e isto vê-se neste livro: decisões difíceis que têm de ser tomadas, consequências com é preciso lidar, dúvidas, ambição e queda…Wolf Hall transcende a mera narração histórica.

 

O debate das grandes questões é sempre intercalado com cenas de ambiente doméstico e é  neste ambiente que mais se nota o trabalho de humanização de Cromwell, quando ele está à secretária a pensar nas decisões a tomar ou nas filhas levadas pela peste. Também contribui para este processo a escrita lírica da autora. Uma escrita apurada, especialmente nos diálogos onde é fácil o leitor perder-se, mas através do qual a autora cria cenas vívidas que ficam na nossa mente. Por exemplo, a cena em que Cromwell conversa com Wosley em que as velas se apagam ou a cena em que a Maria Tudor está sentada em frente à lareira apagada, na mais absoluta solidão.  Wolf Hall é assim um trabalho profundo e apaixonante que explora os caminhos menos trilhados da História e que nos dá a visão de uma personagem original para a sua época e que conseguiu chegar onde poucos se atreviam…por isso pagou também um alto preço. Um prazer para qualquer leitor, especialmente para quem gosta de História. 

 

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