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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Não penso, logo não existo

Há uns dias li na Courrier Internacional um artigo que falava do declínio das cadeiras de humanidades nas faculdades. O problema é tal que há departamentos a fechar. Não fiquei surpreendida, mas não deixa de ser sinistro.

 

Sou uma nulidade em matemática. Para mim é estranhíssimo que um método de resolução do problema nº1 não se aplique ao problema nº2. Como não nascemos, felizmente, todos para as mesmas coisas pensei que ninguém se ia mandar ao ar por isto. Estava enganada. Eu poderia escrever epopeias, mas se não fizesse-se uma equação de 21º grau era remetida para o patamar dos inúteis. Exemplifico: a minha professora primária dizia nos relatórios de final de ano  que me chumbava se não aprendesse matemática, tinha oito anos e estava condenada ao fracasso por causa das multiplicações e divisões. Quando já andava no 11º ano apanhei como uma professora que acha que os alunos de humanidades eram burros e fazia questão de nos dizer isso na cara...Era preciso uma paciência para não lhes responder á letra (a senhora era de letras já agora).

 

Hoje apercebo-me quão abrangente é o problema. As escolas funcionam sob a lei do número. O que interessa estudar filosofia, quando isso não dá emprego? É inútil. O que é preciso a fazer relatórios, tudo a correr aprender a pensar para quê? Óptimo esquema para as ditaduras, que têm á sua disposição pessoas que nunca aprenderam a pensar por si. Eliminar a formação humanista dos currículos é eliminar aquilo que somos enquanto pessoas. Uma máquina consegue somar, mas não consegue pensar o que está certo e errado. Para que serve a filosofia senão para nos questionar-mos? Não foi assim que se progrediu, porque alguém achou que as coisas podiam ser feitas de outra maneira? É por ignorar a História que se anda constantemente a cair nos mesmos erros. Achar que coisas como antropologia ou sociologia não são úteis (menciono estas porque as tive), é achar que não é útil conhecermos os outros. Como pode haver respeito pelo outro, se não se quer perder tempo a conhece-lo nem a nós mesmos? A ideia de que humanidades são apenas um punhado de ideias que é preciso “comer” e “despejar” em qualquer lado não é senão culpa do sistema mal estruturado.

 

É sinistro ver estes miúdos a saírem das escolas sem qualquer espírito crítico, ou mesmo sem conseguir articular um pensamento sequer. Aconselho vivamente a ler os artigos da Courrier que dão inúmeros exemplos de como as humanidades são úteis: melhora as nossas capacidades de escrita e leitura, dota-nos de um pensamento mais rico, acima de tudo permite-nos ir ao fundo de nós próprios (citando o artigo, compreender esse grande cão peludo que nos acompanha ao longa da vida). Não se pode descartar este saber afectivo. Muitos são capazes de produzir uma inovação técnica, mas para criar uma marca é necessário mais do que a técnica. É preciso conhecer as pessoas (este exemplo também estava no artigo).

 

Não entendo porque não há-de haver nos currículos estas duas componentes (as ciências humanas e as ciências exactas), se é obvio que ambas são necessárias e úteis. Uma coisa sei, este ensino andróide não quero eu para os meus filhos....

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