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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ter-te perto de mim (e mais não-ficção)

Ainda não arrumei os livros que trouxe da Feira do Livro - por arrumar entenda-se levá-los para a estante (que está noutra divisão que não o meu quarto) onde irão aguardar vez. Só os arrumo logo se o meu quarto estiver tão caótico que eu fique com medo que eles acabem debaixo da cama por acidente. Gosto de os ter ao pé por um tempo. Para olhar para eles; analisar as contracapas; pegar-lhes e ler algumas frases...Antecipar como vai ser a leitura. É um prazer ridículo e feliz. Ando mais numa de não-ficção agora. Os dois últimos livros que: "Why I’m No Longer Talking to White People About Race" [Reni Eddo Lodge] e "Quiet: The Power of Introverts in a World That Can't Stop Talking" [Susan Cain]. São ambos excelentes. Agora estou a ler "Nothing to Envy: Real Lives in North Korea" [Barbara Demick]. Mais uma sugestão para levarem para a praia. Além da não-ficção feminista em si, tenho outros do género em espera: os da Svetlana, a biografia da Cleópatra da Stacy Schiff (já era para ter sido lido mas alguma coisa que já não me lembro meteu-se no meio) um sobre cadáveres ["Stiff - The Curious Lives of Human Cadavers"] e um sobre a Wonder-Woman ["The Secret History Of Wonder Woman"], só de pensar neste hiperventilo um pouco (ok, tem 400 páginas) Pensando na ginástica para encaixar estes e outros títulos na agenda e na variedade de temas, só posso ter pena das pessoas que quando se fala em ler mais autoras insistem em dizer que isso é redutor e limita muito...

Pensando em patinhos e outras coisas

Às vezes dizem-me que não cresci, que nem pareço adulta. Ontem estive a pensar nisto e cheguei à conclusão que são afirmações injustas. Por exemplo, penso em muitas coisas importantes e adultas e para comprovar decidi ir buscar papel e caneta e tomar nota daquilo em que reflecti no decorrer desta última semana [é possível que eu estivesse a pensar nestas coisas enquanto pessoas falavam para mim, mas isso é um detalhe]

 

- porque é que aquele caracol subiu mais de um metro no tronco daquela árvore? Quanto tempo terá demorado? E se cair dali? 

 

- qual será o melhor lugar da casa para me esconder no caso de querer escrever coisas subversivas contra o governo? [que nunca se diga que eu não faço planos para o futuro]

 

- porque será que daqueles sete patinhos, cinco nasceram castanhos e dois nasceram amarelos? Porque há muito mais patinhos castanhos que amarelos? (a ideia que todos os patinhos são bolinhas amarelas é realmente um mito, porque no ribeiro aqui perto quase só vejo castanhos. Também são fofos)

 

- [encostada a um muro, olhando para baixo] Ora bem, se eu cair daqui será que morria ou só partia alguns ossos? Será que os meus miolos ficariam espalhas na erva?

 

- Quais serão os melhores nomes nórdicos antigos para as minhas guerreiras [mencionadas no post anterior]? Que passado lhes hei-de arranjar? E tenho que arranjar uma arma badass para cada uma. Qualquer coisa que esmague cabeças 

 

- porque não decoram o interior das instituições bancárias de cor-de-rosa?

Desejos Literários Nocturnos

Por alguma razão quando estou com insónias acabo a ler uma de três coisas: a) coisas ridículas, que irei abandonar pela manhã. Foi assim que acabei a ler um erótico sobre um tipo que entra em sonhos de senhoras e depois se apaixona por uma e passa para o mundo real. A sério. Já perdi a conta ao que foi começado a meio da noite e nunca acabado...b) coisas bem densas que estão na estante à espera, porque a hora certa para as começar é às três da manhã c) géneros que nunca leio, tipo fantasia. Para que conste não tenho nada contra este género. Se vocês decidirem escrever a história de duas guerreiras que voam em dragões em Asgard e que por causa de uma guerra qualquer ficam separadas e não se lembram uma da outra excepto quando trincam umas maçãs especiais, podem contar comigo. Se decidirem estender isto  por dez volumes muito possivelmente não contem. Podem argumentar que não é possível escrever este tipo de histórias em vá dois volumes, mas eu não me dou com séries.

Feira do Livro: compras (e certas tristezas)

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Começando pelas tristezas: os planos previamente traçados (e até abordados aqui) tiveram que se resumir apenas a um: conseguir sair de casa. Porque a minha ansiedade decidiu que estava na altura de um meltdown. Mas já que a Feira não ia estar aberta até o meu humor estabilizar e já que não comprava livros há quase um ano (verdade), fui. Vi tudo, nada em especial me fez palpitar. Pode ter sido influência do meu estado de espírito. Só talvez um Pynchon numa das bancas de usados, mas tal como o ano passado não queria autores. Decidi partilhar esta informação com quem estava comigo e recebi olhares de incompreensão. Como uma das minhas resoluções para este ano é maçar pessoas também fora da internet com o meu feminismo irei persistir. Acabei por trazer o que já tinha pensado: a Simone e a Svetlana. As Cientistas é um livro ilustrado que destaca as contribuições de várias mulheres notáveis no campo das ciências. Achei fofo. Diz na parte de trás: "É um facto científico: as mulheres são o máximo!" Fora isto não choveu e vi vários Pugs. Esta informação é muito importante. 

 

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Depois voltei para aproveitar a hora H. Já estava mais próxima do meu estado de espírito costumeiro na FL: o quer ver e trazer tudo. Mas desta vez levei mesmo uma lista, uma folhinha impressa. Fui pesquisar ao site para saber o preço e onde encontrá-los (alguns não apareceram na pesquisa não sei porquê, mas depois dei com eles lá...). E andei a abordar funcionários. Já não sei quem sou. Tudo bem que a lista só tinha quatro títulos. Foram esses que trouxe: o da Rebecca, outro da Svetlana -sim, já li o War's Unwomanly Face mas não o tinha e os outros dois dela desta editora que sobravam (As Últimas Testemunhas e Rapazes de Zinco) não estavam em promoção. Além disso estou em fase de seleccionar livros leves para ler na praia; o da Maria Teresa Horta que ouvi dizer por aí que era bom e o da Siri que encontrei referenciado numa lista algures. Claro que tinha que trazer uns fora da lista...Mas a Meg também estava em promoção (só A Paixão Segundo Constança H não estava por ter sido reeditado agora). Verão só custou três euros. Estou contente, ainda que tenha a noção que isto saiu branco demais. Felizmente tenho alguns títulos em espera que irão equilibrar. 

Falando sobre quotas e poder

É frequente quando surgem notícias de governos com várias mulheres ou a notícia de uma mulher que foi nomeada para um qualquer cargo de prestígio, ou quando se fala de quotas aparecer logo alguém a dizer coisas como: "não importa quem é escolhido desde que seja competente", "isto é sexismo ao contrário ou também seria notícia se fosse um homem" ou "as quotas são cancerígenas". Vamos falar de cada um começando pelo primeiro: imaginem que entram numa sala onde deputados estão a discutir saúde reprodutiva e reparam que todos ali são homens, brancos e que uma boa metade já está na meia idade. Nenhuma deputada ou médica presente. Iriam sentir-se confortáveis? E se um deles dissesse que as mulheres podem engravidar pela boca? Não importa quão competentes são estes políticos (Isto é válido para os muitos conteúdos que mostram apenas pessoas brancas e esbeltas). No fim do dia não há ninguém naquela sala que possa compreender a vossa experiência. 

 

"Isto é sexismo ao contrário! Porque não destacar apenas pessoas sem falar em géneros?" "se há uma Wonder Womam devia haver um Wonder Man!" "Se há dia da mulher porque não há dia do homem?" Tudo isto não passa de misoginia disfarçada...Quando o filme estreou, este exemplo é tão bom, e uma cadeia de cinemas decidiu fazer uma sessão só para mulheres, alguns homens irados estavam prontos para fazer um motim. Comparem isto, um coisa que em nada prejudicaria a sua vida, com séculos de repressão e violência  contra nós...O que achariam de uma pessoa que vai ao hospital por um aranhão que fez com o bico de um lápis e que insiste em passar à frente de alguém que levou um tiro? O ano passado saiu um livro: The Power, Naomi Alderman. Fui ao Goodreads e está lá esta singela pergunta: what would happen if an author wrote a book about men having the power to electrocute to death, women? Respostas: it would be under history category; It would be just like the everyday news section. Touché. 

 

A misoginia, tal como o racismo, está ligada a dois conceitos: poder e dominância. Neste momento o poder continua concentrado nas mãos de homens brancos e muitos desses podem tornar a vida de quem é não igual a eles muito, muito difícil. Vocês até podem odiar homens mas não têm o mesmo poder nem o mesmo nível de representatividade que vos permita influenciar negativamente e de forma profunda a sua vida, quantas vezes nem a nível local ou mesmo pessoal. Por terem todo este poder, este grupo privilegiado exerce à vontade a sua dominância em todos os aspectos da vida e ser ou não afectada por ela não é uma escolha. Não obrigo nenhum senhor a ler os meus textos, eles podem escolher fechar a janela e seguir o seu caminho. Mas eu não posso escapar a uma lei que diz que é legal um homem abusar sexualmente de mim. 

 

A ideia de existirem quotas chateia muita gente que diz que as pessoas devem ser escolhidas por mérito e valor. Calculo quem diz isto dá por adquirido que quem está no topo foi escolhido por esse motivo antes de tudo. Nós devemos ser muito burras então. Porque ao olhar para esse topo vemos menos mulheres que homens. Se quem lá está foi escolhido com base num critério justo como se explica esta discrepância? Não é possível que homens brancos tenham também a supremacia da inteligência é? Se a percentagem de homens, especialmente em cargos de topo e de decisão, continua a ser bem superior então lamento mas não podemos falar em pessoas em vez de géneros. A partir do momento em que o sexo do bebé é conhecido, as meninas já estão em desvantagem: os progenitores começam logo a projectar nelas ideias misóginas e esta desvantagem vai aumentando com os anos à medida que mais responsabilidades se acumulam.

 

O tipo de brinquedos que lhes serão oferecidos, o comportamento que lhes será exigido...Os rapazes são talentosos as meninas esforçadas; eles são lideres naturais, mas a liderança numa mulher é indesejável de tal modo que até se inventam nicknames para certas mulheres na política ("a dama de gelo"), se vocês dão ordens são mandonas mas se não dão são sentimentais; vão ser punidas por não terem filhos e por cada hora que passarem longe deles em reuniões; vão ouvir que só chegaram ali porque abriram as pernas ou porque as mulheres têm sempre benesses - nunca por mérito próprio. E não podem falhar. Se falharem é porque a culpa é do vosso género e isso irá dificultar ainda mais o caminho para as mulheres que vierem a seguir embora isso jamais aconteça com os homens.

 

É uma corrida viciada. Este é o verdadeiro problema, este fosso enorme criado pela desigualdade constante ao longo dos tempos - não as quotas que apenas são uma tentativa de o resolver. Não seriam precisas se a sociedade fosse justa em primeiro lugar. Vocês perderiam tempo a apontar uma telha partida quando as fundações da casa estão podres? E não podemos esperar que quem está no topo comece espontaneamente a contratar caras diferentes...Talvez devêssemos ir lá acima perguntar porque é que é eles precisam de uma lei para os obrigar a isso. Talvez descubramos que as fundações estão ainda mais podres do que parecem.

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