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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Arrepios nas pernas

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(Tinha planeado publicar um texto longo e opinativo, mas acabei empacada a tentar reformular um dos parágrafos então aqui fica uma humilde apreciação pelos arrepios de frio que ontem senti nas pernas. Espero que não estejam neste momento a anunciar que vão fazer quarenta graus para a semana, pois já estou a fazer planos para em breve dormir como uma toupeira debaixo de três cobertores, além de dormir com as minhas três almofadas habituais. Isto sim são condições)

Ler Autoras: sempre a ser desafiada

A verdade é que as minhas ideias sobre escritoras, sobre as mulheres e o seu papel no mundo, estão constantemente a ser desafiadas à medida que vou lendo. Por exemplo, o último livro que li. Uma história atribulada: em 1954 Violette Leduc deu à estampa um romance intitulado Ravages, que retratava a história de três ligações amorosas (sendo as primeiras duas com mulheres e a terceira com um homem) baseadas nas experiências da própria autora. O tom era tão ousado que a Simone [de Beauvoir] viu logo que não ia ser publicado. Mesmo suavizando o tom, o manuscrito foi recusado. Violette teve que mutilar o livro e caiu numa depressão aguda.

 

Teresa e Isabel, a história de duas colegiais e primeiro capítulo do livro, foi publicado autonomamente em 1966 e foi este livro que dei por mim a ler. Fiquei fascinada por ser possível em humildes 102 páginas colocar tanta paixão e intensidade, descrever com tanta minúcia as sensações de prazer erótico de uma mulher. “Não procuro o escândalo mas somente descrever com precisão o que uma mulher sente nessa altura”. É cru, directo, belo. Não admiram as tribulações que passou, numa nota no final do livro aparece esta citação da Woolf: “se uma mulher escrevesse os seus sentimentos, tais como ela os experimenta, nenhum homem os editaria”. Dá-se tanta importância ao prazer masculino...Mesmo o prazer feminino tem de ser descrito por um homem, do seu ponto de vista. Quanto é que se perde quando não se sai deste enquadramento?

 

Um dos (muitos) livros que desejo ler um dia é Kristin Lavransdatter, trilogia com mais de 1000 páginas passada na Noruega no século XIV. Parece apelativo não? Séries épicas, tempos medievais, sítios com neve...Só que foi escrito por uma mulher e a personagem principal também é fêmea. Apesar do prémio Nobel e de ser reconhecida na sua Escandinávia natal, de acordo com o que li Sigrid Undset está esquecida fora daí. Quantas personagens femininas não vou conhecer e quantas autoras talvez nunca vá encontrar porque as regras do mundo, que não foram feitas pelo meu género, decidiram que elas não são importantes

 

Há uns tempos disse num post que tinha andado à procura de autoras num género específico - foi no género terror, surreal...Homens é fácil citar de cabeça, mas e mulheres? Aqui está o relatório do que encontrei durante o curto tempo que durou a pesquisa: dois livros, sete short-stories que já tenho prontas para imprimir, além de um desejo de ler Thus Were Their Faces da Silvina Ocampo. Porque tive dúvidasHouve o dia em que algures na net encontrei alguém a apontar que o número de testemunhos (ou histórias) de homens sobreviventes do holocausto é muito maior que o número de testemunhos de mulheres. Nem me lembro de nenhuma. Até no mais profundo sofrimento tem de haver uma hierarquia...Sei tão pouco sobre como as mulheres viviam, como vivem neste mundo. Ao mesmo tempo é um incentivo para continuar a lê-las.

Ideias importantes sobre consenso e sexo positivo

Não tinha planeado este post, mas ontem estava a pensar que além de haver tanta gente que parece simplesmente não ver a violência sistemática contra as mulheres, há um número arrepiante que não entende o significado da palavra não nem entende o conceito de consentimento. Reuni alguns pontos importantes sobre isso. Obrigada de antemão a quem quer que esteja desse lado a ler.

 

Ponto 1: o consentimento não tem excepções. O vosso não é sempre válido, sempre! Não interessa com quem estão e em que fase - se ainda estão no restaurante ou no quarto já sem roupa. Quando alguém diz para parar, é para parar. Fim da história. Até podíamos correr nuas pela rua e ainda assim não haveria desculpa para uma agressão sexual. Não interessa a vossa roupa, cor, profissão, o que fizeram antes, o número de parceiros sexuais que tiveram. Não há desculpa. NUNCA.

 

Ponto 2: é válido mudar de ideias. Não interessa se foram para o quarto com a ideia de fazer sexo, se chegaram lá e mudaram de ideias - é totalmente válido mesmo que já estejam na cama. É válido em qualquer momento. Não continuem com algo com a qual não estão confortáveis. Já sabias ao que ias, estavas a pedi-las. Não acreditem nesta merda.

 

Ponto 3: O corpo é vosso, vocês devem tomar as decisões que acharem melhor. Querem esperar, não estão preparadas - isso é totalmente válido. Arrepia pensar no número de raparigas que se sujeitam, porque ele quer e é tudo uma questão de “relaxar”. Não! Ignorar as dúvidas da outra pessoa descredibilizando-as dizendo que ela está a complicar tudo, usar meios para ela “relaxar” ou coagi-la do tipo se recusas mostras que não me amas...Amor envolve respeito e envolve saber ver quando um lugar e um momento não são apropriados e quando a pessoa não está confortável. Ignorar isso e continuar: mesmo que o não, não tenha sido dito explicitamente - é violação.

 

“Ele também me beija, e logo estamos nos agarrando como se fosse a única coisa que soubéssemos fazer. Não é o bastante. Minhas mãos descem pelo peito dele, e ele está com um volume em outras partes além dos braços. Eu começo a abrir o zíper da calça jeans dele. Ele segura minha mão.

— Opa. O que você está fazendo?

— O que você acha?

Os olhos dele observam os meus.

— Starr, eu quero, quero mesmo…

— Eu sei que quer. E é a oportunidade perfeita. — Beijo o pescoço dele e acerto cada uma daquelas sardas perfeitamente posicionadas. — Não tem ninguém aqui além de nós.

— Mas a gente não pode — diz ele, a voz tensa. — Não assim.

— Por quê? — Eu enfio a mão na calça dele com a intenção de tocar no volume.

— Porque você não está bem.

Eu paro.

Ele olha para mim e eu olho para ele. Minha visão fica embaçada. Chris passa os braços em mim e me puxa para perto dele (...) Ele me deixa chorar tanto quanto preciso”

 

(eu queria muito arranjar forma de encaixar esta cena num post)

 

Ponto 4: não têm de fazer sexo para mostrar que gostam de um tipo. Esta ideia está em todo o lado: amo-te agora abre as pernas. Bullshit! O Amor não é um dever. Isto leva ao Ponto 5: uma mulher não deve sexo a homem nenhum. Não interessa se é vosso namorado ou marido ou o que for. Vocês são seres humanos completos e têm o direito de estar com alguém que faz coisas para vos ver felizes não simplesmente porque quer enfiar a pila.

 

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Nunca percebi qual é a dos maridos que lavam um copo e esperam que a mulher se ajoelhe logo, ainda menos quem se finge amigo só para isso. Vão-se foder com a vossa friendzone. Ponto 6: maridos (parceiros) também podem ser violadores. O problema não apenas o simpático estudante nota 20 que faz voluntariado e que violou uma rapariga à saída de um bar, mas também os que o fazem a coberto de instituições socialmente aceites. Não importa que estejam casadas há 10 anos - é violação.

 

Ponto 7: uma mulher têm o direito de dizer ao seu parceiro para usar protecção. Arrepia pensar em raparigas assustadas até para dizer ao namorado para usar um preservativo. A nossa segurança vem em primeiro lugar! Podemos fazer as perguntas que quisermos e devemos poder dizer o que queremos e o que não queremos, o que gostamos e o que não. Não é feio nem é sinal de promiscuidade falarem de sexo com o vosso parceiro. Se ele ficar chateado, então é um idiota. Não percam o vosso tempo com tipos assim. Temos de ensinar as raparigas que elas têm valor e que não se devem anular a favor de ninguém. Isto pode prevenir uma vida inteira de sofrimento.

 

Ponto 8: o nosso prazer é importante. Temos o direito de ser felizes na cama com outra pessoa. Quem é que tem o único órgão do corpo humano cuja única função é o prazer? Exactamente! E não só. Não é admissível ainda termos em países que afirmam ser civilizados, mulheres que nunca tiveram um orgasmo ou qualquer tipo de intimidade real na vida ou que suportam dores e desconforto.

 

 

Ponto 9: assédio não é piada, é uma agressão que deve ser punida. há quem ainda não tenha percebido que temos o nosso espaço e o direito de decidir quem nos irá tocar e em que circunstâncias. Toques e elogios não solicitados tal como as violações são motivados por dominância: eu ponho a mão aqui porque quero e posso e não há nada que possas fazer. Mas quem quer ser macho alfa que vá para selva. Não temos de tolerar esta merda em lugar algum.

 

Ponto 10: temos o direito a ser ouvidas. Quando acontece sabemos o que tanta gente diz. Vão dizer que é melhor ficarem caladas. Vão esmiuçar a vossa vida, insultar-vos...dizer que a culpa foi vossa. Não acreditem e não se esqueçam que há milhões de mulheres em todo o mundo a passar pelo mesmo, algumas tão longe, como no Congo, outras tão perto que é só virar a esquina. Não estaremos sozinhas.

 

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 (The Clothesline Project)

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