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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Queixas e livros Ilustrados

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Há sempre alguém a queixar-se do feminismo...De como é irritante, ainda por cima virou moda. Isto faz-me lembrar quando comecei a ler sobre o assunto. Não foi há muito tempo, ainda assim não me ocorria ir a uma livraria perguntar: tem aquele livro ilustrado sobre mulheres da História de Portugal? Não me lembro de ser o tipo de coisa que encontrava frequentemente nos balcões principais. Parece que agora temos mais opções - e especialmente mais livros apelativos direccionados para as raparigas. 

 

Não me ocorria ir a uma bilheteira de um cinema: queria um bilhete para aquele filme com uma super-heroína que teve uma super pontuação no site de críticas. Também porque honestamente tudo o que me lembro em miúda a este respeito é de dois filmes, ambos uma merda. Agora acho que estamos encaminhados para um dia podermos ir a uma bilheteira e escolher entre este ou aquele filme com uma super-heroína, poder escolher como os homens. Deve ser incrível. Há coisas chatas como bater com o dedo numa quina e há modas preocupantes como gente a conduzir de olhos vendados...Algo que, por exemplo, trás para a luz do dia os feitos das mulheres não se encaixa nestes grupos.

 

Há quem se queixe "desta nova teoria de que as mulheres fizeram tudo", que o feminismo é "nocivo para a identidade das mulheres" e que de uma forma geral é culpado de tudo inclusive do aumento do fascismo. E não esquecer o: o que deu nestas gajas para agora andarem todas a dizer que foram violadas?  Há quem não suporte que outras pessoas sejam respeitadas e foi assim nasceu a ideia do politicamente correcto (“Political correctness” is a concept invented by the privileged to transform basic respect into something political and therefore controversial"). Voltando aos livros: sou uma fácil. Coisas que falem sobre mulheres (ilustradas ou não) têm a minha atenção. 

A minha estante não precisa de ajuda

Como para variar estou sempre fora de tudo, não sabia que o minimalismo ainda não tinha passado de moda...A ideia de uma casa hiper funcional, quase sem móveis e com paredes brancas não me atrai, do mesmo modo que certas imagens de interiores de casas em revistas ou imagens de certas salas de leitura não me atraem...São modernas mas não têm calor, boas para exibir mas desconfortáveis para quem queira realmente ler.

 

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(que raio é isto?)

 

Definitivamente não preciso de um closet para a minha roupa e ainda menos para os sapatos. Nisto sou minimalista, mesmo antes de a coisa estar na moda! Devia ter escrito um livro...Claro que há pessoas que atribuem uma importância diferente a esses itens e de vez em enquanto precisam de se livrar de alguns. Mas sempre pensei que isso era algum comum...Mandar coisas fora, substituí-las por outras com o tempo e desde que não se caia em extremos tudo bem. Só que agora parece que existem gurus para nos ensinar a deitar fora e a arrumar coisas. Nada como pegar em algo corriqueiro e dar-lhe um nome e uma roupagem chique. É como os livros de auto-ajuda que agora toda a gente chama pelo nome mais catita de livros de desenvolvimento pessoal...

 

Nunca fazemos nada bem. Precisamos que nos ensinem o que vestir, como sermos melhores na cama, como devemos educar os cães, os filhos...Fónix. Se vocês querem vender roupa no OLX, doar os tupperwares para a caridade ou atirar os vasos chineses pela janela, é ok. Agora vamos lá manter essas ideias longe das nossas estante e dos nosso livros. Eu não quero uma estante minimalista e hiper organizada. Ontem encontrei um artigo com o título: What we gain from keeping books – and why it doesn’t need to be ‘joy’.

 

 

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"Our book collections record the narrative of expansion, diversion, regression, terror and yet-to-be-discovered possibilities of our reading life." Exactamente! Uma estante com livros é um registo da vida do seu possuidor. Não tem de ser limpa, organizada e ter um propósito. A mera ideia de avaliar um livro pela premissa - “Will these books be beneficial to your life moving forward?” - não faz sentido. Suponho que devo deitar fora o meu livro sobre cientistas já que não faz parte dos meus objectivos tornar-me uma. 

 

E de caminho deito também fora o Arquipélago de Gulag que não é alegre ("But I can’t imagine what a blank collection of physical books I’d be left with if they had to spark joy. (Goodbye Jelinek, Bernhard and Kafka, hello books with photos of hippo feet.)" Acho que metade da minha estante iria ao ar...Ou o Lolita porque não pretendo aplicar os valores do narrador para me tornar uma pessoa melhor.

 

Mesmo aquele livro meloso que vocês amaram em miúdas, aquele com a lombada já toda marcada ou aquele que se revelou uma desilusão são importantes. Porque nada é perfeito e nem sempre ordenado conforme queremos. Faz parte. Arranjemos um cantinho confortável com livros, muitos, à nossa volta. E fiquemos em paz com o facto de não dobrarmos roupa com perfeição. É o que tenho para dizer.

Relaxar

Coisas que parecem relaxar toda a gente menos a mim: massagens, velas, aqueles livros de colorir para adultos, chá, bolas anti-stress, fazer compras, bordar, a ideia de viajar...Coisas estranhas que acho relaxantes: vídeos de pessoas a cozinhar, o som que as baleias fazem...

Fora de tudo

Tenho de confessar que não sabia que o mercado de livros com homens em tronco nu na capa era tão extenso e com tantos títulos curiosos. Tenho a sensação de que quem lê estes livros regularmente deve ser mais feliz do que quem lê coisas pretensiosas...Estou sempre fora de tudo. Por mim podem falar das séries que quiserem com todos os detalhes do enredo porque eu não vejo nada. Não sei nada de entrevistas ou telefonemas em sei lá que programas - ontem entrei nos blogs e tipo: que merda é essa de que vocês estão falar? E depois: será que realmente quero saber que merda é? Concluí que não. Também me apercebo agora que não sei nada sobre quem é a última moda no Youtube - a minha lista de subscrições é metade canais sobre animais e metade canais de pessoas a fazerem bolos em camadas - os vídeos de culinária são relaxantes, especialmente sem voz. Aliás já fiz a primeira grande acção de 2019: subscrevi o canal de uma senhora que cuida de morcegos bebés. 

Mas afinal leste autores?

Vocês devem estar em pulgas para saber a resposta. Sim, alguns. Foram leituras proveitosas? Nem por isso. Não tenho o costume de tomar nota da data em que comecei e terminei um livro, mas através do computador fiquei a saber que o último autor que li foi em Abril. Porque é que decidi ler autores nos primeiros meses do ano é algo que me ultrapassa, ainda assim melhor que 2017 que comecou com três seguidos. Foi quando achei que a minha ideia de ler mais escritoras iria pelo cano.

 

Demoro um pouco, mas lá me consigo focar. Gostei bastante do A Doll's House e do The Underground Railroad, o resto...Meh. O Never Let Me Go achei aborrecido e desinteressante (porque levei a leitura até ao fim, com franqueza...) e não achei o Call me by Your Name extraordinário. Para este ano a lista de escritores não é realmente muito extensa. Há dois livros do James Baldwin que tenho interesse em ler e um livro de não-ficção sobre aviadoras escrito por um autor.

 

O meu objectivo agora é ter todos os anos alguém a questionar a minha ideia de ler mais autoras. Este ano tivemos: mas os livros são bons por serem escritos por homens/mulheres ou por terem realmente qualidade? Não me parece que eu possa ser criticada por escolher ler mulheres quando, por exemplo, essas listas (100 livros para ler antes de morrer, 200 melhores novelas do século XX, melhores livros de sempre pelo jornal y...) são constituídas por um número muito superior de homens. Quem critica que se leiam autoras deve saber explicar porque é que isto acontece, usando argumentos racionais.

 

Talvez aquela pergunta devesse ser feita nas caixas de comentários dessas listas. Há pessoal que gosta de dizer que não vê raça nem género. Eu como nunca vi ninguém a fazer suposições sobre o género de um condutor que está a tentar estacionar, nem a defender as divisões entre artigos de menina e de menino, nem a dizer que há cursos mais apropriados para raparigas, acho que deve ser verdade que o género é irrelevante neste mundo. Só que não.  

 

Oficialmente deixei de dar a mínima para aquilo que devia ler, para essas listas e se vou conseguir ler tudo o que lá está. Ontem fui ao Goodreads saber qual era o assunto do livro The Silence of the Girls da Pat Barker e está lá alguém a perguntar se é apropriado para raparigas adolescentes. Não faço ideia, mas uma das respostas é: Every teenage girl should read this instead of the Iliad. Como ficar convencida a dar uma oportunidade a um título só com uma frase...Isto fez-me lembrar de um que tenho por ler: A Girl's Guide to Joining the Resistance: A Feminist Handbook on Fighting for Good. 

 

Apoio coisas que incentivem as raparigas a rebelarem-se contra os cânones estabelecidos. Alguém (não eu porque não tenho competências para tal e porque ainda estaria a receber os louros do meu livro de crónicas As Mulheres Também Fodem) devia criar uma espécie de guia fácil e ilustrado com sugestões de títulos para jovens mulheres, de modo a que elas mais facilmente tivessem acesso a livros que não dizem implícita ou explicitamente que as mulheres são lixo. É tão importante termos quem dedique atenção às vozes marginais da História seja escrevendo livros, realizando filmes...

 

E também pessoas que direccionem essa informação para as jovens. Crescer-se rodeado de exemplos, consciente dos seu próprio valor como ser humano e sentir-se representado são coisas que o mundo proporciona em grande quantidade aos rapazes, mas não às raparigas. Por razões óbvias...Outra coisa que me lembrei: preciso de ler Becoming da Michelle.

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