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Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Desabafos Agridoces

"Enfim, bonito e estranho, desconfio que bonito porque estranho"

Ler Autoras: abandonados

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Acho que se os meus livros de autores pudessem falar eles iriam fazer uma petição contra mim pelo abandono a que foram votados, especialmente aqueles autores a quem disse que amava...Mais tarde ao mais cedo vou ter de resolver isto não é? Bem, não será agora. No tablet ando ler A Vindication of the Rights of Woman - um desafio, mas tem valido muito a pena. Na mesa de cabeceira tenho o livro sobre cientistas que comprei na FL. Está a demorar mais do que tinha pensando porque não consigo evitar ir pesquisar mais sobre cada uma destas extraordinárias figuras. E uma pesquisa leva a outras. Se me dizem que uma mulher ajudou a construir a ponte de Brooklyn ou que o ENIAC, o primeiro computador electrónico, foi programado por um grupo de mulheres - eu tenho de ler sobre isso. Triste como tanta gente se recusa a reconhecer quantos Evarestes tivemos de escalar, enquanto os homens só tinham de abrir uma porta. No telemóvel tenho kindred da Octavia Butler, ainda só li um pouquinho.

Diz-me que sou um perigo

Cada vez que alguém diz que as feministas são umas terroristas e que isso devia ser proibido, eu sinto-me sexy e perigosa. Não que isso até agora tenha atraído algum homem à minha cama, mas ainda assim. Também há quem diga que isso é assunto sobre o qual não se deve falar, que de modo nenhum deve estar em destaque num blog - ou que a palavra igualitarismo é a que se deve usar. Isto faz-me sentir subversiva. Sim, eu digo a palavra feminismo e acho que dois mais dois são quatro e não cinco. Há pessoas que dizem que não são feministas porque não pertencem a nenhum grupo - parece que estão a falar da máfia (e há quem diga coisas como: vou dizer isto, espero que as feministas não me ataquem. Tarde demais. Agora vais de ter de dizer olá ao meu pequeno amigo). Quem diga que somos umas guerreiras da justiça social, o que no início eu achava que era um elogio e claro: há quem nos chame de nazis. Como não amar? Foi por isso que virei feminista. Vi filmes da Riefenstahl e achei que me ia divertir imenso. Mas até agora nem sequer um país invadi. Um desapontamento.

Leituras Terminadas - III

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“Chernobyl...A guerra das guerras. Não há sítio possível para o homem se salvar. Nem debaixo de terra, nem debaixo de água, nem no ar (...) Pela primeira vez pensei: quem precisa desta física? Desta ciência? Se o preço a pagar é tão elevado...”

 

[Vozes de Chernobyl ; Svetlana Alexievich; Primeira edição: 1997; Apreciação: monumental]

 

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“ Como aprendemos a olhar para estas mulheres que exerciam o poder ou que tentavam exerce-lo? Como e por que razão as definições convencionais de poder (ou, melhor, de conhecimento, experiência e autoridade) que temos nas nossas mentes excluem as mulheres? Se fecharmos os olhos e tentarmos fazer aparecer a imagem de um presidente (...) o que a maior parte de nós vê não é uma mulher.”

 

[Women & Power: A Manifesto; Mary Beard; 2017; Apreciação: curtinho, mas muito bom]

 

Tiroteios, homens e flores pisadas

Quando ocorrem tiroteios fala-se logo na questão das armas e na questão da saúde mental, mas nunca se aborda um aspecto que a maioria destes massacres têm em comum: serem cometidos por homens [brancos]. Apesar das mulheres também serem afectadas por problemas psicológicos e terem acesso a armas. A violência provocada por homens, motivada por conceitos distorcidos de masculinidade, é o elefante no meio da sala...Mas temos de encarar o facto: que esta é também uma questão de género, profundamente enraizada na nossa ideia tradicional do que é ser homem:

 

“While mass shooters are often seen as “outliers or oddballs ... we should actually think of them as conformists,” says Tristan Bridges, a sociologist at The College at Brockport, State University of New York, citing research on masculinity by expert Michael Kimmel. “They’re over-conforming to masculinity, because they perceive themselves, in some way or another, as emasculated.... It’s a terrible statement about American masculinity, to say that when you’re emasculated, one way to respond is to open fire.”

(tirado daqui)

 

E que não emerge apenas quando acontecem massacres, mas nas mais variadas esferas da vida, quer estejamos em Lisboa ou em Nova York. Ser o mais valente, o mais forte, o mais racional, o que enfia a pila em mais conas, o que tem os outros abaixo de si, o que não aceita um não...É isto que o mundo diz que um homem a sério deve ser. Valores amplamente promovidos em todo o lado: anúncios, eventos desportivos (e no tipo de individualidades que se idolatra), no modo como tantos políticos falam e se apresentam, tantos filmes, aquilo com que os miúdos brincam...A onde é que esta masculinidade tóxica nos leva? A abuso e morte. 

 

“General periodic reminder: The term “toxic masculinity” does not mean “all men are toxic.” It refers to cultural norms that equate masculinity with control, aggression, and violence and that label emotion, compassion, and empathy “unmanly.” 

(tirado daqui)

 

Estas normas culturais privam os homens de apreciarem coisas na vida, pelo medo de que isso os faça parecer menos machos: livros (este livro tem uma rapariga como personagem principal, será que me vai interessar?), música (sou homem, será que devo ouvir isto?), vídeos (este vídeo de coelhinhos é tão fofo, agora preciso de socar a parede para a minha masculinidade voltar)...Parece piada mas não é. Estou sempre a encontrar comentários como estes e dá-me sempre vontade de dizer aos tipos para não esmurrarem as paredes, não me parece algo que valha a pena ter de volta...

 

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Priva-os de ter uma conexão real com alguém, porque tudo se torna uma ameaça. Não vão ouvir o que os subordinados têm a sugerir, porque afinal quem é que manda ali? Não vão ouvir a boa ideia de uma colega, porque uma mulher saber mais sobre algo do que eles é ofensivo (então pegam na ideia e dizem que foi sua. Um clássico), vão impedir a esposa de aceitar uma boa promoção porque quem é que manda em casa? Nem pensar em ter uma mulher que ganhe mais. Como é que uma pessoa pode aprender, partilhar e crescer se não ouve? Se tudo gira em torno de dominar e controlar?

 

As ideias que somos forçados a engolir sobre o que é um homem, o que é uma mulher - tudo mentira. E é irónico, porque o sistema dá a entender que quanto mais vocês se conformarem a estas mornas de masculinidade mais fortes se tornam - quando é o contrário. Mais frágeis os homens se tornam. Basta ver o ego de alguns. E é por demais evidente no modo como tentam argumentar ou ter uma conversa, que suplício...Ou como reagem a um não.  

 

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(ver notícia) 

 

Literalmente o oposto de alguém confiante e racional. É tão tóxico que até afecta a relação entre entre pais e filhos. Não é apenas o problema de deixar todo o trabalho para a parceira, mas há realmente tipos que acham gay um pai abraçar o seu filho bebé ou que acham indigno carregá-lo no canguru. Não podemos defender um ideia de masculinidade que priva homens de desenvolver empatia até para com a sua própria família. Imaginem como seria diferente o mundo se aqueles que olham para a sua esposa como uma verdadeira companheira, em vez de uma coisa que está ali para obedecer, não fossem a minoria...O quanto se perde por continuarmos a viver num sistema que incentiva os homens a olharem só para a própria pilinha em vez de olharem à sua volta.

 

A questão da empatia é muito preocupante:

 

“Men are often raised to be stoic, to suppress emotions rather than understand them, and when they struggle, often the only emotion that they see as sufficiently masculine to express is anger”

 

(tirado do primeiro artigo citado)

 

A empatia é algo que nos torna humanos: nascemos com uma gama tão variada de sentimentos e modos de os expressar! Quando se mina o desenvolvimento emocional e se priva gerações de rapazes de adquirirem competências afectivas fundamentais o resultado são monstros. Existe tanta coisa no mundo para amar: tantas pessoas e seres diferentes. Tanto a que podem demonstrar afecto e pelo qual podem fazer algum bem...Mas envergonhamos um rapazinho por apanhar uma flor e aplaudimos aquele que a pisa...

 

O que acontece quando se força alguém sistematicamente a suprimir emoções, quando se passa a ideia de que conversar é coisa inútil (de mulher), que procurar ajuda é humilhante e que violência é a melhor maneira de mostrar status e ganhar respeito? A resposta: tipos que preferem enfiar uma bala na cabeça a passar por “fracos”, milhões de raparigas e mulheres mortas ano após ano, o sangue de pessoas que apenas estavam ali...Basta! Estou farta de “homens a sério”. Quero seres humanos. 

 

“I want the same things for my son. I want him to know that he can be strong and brave but that he can also be sensitive and kind. I want my son to have a high emotional IQ where he is free to be caring, truthful, and honest. It’s everything a woman wants in a man, and yet we don’t teach it to our boys.

 

I hope to teach my son not to fall victim to what the internet says he should be or how he should love. I want to create better representations for him so he is allowed to reach his full potential as a man, and to teach him that the real magic he possesses in the world is the power to affirm his own existence.”

 

(Beyoncé. Tirado daqui)

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