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Desabafos Agridoces

"Not all girls are made of sugar and spice...Some are made of sarcasm and nothing is fine"

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Ler autoras: alguns progressos

Então acabei a Fábrica de Oficiais e a Ponte sobre o Drina que já vinham do ano passado e li o Deserto dos Tártaros. E só consigo pensar uma coisa: mas como foi possível no passado passar um ano inteiro quase só com livros de autores. Não tenho meio de contar, mas de certeza que a diferença entre coisas lidas de autores e autoras devia ser grande demais. Apetece-me puxar uma orelha a mim própria. Por causa disso tenho agora uma lista gigante de autoras que preciso de ler antes de perecer. Acho que era em parte desconhecimento... É tão fácil pegar naquele livro daquele autor que aparece em todas as listas. E em parte o problema é este: somos demasiado condescendentes. Há uns tempos, acho que já falei disto aqui, tentei ler as Velas ardem Até ao Fim. É sobre um tipo que em tempos teve um grande amigo com quem se zangou. Às tantas o tipo diz que só os homens são capazes de amizades fortes...e eu: wtf bro? O teu protagonista é que não vê o amigo há décadas e tu vens com esse bullshit? 

 

O ano passado experimentei ler dez livros de autoras assim de seguida - escolhi um de contos, um policial, históricos...Foi muito bom. Um deles foi o Exílio da Pearl Buck : um livro do princípio ao fim sobre a vida de uma mulher - o que ela sentia e pensava. Puxa, fiquei tão feliz. Tive a mesma reacção quando andei pesquisar sobre mulheres na Segunda Guerra - tantos livros sobre o assunto e tão poucos nos fazem referência. Como se pode achar isto normal, quando havia mulheres a conduzir tanques? Vamos reflectir uns segundos sobre o quão badass isto é.

 

Ok, então voltando ao assunto. É sempre um work in progress. Mas acho que o meu sensor tem vindo a ficar mais apurado. Começou logo a dar sinal quando peguei no Deserto dos Tártaros - três já, tens a certeza? Também tenho os melhores seguidores do mundo que me dão sugestões, mas também avisam quando as minhas leituras têm demasiada testosterona. Se tudo correr bem irei ler agora os três livros de autoras que estão no telemóvel, mais um no tablet e outro em papel. 

Beijos de Língua

Há pessoal que tem relutância em ler em inglês nunca percebi porquê. Eu não costumava ler livros sem ser em português, mas ganhei esse hábito depois da faculdade. Uma das desvantagens em relação à escola é que na faculdade não se consegue fugir do que não se gosta, não importa que chutem isso para o último ano. E não dava para fugir dos textos em inglês. Também havia em espanhol e em francês. Felizmente nunca tivemos de ler nada em sumério. A dada altura passei a ter umas cinco horas por semana de inglês...Bons tempos, mas acabaram e achei que devia fazer qualquer coisa para não enferrujar. Não escolho livros muito grandes ou complexos. O ultimo que li foi a Coraline. Ler um livro no original tem as suas vantagens - não ter de lidar com a tradução, o que parecendo que não às vezes afecta. É difícil imaginar Saramago noutra língua ou como deve ser ler o Murakami no original e não numa edição passada para inglês e depois para português. E em geral é mais barato. A minha edição do Frankenstein custou um euro numa banca de rua. Ainda se percebe menos quem diz que não consegue ler em português do Brasil. Vejamos: quero muito ler certo livro. Certo livro só está disponível em pt-br. leio. E pronto. Só parece esquisito um pouco ao início e dúvidas numa expressão podem ser resolvidas com o google. Isto significa que a vida da pessoa nunca se vai cruzar com o Assis? As moquecas da dona Flor. A Clarice. É uma pena. Foi num livro do Agualusa que descobri a expressão fazer casa no cangote de alguém. Achei linda. O Camilo usava palavras como opróbrio e panegírico. As personagens do Mia Couto às vezes afastam-se crepusculadas...

A Importância de ler Autoras

Como contei num post anterior, há uns tempos li um livro cuja história se passava numa maternidade. Fez-me pensar em algumas coisas: por exemplo, nunca tinha pensando neste tema em particular como sendo interessante ou digno de valer todo um romance de 200 páginas. Não sei se isso se deve às minhas características pessoais, à educação machista que todos recebemos ou por parecer um assunto corriqueiro - afinal nascem crianças todos os dias. Quem quer ler sobre mulheres prestes a dar à luz quando pode ler sobre uma expedição épica nas montanhas ou coisa do género? Comecei a pensar na hierarquia que faz com que algumas coisas sejam consideradas dignas e outras não. E quanto mais lia sobre as angústias daquelas personagens, mais pensava no valor que damos à experiência feminina. Já no final há uma parte que falava da importância das mulheres partilharem estas experiências, algo em que também nunca tinha pensado. Puxa, um tipo pode contar tudo e até partilhar coisas que ninguém pediu para ver. Não há tabus. As opiniões de um homem são sempre mais valorizadas: "Hoje o tema do debate é reprodução feminina. Tenho aqui comigo um advogado, um médico e dois tipos aleatórios que encontrei pelo caminho". Não seria chato se arranjassem jardineiros para debater neurociência?

 

Não faltam histórias no feminino, o problema é mesmo de percepção: a maneira como olhamos para essas histórias e da importância que lhes damos. Recentemente aconteceu-me a mesma coisa com um livro da Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher. Houve uma cena que me deixou a pensar (quer dizer houve várias, afinal trata-se de Alice), que foi o momento em que uma das personagens mostra o seu velho vestido de noiva a uma rapariga mais nova: pode parecer ridículo, mas nunca tinha pensado na quantidade de sonhos e ilusões contidos nestes pedaços de tecido. Ou analisando o que acontece na maioria do planeta: quantos anos de sonhos destruídos e servidão. Por tudo isto, pelo que obriga a pensar, acho cada vez mais importante ler escritoras com regularidade. 

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